Segunda-feira, Agosto 31, 2009
Domingo, Agosto 30, 2009
Sábado, Agosto 29, 2009
Um desenho meu e Drummond- Arquivo
Um casal.Desenho meu. 

Um dia o Drummond disse que meus desenhos eram maravilhosos, (exagero dele), e que eu poderia fazer ilustração dos seus poemas eróticos. Fiquei feliz, lógico, mas não tinha coragem de perguntar pelo livro. Um dia perguntei, ele respondeu que não faria senão diriam que era um velhinho tarado. Eu não perguntei mais, nem autógrafo eu não pedia, tinha vergonha.
Um dia eu disse: "Comprei sua 'Obra Completa'".
Ele respondeu: "Por que foi fazer isto? você me superestima..."
Quem tem amigos famosos sabe o que eu digo, é delicado, detesto parecer oportunista, no caso do poeta, eu pensava que ele poderia achar que eu queria me garantir antes que ele morresse. É muito chato isto. Eu tenho dedicatórias dele, espontâneas, ele me deu os livros e escreveu. Uma delas é linda demais:
Quem já leu os outros posts sabe, eu já falei disto aqui.
É demais, não? Tenho uma cartinha dele e um bilhete. Um dia coloco aqui, não quero me expor mais ainda, ele fala sobre amor.
Quero
Drummond
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que
[me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.
Se não me disseres urgente repetido
eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas
[de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
A língua lambe
Drummond
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e quando mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gemidos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
A carne é triste depois da felação
Drummond
A carne é triste depois da felação
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
Após esse tremor? Só esperar
Outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida


Um dia o Drummond disse que meus desenhos eram maravilhosos, (exagero dele), e que eu poderia fazer ilustração dos seus poemas eróticos. Fiquei feliz, lógico, mas não tinha coragem de perguntar pelo livro. Um dia perguntei, ele respondeu que não faria senão diriam que era um velhinho tarado. Eu não perguntei mais, nem autógrafo eu não pedia, tinha vergonha.
Um dia eu disse: "Comprei sua 'Obra Completa'".
Ele respondeu: "Por que foi fazer isto? você me superestima..."
Quem tem amigos famosos sabe o que eu digo, é delicado, detesto parecer oportunista, no caso do poeta, eu pensava que ele poderia achar que eu queria me garantir antes que ele morresse. É muito chato isto. Eu tenho dedicatórias dele, espontâneas, ele me deu os livros e escreveu. Uma delas é linda demais:
"Quanta ternura cabe em um abraço?
Receba o meu e conte."
Receba o meu e conte."
Quem já leu os outros posts sabe, eu já falei disto aqui.
É demais, não? Tenho uma cartinha dele e um bilhete. Um dia coloco aqui, não quero me expor mais ainda, ele fala sobre amor.
Quero
Drummond
Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.
Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?
Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que
[me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.
Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amaste antes.
Se não me disseres urgente repetido
eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas
[de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor.
A língua lambe
Drummond
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e quando mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gemidos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
A carne é triste depois da felação
Drummond
A carne é triste depois da felação
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
Após esse tremor? Só esperar
Outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida
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Drummond e eu
O último filme com Joaquin Phoenix. Será?
Bem que eu não acreditei que estava pirado naquela entrevista com David Letterman. Percebi gestos estudados aqui.
Será mesmo o último filme ou é jogada de marqueteiro?
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Cinema
Sexta-feira, Agosto 28, 2009
Rir é o melhor remédio

Um piada:
Três velhinhas reunidas para um chá da tarde:
-'Puxa, acho que estou ficando esclerosada'. Comenta uma delas.
-'Ontem me peguei com a vassoura na mão e não me lembrava se já tinha varrido a casa ou não'.
-'Isso não é nada' diz a outra. 'Outro dia eu me vi de pé, ao lado da cama, de camisola, e não sabia se tinha acabado de acordar ou estava me preparando para dormir'.
-'Cruz credo' fez a terceira. 'Deus me livre ficar assim! Isola!'
e deu três batidinhas na mesa: toc-toc-toc.
Olhou para a cara das outras e calmamente emendou:
-'Esperem um pouco que eu já volto! Tem gente batendo na porta!'
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Rir é o melhor remédio
Quinta-feira, Agosto 27, 2009
"Saber e experiência", por Contardo Calligaris
Joachim PatinirQuer saber mais sobre "Saber e experiência"? entre aqui e leia o artigo do Contardo Calligaris.
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Contardo Calligaris
Quarta-feira, Agosto 26, 2009
Viver
Foto daquiEm setembro faço aniversário, é estranha a sensação de que o tempo passou tão rápido.
Viver é estranho.
Posso lembrar com nitidez dos meus vinte anos, das sensações, dos amigos, da rua onde morava, de namorar, encostada num fusca, aquele que agora é um senhor.
Viver me traz estranheza. Sempre trouxe.
Aos quinze anos acreditava que não viveria além dos dezoito. Por que dezoito? Sei lá.
Virei uma mulher independente, mas sempre com a fantasia de que um dia seria mais feliz. De onde tirei isto de que um certo dia a felicidade viria e me cobriria como uma teia de proteção? Lembro de aos 30 anos um analista dizer: “Quem disse que existe: viver feliz para sempre, Elianne?” Trinta anos...
A vida me deu alguns presentes. O acaso me deu brindes. Os maiores presentes- os filhos. Poderia dizer o amor. Os brindes vieram em forma de amigos fiéis, aqueles que mesmo distantes não nos esquecem, amam. Tenho muitos amigos queridos, espalhados pelo mundo, a mais distante no Japão, terra de terremotos, eu aqui a lembrar dela a cada tremor de terra lá. Outro na Península Ibérica, outro no meio do mar no Caribe...na França, alguns, no Brasil, muitos.
Poderia dizer que sou feliz com o que tenho, sim, mas há uma tristeza que vem da sensação de que a vida me escapa, que há muito a viver, a fazer, e não vivo, falta um elo nesta corrente do desejo.
O elo perdido talvez seja esta ausência, perda, dos amigos, àqueles que nos contém com o afeto; a falta do lugar de referência, a terra não estranha. Começo a sentir que poucos me reconhecem com simpatia. Provoco algo que não sei dizer. Talvez me exceda ao me expor e passe vaidade. Queria eu valorizar o que tenho e faço, para me sentir a tal e sair de peito estufado mostrando meus escritos e desenhos por ai.
Chove torrencialmente e me assusta a chuva. Por que tenho medo da chuva? Das águas que inundam se vivo protegida? Penso naqueles que estão no frio. Chuva para mim é frio. Desamparo.
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Vida
Um belo conto de Raduan Nassar
Hoje de Madrugada
Raduan Nassar
O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.
Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.
Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.
Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.
Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.
O texto acima foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56
Leia aqui outro conto de Raduan.
Raduan Nassar
O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.
Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.
Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.
Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.
Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.
O texto acima foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56
Leia aqui outro conto de Raduan.
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Terça-feira, Agosto 25, 2009
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poema
Domingo, Agosto 23, 2009
Pés de meninas ou moças

Vocês sabem quem é o Eduardo, nem preciso dizer, é o maior blogueiro que conheço, consegue fazer vários blogs excelentes ao mesmo tempo. Vejam este aqui que beleza. Estas duas fotos são para o blog pé de moça.
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Foto
Sábado, Agosto 22, 2009
Um dia, um astro, um gato

22/08/2009 - 15h09
Antes de fechar por dois anos, museu de Picasso em Paris terá entrada gratuita
Publicidade
da France Presse, em Paris
Ué, de novo?! Nesta época no ano passado estava fechado, fui até a porta, não sabia...
Vi o Museu do Carnaval, pertinho, não gostei, queria o Picasso- depois vi "Picasso e seus mestres" no Grand Palais.
Meu amigo francês disse que se envergonha pelos desmandos do Sarkozy. Será que ele pensa que aqui é diferente? Está vindo morar aqui. Também me envergonho pelo que rola aqui no Governo. Triste.
Triste: a moça se matou e houve tanta especulação se era verdade ou não no Twitter. Já houve gente aqui que "morreu" depois voltou. Atualmente nem na morte se tem paz. Suicidio me toca muito, muito doloroso.
Aqui hoje teve churrasco dos jovens, estou com a casa movimentada, fora o homem que veio trocar a borracha da geladeira e dar uma geral na máquina de lavar, a faxineira do sábado que fala sem parar- mas gosto muito dela, é alegre.
Vejam aqui os gatinhos e os astros. Ai, minha gatinha... :)


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Sexta-feira, Agosto 21, 2009
Quarta-feira, Agosto 19, 2009
Mini conto
Img daquiManhã de domingo
Despertou com a mão dele em sua coxa, abria caminho entre suas pernas. Fingiu dormir. Ele continuou. Gemeu. Ele, então, colocou um dos braços sob o seu corpo e a enlaçou trazendo-a para mais perto. Abraçou-a com força.
Sentiu o cheiro de sono dele, o calor de sua nuca, sentiu conforto.
A luz que vinha da porta a incomodava, moveu o corpo para que ele mudasse de posição. Ele colocou o corpo sobre o dela, apoiava-se nos braços e a beijava no pescoço. Abriu os olhos, trouxe com as mãos o seu rosto, olhou cada traço, desenhou-o na memória. Este, que ela descobria, era pouco diferente daquele que ela sonhara.
Beijou os olhos que a olhavam ternos.
Pediu para que soltasse o corpo, deixasse o peso todo sobre ela. Queria sentir que ele era real. Queria inscrever aquele corpo no dela.
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Mini conto
Hoje é o dia da fotografia! Ulalá!
Eu amo fotografia, gostaria de saber fotografar. Tenho bom olhar, mas nunca investi nisto. Aqui algumas fotos minhas.
Vejam meu querido amigo aqui, ótimo fotógrafo.
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Foto
Aos amigos, flores

Caríssimos, se Madoka, lá do Japão, não me dissesse que os comentários não estavam saindo aqui, eu estaria pensando que todos me abandonaram :)
Eu pensei que comentárioa a serem aceitos viriam até mim, como no Oriente-se, mas não vêm, ou estão lá no Quarentena, não fui ver, recebo tudo no Outlook.
Obrigadaaaaaaaaaaaa pelos comentários, eu fico mais contente quando vocês escrever.
Só hoje vi que:
Andrea, Profeta, Madoka, Lia, Roberto Kuhn, Camille. Pura eu, Chica, Shauan Bencks, LV, railtonlopes, Alex Castro, Leila, Dalva, concy maduro, .Lis, Adriana, Tina. Haline, paticca, Luma, Paula, Angela, Cris S., Ivana...
estiveram por aqui, alguns mais de uma vez :) Alguns pela primeira vez, é impossível citá-los agora, tenho que sair.
Havia 50 comments para aprovar. Pois é, é um saco, mas há momentos em que é mehor assim.
Um abração para vocês.
Ivana, a sua amiga ainda não está 100%, estou muito ferida ainda, mas um dia passa, né?
My :)
Madoka, você é um doce, flor, torcemos todos para que a fúria da Terra não os atinja.
Vamos orar, meditar, torcer por vocês, se cuidem.
Vou visitá-los aos poucos, não consigo ficar muito aqui no virtual estes dias.
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Blog
Segunda-feira, Agosto 17, 2009
Leda Nagle entrevista Drummond
Dá saudade vê-lo tão alegrinho e falante, numa agilidade mental incrível.
Nos conhecemos nas ruas de Ipanema. Conheci o pai dos meus filhos no dia do seu enterro, 18 de agosto de 87. Já contei que devo meus filhos ao Drummond. Meu ex é mineiro também, foi homenagear o conterrâneo.
Aqui você lê as historinhas sobre ele, se ainda não leu...
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Drummond e eu
Domingo, Agosto 16, 2009
Conto sem revisão

Um jogo, um pai
Meu irmão resolveu fazer um churrasco no dia do jogo do Brasil na Copa. Eu disse que levaria as saladas. Papai, que morava comigo, disse que não iria, preferia ver o jogo em casa, afinal não comia mais carne, restaram poucos dentes. Eu argumentei, sem grande convicção, que seria bom ver os filhos juntos, seria melhor que ficar só.
Ele disse- não esqueço: "Não minha filha, estou cansado, quero ficar só, não vou sair".
Estava sempre dizendo que cansara de viver, que já havia passado do ponto: "oitenta e cinco anos é muita coisa, imaginem, é quase um século. Um dia vou olhar no espelho e me perguntar quem é este sujeito à minha frente", dizia rindo tapando a boca desdentada.
Era simples, o velho, quase um espartano, dormia sem cobertor mesmo no frio. Eu ia até o seu quarto e dizia: "Mas pai esfriou precisa colocar uma manta pelo menos, vou colocar aqui aos seus pés". Mas ele não usava, parecia não mais sentir frio ou calor.
Lá por sete horas, ele começava a perambular pela casa, abria as portas todas, dizia: "Ah, é você que está dormindo aqui".
Tudo o surpreendia de uns tempos para cá, parecia tudo novo. Quando encontrava um filho perguntava notícias do passado, dizia querer voltar à cidade onde nasceu.
Antes saia para caminhar, agora não mais, ficava a zanzar até que alguém levantasse. Quando eu despertava e não ouvia seus ruídos ia até o quarto e o encontrava imóvel. Muito magro, pele e osso, parecia morto enquanto dormia. Eu me recostava na porta e aguardava que fizesse um movimento com o peito- arfasse.
Nesta última semana dormiu até mais tarde, todas as manhãs. Hoje fui ver se estava bem: "Vamos, pai, coloque a sandália e vamos para a sala".
O jogo do Brasil foi emocionante. O Brasil perdeu nos pênaltis, foi um sofrimento, muita tensão.
Quando o jogo acabou me despedi, sai em busca de um táxi, coisa difícil em dia de jogo. Demorei a encontrar um disponível. O homem quase chorava ao volante, fiquei com medo.
Chegando em casa, ao abrir a porta, vi a casa toda escura. Na sala a TV ligada. Meu pai não havia acendido as luzes. Fui caminhando até o quarto a mão buscando interruptores. Estava deitado como sempre, imóvel, com a camisa aberta no peito. Parei recostada na parede e esperei um movimento. Nada. Chamei, num tom mais alto: "Pai". Nada. Me aproximei, toquei sua mão. Senti um calafrio, estava gelada.
Nunca esquecerei o dia que o Brasil perdeu aquela Copa, foi o dia em que perdi meu pai.
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Mini conto
Deu tilti no Twitter?

Desde ontem está impossível postar no Twitter.
Vocês estão conseguindo? Não sei o por quê. Pane?
Meu laptop? sei lá...
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Twitter
O que faz um bom escritor?

E a "Folha" pergunta:
O que fazer com um texto?
TRÊS PROFESSORES DE OFICINAS LITERÁRIAS CHAMAM A ATENÇÃO PARA REGRAS BÁSICAS DE LEITURA E ESCRITA
"Use em abundância o ponto final"
Meu comentário. Escrevo agora sem elaborações.
Para mim o que faz um escritor é o olhar, você nasce com um olhar diferente dos outros, observa mais, cria histórias a partir de um gesto, uma cena. Inventa uma vida ao ver um rosto, um traço na face de um desconhecido.
Qualquer um pode escrever, e tem este direito, mas aquele que vai tocar o leitor é o que foi além do que vê.
Precisa ser bom leitor, o vocabulário virá da leitura, a facilidade em encontrar as palavras virá dos livros que leu.
Não basta ter um bom dicionário de homônimos, sinônimos, você terá que conhecer a palavra, saber usá-la.
É preciso saber ouvir também, ter ritmo. Escrever é como compor, é preciso ouvir o que escreveu.
Cortar palavras, sempre, enxugar.
Concordo com o que foi dito na Folha acima, mas acho que é o olhar e a escuta que faz a diferença entre o bom e o mal escritor.
Editar ou não é outra questão.
Daqui a pouco vou lembrar de mais coisas para acrescentar aqui. Acordei tarde, estou meio lesada, aqui venta como se a terra estivesse sendo varrida com violência.
ÙUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU
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Literatura
Sábado, Agosto 15, 2009
Até quando aguentarei a hostilidade dos vizinhos?

Depois de ter sido ameaçada por um vizinho no anonimato, recebi este outro e-mail, que me fez tão mal quanto o outro. É de uma mulher. Como não se sentiu solidária a mim?
----- Original Message -----
From: Teiza
To: Elianne ; "Undisclosed-Recipient:"@smtp.uol.com.br
Sent: Monday, August 03, 2009 1:56 PM
Subject: Res: Um dia vieram e levaram meu vizinho...
Boa tarde, sra. Eliane,
o episódio de sua gata ter desaparecido de sua residencia, a mais de mês, é um fato, que até agora não entendi o porque de achar que temos q/ nos preocupar c/ este desaparecimento na mesma proporção que a senhora. Tendo em vista, que a proprietária do referido animal era a senhora e que deveria ter tomado determinados cuidados para que esse fato não fosse consumado. No entanto, o desaparecimento desse animal só comprova q/ ele percorria "solto" às áreas comuns aos condominos, como também às areas restritas de nossas residencias, infringindo as regras do nosso condominio. As insinuações e acusações expostas por sua pessoa são incabiveis e merecem que sejam transformadas num pedido de desculpas a todos que moramos no condominio Santiago de Compostela, pois somos pessoas possuidoras de intelectuo-psiquico-equilibrado e de corações disponiveis ao amor e ao perdão. (Eu não sou possuidora de...-que frase infeliz!)
sds.
Teiza (casa 13)
Me tocou profundamente a indiferença de todos- nem o síndico se manifestou.
Só um esclarecimento: a gatinha só vivia aqui no jardim e no jardim da casa em frente, nos muros laterais também. É gata operada, criada em apto, não saia daqui de perto. Bastava chamá-la, aparecia, o gato Seinfeld é a mesma coisa, é mais caseiro ainda, ela subia no telhado da canteiro de obras para pegar lagartos, ele não. Talvez os vizinhos a confundam com uma gata que há aqui, vira-latas, não mandarei e-mail falando sobre isto- fui ameaçada- me calaram.
Eu escrevi um e-mail me desculpando, dizendo que lamentava não ter sido clara e também ao fato de por me saberem 'idosa', como foi afirmado, deveria ser respeitado o meu silêncio e não ser agredida.
Resposta de alguém? Nada.
Ah! um e-mail, assinado por Bolão, dizendo: "Aiê...deixe pra lá tudo isto, se aproxime, a única ameaça foi de te apontar como Spam"- deve ser o tal que me ameaçou.
Tudo isto tem me feito um mal enorme, se eu vivesse num país como os EEUU seria indenizada pelo mal que me faz: além de estar deprimida, me tirou toda vontade de ir à piscina, preciso me exercitar para melhorar da fibromialgia e dor de cabeça. A piscina fica no lado oposto do condomínio, em frente à casa das pessoas que suponho são autoras do tal e-mail- um deles assinou.
Eu vou descobrir de onde veio, uma hora eu identifico, esta semana fiquei tão mal que não fui atrás. O delegado daqui disse que não fazem investigação... mas eu vou chegar lá.
Vim morar em Natal com uma visão romântica do nordeste, imaginava um povo cheio de humanidade, um povo simples, com uma cultura que eu respeito.
Qual não foi minha decepção...
Moro numa rua chamada Gandhi, pensei que o espírito do mestre estivesse aqui, não está, me dói demais isto. Não devem nem saber quem foi este tal de Gandhi.
Um pedido, se você discorda de mim, guarde para você seu comentário. Isto é um desabafo de alguém que foi ferido. Se pensa, "ela é uma arrogante!" Não venha mais me ler, por favor.
Pense com seus botões por que te incomodo. Eu não sou arrogante, nunca fui. Gosto de gente não superficial, sou generosa, gosto de dividir minhas historinhas com todos, não para me exibir, mas para que não morram comigo.
Se eu não contar o que sei do Drummond, quando me for ninguém mais saberá que ele era um sacana, por exemplo. Muita gente gosta de saber como ele era.
Gosto de ser solidária e gostaria que também fossem comigo- só isto. Quem me conhece sabe disto.
O e-mail do vizinho. Meu email anterior:
-------Mensagem original-------
De: Elianne
Data: 07/30/09 12:01:50
Para: "Undisclosed-Recipient:,"@smtp.uol.com.br
Assunto: Um dia vieram e levaram meu vizinho...
Um dia vieram e levaram meu vizinho...
"Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei.
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar".
Martin Niemöller – pastor luterano alemão – 1933 (data presumida)
Este texto é sempre atual. Tão bom se todos conseguissem ver o que acontece ao redor...
Mas ignoramos por preconceito, por indiferença, frieza, por não querermos ver- a cegueira inconsciente.
Não percamos a ternura jamais, nem na batalha- já disse o Che, certíssimo.
Desde que a Florzinha desapareceu eu penso nisto. Penso que foi roubada. Como alguém pode ser indiferente ao sentimento do outro?
Vocês precisam ver o gatinho como está quieto, nem come bem, mais, dorme o dia todo. Mia procurando por ela. Triste pensar que
alguém possa tê-la tirado de nós, muita ruindade. Mas,como diz o texto acima, um dia é nosso vizinho, no outro o outro vizinho,
até que pode chegar até nós.
Para nós, hoje, é uma metáfora, uma triste metáfora.
Postado por Diz em 7/30/2009 11:09:00 AM
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Vida
Sexta-feira, Agosto 14, 2009
O Rio de MaRio Testino
Esta editora é dez, vejam o livro do Testino.
Comprei em Paris um livro de Chagall e outro de fotos de Marlon Brando desta editora.
Lindos!
Conheço Testino de nome há muitos anos, um ex cliente era seu assistente no Brasil.
é interessante esteas teias- este grau 6, ou coisa do gênero.
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Foto
Anders Sandøe Ørsted

Fiquei curiosa, achei bonitinho- sempre acho- fui ver o que era, está aqui.
Vale como uma homenagem, afinal meu filho faz engenharia elétrica, o Luc.
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ciÊncia
Quinta-feira, Agosto 13, 2009
Saudades de Truffaut
Ulalá! Estes caras maravilhosos e esta música que é comovente.
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Cinema,
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pierre leaud
Viver dói

Viver dói
- Viver dói
A neta ouviu ao amanhecer o resmungo da avó que dormia na cama ao lado.
- Vó, o que a senhora disse?
- Nada, querida.
- Bom dia, vó.
- Bom dia, querida.
Ficaram em silêncio. A menina pensando na avó, que antes cantarolava ouvindo música, usava batom vermelho em lábios carnudos, agora sempre com os olhos irritados, chorosos.
A menina levantou e entrou sob as cobertas da avó. Sentiu cheiro de alfazema misturado com certo azedume. Cheiro de velha, pensou.
Apertou a avó num abraço. Ela disse: Ah! Minha linda, você é minha alegria.
A menina sentiu um friozinho na camisola, era a lágrima da avó, sabia.
- Vó, eu amo você, quero que viva para sempre.
- Ah! Minha querida, a vida...
Não completou a frase, a menina não perguntou, nem ficou sabendo o que a avó pretendia dizer.
Na manhã seguinte havia silêncio no quarto, nem um resmungo, nada.
A menina não sabia que a avó havia se despedido naquele abraço matinal na véspera.
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Mini conto
Quarta-feira, Agosto 12, 2009
"Como quem partiu ou morreu..."

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
Roda viva
Chico Buarque - 1967
Ouça aqui
Prefiro na voz de Bethânia ou Chico.
Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente
Ou foi o mundo então que cresceu
A gente quer ter voz ativa
No nosso destino mandar
Mas eis que chega a roda viva
E carrega o destino pra lá
Roda mundo, roda-gigante
Roda moinho, roda pião
O tempo rodou num instante
Nas voltas do meu coração...
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Música
Segunda-feira, Agosto 10, 2009
Meu pai


Arquivo
Texto de agosto 2005
Esta foto é de meu pai casando, hoje faria 92 anos se não tivesse nos deixado em setembro passado, foi tão bom comigo que morreu uma semana antes do meu aniversário. Pobre velhinho.
Meu pai foi uma figura interessantíssima. Homem à frente de seu tempo, desde que me conheço por gente falava em preservar a natureza, era extremamente cuidadoso com os animais, as plantas, amava os bichos, os desprovidos, se emocionava com facilidade, mas era um homem que não sabia fazer um carinho apesar de ter sempre nos passado muito amor. Contraditório não? A mãe dele foi uma mulher amarga e fria, nunca a vi sorrindo ou fazendo um carinho nos netos, era portuguesa usava saias longas e roupa preta desde que perdeu a filha mais nova, eu só lembro dela de preto, chorava sempre ao ouvir os sinos da Igreja da Imaculada Conceição às seis da tarde, devia ter suas razões para ser triste.
Meu pai estava sempre de bom humor, caminhava muito, fazia Yoga, meditava- quando nada disto era moda- gostava de ler-lia diariamente-amava música clássica, brincava de reger quando éramos crianças, adorava fazer trocadilhos. Interessante que mesmo depois que ficou senil continuou fazendo jogos com as palavras. Ele era quem nos levava ao parquinho ou à piscina, disputávamos as suas mãos, éramos três na época.
Foi um homem sem preconceitos, não se importava com o credo das pessoas ou escolha sexual, nunca o vi fazendo uma critica, eu tinha muitos amigos homossexuais quando muito jovem e ele nunca fez uma piada ou critica. Foi um exemplo de ética e desapego. Não se importava com status social, nada disto era relevante. Andava com roupas muito simples, em Cabo Frio onde viveu muito tempo era considerado excêntrico e querido, os seus colegas contam que gostava de correr na Fábrica de Álcalis onde trabalhou alguns anos, se alongava em tiras de borracha de pneus nos intervalos e foi quem fundou a escolinha da Álcalis, com métodos modernos na época, isto foi no final de 60.
Ele nos deixou livres para escolher o que quiséssemos fazer, gostava de ler livros de educação moderna, tinha um livro de A.S.Neill “Liberdade Sem Medo” (Summerhill), que gostava muito, lia KRISHNAMURTI, “Don Quijote”, poesias...
E meu pai foi engenheiro civil e General. Saiu do Exército em 1961 aos 49 anos, quando o Brasil começava a fervilhar, saiu com nobreza como o comandante da V Região Militar em Curitiba, mas nada disto importava, vivia noutra sintonia.
Tenho saudades do meu pai, morreu sem memória e confuso, havia caído, sofria na cama, pele e osso. Foi muito triste ver um homem que foi até mais de oitenta anos super saudável definhar na cama durante meses, não merecia, eu não entendo esta de Deus, por esta e por outras acredito que aqui acaba tudo, viramos pó, não existe sentido em nada disto, não creio.
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Crônica
Domingo, Agosto 09, 2009
Meu coração se cansa

Uauuuuuuuuuu
Hoje amanheci com: ‘Meu coração não se cansa de ter esperança...” no meu radinho subjetivo.
Sonhei com meu pai, outro dia também sonhei- estou me sentindo sem pai nem mãe.
Sabe aquela sensação de que não dará conta da vida? Um desejo enorme de ter alguém que te diga: Deixe que eu veja isto para você.
Tenho três jovens aqui, e preciso resolver coisas da vida deles: comida, roupa lavada, pagar contas, problemas com namoradas... sem estar dando conta da minha. Acho que sempre me cuidei sozinha desde muito jovem, esqueci como é ter alguém cuidando de mim- Ok, o pai pagou faculdade etc., mas digo emocionalmente. Precisava de analistas, agora não tenho, nem vejo luz no fim do túnel.
Queria ir para um lugar silencioso, sem ruídos, apenas pessoas gentis.
Nirvana- silêncio- morte.
Saudades da Nilza, minha ex analista, ou de Coimbra, outro analista que me ‘cuidava’. Acho que vou atrás da Nilza, ele já morreu .
O episódio “Gato bom é gato morto” ainda me machuca muito. Estou tentando descobrir de onde veio, uma hora chego lá, não consigo ficar nisto muito tempo, me faz mal.
Quarta-feira eu disse que faria uma palestra, mas não fui, adiei, estou sem vontade de falar sobre violência. Putz! Tinha que ser este assunto? Poderia ser outro, acho que vou falar com o rapaz, o professor que pediu- palestra numa escola pública- faço numa boa, mas não estou bem estes dias...
No sonho meu pai havia viajado e ligava dizendo que por engano levara o cheque de R$450,00 que deveria dar para minha irmã e ela estava zangada- eu lhe respondia que não se importasse, que na volta resolvia, afinal ela devia um dinheiro para ele equivalente. Um sonho estranho- ainda não pensei nesta dívida ai.
Fui deitar meia noite ontem peguei o livro da Ed. Taschen sobre Marlon Brando. Sacanagem! A letra é tão pequena que desisti, é preciso ler de dia. Havia lido este trecho e copiei agora:
"I put on an act sometimes and people think I'm insensitive.
Really, it's like a kind of armor because I'm too sensitive. If there are 200 people in a room and one of them doesn't like me, I've got to get out."
Eu e ele :( Pessoas sensíveis sofrem mais. E dai? Dai que se ferram. Aposto como um espírito de porco vai pensar algo do gênero: Ela se acha especial e dai? (Dai- referência a Warhol, falei aqui)
E estes dois me fazem bem à alma- Vida longa para Caetano e João!
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Vida
Um encontro sob a chuva
É uma delícia quando encontro meu gatinho Seinfeld- a gata, vocês sabem- já era.
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Audrey Hepburn
A editora de um homem só

Só hoje eu li que o livro do Alex Castro foi vendido previamente- achei legal, fui atrás dos links.
Depois fui ver a foto do Alex, conheço só uma caricatura dele há anos- nos cruzamos no virtual, ele é amigo de amigos, mas nunca nos falamos- lembram daquela enchente em New Orleans? O cãozinho dele estava lá preso, fui solidária.
No Google tem um 'Alex Castro', aqui.
Mon dieu! :)
Voltando ao Alex, não este, gostei da forma como ele fez e vendeu o livro. Ai fui parar aqui, e neste blog do dono da editora- é um cara só, simpatizei na hora.
Os Viralata
Literatura independente
Desde 2004, mostrando que há vida além das editoras
Literatura independente
Desde 2004, mostrando que há vida além das editoras

Adoro Jacques Tati
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Livro
Sábado, Agosto 08, 2009
Virada Russa
Promenade de ChagallRecebi este e-mail hoje:
Está em cartaz agora no Rio uma exposição no Centro Cultural Banco do Brasil chamada "Virada Russa". Justamente é sobre a vanguarda da pintura russa um pouco antes da revolução e também sobre os caminhos que percorreu logo após a revolução. Está absolutamente SENSACIONAL, digna de qualquer museu europeu, afinal a coleção veio diretamente do Museu Estatal de São Petersburgo. Vi lá o maravilhoso Chagall, Kandinski e outros não tão conhecidos mas absolutamente brilhantes. Saí de lá com a alma lavada!
Beijos,
Ana
Merci, Ana.
Vejam aqui.
Kandinsky
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Artes pláticas
Sexta-feira, Agosto 07, 2009
Vida longa para Caetano!

Nasceu em 42. Já disse antes, me sinto feliz de ser contemporânea de pessoas com ele, Gil, Chico, Tom... Bom que ainda tem Dona Canô, maravilhosa, com mais de cem anos.
Outro dia vi Nelson Motta a entrevistando, uma figura, absolutamente lúcida- riu quando ele perguntou se ele não acreditava em Deus. Ele deve ser como eu, agnóstico, mas místico- qual baiano não é? e eu porque tenho pensamentos mágicos- coisa de ex obsessiva- NO- já fui muito obsessiva, hoje muito pouco.
O novo filme sobre mano Caetano
Um vez, uma noite, eu ouvi Caetano cantando esta música ininterruptamente. Era uma noite quente, abri a janela e passei a noite acordada, ouvindo.
Onde?
Como?
Bethânia era minha vizinha na rua Nascimento Silva, morava na cobertura do prédio que eu morava.
Ele havia recém chegado do exílio. Foi uma noite inesquecível.
Adoro esta música e a voz de Caetano. Bom, dá vontade de chorar ao ouvir, tão verdadeira é a saudade- não importa se da Bahia ou de outro lugar, ou...
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Caetano
O rio...
O Twitter foi atacado ontem, ainda está devagar.
Fiz estes microcontos estes dias lá, é um desafio que gosto, outros também fazem.
Um rapaz fez jogo de palavras com leito do rio, margem e eu fiz na hora isto(atenção cada frase é um conto):
Vou me deitar, não há rio no meu leito.
Vão-se os amores, em mim fica a calidez de suas mãos no meu corpo antes frio e seco.
Não vi quando ele saiu sem se despedir. A lua lá fora brinca entre nuvens de chuva fina. Aqui dentro silencio sem dor.
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micro conto
Mais um golaço

Está aqui um recado de Carlos Magno- Feira do livro em Mossoró. Leiam lá.
Mando outro:
Estes dias o Contardo Calligaris me disse, quando eu reclamei o silêncio sobre o livro:
"...
claro que o livro é legal, mas, sobre tudo, gostei do seu conto. Achei ótimo vc ter conseguido inserir, naquele contexto, um de seus minis (e um dos bons)...Em suma, foi um golaço.
..."
Ele também achou que fizemos golaços.
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