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segunda-feira, janeiro 22, 2018

A minha Graça








Eu gosto de dar carona quando não estou com muita pressa, nem buscando silêncio.
É um risco, mas tenho intuição- sempre foram viagens muito agradáveis. Ao se despedirem me abençoam, eu digo que só dou carona por isso, para ouvir as bênçãos. São pessoas muito simples, a transporte coletivo daqui é um desastre e eu vou para um lugar de onde podem pegar qualquer condução- moram mais longe, nos bairros distantes.
Em maio do ano passado eu dei carona para duas moças. Eram empregadas domésticas. Eu disse que andava cansada, casa grande, mãe morando comigo, estas coisas. Uma delas disse que tinha alguém que eu ia adorar, a pessoa certa para trabalhar aqui. Dei carona duas quadras depois de meu condomínio, pois a moça trabalha aqui e nos fins de semana vai para Touros. Graça também, é sua ex sogra.
No começo houve um certo desconserto, uma mulher de mais de cinquenta anos, personalidade muito forte- eu idem- mas fui com cuidado dizendo como eu gostaria que fossem as coisas. Hoje ela cuida da casa como se fosse dela, controla tudo- pago meus pecados, eu sou obsessiva e também vejo tudo. Algumas coisas são do jeito dela e eu deixo, há que ceder.  Graça tem nove filhos e nove netos. Viúva muito jovem, com cinco filhos, casou de novo e teve mais quatro. Todos saudáveis, nenhum lhe traz problemas. É mãe amorosa, escuto trechos de conversas no telefone, a solicitam muito, os monitora daqui, o mais novo tem 14 anos e se prepara para ser jogador de futebol. Está separada.
Foi um presente dos deuses. Cuida de minha mãe como ninguém- tudo na hora certa, nunca esquece nada, é incrível.
Antes de eu ter este infarto, ela dizia: A sra. tem que se cuidar também, não tem idade para fazer isso! Deixe que eu faço.
Exemplo: Gosto de lavar o carro. Ela se antecipa e lava. Eu digo: “Os vizinhos vão achar que te exploro, não faça isto!” Ela: “Vão não, eu lavo cedinho, ninguém vê”. Inacreditável! Ela acorda muito cedo. Adora o jardim também.
Diz que me ama, algumas vezes se comoveu e chorou com algum gesto generoso meu- o que ela faz não tem preço. Diz que sou melhor do que sua mãe- nunca se sentiu amada por ela.

Sexta-feira quando cheguei do hospital, a casa estava toda florida. Quando entrei no quarto, sobre a cama havia desenhado um coração com flores de buganville, dentro escrito: Te amo.

quarta-feira, abril 27, 2016

Vice- versa








 


Ele fez uma série que chamou “Solidão urbana”. Estou de acordo com muitos itens.
Há muitos solitários em todos os lugares. Mas, onde não estaria o solitário urbano?
No bar tomando chope com amigos? Na cama com a amada? No ‘lar’ ao lado dos seus rebentos? Numa sala de reunião com colegas trocando ideias? Numa praia jogando vôlei? No campinho jogando uma pelada? Na cafeteria tomando um café com a amiga? Num projeto social como voluntário? No divã do analista?
Onde o homem não sente solidão?
Eu me sinto confortavelmente acompanhada quando os filhos estão por perto. Quando estou com a minha sobrinha. Quando tenho um amigo/a querido por perto. Durante o trabalho. Quando estava enamorada e retinha o amor- afeto dele em mim- mesmo à distância.
Acredito que é quando posso amar- dar amor.
Há momentos em que estou só e não me sinto solitária- pode ser pendurando uma roupa no varal, ou cuidando das plantas, ou fazendo um conto. Posso lavar roupas na mão e enquanto esfrego fazer um conto. Acontece muito. Saio daqui e vou descansar na lida doméstica. Conforta cuidar da casa- tira da subjetividade mais densa- afinal continuo pensante.
O que é solidão?
O homem é essencialmente só. Todos sabemos. E daí? Nascemos e morremos sós. É fato.
Outro dia me senti mal- uma tontura, um desfalecimento. Meu filho estava perto, pegou o aparelho para ver a pressão arterial. Normal. Comecei a chorar. Ele perguntou: “Mãe, por que está chorando?”. Não respondi. Mas eu sei. Senti uma solidão profunda, um luto, e entendi como é a morte.
Solidão abissal é morte. Ou vice- versa.

quinta-feira, maio 21, 2015

Vida e morte- um novo olhar






 






Há anos, Gustavo, o poeta e filósofo, me contou, que uma amiga dele, jornalista, disse que jamais leria um blog com o título do meu. Eu rio porque o nome eu criei sem amadurecer a ideia, como costumo fazer as coisas por aqui, e não soube trocar. Fiz este blog num impulso. Queria algo que sugerisse vida, me incomoda um pouco hoje, mas sou bastante conhecida através deste link- ficará. 
Quanto a jornalista, lamento por ela, perdeu.
Quero voltar a postar, mas anda difícil. Muitas pequenas coisas me atrapalham, falta organização no meu dia- um dia eu chego lá.
Eu sempre disse, desde que conheci o budismo, que um dia seria budista- cada dia estou mais perto. 

Sigo os oito caminhos de Buda, por isso também tenho me exposto menos- estou mais atenta ao que digo. A palavra correta, a palavra que não é vazia. Flávia diz: escreva mais, as pessoas se identificam e gostam. Sei que é verdade, muitas vezes me disseram isto. Quantas mulheres se aproximaram de mim, contando histórias pessoais comoventes depois de me lerem. Fora o dia a dia, o jogo de alegrias e dores do cotidiano.

Hoje acordei ligada, fiz muitas coisas, enquanto lavava roupas, preparava outro balde de compostagem e tal.

Estou mais leve e feliz. O que estranho porque dia 21 de maio me marcou dolorosamente, porque é o dia da morte do C. Faz sete anos! Sei porque não chorei pela primeira vez- estou vendo a morte sob novo ângulo, menos árido. 

Depois de uma vida ignorando racionalmente a reencarnação, agora me curvo e me sinto mais aliviada. Tão bom saber que o que ganhamos nesta vida levaremos para outra... dá certo conforto- então não viraremos apenas pó. A sabedoria oriental, secular, diz isto. Não é algo como dogma, eu entendi melhor o que viemos fazer nesta Terra maravilhosa. Nunca deixei de achar a natureza perfeita e divina. Era um tanto panteísta.
Deus estaria em tudo- o budismo diz isto- deus está em todos nós, mesmo nos homens vis- uma centelha divina nos habita, cada um faz o que quer com ela- nosso livre artítrio.

Falei com minha querida amiga Cinézia, exemplo de mulher- faz 82 anos, acho, e ainda sai para trabalhar diariamente, faz compras, vai a Bancos. Minha ídala. Uma baixinha, paraense arretada, vive no Rio desde jovem, chegou e foi empregada doméstica, logo virou secretária de Iracy Doyle e, mesmo depois da morte inesperada de Iracy, trabalha até hoje na sociedade psicanalítica fundada pela psicanalista. Grande Cinézia, mãezona de todos ali. Eu e meus filhos a amamos muito.

Agora vou sentar e meditar- precisava escrever antes.
Namastê.
(Interessante, quando criei o blog, me despedia com Namastê, depois deixei porque soava falso.)

domingo, dezembro 21, 2014

Vida









"Não se debruce muito sobre as tristezas".

Observe a natureza,
o canto dos pássaros,
a aquarela das flores,
a dança do vento.
O mar. 
Ah! A lua sobre o mar...
Aplaque as dores com o belo.
Pratique a delicadeza.
 Encontrará leveza para a possível alegria de viver.

segunda-feira, janeiro 06, 2014

A vida e sonhos. Qual o sentido da vida?















Sonhei com um ex namorado, A.- o primeiro de verdade, aquele com quem poderia ter casado, não fosse a minha imaturidade ou neurose, desejo de ser livre, sei lá. Tentava lembrar a primeira vez que o encontrei, via uma cena, ele era diferente, mais alto.

Em outro sonho, na mesma noite, C. M. entregava-se à morte, como se naquele momento não precisasse mais viver, me libertava, matando-se. Eu chorava e perguntava: Quando, como, por quê? Alguém respondia que saiu na capa de uma revista semanal, que eu olhasse. Acordei chorando. Ele está morto, se foi em 2008- câncer.
Será que meu coração está livre?

Esperei meio dia para ligar para A. - hoje é seu aniversário- dia de reis. Contei o sonho, lembramos dos primeiros encontros, da peça Hoje é dia de rock, A China é azul.

O e-mail da amiga distante contando o que sentiu na primeira noite de Natal sem a mãe, me fez bem, gostaria que estivesse mais próxima, mesmo longe- tantos anos juntas, confidenciando, trocando.

À noite M., uma amiga querida, telefonou. Falamos de nossas vidas, ela com o marido na cama, dependente.
Contei do anel, que não era diamante, mas não quebrou o encanto porque já não havia. Rimos, era o que podia- se esperar daquele que me deu.
Qual o sentido da vida? Ela se pergunta. Por que a doença dele? Acredita que há mais além da nossa vida terrena- se não como sobreviverá? Como viver sem sentido?
Meus filhos estudam filosofia, falam sobre estas questões. Contei.

Ontem conversei com uma amiga com quem não falava há muitos anos, mais de 20. Teve câncer. Moça linda, inteligente, rica. Esteve casada, como eu, por pouco tempo, tem uma filha bonita e saudável. Ela ainda está em tratamento, - exames a cada três meses-, retirou a mama. Fez piada sobre isto. Me alegrou falar com ela, rirmos juntas. Deu saudades.

Qual é o sentido da vida? Por que alguns morrem cedo, adoecem? Minha doença é na alma, não, minh’ alma não é pequena, mas triste, mesmo com pequenas alegrias.

O amigo de além mar enviou uma agenta de uma artista plástica lusitana. Me alegrou.


PS: Não reli- sono.

sábado, janeiro 04, 2014

E a vida segue...






Dias movimentados. Desde a véspera do Natal tivemos convidados cinco vezes. Para quem vive quase isolado, é muito.

A noite do dia 31 eu jantei com uma amiga- fiz uma ceia, e depois que ela foi dormir, lá por onze horas, eu, morrendo de calor, entrei na banheira e fiquei no escuro pensando, quase dormindo. Fui para a cama e uns quinze minutos depois começaram os fogos. Levantei, olhei a janela, estavam espaçados, em vários condomínios. Voltei a dormir. Um dos réveillons mais estranhos, porque eu estava sem emoção alguma. Não senti nada, a TV estava ligada e eu, na hora dos fogos no Rio, estava dando comida para o Dersu. Desliguei a TV sem lamentar, alheia a tudo. Não tenho mais expectativa nenhuma em relação à tempo marcado- balela. Acho que a frieza vem da ausência do outro- do amor- ele se foi, não tenho mais em quem pensar na hora da virada- que virada? Bobagem, acho que os jovens devem festejar, é legal, o rito de passagem de um ano para o outro, os planos, os beijos à meia noite. Passei disto.

No dia seguinte teve almoço com filhos, mãe, irmã. Foi bom. Comida gostosa, vinho bom. Sem conflitos, sem dores.

Ontem meu filho Dan  trouxe amigos para um jantar com comida japonesa- fiquei super orgulhosa, caprichou, fez tudo que aprendeu num curso. Como ajudante um amigo muito querido dele A., superaram minha expectativa, ficou delicioso.

Estou cansada, mas feliz com as visitas. Amigos meus e dos filhos. Encontro com Gustavo de Castro, sempre amoroso- pena que viva longe. Os meus queridos, quase todos, estão longe. Trouxe 2 livros para mim, poemas, ele é poeta dos melhores, preciso ler. Ando com dificuldade para, espero que o conforto daqui do escritório facilite. Sinto que algo mudou, eu me sentia meio peixe fora d'água, sem meu espaço. Escrevia na sala, não gosto- além de mais quente, fico mais dispersa lá.

Uma alegria íntima foi arrumar meu escritório- estava em desordem desde o ano passado, primeiro virou quarto de minha mãe, depois o filho que faz arquitetura se apossou para fazer trabalhos, maquetes, então vieram os pintores. Tudo no chão, poeira. Prometeram arrumar, mas ninguém teve tempo- eu arrumei. Estou com dor no pulso, misto de pancadas para abrir as janelas- emperradas pela pintura- com pegar livros, penso eu.
Mas consegui. A faxineira ajudou a colocar um sofá que sobrava na sala, coloquei uma poltrona. O escritório ficou uma delícia- falta consertar o bureau e a luz. Aqui é tão ventilado, venta tanto, que às vezes é preciso fechar a janela, deixar que entre apenas pelas venezianas.

Estou com sono resistindo para dormir mais tarde.

Os filhos foram a um casamento- quase não vão- os amigos ainda não entraram nesta de casar. É melhor, aqui casam muito cedo.

Preciso mentalizar um projeto para este ano- ano passado foi um desastre, fiz muito pouca coisa relevante- além do trabalho, claro, no consultório que me satisfaz muito.
A verve de escritora ferve e eu não escrevo- tenho ideias, escrevo na mente e não coloco no papel. Outro dia percebi que o que mentalizo é pesado, triste, talvez eu queira fugir disto. O Facebook nos faz mais superficiais, ali agrada quem é gracioso, fala coisas leves. A superficialidade venceu. Também gosto de futilidades, me distraio com bobagens, mas sinto falta de textos densos. 

O A., amigo dos meus filhos, sentou aqui no escritório comigo e contou que está a ler(como dizem patrícios e eu adoro dizer), Garcia Marques, O amor no tempo do cólera. Mostrei os meus exemplares aqui- tenho em português e espanhol- li na língua original, comprei antes de sair em português. Eu era assim, hoje leio pouco. Um post que li hoje dizia que é culpa da internet, das leituras rápidas, curtas e fragmentadas, da quantidade de leitura diária on line. Pode ser, eu ando impaciente com textos não enxutos. Também porque me identifico, como escritora com autores não prolixos- não estou conseguindo ler detalhes em excesso.
Talvez eu hoje não conseguisse ler Cem anos de solidão. 

Sei que dispersão e ansiedade são sintomas de depressão. A minha, como disse, Jorge Salomão, o psiquiatra, e eu concordo, é existencial. Me coloquem num lugar com amigos, gente para bater papo e esqueço a tristeza. 
O que fazer? Voltar para o Rio? É, hoje, uma possibilidade remota, pode ser que um dia...
Gosto da minha casa. Gosto de viver nesta casa, do jardim, dos bichos. 
Dan chegou ontem com um gatinho bebê lindo. Não quis ficar com ele, não tenho como dar mamadeira para gatinhos, não aguento cuidar de mais um bicho, casa, plantas e tal. A namorada de Luc levou-o para cuidar, mais tarde eu fico com ele, fiquei encantada com o bichinho. Estava no meio da rua, quase foi atropelado.
L, namorada de Luc, é generosa, melhor que eu, vai cuidar para mim enquanto ele mama. Também seria difícil porque o Dersu e Seinfeld não iria deixar o bichinho em paz. Tenho medo que o machuquem, é muito pequeno.

PS: Não reli para corrigir. Perdoem os erros, apontem- caindo de sono. 












sábado, dezembro 14, 2013

Cenas no hospital




O belo negro

Entrada:
- Seus documentos,Sra.
- Ih! acho que esqueci a carteira da FUSEX...(remexendo a bolsa). Ah! achei.
Olhando o rapaz de farda anotando seus dados:
- Como você é bonito! Que olhos!
- Obrigada, Sra. Pode seguir.
- Digo isto porque não sou mais jovem.
Ganho um sorriso.



Na sala de espera

A sala da frente está cheia, cumprimento a recepcionista, digo o que preciso e me dirijo à sala contígua. Abro a garrafinha de água mineral. O gás explode, molha o chão. Olho para o lado e a senhora gorda finge não ter visto, a menina ao lado me sorri curiosa. Procuro na bolsa lenços de papel para secar o chão.
Abro o livro, leio trechos que reconheço, onde teria parado? Releio desde o início.

Uma figura de preto entra e dá meia volta quando me vê, não vejo o rosto. Reconheço a imagem esguia de minha vizinha da frente.  Vejo os saltos altos e a malinha preta de rodinhas seguirem apressados.
Não a flagrei, tive vergonha.
Na saída da sala da médica, esbarro com ela, que entrava.
Digo: Somos vizinhas de frente, Dra.
Ela: Pois é, que coincidência.
Eu: E não me dá remédio...
...
Hoje pela manhã, na minha varanda havia quatro caixas de papelão com trinta caixinhas do medicamento que uso.
A faxineira:
- Ela deixou tudo isso para não ter que lhe dar aos poucos, não ter que falar.
Penso que está certa.
Já agradeci por e-mail. Amanhã entregaremos uma flor, quem sabe uns lírios.
Na sala do superior

O Sargento relutou em me dar permissão para pegar a receita com a médica. Repetiu várias vezes, enfático:
- O dia é quinta feira, já faz quatro meses que é quinta- feira.
- A última vez que estive aqui, a Dra. disse que estaria aqui nas segundas e quartas.
- Mas o dia é quinta- feira.
Ele pega o telefone e liga para a recepcionista e repete o que me disse.
Eu mostrei que o remédio estava acabando.
Ele: A Sra não deve deixar para vir quando está acabando. Vá até lá e veja se ela lhe atende, vai demorar umas duas horas.
- Não tem problema. Obrigada.
Não demorou nem meia hora.

Tristeza

De volta, na sala de espera, eu choro em silêncio. Não sei bem o porquê. O tom desagradável do sargento, sempre grosseiro me incomoda, fere.
O Hospital lembra meu pai velhinho. Quantas vezes percorri o longo trajeto de paralelepípedo, sob o sol quente, e encontrei meu pai sofrendo, já desmemoriado. Quantas vezes me assustei naquele quarto simples e mal cuidado diante da morte.
O hospital foi reformado, mas o atendimento, com exceções, claro, é muito ruim. Ou éramos mais bem tratados porque o pai era ‘O general’? Quantos generais há por aqui?
Talvez os sargentos enfermeiros continuem melhores do que os da administração. Espero.




O neurologista

Há quatro anos, (seria? Não sei mais.), minha cabeça estava estranha, formigamentos e com pontadas. O neurologista, com sobrenome famoso na cidade- não lembro o prenome- solicitou exame de ressonância magnética.
Ansiosa fui num sábado pegar o exame. No laudo dizia algo assim: Perda de massa encefálica precoce para a idade.
Fiquei aflita, triste, pensava o porque deste processo. Eu que me cuido tanto! Ironias da vida?
Com o resultado na mão fui levar para o médico de sobrenome famoso. Ele estava com um senhor na salinha com a porta aberta. Ansiosa  peço licença, digo bom dia e que trouxe o resultado do exame. Pergunto se há muitos pacientes à minha frente.
Ele disse que eu esperasse no corredor a minha vez, e que demoraria o quanto fosse preciso. Ainda não havia sala de espera confortável, esperávamos num corredor comprido e quente.
Sentei, um homem idoso olhou o meu envelope e disse:
- Estamos com envelopes iguais.
- É mesmo, fiz ressonância no mesmo lugar que o senhor.
- A senhora está marcada para que horas?
- Nove horas.
- Eu estou oito e meia.
- Estou sem pressa, ainda bem.
Neste momento o médico grita olhando para mim:
- Pare de reclamar! Estou fazendo meu trabalho.
Disse mais coisas que não lembro.
- Eu não estou reclamando, estou falando com o senhor aqui.
Tentei me defender.
Ele vem até a porta irado e diz:
- A senhora espere sua vez! Não fique reclamando.
Fecha a porta.
Me viro para as pessoas sentadas e digo:
_ Como vou ser atendida por este homem?
Me ignoram continuam conversando animados.
O senhor idoso diz:
- Ele é assim, mas é bom médico. É grosso mesmo.
Saio de fininho e chorando, encontro o clínico que me atende e me encaminha para sua sala.
Choro muito. Ele diz que eu posso dar queixa ao major. Quando me acalmo vou falar com o superior.
Ele é gentil, me oferece água, mas percebo que não fará nada- (o neurologista é o único do hospital)- apesar de dizer que já recebeu outras queixas e falaria com ele, que também não poderia estar atendendo com a porta aberta.

Lembro que na primeira vez em que fui o médico de sobrenome famoso, mal humorado, disse que fazia clínica ali, mas que era cirurgião e só havia ele nesta especialidade no hospital.
Não voltei nele, o major me autorizou a ir num outro fora dali. Não tinha referência. O médico era muito jovem e disse algumas coisas irrelevantes e me mandou fazer palavras cruzadas, exercitar o cérebro.

De férias no Rio consultei um especialista recomendado por meu ex professor de psicopatologia. Paguei uma consulta cara, mas valeu. Ele me tranquilizou e disse que a perda da massa encefálica provavelmente provinha da depressão.
Jorge Salomão, o ex professor e psiquiatra, me medicou. Não sinto mais esquisitices na cabeça, mas ainda choro, me firo facilmente.
Não gritem comigo, nem falem num tom agressivo, dói muito.



Aos sete anos


Na infância sofri abuso sexual e fui agredida verbalmente de forma feroz, análise nenhuma resolveu- e foram muitas- talvez por eu funcionar bem em tantos aspectos, este passado remoto passa despercebido. 

domingo, junho 02, 2013

Como era charmoso o meu francês- arquivo 2005




Jean e Vânia


Outro dia disse aqui que não tinha certeza se alguma vez desejei realmente viver com alguém, por isso lembrei de Jean Guillaume- o francês que mudou a minha vida.


Jean escolheu Cabo Frio para viver a partir de 1961, eu o conheci no final da década de 60, “morava” com Vânia Penafiel, uma mulher requintadíssima, parecia uma boneca de porcelana. Vânia tinha três filhos, e eu era amiga de Consuelo, que era mais ou menos de minha idade. Nos reuníamos na casa dele antes de sairmos para a noite, que obrigatoriamente seria numa boate chamada “Monjolo”, ponto de encontro de todos.
Cabo Frio era um lindo balneário, sofisticado, havia acabado de ser descoberto por intelectuais, artistas do Rio de Janeiro.

Havia um hotel apenas, o "Colonial", portanto só os que possuíam casa de praia frequentavam, e os amigos desta tribo chic e bonita. Como havia gente bonita!

Voltando ao Jean, eu ia para sua casa lá por onze da noite. Estavam sempre acabando de jantar, Jean, educado e sedutor, me oferecia um licor ou um sequinho, whisky sem gelo, que eu aceitava com prazer.

Havia sempre convidados, poderia ser Aluisio Magalhães, artista conhecido que desenhou algumas de nossas cédulas, Tânia Sherr, atriz, Ionita Salles- ex Guinle, Sérgio Braga, César Thedin, Werneck, Paraíso, um arquiteto muito simpático etc. Muita gente famosa. Ali era uma espécie de 'consulado', sempre com estrangeiros, falavam francês. Eu me deliciava. Aluísio estava sempre por lá e cantava uma música que jamais esqueci, mas não saberia repetir, dizia: “A letra A quer dizer amor ardente... a letra B, beijo...” não sei mais, perguntei para um conhecido de Recife, mas não conhecia, é do folclore nordestino.

Eu, desde o dia em que vi Jean pela primeira vez, fiquei encantada, ele era da idade de meu pai- posso dizer que foi meu amor edípico- e foi o homem mais encantador e charmoso que jamais conheci. Acho que nem Chico Buarque ganha, com sotaque francês ainda por cima!... Era um misto de Gary Cooper e Humphrey Bogard, pode? Pode. Era lindo como um Gary Cooper, olhos azuis, um metro e oitenta, por aí, e tinha um cinismo e um charme como o de Humphrey Bogard.

Irresistível. Mas ele não prestava atenção em moçoilas e eu naquela época era muito tímida, não conseguia aparecer, ficava quieta, não dizia nada, só ouvia- sempre gostei de observar-  daí a psicanálise como escolha profissional e que eu gosto tanto.

Eu o visitava quase todos os dias, ligava na hora que eu acordava- lá por onze da manhã, imaginem- e perguntava se ele estaria em casa mais tarde, "Oui, mon amour", ouvia do outro lado da linha.

Depois da praia, no final do dia, eu ia para lá- morávamos muito perto. Eu o observava pintar, não abria a boca, só ouvia, ele falava pouco, mas contava suas aventuras. Muito jovem fugiu de casa, fez o pai assinar um papel sem saber que o autorizava viajar. Foi para a África como marinheiro, pintava o navio, começou a pintar aquarelas para ganhar um dinheirinho a mais, também. Esteve na guerra na Indochina, fugiu de campos de refugiados, viveu na Côte d’Azur, foi amigo de pintores famosos, amou muitas mulheres- dizia que as chinesas são as melhores amantes do mundo. 

Vocês acham que eu ia abrir a boca e falar dos meus problemas, que aquela altura eram "gigantescos"- eu vivia deprimida-  para um homem que eu achava o máximo e que havia vivido tudo aquilo e me contava sorrindo? Meus problemas viravam 'umbigo puro'.

Com minha mudança para o Rio, eu passei a vê-lo nos fins de semana, todas as vezes que ia à Cabo Frio, bebia “pastisse” preparado pela fiel escudeira dele, a Anúsia.
Minha vida havia mudado muito, muitas coisas aconteciam, mas eu não contava ao Jean. 


Tinha amores e desamores, mas só falava da faculdade, livros, mas pouco. Nesta época eu já havia começado a desenhar, mas demorei muitos anos para tomar coragem e mostrar para ele. Um dia estavam Jean e Carlos Scliar juntos e mostrei os desenhos, eu, muito envergonhada. 

Eles disseram em coro que eu era a Jean Cocteau brasileira. Imagine... Eu já havia ouvido falar em Cocteau, minha mãe falava, mas não conhecia nada dele, sabia que era um intelectual, associava a Marais, cinema e mais nada. Quando vi, bem mais tarde um desenho dele, me assustei, é muito semelhante ao meu, traço contínuo, figuras de perfil...  

Scliar disse que eu poderia fazer ilustrações, fiz uma vez, apenas, para uma revista de psicanálise, uma caricatura de um psicanalista argentino, acho, esqueci o nome. A revista sumiu- estava na estante do consultório. Fazia dos professores de psicanálise, de brincadeira.


Eu penso que a vida me deu muitas oportunidades e eu as perdi por preguiça, timidez ou melancolia, sei lá. Nunca fui atrás de nada. Por isso digo que a gente deveria ter outra chance, como disse o Vittorio Gassman, viver primeiro com ensaio, como acontece no teatro, depois para valer.







Sabem qual é o meu cheiro preferido? De atelier. Adoro cheiro de tinta óleo, acrílico, qualquer cheiro que lembre aquele francês especial.

Ele era um artista completo, tudo transformava em arte, gostava mais dos quadros surrealistas e os guardava num quarto separado e só os 'escolhidos' tinham acesso. O atelier também só era frequentado pelos escolhidos. Era numa sala, da casa de trás que recebia a todos, muitos mineiros- Cabo Frio foi invadida por mineiros. Nas paredes havia uma quantidade de pequenos quadros, ele dizia brincando que era Anúsia quem os pintara, fazia para sobreviver, vendia facilmente, eram baratos.
Numa das paredes, havia um buraco para o "Nobody" passar, era um vira lata muito simpático, que circulava com liberdade. 

Jean tinha três casas. Comprou o terreno até a rua de trás. A da frente, com entrada numa rua, havia o quarto das crianças - Ricardo, Consuelo, Cláudia- e outro de casal- o quarto de Vânia; no centro do terreno, o atelier, onde dormia e recebia os amigos. Na porta de entrada havia uma placa pendurada onde dizia: “não perturbe”. Abria a porta depois das cinco- “open house”. Ali havia um jardim coberto por conchas com um barco,- você poderia sonhar estar na praia-, e uma sala deliciosa envidraçada no atelier.

Mas por que lembrei de Jean? Porque dizia, e eu acredito, que se você quer viver uma paixão, conservar um amor, não more junto. Ele sempre manteve duas casas. Vânia chegou de surpresa com os três filhos e passou a viver em Cabo Frio com ele- eram namorados no Rio, onde moraram.

Depois dos trinta, Jean me descobriu. Dizia que eu era o “caso impossível” dele, nós nos amamos, mas nunca houve nada além de beijos rápidos na despedida, eu adorava quando ele me pegava forte e me puxava contra o corpo dele e me beijava, adorava aquele toque nos meus lábios. No atelier, antes, ficávamos "namorando", nos tocávamos muito, mas nada erótico em excesso, ele estava com mais de sessenta, chegando nos setenta, e eu sempre tinha uma outra “paixão”. Ele estava com muitos problemas de saúde, não gostava de falar sobre isto, sorria apenas, continuou bebendo whisky puro até o fim, e fumando. Dizia que dos prazeres estes eram os únicos restantes.

Jean morreu em 1985, depois da morte dele passei a não querer mais voltar à Cabo Frio, não havia mais razão para ir, a cidade perdeu completamente o charme com a morte de Jean, nunca será mais a mesma. Posso dizer o mesmo sobre Carlinhos, mas é outra história.

Ontem uma amiga me disse que eu vivi lá em outra encarnação, deve ser. Se existe...
PS: Conheci, há algum tempo, outro homem charmoso como Jean, Olivier Anquier, não por acaso francês. Mas, este, só conheço de longe :)

sábado, maio 18, 2013

Cuándo se entra en la vejez- Quando se envelhece- J. Saramago






Fragmento de Cuadernos de Lanzarote II (1996-1997)

"Se entra en la vejez cuando se tiene la impresión de ocupar cada vez menos lugar en el mundo. Durante la infancia y la adolescencia creemos que él es nuestro y que existe para ser nuestro, en la madurez comenzamos a sospechar que no es del todo así y luchamos para que lo parezca, se comienza a ser viejo cuando se comprende que nuestra existencia le es indiferente al mundo. Claro que siempre lo había sido, pero no lo sabíamos."

Daqui.

Eu discordo. Concordo que nos sentimos velhos quando não há mais espaço, ou deixamos de ter importância, no meio familiar, no trabalho... Mas, sei, também, que minha existência tem, e teve(para aqueles amados que se foram, ou clientes que passaram pela minha vida), sentido para muitas pessoas- filhos, amigos, amores, clientes.
O que Saramago diz é, no meu ponto de vista falso, porque ele foi, e é, considerado por muitos um dos maiores escritores da nossa língua- bastante importante sua existência. :)

quinta-feira, maio 16, 2013

Alain Delon, nostálgico





"O célebre galã francês reconhece que é um homem nostálgico que frequentemente olha para o passado e diz que não teme a morte porque é a única certeza de uma existência, que agora gira em torno de seus netos e seus filhos. "O mundo atual não me agrada demais. Nada me excita realmente e eu era uma pessoa apaixonada. O que me falta é vontade, paixão. Mas vou despertar, talvez", declarou. Alain Delon"

Ele poderia estar atuando.  Mundo cruel. velhos não têm espaço- apenas uma minoria.

Infelizmente, sinto o mesmo. Procuro curtir os filhos, as plantas, o trabalho. Não passo o dia à toa- não paro- apenas descanso e volto às atividades- mas não vejo graça, nem há mais paixão em mim.

sexta-feira, janeiro 25, 2013

De "Amour" e morte







Vi, em casa, sozinha, o filme “Amour”. Estava ansiosa para ver, todos diziam que eu iria gostar. Claro, gostei, mas confesso que não consigo saber se é um bom filme. Por que? Porque mexeu demais comigo.
O filme é com Jean-Louis Trintignant, um dos meus atores preferidos. Um homem com quem saia do cinema a sonhar. Belo, bom ator, o tímido que me atrai. Na vida pessoal sofreu a morte trágica da filha assassinada pelo marido- terrível. 
Pois é, o filme é com um velho que nada lembra o Trintingnant da minha juventude- nossa juventude- ele é mais velho, óbvio, pero... Passei o tempo todo entristecida pela velhice de Trintingnan- tentando ver naquele rosto crispado algum traço de beleza- nada- apenas os lábios me lembraram os dele. 
Eu me vi no filme, nos dois personagens, na mulher vaidosa, que não se aceita com limitações, no homem velho, perdido diante da dor. Deus meu! Lembrei de um amigo que morreu e que lutou bravamente contra o câncer, um homem que eu desejei cuidar até o fim, mas a vida não me permitiu.
Não é possível saber se o filme é bom, diante de tanta emoção.

Talvez tenha visto Jean- Louis a primeira vez em “E Deus criou a mulher” o famoso filme com BB. O penúltimo deve ter sido “Um homem, uma mulher- 20 anos depois”. Vi muitos filmes com ele.

“Amour” traz a estória é de um casal que vive uma vida pacata e rica- os dois são professores de música. Vivem sós, têm uma filha, (Isabelle Huppert), que os visita eventualmente, também musicista. Quebrando a tranquilidade aparece a doença na personagem de EmmanueleRiva. Fui ver sua filmografia e vi que participou de  Hiroshima Meu Amor e muitos outros filmes, como “A liberdade é azul”, muitos filmes excelentes.

O filme é lento, repetitivo, como a vida de velhos que perderam o sentido da vida.  Um ex aluno vem visitá-los e lamenta. Os vizinhos se dizem disponíveis, se precisarem, não precisam de ninguém. A filha nega o que acontece com conversas triviais, e mais tarde, explode pela impotência diante da morte, ou pela morte em vida.
Um filme sobre a morte, pensamos, por que o título ‘Amour’? Mas é um filme de amor, aquele homem velho, como o jovem personagem de “Um homem, uma mulher” ama aquela mulher que definha, que não quer viver, nem ser vista. Ele realiza os desejos dela. O fim é trágico- tinha que ser.


Alguns dias depois zapeando na TV, achei um filme: “A caixa de pandora”, de um diretor turco. Na produção, além da Turquia, havia França, Alemanha e Bélgica. Prometia. Logo nas primeiras cenas senti que era bom- em cinco minutos eu sei se o filme é bem feito ou não- olho treinado.
A estória começa com uma manhã insólita para os três filhos de uma velha senhora- recebem a notícia de que ela sumiu. ­­A trajetória dos três num carro até a aldeia é longa e conflitiva- discutem, se chocam. Têm dificuldades com a mãe, que foi diagnosticada com Alzheimer e está sem memória. Lembra do passado apenas.
Adorei o filme, não tem nada extraordinário, traz uma estorinha conhecida: o que fazer com o pai ou mãe quando tornam-se dependentes. Quem vai ficar com a mãe? Seria melhor um asilo? 
O que toca é a sensibilidade do diretor- escritor, não sei, que fez da personagem principal uma mulher intrigante apesar da doença. Ela descobre uma brecha naquele turbilhão provocado por ela, involuntariamente, e desperta no neto compaixão- ele também estava deslocado naquela família.
Há um momento em que ela diz ao neto: “Me leve para minha propriedade, antes que eu me esqueça como é.”.
O final do filme fica no ar numa bela cena dela com o jovem neto transgressor.
O filme traz a Turquia em vales belíssimos.
Um filme imperdível.


domingo, dezembro 16, 2012

Um manhã de domingo





Hoje, ao descer, encontrei meu filho, Dan, na cozinha. Contou o sonho que teve com a avó. Tomamos café. Luc apareceu em seguida, conversamos.

Preguiça de pegar em carne, fazer almoço.

Dan foi para o quintal pegar sol, me chamou-quase dez horas, sol forte demais. Luc subiu para estudar e eu fiquei tentando arrumar porta- retratos para colocar na parede do vão da escada- desde que cheguei quero fazer isso. Esqueço de comprar material. Amanhã sem falta. O livro da Nora também- tomorrow.

Natal se aproxima.

Ouço Rachimaninov há horas, antes ouvi bossa nova, me traz nostalgia lembrar de amores passados. Volto ao tempo. Música clássica me traz paz.

Agora exercícios de Pilates- comprei a bola grande.

Bom dia, amigos.

quarta-feira, novembro 21, 2012

A vida intriga...









A vida intriga, surpreende. Depois de mais de vinte anos o ex. apareceu para visitar os filhos e foi agradável. 

Esteve treze dias aqui, fez tudo para nos agradar: cozinhou todos os dias comidas deliciosas, fez panetone e pastas com molhos diversos- o preferido e repetido de manjericão- ao presto. 

O melhor foi a mudança de hábitos: parou de beber, fumar, dorme mais cedo, acorda idem e lê muito. Eu já sabia que estava diferente, mas não havia visto de perto- sabe como é...

Nestes vinte anos, estudou sociologia, história da arte e política. Está mais agradável para conversar.

Bom, não fiquem a pensar que rolou algo mais, não senti desejo nenhum de estar junto, mas confesso que foi agradável tê-lo por perto. Estávamos bem afinados. Um dia, jantando com os filhos e ele eu disse: “A família perfeita, aquela que não existe”. É isso ai.

Ah! Ele tem uma mulher, vivem há sete anos juntos, acho. Não têm filhos. O que nos aproximou foram os filhos, se não os tivesse, jamais o encontraria, tal a ojeriza. Agora incomodou muito pouco, mas senti déjà- vu quando ele nos fazia esperar para jantar sem poder beliscar nada antes- é controlador e centralizador- tudo gira em torno dele- o narciso rs. Está mais velho, mas ainda sedutor e cheio de galanteios- como quando o conheci num dia de agosto de 1987, no enterro do meu querido Carlos Drummond de Andrade. 

PS: Por que o Dersu ai? Porque eu dizia que não queria cães aqui de forma alguma. Tai, é impossível não gostar dele, é um bichinho carente e encantador.

quarta-feira, outubro 10, 2012

De lá pra cá






Difícil concentrar-se aqui em casa com empregada pra lá e pra cá e mi madre también. Não param.
Como a ajudante diz: "Ela come de instante a instante." Gosta de comer escondido doce e beber vinho ou cerveja- sempre tem agora- antes nunca havia nada para se beber. Também tomo vinho no almoço.
A funcionária veio por causa da mãe...
Tá bom, eu deveria ficar num canto quieta lá em cima, mas não fico. Penso que se deixar a mãe sozinha será pior- ela é uma pessoa com temperamento forte e ... Ufa! É complicado.
Quem conhece, sabe.
O ano passou e eu não sinto que fiz nada importante. Felizmente o consultório me deu alegrias- os clientes estão em pleno desenvolvimento. Mas me sinto meio acuada, presa, estagnada? Y Ching explica?
Queria ter viajado e não foi possível, não só pela mãe- otras cositas más... ano que vem viajo. Talvez vá ao Rio e Sampa este ano- preciso me reabastecer de afeto- aqui só recebo dos filhos- Amém! E dos bichos rs. O cão é ligadíssimo em mim, cansa- sou eu quem cuida dele. Sobrou pra mim, eu sabia, sempre soube. Mas eu gosto, já pensei que pode ser uma desculpa para estar sempre ocupada com tarefas que me tiram de objetivos mais importantes. Tem coisa melhor do que cuidar do jardim? Arrancar grama, pragas? Lavar carro, dar banho em cãozinho que fica lindo depois?
A vinda para Natal me fez uma pessoa diferente em muitos aspectos. Nunca havia cuidado de plantas, não tinha paciência. Aqui era impossível ignorar o jardim. Você começa com uma plantinha e acaba com mania de plantar tudo. E é preciso molhar, cuidar, claro.  Antes eu acordava tarde e dormia idem. Hoje durmo cedo e acordo lá por oito horas. Se passar fico com dor de cabeça. O quarto é claro, eu gosto, me incomoda imaginar o quarto com black out, por exemplo. Gosto de acordar de madrugada e ver a lua, ou ver o nascer do dia, o céu colorindo.
Como trabalho menos no consultório- tenho poucos clientes ainda, (espero), me sinto menos cansada, mais disposta. Gosto de cuidar da casa também, varrer, lavar varanda, estas coisas.
Agora chove aqui, agradeço aos céus, assim não preciso molhar a grama amanhã de manhã :)
Sinto falta do blog, há algum tempo perdi o elo que tinha aqui. Preciso voltar, me faz escrever mais, narrar em pensamento. Quando ‘estava’ blogueira ativa, passava o dia com a cabeça aqui- algumas vezes incomodava- era como se não bastasse viver, era preciso contar para alguém. Parece que a vida é assim, o Contardo diz isso sempre ( coisa de lacaniano- tudo é dirigido ao Outro- concordo).
E a piada do cara que está numa ilha deserta sozinho com a Sharon Stone, acabam fazendo sexo e ele, em seguida, pede para ela se vestir de homem e dar uma volta na ilha. Quando está chegando o “homem”, ele diz eufórico:
- Cara, você não acredita com quem eu acabei de transar?
Com a Sharon Stone!!!!
O ser humano... tsc tsc tsc rs


Uma foto do Rio- imperdível. De Rogério Travassos, via FB