Mostrando postagens com marcador Mini conto. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mini conto. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, setembro 25, 2013

O senhor dos meus dias- miniconto/ arquivo


O senhor dos meus dias


Inclino-me na cadeira da mesa da cozinha e o vejo na sala.
Ele curva o corpo pesado e pega o jornal na mesa de centro. Tira os óculos do bolso. Começa a desfolhar o jornal- gesto que antes odiava.
Meus olhos marejam.

segunda-feira, maio 23, 2011

Natal na Vila


Natal na Vila
  

O silêncio, tão desejado, pesa nesta época. Os vizinhos saem com as crianças para longos dez dias de férias, apenas ela fica na vila. O irmão perguntou se queria viajar, já conhecia a resposta, difícil ela sair, ainda mais nestes dias. Depois da morte da mãe, nem ceia não faz, apenas um panetone, um presunto assado e frutas do mercado da esquina. Varia as frutas, afinal é dia de festa. O presunto assa com cuidado, regando para não ressecar.
Não sente falta da família, antes ficava mal humorada, agora não, não precisa mais fazer de conta.
Gosta da solidão, não gosta da falta dos ruídos conhecidos. Os pássaros sumiram por causa da chuva, a praça esvaziou-  o povo desaparece como mágica. Dia 25, então é pior, ninguém nas ruas, tudo fechado, todos em casa. Quando a mãe era viva, levava a mãe para caminhar, iam até a praia dar uma volta- ela com as pernas inchadas de tanto ficar em pé na véspera-  caminhava lentamente, sentavam num banco da praia a olhar o mar.
Não tem saudades, fica com raiva quando se vê como a mãe, azeda. Apenas lembra.
Amanhã, já decidiu, fará diferente, vestirá a roupa nova que fez, pegará um ônibus e fará um longo passeio pela cidade.


segunda-feira, março 28, 2011

O conto e as moças



Revi este conto hoje, vejam aqui.


Ontem fiz um post grande falando sobre o lance do blog da Bethânia, mas deletei- senti no ar- pelo TT que haveria chateações. As pessoas são truculentas quando querem clamar por justiça.
Penso que sim, é preciso discordar, mas sem perder a ternura, jamais.
Hoje passava na TV um filme sobre o Che, só dei uma olhada. O ator era o Benício. O Rodrigo Santoro faz uma ponta.

Levei uma hora hoje para lembrar o filme que vi ontem- não sei o nome, não lembro, era sobre tortura na África- um bom filme- não sei o nome dos atores também. Ô memória- fico assustada quando acontece isso.
Lembrei que vi um filme francês no sábado: "Venus et fleur". Uma bobagem, mas vi até o fim- parecia que iria a qualquer hora virar um filme pornô ou super erótico- mas não, não aconteceu nada mais forte. A estória era de duas moças juntas numa casa, uma completamente histérica, doida para namorar e a outra tímida entra no jogo da doidinha. A atriz que faz a maluquinha é interessante, bonita- também não sei o nome.

domingo, janeiro 02, 2011

Inês

Foto André Paiva





Não sabe o porquê da inquietude. A mãe dizia: “Esta é lenta, não queria nem nascer. Anda Inês!”. Odeia o nome. “Pior se fosse Sebastiana”, retrucava a mãe. Nasceu no dia da mártir, um dia depois do dia do santo.

Quase menina, foi trabalhar no corte da cana. Lá conheceu Sebastião- ironia- gostou do nome. Ele era pouco mais velho e tinha olhos cor de amêndoas. Encabulou-se no primeiro encontro- ele a despiu com o olhar. Voltou para casa coberta de fuligem e atordoada. Mirou-se no espelho sobre a pia da cozinha. Tirou-o da parede, tentou ver o resto do corpo- “mais ossos que carne”, pensou.

Os irmãos brincavam no terreiro. No banho tocou o sexo. Apressada esfregou-se até um arrepio. Sabia que agora era mulher- os olhos dele o disseram.

...

Anoitece. Observa a duna- lembra da areia morna, a perna úmida de sêmen, o corpo de Sebastião sobre o dela. Tenta enxergar mais longe. Não, ele não virá. Melhor entrar e fazer a janta para os netos.

sexta-feira, setembro 10, 2010

Hoje nos Escritos



O conto Zampanô no Escritos. Aqui.

Fiz dois contos, ou mais, com o Zampa, o cão da minha personagem.
O outro, que vou colocar amanhã, ganhou um elogio do Ivan Lessa.
Uauuuuu.
Ele disse que se eu enxugasse mais encostaria no Dalton Trevisan.
"Conheci" o Ivan no Portal Luis Nassif
pena que quando ele se afastou do Portal e o comentário sumiu. 
Ainda existe a página dele, mas não está participando,
 naquela época- junho- julho de 2009, 
ele conversava conosco.
Volte, Ivan. 





domingo, agosto 15, 2010

Miniconto: Nem ela

By Richard Diebenkorn


Voltou devagar para casa. Era hora do almoço. O porteiro estava no fundo do prédio. Ela abriu o portão de ferro com cuidado. Subiu as escadas sem ruídos. Se alguém perguntasse, ele diria que não a vê há dias.
Saia para o trabalho voluntário, apenas isto. Se um dia sumisse, só perceberiam dias depois.
Há dias mudou o trajeto percorrido durante anos. Ninguém a conhece neste percurso.
Nem ela.

quinta-feira, julho 01, 2010

De saltos altos- revisto



De saltos altos




Ela passa uma, duas, três vezes na calçada em frente. Quem vê pensa que é louca. Pisa firme com os saltos altos. O toc toc a denuncia. Traz algo nas mãos, de longe parece um terço, mas não é, conheço bem aquele cordão, ganhou de um amigo, ela não o larga, diz que dá sorte. Olha alternadamente para a casa e para o fim da rua. Pensa que ainda não cheguei. Faz quase uma hora que está ali, andando de um lado para o outro impaciente. Conheço esta inquietude, ela pensa me pegar de surpresa, está com o discurso pronto, adivinho o que diria se abrisse a porta ou me vislumbrasse atrás da cortina:

-Seu cretino, como foi sair com ela? Eu pedi tanto que se afastasse daquela vagabunda!

Logo a raiva se dissiparia, nunca brigamos, basta fixar bem os olhos nos olhos dela e sorrir. Ela desmonta, vem correndo para meus braços, chora, me faz jurar que nunca mais a farei sofrer. Não digo nada, não posso lhe dizer que também amo a outra.

Vejo suas belas pernas cobertas por meias pretas, os saltos altos. “Só uso meias pretas”- gosta de dizer.


Sei que se abrir a porta, beijarei aquele rosto até que ela sorria: “Você é um bandido, te odeio”. Dirá sorrindo entre um suspiro e outro, minhas mãos rudes deslizando nas coxas lisas, rasgando a seda pura, lanhando a pele alva. “Vai me pagar”, diz. Ela estará exausta de tanto esperar, serei eu o condutor. Não pedirá nada, se entregará como sempre, como se fosse a última vez.

Ela sabe que pode estar certa.

quarta-feira, junho 16, 2010

Mini conto: O homem do prédio


O homem do prédio


Na saída do prédio, vacilei. Chovia, chuva fina. Decidi abrir o guarda-chuva.

- Quer ajuda?

Recusei, mas ele me acompanhou até o ponto de ônibus. Olhei de esgueira, era magro, alto, branco. O rosto amassado, como se tivesse recém acordado.

Àquela hora as conduções passavam cheias e eu queria sair logo dali.

Ele se aproximou e disse num sussurro: Há dias a vejo e desejo falar consigo.

Entrei no primeiro ônibus que parou. Espremida entre as pessoas, o coração disparado.

Não havia onde sentar. Aliviada vi que ele não estava ao redor.

Teria visto antes aquele homem? Lembraria se tivesse estado no elevador com ele: a calvície e o rosto com rugas acentuadas, eu jamais esqueceria.

No dia seguinte, lá estava ele a me esperar. Eu disse: “Obrigada, mas não precisa...”. Não chovia. Ele quis carregar minha pasta de papeis. Recusei.

Foram semanas seguidas a insistir.

Um dia me disse: “Saia comigo, desejo lhe tocar. Tem uma boca irresistível”.

Sai correndo. Ele ficou para trás.

Pedi para meu filho vir pegar-me no dia seguinte. Ele se atrasou uns minutos, eu esperei no hall do prédio. O homem estava à porta. Tive medo. O filho chegou, me deu o braço, e saímos.

E o homem? Escreveu um bilhete furioso para mim. O porteiro, que já sabia o que acontecia, entregou-me. Chamava-me de arrogante, frustrada, entre outras coisas. Ele não olha mais para mim. Sai de braço dado com outra mulher- somos vizinhas de sala, trabalhamos no mesmo corredor. E também é secretária.

segunda-feira, maio 24, 2010

A lua se esconde/sem revisão




Descia a rampa da garagem do prédio dele, vinha atenta naquele labirinto estreito. Uma angústia a invadiu. Por que o desejo de chorar? Cheira o braço, ainda o cheiro dele.
Por que a dor?
"Eu te amo, Luigi", disse. Ele a olhou e beijou seus lábios com ternura, sem paixão.
Haviam acabado de fazer amor, ela precisava dizer: "Eu te amo". Agora, as palavras ressoam nela, qual faca- esburacam seu peito.
Ele não disse que a amava, nunca disse. Prometeu amor à outra, ela sabe. Então, por que o buraco? Respira fundo.
Na rua busca a lua entre os prédios altos e frios. A lua se esconde.
Senta no primeiro bar, decente, que encontra.
"Dose dupla, garçom".

sábado, maio 22, 2010

Mais uma viagem- miniconto- sem revisão


A viagem II



Entrou no ônibus batendo as bolsas nas poltronas. Seu lugar estava ocupado. Uma mulher pediu que trocasse com ela- queria ficar ao lado do marido. Concordou, e voltou buscando seu assento. Um homem, de cabelo gris, a olhou curioso, levantou-se e a ajudou a acomodar-se. Era seu vizinho de banco.

Ela abriu o jornal e lhe ofereceu. Passaram a comentar as notícias. Pode, então, ver o rosto dele- olhos pequenos e penetrantes, nariz reto, boca bem desenhada, um sorriso maroto. Usava um pulôver de gola alta. Fazia frio. Sentiu-se perturbada. Olhou a janela, passavam por uma pequena serra.

Pensou que o destino o enviara e que poderia se enamorar por aquele rosto. Com voz grave, mais baixa, comentou que curvas a lembravam as Serras da infância, o pai dirigindo o Chevrolet preto a caminho do mar.

Um longo silêncio e pode sentir o calor do corpo dele.

Continua aqui.

quinta-feira, maio 06, 2010

Mini conto: Santinha- arquivo







Santinha

Acorda com o choro do filho da vizinha, quer dormir mais. Não suporta o choro que vem, invade tudo, tapa os ouvidos com o lençol. Ainda bem que tem o ventre seco, Deus sabe o que faz, dizia a mãe, vai ver tinha razão, a velha.

Lembra do sonho do beijo.

Mais aqui

sábado, abril 17, 2010

O que me escapa...



Foto João Menéres


Hoje nos Escritos vocês encontram novos continhos. Vão lá ler.
Por que não coloco só aqui? Quero me organizar- colocar os contos só num lugar- aqui se perdem.

terça-feira, abril 06, 2010

As pedrinhas transparentes




As pedrinhas transparentes



Aos domingos, na praia, catava pedrinhas, escolhia as transparentes. Gosta de transparências.

Um dia um homem se abaixou e lhe ofereceu uma pedrinha. Seguiram juntos catando pedrinhas. Acompanhou-a até sua porta, despediu-se com um ‘até domingo’. Ela sentiu algo diferente. Há muito não tinha contato com homens.

Esperou ansiosa o domingo. Saiu antes da hora de sempre, da calçada viu o homem à beira mar. Foi em sua direção, tímida.
Ele sorriu e seguiram caminhando pela areia. Falavam pouco, ela desacostumada de falar, ele só dizia o essencial.

No terceiro domingo, ele entrou em sua casa. Ela havia preparado a casa, sabia o que ele viria.

Mais aqui.

segunda-feira, abril 05, 2010

Manhã de domingo no Escritos





Manhã de domingo

Despertou com a mão dele em sua coxa, abria caminho entre suas pernas. Fingiu dormir. Ele continuou. Gemeu. Ele, então, colocou um dos braços sob o corpo dela e a enlaçou trazendo-a para mais perto. Abraçou-a com força.
Sentiu o cheiro de sono dele, o calor de sua nuca...


Mais aqui.

quinta-feira, março 04, 2010

O 7º conto do outro blog

Fiz novo blog,
Escritos
,
nem todos vocês conhecem,
vão ver e digam se gostam.
Só coloco contos lá. Novos e antigos.
Está aqui.

quarta-feira, 3 de março de 2010


Mini conto VII

Foto daqui



Madrugada


O cão ladra à noite. Assustada olha o jardim. Nada. Olha o quintal. Nada. O cão ainda late insistente.
Tranca a porta do quarto. Dorme encolhida.
Pela luz solar sabia que passava das nove. Procurou não demorar para descer. Abriu a porta da frente com cuidado. Nada mudara. Caminhou à direita no estreito corredor. Ali jazia um homem- a camisa xadrez aberta no peito, a calça rota mostrava um ventre inchado. Não sabe por que não teve medo. Passou ao lado do corpo com cuidado para não esbarrar no braço frouxo. Percebeu que respirava. Sentiu alívio.
Antes de ligar para a emergênciam, vestiu uma roupa de sair, passou batom e tomou o café da manhã na sala.
Merecia.

domingo, fevereiro 21, 2010

No banho II


By Alissa Monks(site incrível, vão ver)



Um corpo de mulher


Para de trabalhar. O pescoço dói. Há horas naquela máquina. Vira a cabeça de um lado para o outro, sente a articulação áspera.
No banho com a calcinha ensaboada esfrega o corpo. Lava o pano na água do chuveiro. Sente o cheiro morno no sabonete. O algodão, de fibra envelhecida, lembra o paninho de banho da infância.
Esfrega, mais ainda, a barriga, como se acreditasse que ao friccioná-la, purifica-se. Desde que pariu odeia o corpo.
Jamais será amada de novo, intui. Odeia o corpo, sente culpa- odeia odiar-se. Odeia aquele que um dia a amou e a abandonou.
Sai do banho, olha o rosto no pequeno espelho. Há anos vê apenas o rosto. Sorri diante dele- é do sorriso que ele gostava, lembra.
Por um instante pensou vê-lo naquela imagem fundida.

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Miniconto- Há dias



Responde meu bom dia sem levantar os olhos.
Tomo o café na mesa da cozinha cheia de pacotes de compras da véspera.
Há dias em que levanto e está tudo guardado. Olho a dispensa desorganizada- deixo pra lá.
Falta água mineral, não pedi ontem.
Há dias em que estou assim, me dá prazer deixar tudo pra lá. É uma forma de sobreviver, não ver o que se passa em volta.

sábado, fevereiro 06, 2010

Miniconto- Nestes dias...



Nestes dias...



Jogou o paletó sobre o sofá num gesto brusco. Meu coração acelerou. Disse, fingindo naturalidade:

- Tudo bem?

- Como tudo bem? Não está vendo a minha cara...

Olhei, agora com permissão, o rosto dele. Os olhos injetados, fixos em mim.

- Que culpa eu tenho?

- Que culpa eu tenho?... Nenhuma! você vive no seu mundinho, não sabe de nada! Merda de vida! Cale esta boca!, ele disse entrando no quarto.

Sabia que precisava obedecer.

Agora paralisada olhei os braços desbotados da poltrona, os fios esgarçados.

Pensei: É este o meu mindinho- esta poltrona, o quarto de dormir, a cozinha. Pouco olho a janela. Nada fora me interessa.

As lágrimas deslizam, a garganta trava. Tenho pena de mim. Passo o dia a espera dele, cuidando da comida, das camisas... “Passe de novo, não vê que passou mal?”

À noite me ama. Abre minhas pernas com a posse permitida, sorve fluidos. Gosta de me ouvir gemer. Mesmo sem prazer, gemo. Depois sobe o corpo pesado sobre o meu e me penetra. Há dias em que gosto, noutros finjo, nestes pego o membro rijo e com habilidade especial o faço gritar de prazer. Puxa meus cabelos, enquanto suspiro aliviada.

Logo ele esquecerá que estou ao seu lado.


PS: Fiz agora, não revisei, logo...