domingo, agosto 16, 2009

Conto sem revisão




Um jogo, um pai


Meu irmão resolveu fazer um churrasco no dia do jogo do Brasil na Copa. Eu disse que levaria as saladas. Papai, que morava comigo, disse que não iria, preferia ver o jogo em casa, afinal não comia mais carne, restaram poucos dentes. Eu argumentei, sem grande convicção, que seria bom ver os filhos juntos, seria melhor que ficar só.
Ele disse- não esqueço: "Não minha filha, estou cansado, quero ficar só, não vou sair".
Estava sempre dizendo que cansara de viver, que já havia passado do ponto: "oitenta e cinco anos é muita coisa, imaginem, é quase um século. Um dia vou olhar no espelho e me perguntar quem é este sujeito à minha frente", dizia rindo tapando a boca desdentada.
Era simples, o velho, quase um espartano, dormia sem cobertor mesmo no frio. Eu ia até o seu quarto e dizia: "Mas pai esfriou precisa colocar uma manta pelo menos, vou colocar aqui aos seus pés". Mas ele não usava, parecia não mais sentir frio ou calor.
Lá por sete horas, ele começava a perambular pela casa, abria as portas todas, dizia: "Ah, é você que está dormindo aqui".
Tudo o surpreendia de uns tempos para cá, parecia tudo novo. Quando encontrava um filho perguntava notícias do passado, dizia querer voltar à cidade onde nasceu.
Antes saia para caminhar, agora não mais, ficava a zanzar até que alguém levantasse. Quando eu despertava e não ouvia seus ruídos ia até o quarto e o encontrava imóvel. Muito magro, pele e osso, parecia morto enquanto dormia. Eu me recostava na porta e aguardava que fizesse um movimento com o peito- arfasse.
Nesta última semana dormiu até mais tarde, todas as manhãs. Hoje fui ver se estava bem: "Vamos, pai, coloque a sandália e vamos para a sala".
O jogo do Brasil foi emocionante. O Brasil perdeu nos pênaltis, foi um sofrimento, muita tensão.
Quando o jogo acabou me despedi, sai em busca de um táxi, coisa difícil em dia de jogo. Demorei a encontrar um disponível. O homem quase chorava ao volante, fiquei com medo.
Chegando em casa, ao abrir a porta, vi a casa toda escura. Na sala a TV ligada. Meu pai não havia acendido as luzes. Fui caminhando até o quarto a mão buscando interruptores. Estava deitado como sempre, imóvel, com a camisa aberta no peito. Parei recostada na parede e esperei um movimento. Nada. Chamei, num tom mais alto: "Pai". Nada. Me aproximei, toquei sua mão. Senti um calafrio, estava gelada.

Nunca esquecerei o dia que o Brasil perdeu aquela Copa, foi o dia em que perdi meu pai.

2 comentários:

Anônimo disse...

Não a conheço, mas terminei de ler seu texto chorando. Nem posso escrever.
Um beijo. Você tocou meu coração.
Cristina

Diz disse...

Cristina, eu tb chorei qdo fiz, me comove.
É ficção mas poderia ter sido real.
Um abraço fraterno, Laura