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quinta-feira, junho 18, 2015

Contardo Calligaris- O mistério de Viviany

  






Durante a última Parada Gay, no domingo (7), uma jovem e bonita transexual, Viviany Beleboni, desfilou em cima de um trio elétrico, crucificada, com coroa de espinhos na testa, chaga do lado, sangue e expressão contida de agonia. No alto da cruz, um cartaz: "Basta de homofobia com GLBT (sigla para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais)".
Viviany encenou a paixão final de Cristo. Houve pessoas para se indignarem, achando a performance satírica –o que é francamente bizarro: a encenação não debochava nem um pouco.
A própria já respondeu: "Jesus morreu por todos e foi humilhado, motivo de chacotas, agredido e morto, que é o que vem acontecendo diariamente com LGBTs, por não termos leis". Concordo, só não sei se isso acontece por não termos leis ou por termos muita "gente ignorante que não entende arte", como Viviany também disse, com razão.
Arte, alguém perguntará? Sim, claro, a performance de Viviany pertence a uma das formas tradicionais da arte teatral no Ocidente: os mistérios da Idade Média. Eram encenações sem palavras, do alto de charretes estacionadas ao redor da praça da igreja.
A representação da Paixão de Cristo nunca faltava durante a Semana Santa. E a tradição não se perdeu. Sobraram, por exemplo, as encenações grandiosas que são transmitidas pela TV.
Hoje, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém é encenada por atores globais. Agora, entre Viviany Beleboni e Thiago Lacerda, prefiro Viviany. Lacerda é bom ator, mas ela tem a autenticidade tocante de quem vive a Paixão a cada dia.
Vendo seu torso na cruz, só é possível pensar no calvário de quem é transgênero. Como é possível que alguns se sintam ofendidos por isso?
1. Em geral, os que transformam a fé em comércio preferem deter o monopólio de seu profeta, de seus dogmas, de suas cerimônias etc. Alguns não gostaram da encenação de Viviany, suponho, porque querem ser os únicos donos do Cristo –para vendê-lo melhor.
2. Estranho paradoxo: os que se indignaram porque Viviany desfilou na cruz são os mesmos que se agitam para que a vida dela seja um tormento: fomentam o preconceito contra ela, tentam impedir que possa se casar ou mesmo dispor de um registro de identidade certo para seu gênero –o que permitiria que ela assinasse um contrato de aluguel, trabalhasse com carteira etc.
Na quarta-feira (10), justamente, a dita "bancada evangélica" da Câmara protestou contra a performance, recitando um pai-nosso e erguendo fotografias que misturavam o obsceno ao sagrado. A bancada se sentiu ofendida pelo quê?
3. Ninguém se indignaria se quem desfilasse na cruz, identificando-se com o sofrimento de Cristo, fosse um peregrino penitente, um enfermo incurável ou, ainda, a vítima de uma tremenda injustiça social.
De fato, os homossexuais, sem nem mencionar os transgêneros, morreram nos grandes matadouros do século 20 e, da democrática Inglaterra até a Cuba comunista, foram vítimas de perseguições até os anos 1960, no mínimo.
Isso não conta para nossa "bancada evangélica". Porque, aparentemente, para nossa "bancada evangélica", tudo o que tem a ver com sexo (ou com gênero –para ela, aliás, tanto faz) é uma questão de falta de vergonha.
Para a tal bancada, o mistério encenado por Viviany só pode ser pornográfico porque ela é transgênero.
Prefiro nem imaginar os caminhos pelos quais os membros de nossa bancada chegaram a essa conclusão –suponho que seja uma mistura de ignorância com fantasias reprimidas, e uma dose de má-fé com a qual perco até a vontade de argumentar.
Em 1991, Oliviero Toscani tornou famosa uma fotografia de Therese Frare, que mostrava o ativista David Kirby no leito de morte, com seu pai, sua mãe e sua sobrinha.
Toscani chamou a foto de "A Pietà", que é o nome dado às representações da Virgem Maria chorando o filho depois de ele ter sido descido da cruz.
A "bancada evangélica" da época protestou, justamente porque Kirby, por mais que estivesse sofrendo, estava morrendo de Aids –vítima, segundo ela, de sua vida "promíscua".
Bom, a fotografia de Frare tornou-se, segundo a revista "Life", uma das "Cem Fotografias que Mudaram o Mundo".
E Toscani respondeu: "Chamei a foto de David Kirby e de sua família 'A Pietà' porque é uma Pietà que é real. A Pietà de Michelângelo, no Renascimento, pode ser falsa, Jesus Cristo pode nunca ter existido.
Mas sabemos que esta morte aconteceu. Essa é a coisa mesma (a Pietà verdadeira)". 

quinta-feira, setembro 04, 2014

Hipócritas ou crentes, por Contardo Calligaris






Excelente artigo de Contardo Calligaris sobre hipócritas e crentes. Parábola sobre a próxima eleição.
Leiam aqui.

quinta-feira, junho 05, 2014

O feitiço do tempo, por Contardo Calligaris










Artigo da Folha de São Paulo

"Feitiço do Tempo" (1993), de Harold Ramis, é um de meus filmes-feitiço, que não são necessariamente obras-primas: são os que não posso me impedir de rever até o fim, a cada vez que, zapeando, esbarro neles.
Por que será que "Feitiço do Tempo" me imobiliza, de olhos abertos, na cama ou na poltrona, até de madrugada? Já me apaixonei várias vezes por Andie MacDowell, mas isso não seria suficiente: o que me pega, no filme, é a história.
O protagonista, Phil Connors, fica bloqueado no tempo, revivendo o mesmo dia durante anos. Ele pode adormecer à noite, morrer ou suicidar-se, tanto faz: ele sempre acorda na mesma hora da manhã do mesmo dia —que os outros revivem como se fosse a primeira vez, enquanto ele sabe que o tempo está emperrado.
O novo filme de Doug Liman, "No Limite do Amanhã", em cartaz agora, talvez se torne, para mim, outro filme-feitiço, e não só pelas suas (grandes) qualidades cinematográficas. Aparentemente, deixo-me enfeitiçar pelos filmes em que o tempo enfeitiça o protagonista e o força a recomeçar o mesmo dia (assim como eu sou compelido a rever o filme, aliás).
Nenhum spoiler: está tudo no trailer de "No Limite do Amanhã". O tenente-coronel Bill Cage vive uma situação análoga à de Phil Connors em "Feitiço do Tempo": sua morte o manda de volta à manhã anterior. Como Connors, Bill Cage tenta melhorar seu dia, para encontrar um desfecho que faça avançar o tempo. Se os dois filmes me enfeitiçam, é porque eles são menos fantásticos do que parece.
É bem possível que vivamos todos, quase sempre, numa constante repetição, que, por não ser o retorno do exatamente idêntico, passa desapercebida. Como sair disso? Como evitar a sensação de estarmos sempre vivendo o mesmo dia?
Jacques Lacan, o psicanalista francês, considerava que os atos, numa vida e na história coletiva, são raros. De fato, o que domina a vida e a história é a repetição. Um ato não é apenas algo inédito (muitas novidades são repetições disfarçadas), mas algo que nos transforma radicalmente, que produz (inclusive em nós mesmos) um novo sujeito. Qualquer um pode passar a vida inteira sem produzir ato algum, só cumprindo o que lhe era destinado, só preenchendo as expectativas do mundo.
Cuidado: o parágrafo que precede acarreta um juízo de valor implícito. Ele transmite a sensação imediata de que a vida repetitiva seja ruim; nesse quadro, o ato seria quase uma obrigação moral. Aparentemente, é preciso e é bom não deixar passar a ocasião de sair da repetição. De onde nos vem essa urgência de quebrar o feitiço do tempo?
A novidade é um valor crucial para a modernidade. E, como qualquer valor, ela se torna um imperativo: renove-se, invente-se a cada dia. Desconfiamos do conformismo e prezamos o gesto de mudança e de ruptura —"revolucionário" se torna uma qualidade, mesmo sem saber de qual revolução se trate.
Claro, se a novidade e a mudança são valores, a repetição só pode ser aflitiva —a continuidade é uma chatice: o que importa nela é a procura de um ato que empurre o tempo e nossa vida para frente.
Mas como a novidade e a mudança se tornaram valores? Talvez seja porque a modernidade valoriza o indivíduo mais do que a comunidade. Ora, a comunidade se afirma na repetição: rituais, tradições coletivas, uniformes etc. garantem que ela viva mais do que o indivíduo. O indivíduo, ao contrário, afirma-se na singularidade de sua experiência, na capacidade de se inventar contra as regras e o destino comuns.
Em suma, há culturas (como a nossa) em que o valor supremo é fazer uma diferença, e outras (como a nossa, antes da modernidade), em que cumprir o destino é o valor supremo e reviver sempre o mesmo dia poderia ser um ideal.
O engraçado é que receamos desperdiçar a vida na repetição, mas também temos nostalgia de um mundo dominado pela repetição, sem a obrigação angustiante de encontrar um ato transformador —são nossos sonhos de saída do mundo, de descanso e aposentadorias campestres e praianos, por exemplo.
Um paciente chega e anuncia triunfante: "Tenho uma novidade". Será que ele pensa que qualquer novidade seja boa, por ser novidade? Ou será que ele se envergonha da repetição, que lhe parece tornar sua vida trivial, indigna de ser vivida e contada? Qual seria a cura? A descoberta da novidade certa ou a descoberta de que a repetição é digna de ser vivida?

quinta-feira, maio 22, 2014

O Brasil existe? por Contardo Calligaris












Artigo da Folha de São Paulo

Na semana passada, os PMs e os bombeiros de Pernambuco entraram em greve, pedindo aumento salarial e benefícios. Será que é certo que a polícia cruze os braços para promover suas reivindicações, por justas que sejam? Não sei, mas o que me interessa hoje é outra questão.
A greve durou apenas três dias e não envolveu a Polícia Civil, que continuou operando de modo normal. Mesmo assim, o "caos" reinou imediatamente. Houve um aumento brutal de assassinatos, roubos, saques e arrastões.
No Recife, as ruas ficaram vazias e as lojas fechadas, enquanto escolas da rede estadual e universidades desistiram dos turnos da noite. No terceiro dia, a Polícia Militar voltou ao trabalho, talvez mais impressionada pela onda de violência do que pela multa imposta às associações da categoria.
Estou convencido de que não há ordem possível sem polícia e sem patrulhamento. Mas sempre pensei assim: se a polícia sumisse das ruas, o caos se instalaria aos poucos.
Imaginava uma progressão lenta: 1) os muros se cobririam de tags, o som de quem acha graça seria cada vez mais alto, aumentaria o número dos que cospem e urinam na calçada, os edifícios vazios se tornariam refúgio para o tráfico de crack, na paisagem urbana se multiplicariam as janelas quebradas e os carros depenados; 2) dessa forma, vingaria em todos nós a sensação de que não há nenhum cuidado com o espaço público: ele se transformou numa terra de ninguém, na qual se trata de medir se os outros nos quais esbarramos são ou não mais fortes do que a gente; 3) no fim, a sociedade se dissolveria, deixando a cada um a tarefa de descobrir se ele consegue matar antes de ser morto.
O tempo necessário para chegar do 1 ao 3 representaria a força e a qualidade de uma sociedade. Não sou especialmente otimista quanto à solidez das sociedades humanas (três semanas para ir de 1 a 3 já me parece de bom tamanho), mas uma sociedade que se dissolvesse em tempo zero, assim que a polícia saísse das ruas, seria uma sociedade de qualidade zero.
Em tese, as regras de convivência não existem só pelo policiamento: a patrulha da PM não é a única razão pela qual não roubo, não assalto, não estupro e não mato. Esses interditos estão também dentro de mim e dentro dos outros cidadãos.
Como é possível que, a polícia abandonando a rua, esses interditos sejam imediatamente silenciados? Será que, no país no qual vivemos, as regras do convívio social são válidas unicamente enquanto dura a presença ostensiva da repressão?
Se assim fosse, o país poderia distribuir passaportes, recolher impostos e até garantir direitos básicos etc., mas, de qualquer forma, sua classe dirigente e sua burocracia administrativa só justificariam sua autoridade por uma violência, implícita ou explícita, ou seja, como se fossem um exército estrangeiro de ocupação. Esse país seria uma zona de conflito onde se enfrentam corporações, grupos e indivíduos, todos sem interesse algum pelo bem comum.
Um país em que a validade das regras de convivência fosse apenas efeito de policiamento ostensivo só existiria como expressão geográfica, porque ele não seria um país no espírito de seus supostos cidadãos. Se esse for o caso do Brasil, seria bom nos resignarmos a tomar as providências que cabem: por exemplo, se a legalidade não é nada sem a força, talvez seja certo aplaudir os que prendem bandidos aos postes e criar grupos de vigilantes.
Enfim, no dia 14 passado, na Folha, o ministro Rebelo encorajou os brasileiros a deixar de protestar contra a Copa, mostrar patriotismo e torcer pela seleção e pelo Brasil. Tudo bem, a seleção, a gente conhece, e podemos torcer por ela —mas o Brasil, será que ele existe?
Se uma sociedade se dissolve em menos de 24 horas porque sua polícia entra em greve, é que essa sociedade mal existia.
O problema da Copa não são as obras atrasadas, nem o que foi eventualmente roubado na sua construção. O fracasso da preparação da Copa não são os estádios, os hotéis e os metrôs inacabados: o fracasso é a sensação de que falta um país pelo qual torcer. É disso que se queixam as massas quando dizem que não querem a Copa.

Nota positiva. Houve famílias em Pernambuco que, na quinta-feira, procuraram devolver o que os filhos tinham roubado nos saques da véspera. Alguns choravam de humilhação. Não deveriam; eles são a razão que nos sobra para ter esperança: eles são nossa seleção.


quarta-feira, abril 09, 2014

Nem tudo é mentira em "Psi"- Contardo Calligaris









Conheço Contardo Calligaris há dez anos. Sou, como ele diz, uma incansável correspondente. Ai vai uma ponta de ironia- acostumei com este lado dele. É sempre surpreendente. Respondeu estas questões a meu pedido.


1- Sabemos de sua paixão por cinema, da sua importância para sua formação, ao ler seu segundo romance “A mulher de branco e vermelho” visualizei cenas.
O desejo está sempre em outro lugar, costuma dizer, hoje escritor, sonha com filmes? O seriado seria um caminho para um longa-metragem?

Na verdade, foi o seriado que se meteu, enquanto eu estava pensando (um pouco mais do que isso) num longa que adaptaria "O Conto do Amor". Hoje, não sei mais. Tem uma rapidez da escrita e da realização televisivas que me seduz e me diverte. Além disso, como diz a propaganda, HBO não é televisão (ou seja, é quase cinema).


2- Os dois primeiros episódios trazem um personagem generoso sem sentimentalismo, como você gosta de se mostrar. A amiga Valentina vai mais longe na generosidade. Ela seria um alter ego de Antonini? Seu ideal do ego?

É uma sugestão interessante: ter uma mulher como ideal do ego (antes de confirmar, teria que pensar nas consequências para minha vida sexual…).


3- Você tem simpatia por pessoas que vivem fora dos padrões de normalidade, nestes episódios traz novamente- a conheci num artigo, depois em sua peça teatral- a moça que engole fogo, o que o fascina nesta personagem, você, Contardo, não o Carlo?

Na verdade, acho que tenho mais antipatia pela normalidade do que simpatia pelos que vivem fora dos padrões. O que me fascina na Isa é a liberdade da rua e a coragem de dançar na esquina. Há, nela, como havia na malabarista que conheci, uma beleza de felino selvagem. 


4- No seriado você apresenta situações inusitadas, que alguns estranharam. Vi como algo que poderia acontecer caso escolhêssemos caminhos diversos, menos preconceituosos, se aceitássemos as diferenças com naturalidade, sem receios. Sua intenção foi esta?

Não há nada ou quase nada no seriado que não seja um fragmento de realidade cotidiana (clínica ou não). Quase sempre, tivemos que reduzir a estranheza (não aumentá-la), porque o que é verdadeiro, às vezes, não parece verossímil (Aristóteles já notou isso). O inusitado é, como se diz, relativo: eu acho inusitada a maioria dos padrões da trivialidade…Também, você tem razão, para esbarrar numa realidade um pouco fora dos padrões, é preciso ter a coragem de viver de peito aberto. No fundo, a gente vive as experiências que a gente se permite (e que a gente merece) …


5- O coveiro gosta de música erudita, o homem do cemitério da Consolação- em quem ele foi baseado- tem cultura musical?

Não, o interesse pela música de Severino foi inventado, mas os concertos no cemitério acontecem realmente (assim como realmente há carpideiras profissionais). Dos dois coverios que inspiraram a personagem de Severino, um publicou dois ou três romances e o outro é quem organiza as visitas culturais ao cemitério. 


6- Você participou, direta ou indiretamente, da escolha dos atores?

Não houve nenhuma decisão de produção que não passasse por minha aprovação.


7- Conte algo curioso sobre este capítulo, please.


Oops, qual capítulo? O próximo, de domingo que vem, é o episódio 5. O que tem de curioso é que eu mesmo dei uma de Hitchcock e fiz uma figuração nesse episódio. E Alex Gabassi (o diretor de 4, 6, 7 e 8) também fez uma, na mesma circunstância…


Mais sobre o seriadoaqui.

sexta-feira, março 28, 2014

Sobre "Psi"





"Psi", o novo seriado da HBO, traz histórias de Contardo Calligaris. Foi produzida por ele, que também participou do roteiro.

Carlo Antonini, o protagonista, como Calligaris, é psicólogo e psicanalista, no seriado também psiquiatra. É o personagem do livro "A mulher de vermelho e branco".  Ele contracena com uma amiga médica, psicanalista- é com ela que troca ideias. Ela seria um alter ego, ou o ego ideal- da psicanálise- aquilo que gostaria de ser. Ela é naturalmente generosa, enquanto ele é um generoso contido.

Não há semelhança com "Em tratamento" porque gira em torno do psicanalista e não dos clientes.

Vi os dois primeiros capítulos e gostei muito. Produção excelente, fotografia, roteiro, atores- tudo correto, não tenho senões. A história, no meu ponto de vista, foi ótima.

Há certa estranheza, você pensa: "Como?" Mas logo descobre que o que parece bizarro é um novo ponto de vista. Se não fôssemos preconceituosos, se aceitássemos as diferenças com naturalidade, o que vemos seria plausível.

Cada episódio coloca foco sobre algo diferente. Uma menina autista, uma jovem que se autoflagela. Há um alcoólatra que tem voz, uma mãe que carrega a filha para a rua, onde trabalha, um coveiro interessante.
Foi inspirado no coveiro do Cemitério da Consolação, que existe.

Vejam e comentem.


quinta-feira, outubro 31, 2013

"O som, a fúria e as cartas" por Contardo Calligaris



Artigo da Folha de São Paulo
É primavera, época de limpeza. Por favor, não jogue fora levianamente cartas e papéis manuscritos

1) Para mim, Ricardo 3º era um personagem shakespeariano, que conquistou o poder por caminhos tortos e, na véspera da batalha que lhe foi fatal, ouviu os fantasmas de suas vítimas lhe dizerem o inesquecível "Despair and die!", desespere-se e morra.
Certo, eu sabia que Ricardo 3º fora mesmo o último rei da casa de York, no fim do século 15, cem anos antes que Shakespeare escrevesse sua história. Mas sabia sem saber.
Isso, até quinta-feira passada, quando tive entre as mãos um documento assinado por ele (quando era duque de Gloucester, antes de dar um trato nos seus sobrinhos e se tornar assim rei da Inglaterra). Passei de leve um dedo sobre sua assinatura e foi como se sentisse a pegada de sua brutalidade, de sua ambição e de sua tragédia.
2) Eduard, o segundo filho de Albert Einstein e Mileva Maric, nasceu em 1910. Ele queria ser médico e psiquiatra. Aos 22 anos, Eduard entrou, pela primeira vez, no Burghölzli, a famosa clínica de Zurique onde Jung foi assistente de Bleuler. Mas Eduard não entrou como médico --entrou como paciente. No Burghölzli, aliás, ele morreu, internado, em 1965.
Numa carta a Mileva, em 1928, Einstein, referindo-se obviamente a Eduard, escreve que ele considera a psicanálise "como uma moda extremamente perigosa... Ninguém será submetido a esse tratamento com meu consentimento".
Quatro anos depois, Eduard era internado, e Einstein, convidado a escolher um contemporâneo com quem dialogar sobre a guerra, escolhia Freud. Mais quatro anos, e Einstein, num breve bilhete, declararia a Freud que ele entendera, enfim, a teoria freudiana da repressão. Naquela época, Einstein mandava a Eduard obras de Freud, declarando não ter dúvidas sobre a teoria freudiana. Será que era para agradar a Eduard, que guardava um retrato de Freud na parede de seu quarto?
Na quinta passada, com meu alemão capenga, eu procurava as palavras, na carta de 1928: "...eine überaus gefährliche Mode". A loucura de um filho é o desespero de qualquer inteligência.
3) Num dia de 1911, Georges Courteline, escritor e dramaturgo francês, recebeu um bilhete escrito por um menino que gostara muito de um texto dele e até dizia ter tentado em vão traduzir o tal texto para o alemão a fim que a babá dele, alemã, entendesse e apreciasse.
A assinatura do bilhete, que estava agora nas minhas mãos, era: "Jean-Paul Sartre, seis anos e meio".
O bilhete tinha um cheiro de livros, misturado com um perfume de ternura materna. Como Sartre diria contando sua infância, a vocação de escrever foi encontrada na paixão de ler.
4) Jean Cocteau recebe uma carta de um jovem admirador, de 19 anos, que acaba de fundar um cineclube, o qual vai estrear com a apresentação de "Sangue de um Poeta". O clube só viverá se o próprio Cocteau prestigiar a sessão com sua presença. Cocteau não foi. A carta é assinada: François Truffaut.
Penso nos convites que recuso, nos livros de estreantes que deixo de ler, nas amizades que não vingam.
5) Mas, na quinta passada, nada me emocionou tanto quanto uma breve carta do Marquês de Sade à sua mulher, que nunca deixou de amá-lo (a recíproca sendo provavelmente verdadeira). A carta é escrita do asilo de Charenton, onde Sade ficou preso como louco, de 1801 a 1814 --porque sua sogra não gostava dele e, no fundo, porque ele nunca renunciou a pensar e escrever sobre as fantasias que exaltavam seu desejo. Olhei para meus dedos, na esperança que algo dele tivesse entrado em mim, por osmose.
Em suma, passei horas com Pedro Corrêa do Lago, que me mostrou alguns dos manuscritos que ele reúne há mais de 40 anos. A coleção é extraordinária por sua extensão e variedade --e pela inteligência de Pedro (para se ter uma pequena ideia, ver os livros "Cinco Séculos a Papel e Tinta", da editora Afrontamento, ou "True to the Letter", da Thames and Hudson).
A história é mesmo, como diria um colega de Ricardo 3º, um conto sem sentido, cheio de som e fúria, mas ela é bonita ou mesmo sublime quando, por algum milagre, ela se torna concreta, como aconteceu para mim, na quinta-feira passada. Este é o poder do manuscrito: ressuscitar os corpos, pelo gesto da mão que persiste, inscrito na forma das letras.
É primavera, época tradicional de limpeza. Doe as velharias que você não usa mais, mas, por favor, não jogue fora levianamente cartas e papéis manuscritos.

quinta-feira, setembro 12, 2013

De onde vêm os terroristas, por Contardo Calligaris





Texto de 2011

Segunda-feira, em Brookline, Massachusetts. Estou sentado num café numa Harvard Street cheia de bandeiras. Na calçada oposta, vejo avançar, fendendo os passantes, uma mulher muçulmana, de véu até os pés -um xador, que deixa o rosto exposto.
Alguns dão mostra de indiferença. Véu? Qual véu? Olham para o chão, escrutam o horizonte ou envolvem-se numa conversa animada com quem estiver a seu lado. Isso com naturalidade excessiva, afetada. Outros tentam captar o olhar da mulher. Não conseguem, mas, mesmo assim, destinam-lhe amplos sorrisos. Todos, em suma, embora de maneira diferente, parecem decididos a mostrar que, nessa cidade progressista, não confundimos islã com terror.
Imagino que, em outros lugares, ela acabará encontrando um gesto hostil. Alguém receberá o passeio dessa mulher, seis dias depois do ataque terrorista contra os EUA, como uma provocação.
Ao atravessar a rua, ela aparece de frente para mim. Descubro que sua mão esquerda está fechada com força ao redor da mão de um filho de oito ou nove anos. O moleque acompanha-a numa mistura de obediência com revolta. Olha para o chão e estica o braço, mantendo-se meio metro atrás da mãe. Quando eles passam na minha frente, o menino arrasta os passos. A mãe puxa seu braço, apostrofando-o numa língua que não entendo. Parece-me reconhecer um nome: Ahmed. O menino, envergonhado, responde sem sotaque: "OK, just don't scream, please" (tá bem, só não grite, por favor). Fico com a impressão de que a mãe não entende inglês.
Dificilmente Ahmed esquecerá esse passeio, em que acompanhou o desfile da mãe como símbolo e depositária das tradições de seu grupo étnico e religioso. Não esquecerá o paradoxo pelo qual uma mulher coberta até os pés chamava e desafiava a atenção nas ruas de um mundo em que, de regra, é tirando o véu que a gente conquista o olhar dos outros.
Se ficar nos EUA alguns anos, Ahmed procurará homogeneizar-se, identificar-se com uma turma qualquer: mesmas músicas, mesmas roupas, mesmos papos, talvez até mesma cerveja proibida (para ele duplamente).
Como Ahmed lidará com as mulheres? Extasiado pelos sites pornográficos na internet e olhando de boca aberta alguma Britney Spears de barriga de fora, ele gostará muito das moças desarrochadas do país em que ele tenta integrar-se. Mas sem nunca esquecer que a sua mãe não é mulher de recorrer a essa sedução escancarada -certamente, não foi assim que ela conquistou o amor e o desejo do pai. Quem sabe Ahmed se lembre justamente do dia em que a mãe fez de seu véu uma bandeira silenciosa. E sinta a contradição passada entre a vergonha infantil por não se confundir na massa e o orgulho de ver sua mãe triunfante, intocável.
Ahmed será seduzido por mulheres ocidentais que lhe parecerão sempre mais fáceis e oferecidas do que elas são. Aliás, ele terá dificuldade para entender que elas possam recusar o desejo que, a seu ver, elas estimulam tanto. Gostará delas justamente por elas parecerem tão acessíveis e tão diferentes da mãe.
Ao mesmo tempo, ele terá desprezo por essas mulheres sedutoras. Será o jeito mais fácil para, embora seduzido, continuar venerando a mãe e a tradição da qual ela se fez porta-estandarte.
Escutando, por exemplo, jovens de origem muçulmana na França, é fácil constatar que, na comparação com a mãe, a mulher ocidental é sempre, em última instância, considerada como a vadia. Leva, no mínimo, três gerações de esposas "de fora" para que o espectro velado da mãe ou da avó deixe de ser o paradigma da honra.
Em suma, fraqueza diante da sedução e desprezo pela sedução: eis uma contradição que promete uma séria dificuldade de integração. Pois a modernidade ocidental é fundada na sedução. Todas as relações (não só amorosas) são regidas pela aspiração e pela necessidade de que os outros gostem de nós. Seduzir é a regra da vida social e o caminho do sucesso para pessoas e para produtos.
Precisará de pouco para que jovens com uma história parecida com a de Ahmed vejam o mundo ocidental inteiro como uma gigantesca tentação carnal, um universo pecaminoso por essência, o "grande Satã".
Os terroristas que atacaram o World Trade Center e o Pentágono viveram tempos longos no Ocidente. Frequentaram universidades e escolas de pilotagem. Não eram pastores descidos das montanhas. Os comentadores estranham: como é possível? Moraram entre nós tanto tempo e puderam fazer isso? Ou seja, será que nossa sedução não funcionou? Justamente: ela funcionou demais. A ponto de eles terem decidido destruir o objeto de seus desejos. A interpretação política de seus atos será sempre insuficiente: as torres gêmeas, para eles, eram símbolos não tanto de poder quanto de tentação.
Sua "guerra santa" foi isto: mataram os infiéis nos quais receavam se transformar. E mataram a si mesmos para nunca mais serem seduzidos.
Agora, se o deus que eles foram encontrar entende alguma coisa de inconsciente, eles, uma vez em sua presença, devem estar encarando uma séria decepção.

Artigo da Folha de São Paulo- 20 de setembro de 2011

Modernidade e tristeza by Contardo Calligaris









Via Folha de São Paulo

No século 4 da nossa era, nos mosteiros da Europa, a tristeza, "accidia" em latim, era considerada pecado grave, e as regras monásticas se esforçavam para identificá-la e combatê-la. Mesmo assim, muitos monges continuavam tristes.
A Europa era uma desolação. Das janelas de seus oásis de (relativa) tranquilidade, os monges podiam enxergar o horror. A cultura clássica, grega e romana, era esquecida --ignorada pela imensa maioria de iletrados ou perdida no descaso pelos manuscritos antigos. O desabamento do Império Romano transformara o território em uma terra de ninguém, em que o poder ficava com as hordas de mercenários e bandidos ocasionais. Suficiente para qualquer um ficar triste.
Mas talvez haja uma razão menos contingente para a tristeza aparecer como uma nova aflição, bem na hora em que a cultura clássica deixava seu lugar ao cristianismo. É irônico, aliás, que a dita tristeza ameaçasse logo os monges, que eram guardiões dos textos gregos e romanos que sobravam, mas que também praticavam o palimpsesto -- a arte de apagar os manuscritos antigos para usar os pergaminhos novamente, copiando os textos da nova religião.
Note-se também que, desde a acídia dos monges, a tristeza parece ter se tornado um traço distintivo da cultura ocidental e, especificamente, da modernidade, do "spleen" romântico até a depressão clínica, hoje diagnosticada a esmo. Por que, então, seríamos culturalmente tristes?
Naquele momento, no século 4, morria uma cultura para a qual o que importava era viver o momento, e nascia outra, para a qual nossa vida era apenas uma provação, pela qual ganharíamos ou perderíamos a chance de uma suposta eternidade feliz.
Desde então, é como se a vida que importa nunca mais fosse a que estamos vivendo; o pátio de casa não basta, somos infelizes e insatisfeitos porque a vida "verdadeira" nos espera lá onde ainda não chegamos.
A cultura clássica, que morria, tinha valorizado um estilo de vida norteado por um uso discreto e constante dos deleites da mente e da carne. A cultura cristã, que nascia, apontava no prazer um parente do vício e valorizava o sacrifício e a renúncia, como se Deus tivesse um apreço por nosso sofrimento.
Não sei por que Deus reconheceria algum mérito nas renúncias da gente. Freud responderia, provavelmente, que esta é a função social da religião: controlar nossos impulsos, impondo as renúncias que são necessárias para que a convivência social se torne possível. Muitos iluministas pensaram a mesma coisa.
Graças ao cristianismo, ao considerar castigos e recompensas na eternidade, nós nos tornaríamos governáveis -- sem medo do além, não haveria convívio possível (o paradoxo aqui é que essa consideração não inibiu a própria Igreja, que durante séculos e séculos foi uma instituição de crueldade inaudita).
A cultura clássica (Epicuro, por exemplo) preferia tratar os humanos como adultos e apostar que eles se disciplinariam sem ter que acreditar em um além e sem precisar de um mercado de punições e prêmios eternos: a consciência da finitude da vida seria suficiente para torná-los comedidos e dignos.
Em um jantar na casa de Thérèse Parisot, em dezembro de 1970 (sei a data pois a conversa foi sobre as condenações dos processos de Burgos), Jacques Lacan, o psicanalista francês, chegou com um pequeno volume in-octavo. Era um panfleto anônimo, segundo o qual o verdadeiro messias não era Cristo, mas Epicuro (peço que se manifestem os bibliófilos que reconhecerem o livro). Certamente, a obra era a provocação de um libertino dos séculos 17 ou 18.
Mas a questão continua valendo: será que uma modernidade seria possível sem a desvalorização do momento presente e sem a repulsa ao prazer que são partes da mensagem cristã e que talvez sejam a fonte de nossa tristeza crônica?
Qual modernidade seria possível com Epicuro, e não contra ele? Somos modernos graças ao cristianismo ou somos modernos graças ao materialismo e à disciplina dos prazeres que atravessaram a modernidade perseguidos e silenciados pelo cristianismo?
Para inventar uma resposta, um livro imperdível: dos ensaios que li nos últimos 15 anos, nenhum me prendeu e me tocou tanto quanto "A Virada, o Nascimento do Mundo Moderno", de Stephen Greenblatt.

quinta-feira, agosto 01, 2013

Contardo Calligaris- Hedonistas?





01/08/2013
Folha de São Paulo

Hedonistas?




O papa Francisco, quando era o cardeal Jorge Bergoglio, de Buenos Aires, conversava de religião com o amigo rabino Abraham Skorka. Os diálogos estão agora num livro, que, no Brasil, acaba de sair, "Sobre o Céu e a Terra" (editora Paralela).
Os dois religiosos tratam de matérias escabrosas --as quais não são apenas contracepção, células-tronco, divórcio, aborto e casamento gay, mas também as questões que desafiam a fé de qualquer um: por que a presença do mal no mundo? Deus é apenas uma resposta fantasiosa a nosso mal-estar psíquico? A religião foi inventada para servir de ópio dos povos?
Como ambos são decididos a parecerem simpáticos e razoáveis, o texto é agradável e um pouco previsível. Não que eu esperasse grandes viradas teológicas: de qualquer forma, um livro para o grande público não seria o lugar para isso. Mas esperava mais ousadia no pensamento.
Alguém dirá que ousadia não é coisa para papa --citação de Francisco na orelha do próprio livro: "A verdade religiosa não muda, mas se desenvolve e vai crescendo".
Sinto muito, a igreja tem uma história (muitas vezes sangrenta) de mudanças. Só para dar uma ideia, nos 2.000 anos desde que os apóstolos se reuniram em Jerusalém:
- Faz só 1.700 anos que acreditamos que o Pai e o Filho teriam a mesma natureza;
- Faz menos de 1.600 que acreditamos na maternidade divina de Maria, e por volta de 1.400 que acreditamos na perpétua virgindade da mesma;
- Faz apenas um pouco mais de 800 anos que o celibato se tornou obrigatório para o clero, e menos ainda que confissão e comunhão se tornaram obrigatórias uma vez por ano, na Páscoa;
- Faz por volta de 600 anos que a gente inventou o Purgatório;
- E é só desde 1870 que o papa é dogmaticamente infalível.
À vista dessa história de reviravoltas, em que cada um pode se tornar herético (o que, hoje, no máximo, vale uma excomunhão sem grande interesse, mas, no passado, acarretou consequências fatais para muitos), ninguém sabe as surpresas que nos reserva a igreja de amanhã.
Quanto a mim, espero há tempos a reabilitação dos cátaros, que são minha seita preferida (exterminada no século 12). Eles tinham a melhor solução teológica ao problema do mal na Terra e da estupidez dos homens: basta pensar que o mundo seja criação do diabo, e não de Deus.
Enfim, entre os muitos assuntos ao redor dos quais papa Francisco e o rabino Skorka concordam, um capturou minha atenção. Francisco diz "nesta civilização consumista, hedonista, narcisista...", e o rabino Skorka, "...em uma concepção hedonista da vida, egocêntrica, ególatra".
Embora o papa e o rabino não desprezem todos os prazeres terrenos (isso significaria desprezar a criação --pecado gravíssimo), ambos parecem convergir com um clichê dos críticos culturais contemporâneos, considerando que "hedonismo" é palavrão: a procura do prazer como bem único ou supremo parece ser o que eles menos gostam na nossa época. No Rio, aliás, Francisco mencionou o prazer entre os "ídolos" que nossa época colocaria no lugar de Deus. Algumas notas.
1) A correlação entre hedonismo e egoísmo é, no mínimo, problemática. Exemplo. Quem é mais egoísta? Alguém que se priva de toucinho na sexta-feira para ganhar o Paraíso? Ou alguém que transa quanto mais puder, sempre achando que o que ele mais gosta é ver sua parceira ou seu parceiro gozar?
2) Uma cultura que, de maneira quase unânime, não para de lamentar seu "hedonismo", só pode ser radicalmente anti-hedonista, ou seja, oposta ao prazer como bem. É fácil constatar que inclusive os que acreditam na existência de uma alma imortal sentem a finitude da vida; agora, é espantoso que, mesmo assim, o prazer continue tendo, para nós, uma conotação moral negativa. E a renúncia ao prazer (seja ela para satisfazer a Deus ou ao médico higienista), uma conotação moral positiva.
3) Nos três grandes monoteísmos, o prazer é facilmente culpado ("não se cansem de pedir perdão", encorajou papa Francisco). Alguém dirá que isso acontece sobretudo no cristianismo porque Deus se manifestou pelo sofrimento e não pelo prazer de seu filho. Essa é uma visão teológica à qual não sei contribuir. Mas a questão cultural correspondente é: o que fez o sucesso de uma religião que se fundou na ideia da paixão necessária do filho de Deus e, por consequência, na ideia de que o sofrimento e a renúncia ao prazer, de alguma forma, ganham pontos?
4) Só para lembrar: não era assim entre os pagãos, nem entre os libertinos dos séculos 16, 17 e 18.


quinta-feira, junho 27, 2013

Contardo Calligaris: "Qual baderna?"








Em agosto de 1792, Maria Antonieta devia achar que os que se juntavam na frente das Tuileries eram baderneiros ignorantes.
Em dezembro de 1773, o governador inglês da província de Massachusetts devia pensar a mesma coisa dos "filhos da liberdade", que se disfarçavam de índios, subiam nos navios, jogavam o chá no mar e não queriam pagar os impostos.
Na época, Samuel Adams explicou que, mesmo se esses homens fossem apenas vândalos descontrolados, eles seriam, de fato, os defensores dos direitos básicos do povo das colônias.
A maioria dos paulistanos (e, suponho, dos brasileiros) pensa como Samuel Adams e deseja que as manifestações continuem, por uma razão que está muito além da tarifa dos ônibus: a relação do poder público com os cidadãos do Brasil é, sistematicamente, há muito tempo, de descaso e desrespeito, se não de abuso.
A escola e a saúde públicas são o destino resignado dos desfavorecidos. A insegurança se tornou uma condição existencial, tanto no espaço público quanto dentro da própria casa de cada um. O atraso da Justiça garante impunidades iníquas.
Claro, nossa arrecadação per capita é menos de um terço da dos EUA, por exemplo. Ou seja, talvez tenhamos os serviços públicos que podemos nos permitir.
Convenhamos, seria mais fácil aceitar essa triste realidade 1) se a corrupção não fosse endêmica e capilar, especialmente na administração pública, 2) se os governantes baixassem o tom ufanista de nossos supostos progressos e sucessos, 3) se a administração pública não fosse cronicamente abusiva e desrespeitosa dos cidadãos e de seus direitos.
Além disso, o dinheiro no Brasil compra uma cidadania VIP, na qual não só escola, saúde e segurança são serviços particulares, mas a própria relação com a administração pública é filtrada por um exército de facilitadores e despachantes.
A sensação de injustiça é exacerbada pela constatação de que muitos representantes procuram ser eleitos para ganhar acesso à dita cidadania VIP. Por isso, hoje, circulam aos borbotões, na internet, propostas de reforma política em que, por exemplo, 1) os membros do Legislativo e do Executivo seriam obrigados a recorrer, para eles mesmos e para seus filhos, aos serviços da educação e da saúde públicas, 2) os congressistas não teriam nenhum regime privilegiado de aposentadoria, 3) os congressistas não poderiam votar o aumento de seus próprios salários etc.
Para piorar, os representantes parecem se preocupar pouco com os compromissos de seu mandato e muito com sua própria permanência nos privilégios do poder. Por isso, por exemplo, eles compõem alianças que desrespeitam e humilham seus próprios eleitores.
Nesse contexto espantoso, é patética a indignação com os "baderneiros" e mesmo com a margem de delinquentes comuns que se agregaram às manifestações.
O poder, quando não é efeito de graça divina, vem dos próprios cidadãos e é condicional: só posso reconhecer e respeitar a autoridade que me reconhece e me respeita. Uma autoridade que me desrespeita merece uma violência equivalente à que ela exerce contra mim.
Além disso, é bom não perder o senso das proporções. "Olhe, olhe!", grita um repórter, enquanto a tela mostra alguém que foge de uma loja saqueada levando algo no ombro. Tudo bem, estou olhando e não estou gostando, mas minha indignação é mais antiga e por saques muito maiores.
Outro repórter pensa nos coitados que perderão o avião, em Cumbica, por causa dos manifestantes que bloqueiam o acesso ao aeroporto. Mas o verdadeiro desrespeito é o de nunca ter construído uma linha de trem entre São Paulo e o maior aeroporto do país.
O ministro Antonio Patriota se declarou indignado com o vandalismo contra o Palácio do Itamaraty. Com um pouco de humor negro, eu poderia suspeitar que os apedrejadores talvez tenham precisado um dia dos serviços de um consulado no exterior. Mas, deixemos. Apenas pergunto: se esses forem vândalos, então o que são, por exemplo, os latifundiários desmatadores da Amazônia?
Enfim, à presidenta Dilma gostaria de dizer: não acredito que os "baderneiros" das últimas semanas tenham envergonhado o Brasil --nem mesmo quando alguns depredaram o patrimônio público. Presidenta, você sabe isto mais e melhor do que muitos de nós: o que envergonha o Brasil é uma outra baderna, bem mais violenta, que dura há 500 anos e que gostaríamos que parasse.

Artigo da Folha de São Paulo
foto google

sexta-feira, maio 31, 2013

Contardo Calligaris- Somos muitos ou somos poucos?






Hoje vou publicar o Contardo aqui porque me fez rir- está hilário- eu achei- conheço sua ironia.
Adorei me imaginar sentadinha com todos no juízo final.


Da Folha de São Paulo

30/05/2013 

Na sexta passada, imobilizado na av. Nove de Julho enquanto se aproximava a hora da sessão de cinema para qual tinha adquirido meu ingresso, eu pensava que, decididamente, somos muitos. Em compensação, sozinho, à noite, numa fazenda na região do Urucuia, em Minas Gerais, ou numa ilha de Angra, já me aconteceu de pensar que somos muito poucos.
No fim de semana, li o novo livro de Dan Brown, "Inferno" (editora Arqueiro). O romance me divertiu menos do que "O Código Da Vinci" e "Anjos e Demônios" (ambos da editora Sextante); mesmo assim, terminei em dois dias.
O tema da vez é o crescimento demográfico. O vilão da história acha que o mundo tem um único problema sério: a humanidade está crescendo de tal forma que, em breve, sua subsistência se tornará impossível.
Todas as inquietações ecológicas (a perspectiva da falta de água potável ou de alimentos, o aquecimento global etc.) seriam, de fato, consequências do crescimento enlouquecido de nossa espécie --fadada a desaparecer por seu próprio sucesso.
Quantos humanos nasceram na Terra desde a aparição do homem? Há estimativas para todos os gostos. Segundo uma delas, mencionada no livro, foram 9 bilhões desde o começo, e 7 desses 9 estão vivos hoje.
A boa notícia é que, se o Juízo Final fosse hoje e todos os mortos voltassem, haveria sem problema espaço para todos ficarmos sentados durante o julgamento divino. Mas o cálculo não deixa de ser inquietante.
Mesmo sem acreditar na estimativa que acabo de mencionar, é certo que o crescimento populacional se acelerou de uma maneira bizarra. Éramos 1 bilhão em 1804, levamos 150 anos para chegarmos a 3 bilhões (nos anos 60), e passamos dos 7 bilhões em 2011. Em 2050 poderíamos ser 10 bilhões.
Obviamente, num primeiro momento, nem todos sofreriam de forma igual --afinal, desde que viajo em classe executiva, nunca encontrei um problema de "overbooking".
Mas, no fim, será que vai caber todo mundo? Não seria honesto desejar grandes epidemias purificadoras?
Ora, enquanto Dan Brown me convencia de que somos muitos, a "Veja" de sábado passado publicou uma matéria de capa sobre as mulheres que decidem não ter filhos. O olho anunciava: "o número de famílias brasileiras sem filhos cresce três vezes mais do que o daquelas com crianças".
Em geral, quanto mais um povo se desenvolve cultural e economicamente (ou seja, quanto mais um povo se parece com o Ocidente moderno e desenvolvido), tanto menor é o número médio de filhos por família.
A explicação desse fenômeno (quase uma regra sem exceções) é que, na cultura ocidental moderna, os filhos são criados e amados na esperança de que realizem os sonhos frustrados dos pais.
E, se essa for nossa expectativa, melhor ter um ou, no máximo, dois filhos, para podermos concentrar nossos esforços na hora de fazê-los felizes. Isso sem contar o número (crescente em nossa cultura) de homens e mulheres que decidem não ter filhos e se concentrar em sua própria felicidade.
Enfim, para que a espécie não encolha, é preciso que, em média, haja 2,1 filhos para cada dois adultos --ou seja, se todos casarem, nove em dez casais devem ter dois filhos e um deve ter três. Uma boa metade da população da Terra (incluindo o Brasil) não está fazendo o necessário para repor seus mortos.
Temporariamente, haverá (já está havendo) deslocamento de populações dos lugares menos modernizados e mais pobres (onde a população ainda cresce) para os lugares mais ricos, onde ela diminui. Mas, e depois disso, se todos se "modernizarem"?
Em conclusão, quem tem razão, "Veja" ou Dan Brown? Vamos desaparecer porque estamos crescendo demais? Ou vamos desaparecer por extinção, como os pandas, que deixaram de se reproduzir como deveriam?
Não sei. Poderíamos sumir numa catástrofe ecológica antes de ter diminuído o suficiente para que a Terra nos aguente --ou antes de ter inventado uma nova maneira de viver, que a Terra aguente melhor. Ou, inversamente, poderíamos minguar até sumir.
De todo modo, a ideia do fim de nossa espécie é fascinante -um alívio, por tornar nossa morte individual menos relevante, e um horror radical, por nos condenar a morrer de novo e para sempre, no esquecimento.
Para meditar sobre nosso sumiço futuro, confira o "O Mundo sem Ninguém", no History Channel (www.migre.me/eLEu2) ou o original "Life After People" (no YouTube), com seu aplicativo para celular.

quinta-feira, maio 02, 2013

Contardo Calligaris- Depois de maio








Por sorte, não perdi "Depois de Maio", de Olivier Assayas.

Nas últimas semanas, eu tinha visto o trailer repetidamente, e imaginava que o filme me aborreceria com um amontoado de chavões ideológicos, ou seja, daquelas frases que, em Maio de 1968, estofavam nossos peitos e, hoje, são inertes, quase desprovidas de sentido.

Ora, tanto na nossa vida quanto na história coletiva do século 20 e 21, Maio de 68 e os anos 1970 foram muito mais do que as convicções e as palavras de ordem da luta política.

Claro, na época, nada nos parecia mais importante do que o sucesso ou o fracasso daquelas convicções. Mas fazer o quê? Foi assim: saímos à rua para fazer uma revolução e acabamos fazendo outras, que não eram previstas, mas talvez fossem melhores do que a que tínhamos planejado.

Não estou falando da revolução nos costumes e na tolerância das diferenças. Falo de outra revolução ainda, que, nos últimos anos, começou a ser contada, indiretamente, nos filmes que tratam de Maio 68.

Os melhores, para mim, eram "Os Sonhadores", de Bernardo Bertolucci, e "Amantes Constantes,", de Philippe Garrel. Agora há "Depois de Maio", de Olivier Assayas, que não é apenas o filme sobre Maio que mais me tocou até hoje. É também um dos filmes (sobre Maio ou não) que mais me tocaram nos últimos anos.

Assayas é mais jovem do que eu. Eu tinha 20 anos em 68; ele tinha 13. Mas ambos fomos jovens nos anos 1970 na França; eu estava, por exemplo, nas manifestações de setembro de 70, durante a greve de fome de Alain Geismar.

Há uma pergunta que se colocam quase todos os que viveram "de dentro" Maio 68 e os 1970: o que eu fiz que, assim como eu sou hoje, eu não faria? E ter me transformado, isso é bom ou ruim?

No filme "Depois de Maio", é citado um grande poeta beat dos anos 1950. Em "Gasoline", de Gregory Corso, há um poema ("Tenho 25 Anos"), em que, depois de evocar os poetas que morreram jovens (Shelley, Chatterton, Rimbaud), Corso declara que ele odeia os velhos poetas, "especialmente os que se retratam" e que contam sua juventude sussurrando: "Eu fiz aquilo então, mas isso foi então".

Desses velhos poetas, Corso quer arrancar a língua fora, para que parem de se desculpar.
Será que sou um desses velhos poetas? Vistos de hoje, aqueles dias me parecem uma comédia de erros? E, se não foram, qual foi seu valor?

É que aqueles dias e anos inventaram um novo hedonismo da vida (que talvez já tenha sido perdido, de novo): era um prazer de viver, mas cuidado --levando a vida extremamente a sério. Esse prazer tinha a ver com o quê?

Por exemplo, com uma custosa fidelidade ao desejo da gente, que fosse de ser pintor, militante ou perdido nas drogas.

Ou ainda, com uma extraordinária densidade cultural, uma raiva de ler e estudar, como se colocar as questões certas fosse a condição para viver a vida intensamente.

Em 1970, num seminário de literatura inglesa contemporânea, na Universidade de Genebra, cada
estudante foi convidado a apresentar um autor preferido. Escolhi Gregory Corso. No meio da exposição, me empolguei e confesso que atribui a Corso, como se fossem dois versos de um poema dele, as primeiras linhas (memoráveis) de um romance de espionagem de Len Deighton, que eu acabava de ler.

Por sorte minha, ninguém parecia conhecer nem Corso nem Deighton, e não fui desmascarado.
O começo de "An Expensive Place to Die", de Len Deighton ("O Preço da Morte", Nova Fronteira), tinha se tornado meu hino pessoal à vida que se justifica por si só, pela aventura que ela é. Deighton começa assim: "The birds flew around for nothing but the hell of it" (o sentido é: os pássaros voavam pelo céu pelo puro prazer de voar --mas em inglês é muito melhor).

O filme de Assayas fala do prazer da vida levada a sério em duas sequências magníficas e surpreendentemente longas: a abertura, com os estudantes fugindo de um ataque da polícia, e uma pichação noturna, também com fuga dos estudantes perseguidos pelos vigias.

Nessas cenas, há o fôlego dos estudantes e dos policiais, que correm, há o fôlego do cineasta que consegue manter a sequência, há o fôlego dos espectadores e há, enfim, mais um fôlego, do qual talvez todos precisemos: é o fôlego de se levar a sério, ou seja, por exemplo, de ousar ir às ruas, pelo prazer de declarar o que a gente pensa, desafiando o medo.

quarta-feira, maio 01, 2013

Contardo Calligaris- Jovens delinquentes- 18/04/2013



'Prisões' de menores já têm lista de espera



Na noite de terça-feira passada (dia 9), em São Paulo, Victor Hugo Deppman, estudante de 19 anos, foi assassinado. As câmeras mostram que ele entregou seu celular, e o assaltante o matou sem razão, com um tiro na cabeça.
O criminoso se entregou à polícia declarando que faltavam dois dias para ele completar 18 anos. Com isso, pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), aos 20 anos e 11 meses no máximo, ele voltará a circular. A gente não pode nem deixar anotado o nome do assassino, para mantê-lo afastado de nossas vidas futuras: por ele ser menor, seu anonimato é preservado.
É assim que protegemos o futuro do criminoso, para que, uma vez regenerado pela mágica de três anos de internação (alguém acredita?), ele possa facilmente reintegrar a sociedade e ser um cidadão exemplar, nosso vizinho.
Obviamente, nos últimos dias, multiplicaram-se os pedidos de revisão do próprio ECA. Marcos Augusto Gonçalves (na Folha de segunda) observou que, na boca dos políticos, esses pedidos escondem décadas de descaso em matéria de segurança pública. Concordo. Mas, como não sou político, não vou deixar de discutir, mais uma vez, o estatuto do menor.
Por exemplo, sou a favor de baixar a maioridade penal, drasticamente, como acontece no Reino Unido, no Canadá, na Austrália, na Índia, nos Estados Unidos etc. --sendo que, na maioria desses lugares, o juiz tem a autonomia para decidir por qual crime um menor de 12 ou dez anos será, eventualmente, julgado como adulto.
Hélio Schwartsman (na página 2 da Folha de sexta passada) aconselhou prudência: seria melhor não "legislar sob forte impacto emocional" e, sobretudo agora, confiar apenas nas "considerações racionais". Ele quase me convenceu, mas...
1) Penso isso há muito tempo.
2) Se deixássemos de agir sob impacto emocional, nunca nada mudaria. Por exemplo, o conselho de esperar para que as emoções esfriem é o argumento dos fabricantes de armas a cada vez que, nos EUA, um exterminador invade uma escola e o Congresso propõe leis de controle das armas. Os fabricantes de armas querem que esperemos para quê? Pois é, para que a gente se esqueça e se desmobilize.
3) Conheço só uma consideração racional a favor da maioridade penal aos 18 anos, e ela não é boa: o córtex pré-frontal (zona do cérebro que controla os impulsos) não está totalmente desenvolvido na infância e na adolescência.
Tudo bem, se aceitarmos essa consideração, deveríamos aumentar seriamente a maioridade penal, pois o córtex pré-frontal se desenvolve até os 25 anos ou além. Além disso, deveríamos julgar como menores todos os adultos impulsivos, que nunca desenvolveram um córtex pré-frontal "satisfatório".
4) As outras "considerações racionais" (que deveriam prevalecer sobre o impacto das emoções) são apenas disfarces de emoções especificamente modernas que, à força de serem compartilhadas, se tornaram chavões ideológicos.
Três deles são corolários de nossa "infantolatria", ou seja, da paixão narcisista que nos faz venerar crianças e jovens porque, graças a eles, esperamos continuar presentes no mundo depois de nossa morte.
Primeiro, queremos que as crianças nos apareçam como querubins felizes como nós nunca fomos e nunca seremos. Por isso, preferimos imaginar que os jovens sejam naturalmente bons. Quando eles forem maus, atribuímos a culpa à sociedade e a nós mesmos. Portanto, não podemos puni-los, mas devemos, isso sim, nos punir.
Tendo a pensar o contrário: as crianças podem ser simpáticas, mas são más (briguentas, possessivas, invejosas, mentirosas, ingratas etc.); às vezes, elas melhoram crescendo, ou seja, a cultura pode civilizá-las (ou piorá-las, claro).
Segundo, adoramos acreditar que sempre podemos mudar (para melhor, claro): apostamos que a liberdade do indivíduo permita qualquer reviravolta --até a salvação eterna pelo arrependimento na hora da morte. A possibilidade de os criminosos (ainda mais jovens) se redimirem confirma nossa crença querida.
Terceiro, acreditamos também na fábula da reciprocidade amorosa: quem ama será amado. Se forem bem tratados e se sentirem amados e respeitados, os jovens se emendarão. É só confiar neles, deixá-los impunes e lhes oferecer castiçais de prata, como o padre que presenteia Jean Valjean.
Meus amigos, "Les Misérables" é lindo e comovedor, mas é um romance, ok? Na outra noite, no bairro do Belém, teria sido melhor que aparecesse Javert.


Artigo da Folha de São Paulo.

 
18/04/2013

quinta-feira, abril 25, 2013

Contardo Calligaris- Irresponsabilidades








A coluna da semana passada tratava da maioridade penal. Eu disse que sou a favor de considerar que, nos crimes mais graves (sobretudo contra a pessoa), os jovens sejam responsáveis pelos seus atos.
A partir de que idade? Talvez um juiz ou uma corte especial possam decidir, em cada circunstância, quando um jovem deve ser julgado como adulto ou não.
A coluna suscitou um grande número de comentários, pelos quais agradeço e aos quais não terei como responder individualmente. Tento resumir algumas objeções, organizando-as em quatro eixos:
1) A redução da maioridade penal não vai resolver o problema da violência.
Concordo: em geral, a severidade das penas não produz o efeito mágico de estancar a violência e o crime. Em compensação, a impunidade, ela sim, autoriza o crime e seu crescimento. Mas tanto faz: o que importa é que a violência criminosa baixa quando sobem não tanto as penas quanto a inclusão social e o sentimento de pertencermos todos a uma mesma comunidade de destino.
Desse ponto de vista, no máximo, a redução da maioridade penal faria que menos adolescentes fossem arregimentados pelo tráfico --mas nem isso é uma certeza.
2) Então, para que serve a proposta de reduzir a maioridade penal?
A Justiça e o sistema penitenciário sonham em amedrontar e dissuadir do crime. Também eles sonham com a reabilitação dos criminosos condenados. Agora, mais prosaicamente, eles têm a tarefa (menos gloriosa) de punir os criminosos de forma que a sociedade se sinta vingada e que, portanto, as vítimas não inaugurem ciclos de vendetas privadas.
A questão da maioridade penal se coloca relativamente a essa última tarefa da Justiça: podemos e devemos punir os jovens da mesma forma que os adultos?
3) Sobretudo, no caso dos jovens, não deveríamos querer que eles sejam reabilitados em vez de punidos? Para que encarcerar os jovens se sabemos que a detenção será uma escola do crime e não um lugar onde seria preparada sua reinserção social?
O sistema penitenciário moderno é paradoxal: nele, tanto para os jovens quanto para os adultos, a vontade de punir coexiste e rivaliza com a vontade de reeducar. Esse conflito de intenções talvez não seja uma falha, mas a propriedade essencial do sistema.
Nota: à vista do fracasso crônico de reabilitação e reinserção é possível pensar que a intenção de reeducar seja sobretudo o álibi necessário de uma punição que se envergonha de si mesma. Ou seja, queremos reeducar (e nunca conseguimos) porque nos envergonhamos de estarmos "ainda" punindo os criminosos. Gostaria de ter o tempo de reler "Vigiar e Punir", de Michel Foucault, pensando nisso.
4) A redução da maioridade penal significaria encher as cadeias de crianças pobres.
Em Brasília, 16 anos atrás, cinco jovens de classe média assassinaram barbaramente um índio, colocando fogo em seu corpo. Eles se desculparam dizendo, aliás, que não sabiam que era um índio, achavam que fosse um mendigo.
Graças a seu privilégio social, quatro desses jovens, condenados, cumpriram sua pena estudando e trabalhando fora da prisão. O quinto, que tinha 17 anos na época, ficou três meses num centro de reabilitação e só. Eu acho que ele deveria ter sido julgado como adulto.
Mais uma coisa. A coluna da semana passada queria abordar um problema mais amplo do que a simples maioridade penal. Explico.
Uma das grandes novidades de nossa cultura é que ela promove a obrigação de cada um responder por suas ações. Talvez por isso mesmo, para descansarmos um pouco de tamanho encargo, um dos grandes sonhos contemporâneos seja a irresponsabilidade.
É assim que nos tornamos mestres nas explicações que valem como desculpas.
Os assassinos de Brasília passearam demais pelos shoppings da capital e foram mimados pelos pais, e o assassino de Victor Hugo Deppman talvez tenha crescido em algum tipo de favela. Sempre há um trauma, um abuso passado, que "explica" e que serve para transferir a culpa.
Ao mesmo tempo, somos uma cultura "infantólatra", ou seja, que idealiza e venera as crianças como crianças. Ou seja, amamos vê-las sem nenhum dos pesos que castigam a vida adulta.
No sonho de irresponsabilidade que mencionei antes, esses dois traços de nossa cultura se combinam assim: 1) as crianças são todas querubins irresponsáveis e 2) a história da nossa infância nos torna irresponsáveis quando adultos. Que maravilha.

25/04/2013
Da Folha de São Paulo. 


quinta-feira, abril 11, 2013

Mulheres infelizes- por Contardo Calligaris



Therese D (2012) Poster





Via Folha de São Paulo

11/04/2013 - 03h00

Mulheres infelizes


François Mauriac publicou "Thérèse Desqueyroux" (Cosac Naify) em 1927; o romance foi um sucesso e, provavelmente, valeu ao seu autor o prêmio Nobel. A história é levada para o cinema (pela segunda vez) por Claude Miller, com o título, no Brasil, de "Therese D." (para que ninguém se atrapalhe com a pronúncia).

Tolstói publicou "Anna Karenina" (Itatiaia) entre 1873 e 77. O romance é levado para o cinema (pela sexta vez) por Joe Wright, com o título original.

Gustave Flaubert publicou "Madame Bovary" (Penguin Companhia e outras editoras) em 1857. O romance foi levado oito vezes para o cinema.

No Rio e em São Paulo, ainda é possível assistir a "Anna Karenina", de Joe Wright, e a "Therese D.", de Claude Miller, no mesmo cinema.
Depois disso, recomendo se enfiar na cama com uma cópia de "Madame Bovary" e ler até o amanhecer. Ou, então, na mesma cama, assistir a um DVD de "Madame Bovary" na versão de Vincente Minnelli (1949 --inesquecível Jennifer Jones perdida em devaneios) ou na de Claude Chabrol (1991).

Receio que a versão de Jean Renoir, de 1933, tenha envelhecido, mas que cada um escolha.

É sábio juntar as três histórias? Em termos; se você for um homem casado, prudência: afinal, trata-se de três mulheres infelizes com o marido, que é provedor, fiel, gentil e insosso.

Para mim, a modernidade poderia (ou deveria) começar, exemplarmente, com essas três histórias de insatisfação feminina, ou seja, com a descoberta de que as mulheres têm sonhos e devaneios que vão além de um marido devoto, de uma família e de uma vida ao abrigo da necessidade --em outras palavras, com a descoberta de que existe um desejo feminino.

Claro, talvez alguns homens prefiram pensar que o desejo feminino seja apenas uma necessidade do capitalismo moderno. As mulheres insatisfeitas seriam as consumidoras deslumbradas, perdidas pelos grandes magazines, das quais a sociedade de consumo precisa. É o que deixa esperar "O Paraíso das Damas", de Emile Zola, de 1882-83, (Estação Liberdade).

Mas o desejo feminino é mais do que isso, e sua aparição implica uma séria crise masculina. No fundo, trata-se de uma descoberta só: as mulheres têm desejos, e os homens não fazem suas companheiras tão felizes quanto eles imaginam ter feito a felicidade de suas mães (repito: IMAGINAM).

Não é por acaso, aliás, que, nos três romances, a maternidade não faz a felicidade das mães. A descoberta do desejo feminino acompanha a descoberta da inadequação e da insuficiência dos homens, como maridos e também como filhos.

Para Anna Karenina e para Emma Bovary, outros homens do que seus maridos se tornam desejáveis. Mas são todos medíocres (Vronsky como Rodolphe, como Léon).

Tanto Anna quanto Emma são julgadas por seus narradores. As duas acabam mal, e talvez essa punição final de mulheres e mães "indignas" tornasse os romances aceitáveis (embora os dois tenham escandalizado seus contemporâneos).
Thérèse é mais moderna. À diferença de Emma, ela é uma verdadeira leitora, não uma vítima de romances melados; por isso mesmo, ela não conhece a raiz de sua insatisfação com a vida que lhe cabe.

Como a gente, Thérèse não sabe o que quer. E ela não sonha propriamente com outro homem: ela é mais profundamente infiel e traidora do marido, pois ela sonha com algo maior do que um amante, ela quer algo que ela não saberia dizer sem citar "Os Frutos da Terra", de Gide, ela quer uma outra intensidade da vida.

SPOILER: pule este breve parágrafo se você não conhece a história. No fim do romance (e do filme), Thérèse não será punida pela infidelidade de seu desejo, ao contrário, ela parece se transformar na nova mulher do século 20, livre e urbana.

Mauriac era cristão e tradicionalista. Em 1935, ele não se aguentou e escreveu a continuação de "Thérèse Desqueyroux", "La Fin de la Nuit" (o fim da noite), em que Thérèse acaba pior do que suas antecessoras, Emma e Anna.

O jovem Sartre defendeu Thérèse, acusando Mauriac de julgar, perseguir e condenar a própria personagem que ele tinha criado, ou seja, de não respeitar a liberdade de Thérèse Desqueyroux, sua adorável criatura. Concordo com Sartre.

Fato curioso, tanto "Anna Karenina" quanto "Therese D." foram maltratados por críticos que respeito. Os dois filmes têm méritos diferentes ("Anna Karenina", em particular, é genial no conceito e na arte), mas talvez eles tenham mesmo um "defeito" comum: contam histórias que não acalentam os ouvidos masculinos.