domingo, fevereiro 09, 2020

Carlos Drummond de Andrade e meus meninos



Drummond entrou realmente na minha vida ao morrer.
Éramos amigos, sim, mas a minha vida mudou com a morte dele. Conto aqui o porquê da data ser tão importante para mim. Viva Drummond!

Era agosto, meu inferno astral, mês de mau agouro. A TV noticia a morte de Drummond. Fico triste. Havia falado com ele pouco antes, alguns dias depois da morte de sua filha, Maria Julieta. Ele pareceu tranquilo, disse que ela sofria muito, que foi um alívio para ela. Sofria de câncer nos ossos- ele cuidava dela, eu o encontrava na rua à caminho de sua casa, que ficava na rua Barão da Torre- pertinho da minha rua. Tinha pena de vê-lo tão triste, contou que ela usava colchão de água por causa das dores.

Confusa, não sei se devo ir ao enterro, detesto estas cerimônias. Dia cinzento, chuva fina. Às nove da manhã a imagem de Drummond no caixão me comove numa capela quase vazia. Resolvo ir.

Onze horas, hora do enterro, a capela, cada vez mais cheia, me sufoca. Saio para a varanda do cemitério São João Batista. Havia ali um homem bonito- alto, de terno de linho azul claro e olhos orquídea- e outros curiosos, políticos, artistas... Pergunto, a um homem qualquer, se há outra saída para o caixão- pois vejo repórteres correndo- o homem de terno de linho azul diz: “Vou ver". Na volta diz, fazendo um gesto com a mão: "Venha comigo". Fui.

Algum tempo depois eu esperava meu primeiro filho- dele.

Diz um amiga astróloga que quando morre um escorpião nasce outro, no meu caso nasceram dois geminianos.

Devo a Drummond meus dois lindos meninos, hoje homens.

Drummond, Maria Julieta e eu



Encontro Drummond e Maria Julieta, sua filha, em frente à loja Forma em Ipanema. Era janeiro de 1987. 
Havia comprado uma cadeira de escritório para ele. 
Ao me apresentar à filha, diz: "Elianne é psicanalista, tenho medo dela". 
Maria Julieta diz: "O que significa comprar cadeira, Elianne?".
Não respondi, apenas ri, balançando a cabeça. 
O poeta responde ágil: "Para ficar ereto". 
Maria Julieta: "É o que o Tabaquinho* precisa". 
Drummond: Como vai de amores, Elianne? 
Eu: Mal. 
Ele dirigindo-se para a filha: "Elianne tem dois namorados". 
Eu: "Não tenho nenhum, Drummond." 
Maria Julieta: "É quem tem dois, não tem nenhum, papai, que sempre foi fiel, sabe disto." 
Drummond: "É". 
Me despeço apressada. Ufa!

*Tabaco: Personagem de Osmar Prado na novela “Roda viva”- Motorista de Renato (Tarcísio Meira) e homem de sua confiança. Tem várias mulheres, o que exige malabarismos para que uma não descubra a existência da outra.

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Como era charmoso o meu francês







Outro dia disse aqui que não tinha certeza se alguma vez desejei realmente viver com alguém, por isso lembrei de Jean Guillaume- o francês que mudou a minha vida. Jean escolheu Cabo Frio para viver a partir de 1961, eu o conheci no final da década de 60, “morava” com Vânia Penafiel, uma mulher requintadíssima, parecia uma boneca de porcelana. Vânia tinha três filhos, e eu era amiga de Consuelo, que era mais ou menos de minha idade. Nos reuníamos na casa dele antes de sairmos para a noite, que obrigatoriamente seria numa boate chamada “Monjolo”, ponto de encontro de todos. Cabo Frio era um lindo balneário, sofisticado, havia acabado de ser descoberto por intelectuais, artistas do Rio de Janeiro. Havia um hotel apenas, o "Colonial", portanto só os que possuíam casa de praia frequentavam, e os amigos desta tribo chic e bonita. Voltando ao Jean, eu ia para sua casa lá por onze da noite. Estavam sempre acabando de jantar, Jean, educado e sedutor, me oferecia um licor ou um sequinho, whisky sem gelo, que eu aceitava com prazer. Havia sempre convidados, poderia ser Aluísio Magalhães, design conhecido que desenhou algumas de nossas cédulas, Tânia Sherr, atriz, Ionita Salles- ex Guinle, Sérgio Braga, César Thedin, Werneck, Paraíso, um arquiteto muito simpático etc. Muita gente famosa. Ali era uma espécie de 'consulado', sempre com estrangeiros, falavam francês. Eu me deliciava. Aluísio estava sempre por lá e cantava uma música que jamais esqueci, mas não saberia repetir, dizia: “A letra A quer dizer amor ardente... a letra B, beijo...” não sei mais, perguntei para um conhecido de Recife, mas não conhecia, é do folclore nordestino. Eu, desde o dia em que vi Jean pela primeira vez, fiquei encantada, ele era da idade de meu pai- posso dizer que foi meu amor edípico- e foi o homem mais encantador e charmoso que conheci. Acho que nem Chico Buarque ganha, com sotaque francês ainda por cima!... Era um misto de Gary Cooper e Humphrey Bogard, pode? Pode. Era lindo como um Gary Cooper, olhos azuis, um metro e oitenta, por aí, e tinha um cinismo e um charme como o de Humphrey Bogard. Irresistível. Mas ele não prestava atenção em moçoilas e eu naquela época era muito tímida, não conseguia aparecer, ficava quieta, não dizia nada, só ouvia- sempre gostei de observar- daí a psicanálise como escolha profissional e que eu gosto tanto. Eu o visitava quase todos os dias, ligava na hora que eu acordava- lá por onze da manhã, imaginem- e perguntava se ele estaria em casa mais tarde, "Oui, mon amour", ouvia do outro lado da linha. Depois da praia, no final do dia, eu ia para lá- morávamos muito perto. Eu o observava pintar, não abria a boca, só ouvia, ele falava pouco, mas contava suas aventuras. Muito jovem fugiu de casa, fez o pai assinar um papel sem saber que o autorizava viajar. Foi para a África como marinheiro, pintava o navio e aquarelas para ganhar um dinheirinho a mais. Esteve na guerra na Indochina, fugiu de campos de refugiados, viveu na Côte d’Azur, foi amigo de pintores famosos, amou muitas mulheres- dizia que as chinesas são as melhores amantes do mundo. Vocês acham que eu ia abrir a boca e falar dos meus problemas, que aquela altura eram "gigantescos"- eu vivia deprimida- para um homem que eu achava o máximo e que havia vivido tudo aquilo e me contava sorrindo? Meus problemas viravam 'umbigo puro'. Com minha mudança para o Rio, eu passei a vê-lo nos fins de semana, todas as vezes que ia à Cabo Frio, bebia “pastisse” preparado pela fiel escudeira dele, a Anúsia. Minha vida havia mudado muito, muitas coisas aconteciam, mas eu não contava ao Jean. Tinha amores e desamores, mas só falava da faculdade, livros, mas pouco. Nesta época eu já havia começado a desenhar, mas demorei muitos anos para tomar coragem e mostrar para ele. Um dia estavam Jean e Carlos Scliar juntos e mostrei os desenhos, eu, muito envergonhada. Eles disseram em coro que eu era a Jean Cocteau brasileira. Imagine... Eu já havia ouvido falar em Cocteau, minha mãe falava, mas não conhecia nada dele, sabia que era um intelectual, associava a Marais, cinema e mais nada. Quando vi, bem mais tarde um desenho dele, me assustei, é muito semelhante ao meu, traço contínuo, figuras de perfil... Scliar disse que eu poderia fazer ilustrações, fiz uma vez, apenas, para uma revista de psicanálise, uma caricatura de um psicanalista argentino, esqueci o nome. A revista sumiu- estava na estante do consultório. Fazia dos professores de psicanálise nas aulas, de brincadeira. Para Horus Vital Brasil eu entreguei uma. Ele gostou, depois comprou uns desenhos meus- cartões de Natal. Eu penso que a vida me deu muitas oportunidades e eu as perdi por preguiça, timidez ou melancolia, sei lá. Nunca fui atrás de nada. Por isso digo que a gente deveria ter outra chance, como disse o Vittorio Gassman, viver primeiro com ensaio, como acontece no teatro, depois para valer. Sabem qual é o meu cheiro preferido? De atelier. Adoro cheiro de tinta óleo, acrílico, qualquer cheiro que lembre aquele francês especial. Jean era um artista completo, tudo transformava em arte, gostava mais dos quadros surrealistas e os guardava num quarto separado e só os 'escolhidos' tinham acesso. O atelier também só era frequentado pelos escolhidos. Era numa sala, da casa de trás que recebia a todos, muitos mineiros- Cabo Frio foi invadida por eles. Nas paredes havia uma quantidade de pequenos quadros, ele dizia brincando que era Anúsia quem os pintara, fazia para sobreviver, vendia facilmente, eram acessíveis a muitos. Numa das paredes, havia um buraco para o "Nobody" passar- um vira lata muito simpático, que circulava com liberdade. Jean tinha três casas. Comprou o terreno até a rua de trás. Na da frente havia o quarto das crianças - Ricardo, Consuelo, Cláudia- e outro de casal- o quarto de Vânia; no centro do terreno, o atelier, onde dormia e recebia os amigos. Na porta de entrada havia uma placa pendurada onde dizia: “Não perturbe”. Abria a porta depois das cinco- “open house”. Ali havia um jardim coberto por conchas com um barco,- você poderia sonhar estar na praia-, e uma sala deliciosa envidraçada no atelier. Mas por que lembrei de Jean? Porque dizia, e eu acredito, que se você quer viver uma paixão, conservar um amor, não more junto. Ele sempre manteve duas casas. Vânia chegou de surpresa com os três filhos e passou a viver em Cabo Frio com ele- eram namorados no Rio, onde moraram. Depois dos trinta, Jean me descobriu. Dizia que eu era o “caso impossível” dele, nós nos amamos, mas nunca houve nada além de beijos rápidos na despedida, eu adorava quando ele me pegava forte e me puxava contra o corpo dele e me beijava, adorava aquele toque nos meus lábios. No atelier, antes, ficávamos "namorando", nos tocávamos muito, mas nada erótico em excesso, ele estava com mais de sessenta, chegando nos setenta, e eu sempre tinha uma outra “paixão”. Ele estava com muitos problemas de saúde, não gostava de falar sobre isto, sorria apenas, continuou bebendo whisky puro até o fim, e fumando. Dizia que dos prazeres, estes, eram os únicos restantes. Jean morreu em 1985, depois da morte dele passei a não querer mais voltar à Cabo Frio, não havia mais razão para ir. A cidade perdeu completamente o charme com a morte de Jean, nunca será mais a mesma. Posso dizer o mesmo sobre Carlinhos, mas é outra história. Ontem uma amiga me disse que eu vivi na França em outra encarnação, deve ser. Se existe... PS: Conheci, há algum tempo, outro homem charmoso como Jean, Olivier Anquier, não por acaso francês. Mas, este, só conheço de longe.

O reencontro com João










Ontem foi um dia inquietante.
À noite iria rever João Bosco depois de muitos anos. Estava se apresentando no teatro daqui.
Meu irmão disse:
- Não vai te reconhecer!
Retruquei lembrando as vezes que nos vimos. Não foram muitas, umas dez, sabia que poderia me reconhecer, mas, pensava: na época eu usava cabelos cacheados grandes, hoje são grisalhos e curtos.
Trabalhei até a hora do show, cheguei antes de meu filho e namorada, que me acompanhariam.
João está com a mesma voz potente e bonita. Cantou o tempo todo apenas acompanhado pelo seu violão, em pé.
Entre uma música e outra, contava sua história.
Estudante de engenharia, mineiro de Ponte Nova, morava em Ouro Preto quando conheceu Scliar, que o presentou Vinícius, em 1967- ano que o encontrei com outros três rapazes, na duna maior de Cabo Frio.
Era um passeio obrigatório para turistas e eu estava com duas amigas de Curitiba. Lembro bem da cena porque tenho uma foto de maiô preto- o único que usei durante anos- na duna branca. Eu tinha 20 anos, ele 21.
À noite fomos para à casa de Scliar, e, naturalmente, cada uma das moças ficou acompanhada por um dos rapazes. Scliar era amigo de meu irmão e eu o conhecia há anos também, passávamos os reveillons lá na bela casa colonial à beira do Canal de Itajuru em Cabo Frio. A casa dele era visitada pela beleza e arte. Havia e devem estar lá ainda- hoje é o Instituto Carlos Scliar- quadros de muitos pintores brasileiros, as paredes cobertas, coloridas. Esculturas de artesões belíssimas. O cheiro de madeira, o chão encerado, bem cuidado.
Estes encontros duraram algumas semanas, sempre aos fins de semana. João não havia levado o violão para Cabo Frio e ficou aqueles dias com o de minha irmã, que engatinhava nas cordas.
Íamos à boite do Hotel Palace, que era a da moda. Caminhávamos pela areia, muitas vezes. Não havia risco nenhum- a não ser umsiri pegar o pé de alguém.
Um dia eu não fui e João ficou com uma colega minha.
Tivemos uma breve DR, ele se justificou e voltamos a ficar juntos. Nada de sexo, apenas uns beijos.
Nesta época João ainda não havia lançado o primeiro disco, Agnus Sei (1972), vendido pelo Pasquim, o folhetim.
Alguns anos se passaram, João começou a ficar famoso, eu não o vi mais.
Em 70 fui morar no Rio, Ipanema. Uma amiga da faculdade namorava um rapaz de Ponte Nova, fui passar um feriado lá com um namorado, Fernando Bento, artista plástico, também amigo de Scliar. João fez uma show naqueles dias na sua cidade natal e fomos todos vê-lo. Já era conhecido, Elis já havia gravado.
Lembro que uma vez, fui sozinha ao teatro do shopping da Gávea, como não tinha dinheiro para pagar o ingresso, chamei-o e pedi para assistir. Sentei numa cadeira que colocaram na primaira fila.
Olhando para trás fico um pouco constrangida com a minha ousadia- eu achava que tinha direito a vê-lo, simples assim, na minha cabeça da época. Foi um dia inesquecível, pois Elis Regina deu "canja" cantando " O bêbado e o equilibrista". ainda bem que fui ousada!
João corria no calçadão da praia, encontrei-o várias vezes. Eu interrompia sua corrida- imaginem!- para cumprimentá-lo.
Nos encontramos mais uma vez no Luna bar, participei de um grupo grande, onde estava Mario Prata, e Fafá de Belém.
Eu me sentia meio peixe fora d'água, mas tinha uma passividade na época, que me fazia permanecer nos lugares até... hoje vejo isso.
Ontem tudo isto veio à tona, Scliar, Cabo Frio, os amores não vividos. Não fui apaixonada pelo João, havia um distanciamento nele. Depois que fui morar no Rio eu me perguntava se ele já tinha compromisso com a mulher com quem casou, na ocasião.
A vida é irônica. Trêzes anos depois do encontro com Bosco, eu me enamorei perdidamente por um dos outros rapazes daquele dia das dunas. Devo um grande amor ao Scliar, que à distância esteve presente na minha vida durante muitos anos, sem saber.
Ah! João me chamou de querida quando me reconheceu e me abraçou. Disse que moro no paraíso. Acho que eu aproveito pouco o paraíso.
Ele estava saindo para o aeroporto, eu queria ouvir mais, saber o que ficou daqueles dias, mas não deu tempo.

sábado, novembro 24, 2018

Camisa de força



Teu corpo contido vibra
Aprisionado
Meu corpo silencia
Apenas aos olhos é permitido ver
Mas seus olhos fogem
E o corpo cala

Adivinho teu desejo silenciado

Quem é o carrasco?

domingo, setembro 23, 2018

Miniconto- Manhã cinza

Manhã cinza

Olha o céu chumbo. Não venta. Mormaço.
Estica com as mãos as roupas recém penduradas. Pássaros voam grunhindo.  
Na cozinha, desliga o fogão- o arroz cozinhará sozinho- tem receio de esquecer a chama acesa.
Atravessa a sala, observando coisas fora do lugar.
Varre a varanda. Molha as plantas. A água da mangueira respinga nas pernas e vestido. Enrola a bainha molhada e prende no elástico da calcinha. Joga água nos pés descalços.  
Olha em torno- não há ninguém.
Sente frio, despe-se e entra no chuveiro quente. Lava com prazer os cabelos.
A chuva nas janelas a faz lembrar da roupa estendida. Corre enrolada na toalha para o quintal.
Puxa com força as roupas quase secas. Grampos alçam voo.
Sente frio.


quinta-feira, junho 21, 2018

O Barba Ruiva- filme de Akira Kurosawa



Vi "O Baraba Ruiva", filme de Akira Kurosawa. Filme fantástico. Interessante pois não é considerado um dos melhores dele, eu amei. Talvez por me identificar com o personagem, com a densidade da narrativa.
Um médico dirige uma pequena clínica social num lugarejo extremamente pobre,na antiga cidade de Edo, hoje Tóquio, sec XIX.  A verba é insuficiente. Como assistente ele recebe um médico, recém formado com a empáfia dos ignorantes.
Toshiro Mifune faz o barba ruiva, apresentado pelo assistente que está a abandonar o posto, como um ditador.  Mas percebe-se que tem algo a mais, que o outro não alcança- a sabedoria do grandes mestres. O jovem médico se revolta com as condições precárias do lugar e se rebela no início, porque acreditava que deveria ser médico de um Shogun e não de pessoas miseráveis. Ele se nega a usar a roupa apropriada, que o identificaria, e a dar ao superior suas anotações anteriores sobre as doenças- vinha de um lugar mais avançado. À medida que a história flui, os personagens vão se desconstruindo, se transformando- todos, exceto o mestre, que tem semblante de sábio. Toshiro tem presença extraordinária, foi premiado por este personagem.
Através das narrativas dos pacientes, a arrogância do jovem vai desbotando. A visão do mundo mudando.
Filme de um humanismo comovente, como muitos filmes do mestre e diretor. A história original não é dele, mas poderia ser.
Mostra a vida e a morte de forma crua. O mestre diz numa fala que a morte é digna e nos faz assistir a agonia de um homem nos últimos momentos. E suportamos. A morte seria um alívio para aquele ser.
Os personagens são apresentados com traços sutis- como em tantos outros filmes dele. Vamos conhecendo os dramas de cada um. Me lembrei de "Dodeskaden", dos personagens miseráveis da periferia da cidade.
Um filme imperdível. Recomento enfaticamente. Foi o último filme em preto e branco que ele fez.
Belo filme.

Veja o trailer aqui

Viver é preciso









É preciso escrever para sobreviver. Dói viver este mundo. Dói ver a violência. Dói assistir ao retrocesso antes nunca sonhado.
Quem me iludiu de que os homens haviam evoluído e aprendido com as guerras, as mortes desnecessárias, a dor excessiva da tortura?
Repetimos a perversidade, os grandes oprimindo, os poderosos aterrorizando.
A lei do senhor e o escravo está em todas as nossas relações.
Como não adoecer? Encontrar alegria? Ignorando os males?
Refugiando-se em deuses e preces? Isolando-se em bolhas?
Viver é preciso, saborear momentos de afeto e pequenos prazeres. Sonhar que um dia o bom senso aplacará a ambição voraz do homem.
Viver é preciso.

quinta-feira, maio 10, 2018

O corpo fala


Desejo de escrever. Desejo de silenciar. Contradições? Talvez. Ou necessidade de expressão. Não sei. Houve um tempo em que acordava e vinha escrever. Havia leitores. Ser ouvida é bom, aplaca dores, silêncios forçados.
O corpo fala. Um nódulo na mandíbula pede espaço. O médico fala em bisturi- não há outra saída. Tenho escolha?
O corpo fala quando o silêncio é dorido. Não forçado, mas por escolha. Intolerância minha ou de outros me fazem calar. Desnecessário dizer certas coisas. Gosto mais do silêncio. Gosto de estar só.
Viveria bem num mosteiro. Se não tivesse os filhos, que me chamam à vida, e clientes a quem faria falta...

segunda-feira, janeiro 22, 2018

A minha Graça








Eu gosto de dar carona quando não estou com muita pressa, nem buscando silêncio.
É um risco, mas tenho intuição- sempre foram viagens muito agradáveis. Ao se despedirem me abençoam, eu digo que só dou carona por isso, para ouvir as bênçãos. São pessoas muito simples, a transporte coletivo daqui é um desastre e eu vou para um lugar de onde podem pegar qualquer condução- moram mais longe, nos bairros distantes.
Em maio do ano passado eu dei carona para duas moças. Eram empregadas domésticas. Eu disse que andava cansada, casa grande, mãe morando comigo, estas coisas. Uma delas disse que tinha alguém que eu ia adorar, a pessoa certa para trabalhar aqui. Dei carona duas quadras depois de meu condomínio, pois a moça trabalha aqui e nos fins de semana vai para Touros. Graça também, é sua ex sogra.
No começo houve um certo desconserto, uma mulher de mais de cinquenta anos, personalidade muito forte- eu idem- mas fui com cuidado dizendo como eu gostaria que fossem as coisas. Hoje ela cuida da casa como se fosse dela, controla tudo- pago meus pecados, eu sou obsessiva e também vejo tudo. Algumas coisas são do jeito dela e eu deixo, há que ceder.  Graça tem nove filhos e nove netos. Viúva muito jovem, com cinco filhos, casou de novo e teve mais quatro. Todos saudáveis, nenhum lhe traz problemas. É mãe amorosa, escuto trechos de conversas no telefone, a solicitam muito, os monitora daqui, o mais novo tem 14 anos e se prepara para ser jogador de futebol. Está separada.
Foi um presente dos deuses. Cuida de minha mãe como ninguém- tudo na hora certa, nunca esquece nada, é incrível.
Antes de eu ter este infarto, ela dizia: A sra. tem que se cuidar também, não tem idade para fazer isso! Deixe que eu faço.
Exemplo: Gosto de lavar o carro. Ela se antecipa e lava. Eu digo: “Os vizinhos vão achar que te exploro, não faça isto!” Ela: “Vão não, eu lavo cedinho, ninguém vê”. Inacreditável! Ela acorda muito cedo. Adora o jardim também.
Diz que me ama, algumas vezes se comoveu e chorou com algum gesto generoso meu- o que ela faz não tem preço. Diz que sou melhor do que sua mãe- nunca se sentiu amada por ela.

Sexta-feira quando cheguei do hospital, a casa estava toda florida. Quando entrei no quarto, sobre a cama havia desenhado um coração com flores de buganville, dentro escrito: Te amo.

segunda-feira, dezembro 18, 2017

O tempo é implacável








Canta o vento, invade todas as frestas. Na banheira silencio o corpo na água quase fria. Observo apenas. Não há desejo.
Janelas abertas. “Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família, até que a plenitude e a morte coincidissem um dia...”
Quatro da tarde, hora da análise, e eu lembro desta música, desde sábado a ouço interiormente. Alguém me pediu para cantarolar.
Sim, eu poderia deitar mais uma vez no divã e borbulhar palavras sobre a família. Não há mais um amor a cantar ou contar. Resta a mãe, desde a infância “ausente”, agora mais que presente.
Nada há para queixar, há que se aceitar- e daí? Fazer o quê?
Há que dissolver as amarras, as amargas lembranças já não existem. Há que ser leve e não lamentar.

"O tempo é implacável", é uma frase que ouvi inúmeras vezes. O tempo é implacável, mãe, mas o tempo também é generoso, desbota dores, gritos. E agora estamos aqui, nós duas, novamente, sobreviventes. E eu estou feliz.

domingo, abril 23, 2017

O Coração Imobiliário- Crônica de Drummond

“Coração Imobiliário”

Um dia Carlos Drummond me telefonou e disse:
- Posso publicar uma crônica que fiz para você?
- Claro, é um prazer, querido!
- Chamo a personagem de Cristiane para você não ser identificada.

Dias depois, estava lá a crônica “Coração imobiliário” no Jornal do Brasil.
Eu nunca fiz cópia, esqueço. Depois desta crônica, ele publicou uma sobre Pedro Nava e a última se despedindo- dizia que estava cansado, ia pessoalmente levar o texto até a Av. Brasil, de táxi.

Bom, a Cristiane tinha mais de um amor. Drummond sabia que eu tinha uma paixão, um caso de amor clandestino, ele conhecia bem isto, vocês sabem. Ele também sabia, porque eu contava minha vida, que um amigo norte americano costumava tomar café da manhã comigo. Pois bem, a estória é de uma moça que recebe amigos em casa.

Não o questionei. Acredito que estava enciumado e ressentido, dava sinais de que estava apaixonado por mim e eu fugia, fugia literalmente, o enganava sobre meus horários de trabalho, dizia que trabalharia o dia todo, quando ele perguntava o que eu iria fazer no dia seguinte. Levei um susto quando ele contou que terminou com a Lygia! A amante de 30 anos!
Mas, o término durou pouco, porque ele adoeceu de uma infecção urinária e eles voltaram.

Ele dizia que de manhã a Dolores, esposa, cuidava dele e de noite ele cuidava dela, dava remédios. Dormia tarde, tomava um licorzinho e ouvia músicas. Me telefonava nestas horas- uma vez ligou meia noite e meia, eu não estava, minha irmã atendeu. Eu não queria feri-lo com meu desamor, preferia fugir. Eu o amava como um amigo especial, nada além.

No final da crônica ele diz: posso dar uma espiadinha no apartamento?
Querendo dizer que ele também queria frequentar minha casa. Ou meu coração imobiliário- onde cabiam vários amores.

O americano era apenas amigo, era muito solitário e me ligava perguntando se poderia ir para o breakfast e para que eu jogasse o “I Ching” para ele. Estava apaixonado por uma moça. É o violinista, contei outro dia, que fez um recital para mim no dia 16 setembro dia do meu aniversário. Deve ter sido em 84, ano da crônica, que foi publicada em 25 de setembro,

Tad Lawer, era o Spalla da OSB na ocasião. Ganhei um presente de luxo.
Ah! Ele esteve na minha casa uma vez. Trouxe de presente uma gravura de Renina Katz, tomamos um chá inglês com docinhos comprados com carinho para ele. Neste dia me contou sobre uma quantidade enorme de paqueras dele- não anotei, esqueci. Era muito safado- a palavra é esta- não exagero. O teor das conversas dele comigo no telefone me encabulavam. Ele dizia: Mas você não é psicanalista? Eu respondia: Mas tenho alma de poeta, Drummond.

Conto sobre este chá na crônica “O poeta frugal”.