segunda-feira, agosto 24, 2020

Crônica de viagem





Memórias de viagem


O avião parte para Lisboa. Faz frio em Paris- 13°.  Vou ao encontro de M., um amigo ou mais que amigo, saberei quando o encontrar.

Estou cansada. Cheguei ao Charles de Gaulle bem, aí veio o estresse, eu tinha bagagem a mais, tive que voltar ao guichê de check in e pagar a pequena mala de rodinha, além dela, carrego uma mochila e a bolsa de mão. Na passagem pela fiscalização, o homem de cara má, separou o meu perfume George Armani, comprado na véspera, separou meus cremes e colocou-os num plástico. No Brasil eu paguei o saco, ele não cobrou. Ao lado um casal falava francês, muito, franceses falam muito, amam as palavras, penso eu, vide Lacan e cia.

Esqueci de trazer um livro, fico perdida sem nada para ler. Sinto certa tristeza- algo que não alcanço- me sinto meio amorfa. 

A viagem sonhada não me traz alegria- prazer sim. Onde a minha alegria? Por que a tristeza no sonho alcançado?

Uma sensação de estar só no meio de tantas pessoas. Não é exclusão, é como se a vida delas fosse mais real que a minha, que estaria suspensa num sonho.

Em Paris vejo peças de arte que amo. Ao entrar no jardim da casa de Rodin, chorei copiosamente. Uma emoção incontrolável me trazia lágrimas. A amiga, Sylvie, que me hospedava, telefonou na hora e dizia: Chorando por quê? Queria tanto ir ai! 

Tomei um café com pássaros na mesa próxima, me recostei numa chaise lounge no belo jardim, senti conforto, observei cada detalhe, senti o ar fresco da tarde. É difícil não compartilhar o belo. Algumas vezes, eu exclamei para a pessoa ao lado, num museu: "Olhe, que maravilha!", esperando um retorno, mas nada. Sim, restava-me a beleza da arte para me salvar.

segunda-feira, junho 22, 2020

Miniconto. Mãe Amparo

Mãe Amparo

Diz Amparo, a mãe que me criou, que um homem a procurou pedindo que arranjasse alguém para me adotar. A minha mãe era louca, ele disse. Não me cuidava, me deixava na rede e trancava a porta. Ela deixava biscoito de rapadura junto de mim, disseram. Arrombaram a porta para me tirar do quarto do casebre. Eu estava suja e faminta. Tomei três pratos de sopa neste dia na casa de Amparo. E fiquei aos cuidados dela, que mais tarde me adotou.
Este homem era meu pai, aí me pergunto o porquê não cuidou de mim. Mas sei que se ele não me oferecesse a outra pessoa, não sobreviveria.
Amparo era uma mulher rígida. Me criou para que no futuro cuidasse dela, que tinha uma doença cardíaca crônica.
Eu cozinhava, limpava a casa e estudava. Tinha que estudar. Antes da escola, deixava o almoço pronto. Foi assim desde que cresci o suficiente para alcançar o fogão e a pia.
Na casa dos avós, pais de Amparo, eu era quem lavava a louça nos dias de domingo. As outras primas ficavam na sala.
Vovó me ensinou a rezar. Era muito católica- um dos irmãos dela era sacerdote. Quando eu ia para lá, no lanche, eu ganhava biscoito de maizena e meus primos biscoitos recheados. Não estranhava isso. Sabia que eu era diferente até na cor. Todos muito claros e eu da cor de jambo. Quando ficou senil vovó ficou mais dócil comigo. Era eu quem ia lhe dar banho todas as manhãs de sábado e domingo.
Vovô era o patriarca da família. Todos tinham que pedir a bênção para ele. Muito crítico, observava tudo. Quando adoeceu e precisou de cuidados, lá fui eu cuidar dele, eu e as moças contratadas. Estas sofriam nas mãos dele. Era sedutor, queria tocá-las, comigo não, me via como neta- talvez o único que me via da família.
Os irmãos de mainha sempre a trataram com um certo desprezo, por não ter casado, pela fragilidade da saúde dela, por não ter ganhado dinheiro.
Não tive nenhuma vida social. O único lugar que ia era à igreja aos domingos, então eu me arrumava toda e me fazia bonita a espera de encontrar um namorado ali.
Não foi ali que encontrei meu par, hoje meu marido.
Mainha optou por viver numa casa de repouso quando eu tive o segundo filho. Eu não teria condições de lhe dar a atenção que exigia. Passei a ser mal vista na família, odiada e ignorada por todos. Fui impedida de visitá-la.
Ao escolher ter minha família fui definitivamente excluída da outra, onde, na verdade, nunca me senti incluída.

sexta-feira, abril 10, 2020

Os meus dias de isolamento








Os meus dias de isolamento.

Quantas vezes repetimos: "Parem o trem, quero descer"?
E tudo parou. Um inimigo invisível nos obriga ao confinamento.
A morte ronda. Quantos de nós morreremos? O incerteza aflige, dói. O luto antecipado, entristece. Mas há que ser forte, manter a esperança num amanhã desconhecido.
Famílias inteiras num apartamento, sem privacidade, outros num cômodo sem conforto algum, casais que não se suportam no mesmo teto, dia após dia. O medo da morte, do desemprego, da fome.
O mundo precisava parar. Parou tarde. Parou no tranco. Ninguém avisou que iam puxar o freio.
A especulação financeira, o lucro desenfreado, o capitalismo voraz será substituído por algo menos desigual e injusto. É preciso repensar valores. É o que esperamos- temos esperança- talvez o que nos faça não enfraquecermos neste momento surreal.
A vida de alguns mudou drasticamente. Assustou muito, outros negaram e fingiram não haver risco nenhum nas ruas, nos encontros.
A obrigação de manter-se em casa pode ser um bom momento para reflexão.
Estou em casa desde dia 16 de março, um dia especial para mim, por razões amorosas. Não esquecerei.
O consultório fechado. Alguns clientes atendidos online, outros não querem, sentem-se desprotegidos fora do setting analítico. Como manter o um a um de longe, alguém pode ouvir atrás da porta? Fantasmas outros trazem insegurança.
A minha rotina diária mudou pouco e me adaptei rapidamente. Estranho, não é? Apenas não vou mais ao consultório, à academia, às compras... Gosto de estar em casa, sempre gostei. Há tantas coisas a fazer! Desde molhar jardim, arrumar estantes, costurar aquela almofada que espera descosturada.
Tenho o privilégio de morar numa casa confortável. O calor é o que mais incomoda. Estamos com temperaturas altas, não tenho ar refrigerado, a garganta estranha o vento constante do ventilador. Mas, sim, houve mudanças no funcionamento da casa. Como estou em casa e gosto de fazer mais do que atende, ler e ver filmes, minha presença se faz constante pela manhã e à noite. A família, e, especialmente, a funcionária que cuida de minha mãe, passou a ficar incomodada, muito. Ela foi contratada para cuidar de minha mãe, mas como é obsessiva- o que é ótimo- e controladora, quer tomar conta de tudo. Me too. Reconheço.
Ela é excelente profissional, gosta muito de todos nós, mas comigo é uma relação de amoródio. Fica magoada facilmente, não posso dizer nada. aí se fecha e transmite uma energia pesada para mim, especialmente. Deixo muitas coisas para lá, claro. Controlo as compras- é preciso não desperdiçar. A renda diminuiu. O filho faz pizza em casa. Está construindo um forno a lenha na varanda que estamos fazendo na frente da casa. Era um jardim gramado, mas que ninguém usava. Eu gostava, claro, mas a varanda será mais útil. Já está sendo- me exercito lá de noite, de dia impossível porque bate sol. Estamos fazendo outras reformas aqui. O básico, quebrar paredes e tal, um pedreiro profissional fez, agora Danton e Bambam, que é seu cunhado que mora conosco, fazem. Dan é arquiteto, entende de obras, acompanhou várias e o Bambam já ajudou o pai, que vive no Amazonas, a construir a casa.
Ah! A reforma começou porque serei avó pela primeira vez! Joyce e Danton esperam um filho. Nome? Raduan. Juro que não fui eu quem escolhi! Ela sonhou com este nome, deve ter ouvidos uma dezena de vezes aqui e ficou no inconsciente, nem sabia quem era.
Imagino se aqui há conflitos, numa casa em que tentamos ao máximo sermos harmoniosos, como será em outras casas?
Imagino aqueles que perderam suas rendas, o desespero, o medo, a insegurança!
Urge olharmos para todos, estamos num mesmo navio, alguns num porão imundo, outros em suítes, mas todos assustados e incertos sobre quem se salvará.
Se cuidem, cuidem dos que estão ao redor.
*Sobre a funcionária ter ficado, foi escolha dela porque mora longe, em Touros.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

Mini conto: O relicário- Arquivo











 

O relicário



Ela deitou na tábua curtida onde o sol se esgueirava naquela manhã, ia deslizando no assoalho ainda frio.
Resta uma nesga de sol, quase uma linha que desenha um eixo,
corta ao meio seu corpo magro. Imagina que ele está sobre ela, inteiro.Tira a camisola. Fica nua.
Lembra da primeira vez que se deitaram.
Ela acabara de virar mulher, ele quase menino. Caminhavam na trilha até o açude. Tropeçou. Ele veio ajudá-la. E ali mesmo fizeram amor. Meses depois não era possível esconder mais a barriga. Casaram.
Antonio trouxe o relicário. A mãe, devota, escolheu o nome durante o difícil
parto.
Quando a jogava na cama, viril, cheio de desejo, antes cobria o Santo:
“Não quero que ele veja nossa sem- vergonhice".
Cansado da fome, vai em busca de trabalho:"Homem que é homem, traz o
sustento pra dentro de casa, Maria".
Parece que foi ontem que se despediu do marido encostada na porta, a barriga
grande, o olhar perdido no horizonte.
- "Pede pra nosso filho vingar, Maria", é cantilena no ouvido dela. O filho
não vingou, mas Antonio não sabe.
Certo dia um homem bate na porta:
- Você é Maria?
- Sou.
- Mulher de Antonio?
- É...
- Ele me falava de você. Pediu que viesse até aqui.
Ela adivinha o que ele tem para dizer. Lágrimas brotam dos seus olhos.
- Pediu para te dizer que arranjou o trabalho e que lá de cima vai cuidar de você e de seu filho.
- Como foi?
- Numa desavença, levou uma facada certeira, só teve tempo de dizer estas últimas palavras.
Ela fica em silêncio, engole o choro e diz:
- Se quiser, entre, lhe dou um copo d'água.
- Obrigado. Meu nome também é Antonio, Antonio da Silva, ao seu dispor.



Daqui

domingo, fevereiro 09, 2020

Carlos Drummond de Andrade e meus meninos



Drummond entrou realmente na minha vida ao morrer.
Éramos amigos, sim, mas a minha vida mudou com a morte dele. Conto aqui o porquê da data ser tão importante para mim. Viva Drummond!

Era agosto, meu inferno astral, mês de mau agouro. A TV noticia a morte de Drummond. Fico triste. Havia falado com ele pouco antes, alguns dias depois da morte de sua filha, Maria Julieta. Ele pareceu tranquilo, disse que ela sofria muito, que foi um alívio para ela. Sofria de câncer nos ossos- ele cuidava dela, eu o encontrava na rua à caminho de sua casa, que ficava na rua Barão da Torre- pertinho da minha rua. Tinha pena de vê-lo tão triste, contou que ela usava colchão de água por causa das dores.

Confusa, não sei se devo ir ao enterro, detesto estas cerimônias. Dia cinzento, chuva fina. Às nove da manhã a imagem de Drummond no caixão me comove numa capela quase vazia. Resolvo ir.

Onze horas, hora do enterro, a capela, cada vez mais cheia, me sufoca. Saio para a varanda do cemitério São João Batista. Havia ali um homem bonito- alto, de terno de linho azul claro e olhos orquídea- e outros curiosos, políticos, artistas... Pergunto, a um homem qualquer, se há outra saída para o caixão- pois vejo repórteres correndo- o homem de terno de linho azul diz: “Vou ver". Na volta diz, fazendo um gesto com a mão: "Venha comigo". Fui.

Algum tempo depois eu esperava meu primeiro filho- dele.

Diz um amiga astróloga que quando morre um escorpião nasce outro, no meu caso nasceram dois geminianos.

Devo a Drummond meus dois lindos meninos, hoje homens.

Drummond, Maria Julieta e eu



Encontro Drummond e Maria Julieta, sua filha, em frente à loja Forma em Ipanema. Era janeiro de 1987. 
Havia comprado uma cadeira de escritório para ele. 
Ao me apresentar à filha, diz: "Elianne é psicanalista, tenho medo dela". 
Maria Julieta diz: "O que significa comprar cadeira, Elianne?".
Não respondi, apenas ri, balançando a cabeça. 
O poeta responde ágil: "Para ficar ereto". 
Maria Julieta: "É o que o Tabaquinho* precisa". 
Drummond: Como vai de amores, Elianne? 
Eu: Mal. 
Ele dirigindo-se para a filha: "Elianne tem dois namorados". 
Eu: "Não tenho nenhum, Drummond." 
Maria Julieta: "É quem tem dois, não tem nenhum, papai, que sempre foi fiel, sabe disto." 
Drummond: "É". 
Me despeço apressada. Ufa!

*Tabaco: Personagem de Osmar Prado na novela “Roda viva”- Motorista de Renato (Tarcísio Meira) e homem de sua confiança. Tem várias mulheres, o que exige malabarismos para que uma não descubra a existência da outra.

quinta-feira, fevereiro 06, 2020

Como era charmoso o meu francês







Outro dia disse aqui que não tinha certeza se alguma vez desejei realmente viver com alguém, por isso lembrei de Jean Guillaume- o francês que mudou a minha vida. Jean escolheu Cabo Frio para viver a partir de 1961, eu o conheci no final da década de 60, “morava” com Vânia Penafiel, uma mulher requintadíssima, parecia uma boneca de porcelana. Vânia tinha três filhos, e eu era amiga de Consuelo, que era mais ou menos de minha idade. Nos reuníamos na casa dele antes de sairmos para a noite, que obrigatoriamente seria numa boate chamada “Monjolo”, ponto de encontro de todos. Cabo Frio era um lindo balneário, sofisticado, havia acabado de ser descoberto por intelectuais, artistas do Rio de Janeiro. Havia um hotel apenas, o "Colonial", portanto só os que possuíam casa de praia frequentavam, e os amigos desta tribo chic e bonita. Voltando ao Jean, eu ia para sua casa lá por onze da noite. Estavam sempre acabando de jantar, Jean, educado e sedutor, me oferecia um licor ou um sequinho, whisky sem gelo, que eu aceitava com prazer. Havia sempre convidados, poderia ser Aluísio Magalhães, design conhecido que desenhou algumas de nossas cédulas, Tânia Sherr, atriz, Ionita Salles- ex Guinle, Sérgio Braga, César Thedin, Werneck, Paraíso, um arquiteto muito simpático etc. Muita gente famosa. Ali era uma espécie de 'consulado', sempre com estrangeiros, falavam francês. Eu me deliciava. Aluísio estava sempre por lá e cantava uma música que jamais esqueci, mas não saberia repetir, dizia: “A letra A quer dizer amor ardente... a letra B, beijo...” não sei mais, perguntei para um conhecido de Recife, mas não conhecia, é do folclore nordestino. Eu, desde o dia em que vi Jean pela primeira vez, fiquei encantada, ele era da idade de meu pai- posso dizer que foi meu amor edípico- e foi o homem mais encantador e charmoso que conheci. Acho que nem Chico Buarque ganha, com sotaque francês ainda por cima!... Era um misto de Gary Cooper e Humphrey Bogard, pode? Pode. Era lindo como um Gary Cooper, olhos azuis, um metro e oitenta, por aí, e tinha um cinismo e um charme como o de Humphrey Bogard. Irresistível. Mas ele não prestava atenção em moçoilas e eu naquela época era muito tímida, não conseguia aparecer, ficava quieta, não dizia nada, só ouvia- sempre gostei de observar- daí a psicanálise como escolha profissional e que eu gosto tanto. Eu o visitava quase todos os dias, ligava na hora que eu acordava- lá por onze da manhã, imaginem- e perguntava se ele estaria em casa mais tarde, "Oui, mon amour", ouvia do outro lado da linha. Depois da praia, no final do dia, eu ia para lá- morávamos muito perto. Eu o observava pintar, não abria a boca, só ouvia, ele falava pouco, mas contava suas aventuras. Muito jovem fugiu de casa, fez o pai assinar um papel sem saber que o autorizava viajar. Foi para a África como marinheiro, pintava o navio e aquarelas para ganhar um dinheirinho a mais. Esteve na guerra na Indochina, fugiu de campos de refugiados, viveu na Côte d’Azur, foi amigo de pintores famosos, amou muitas mulheres- dizia que as chinesas são as melhores amantes do mundo. Vocês acham que eu ia abrir a boca e falar dos meus problemas, que aquela altura eram "gigantescos"- eu vivia deprimida- para um homem que eu achava o máximo e que havia vivido tudo aquilo e me contava sorrindo? Meus problemas viravam 'umbigo puro'. Com minha mudança para o Rio, eu passei a vê-lo nos fins de semana, todas as vezes que ia à Cabo Frio, bebia “pastisse” preparado pela fiel escudeira dele, a Anúsia. Minha vida havia mudado muito, muitas coisas aconteciam, mas eu não contava ao Jean. Tinha amores e desamores, mas só falava da faculdade, livros, mas pouco. Nesta época eu já havia começado a desenhar, mas demorei muitos anos para tomar coragem e mostrar para ele. Um dia estavam Jean e Carlos Scliar juntos e mostrei os desenhos, eu, muito envergonhada. Eles disseram em coro que eu era a Jean Cocteau brasileira. Imagine... Eu já havia ouvido falar em Cocteau, minha mãe falava, mas não conhecia nada dele, sabia que era um intelectual, associava a Marais, cinema e mais nada. Quando vi, bem mais tarde um desenho dele, me assustei, é muito semelhante ao meu, traço contínuo, figuras de perfil... Scliar disse que eu poderia fazer ilustrações, fiz uma vez, apenas, para uma revista de psicanálise, uma caricatura de um psicanalista argentino, esqueci o nome. A revista sumiu- estava na estante do consultório. Fazia dos professores de psicanálise nas aulas, de brincadeira. Para Horus Vital Brasil eu entreguei uma. Ele gostou, depois comprou uns desenhos meus- cartões de Natal. Eu penso que a vida me deu muitas oportunidades e eu as perdi por preguiça, timidez ou melancolia, sei lá. Nunca fui atrás de nada. Por isso digo que a gente deveria ter outra chance, como disse o Vittorio Gassman, viver primeiro com ensaio, como acontece no teatro, depois para valer. Sabem qual é o meu cheiro preferido? De atelier. Adoro cheiro de tinta óleo, acrílico, qualquer cheiro que lembre aquele francês especial. Jean era um artista completo, tudo transformava em arte, gostava mais dos quadros surrealistas e os guardava num quarto separado e só os 'escolhidos' tinham acesso. O atelier também só era frequentado pelos escolhidos. Era numa sala, da casa de trás que recebia a todos, muitos mineiros- Cabo Frio foi invadida por eles. Nas paredes havia uma quantidade de pequenos quadros, ele dizia brincando que era Anúsia quem os pintara, fazia para sobreviver, vendia facilmente, eram acessíveis a muitos. Numa das paredes, havia um buraco para o "Nobody" passar- um vira lata muito simpático, que circulava com liberdade. Jean tinha três casas. Comprou o terreno até a rua de trás. Na da frente havia o quarto das crianças - Ricardo, Consuelo, Cláudia- e outro de casal- o quarto de Vânia; no centro do terreno, o atelier, onde dormia e recebia os amigos. Na porta de entrada havia uma placa pendurada onde dizia: “Não perturbe”. Abria a porta depois das cinco- “open house”. Ali havia um jardim coberto por conchas com um barco,- você poderia sonhar estar na praia-, e uma sala deliciosa envidraçada no atelier. Mas por que lembrei de Jean? Porque dizia, e eu acredito, que se você quer viver uma paixão, conservar um amor, não more junto. Ele sempre manteve duas casas. Vânia chegou de surpresa com os três filhos e passou a viver em Cabo Frio com ele- eram namorados no Rio, onde moraram. Depois dos trinta, Jean me descobriu. Dizia que eu era o “caso impossível” dele, nós nos amamos, mas nunca houve nada além de beijos rápidos na despedida, eu adorava quando ele me pegava forte e me puxava contra o corpo dele e me beijava, adorava aquele toque nos meus lábios. No atelier, antes, ficávamos "namorando", nos tocávamos muito, mas nada erótico em excesso, ele estava com mais de sessenta, chegando nos setenta, e eu sempre tinha uma outra “paixão”. Ele estava com muitos problemas de saúde, não gostava de falar sobre isto, sorria apenas, continuou bebendo whisky puro até o fim, e fumando. Dizia que dos prazeres, estes, eram os únicos restantes. Jean morreu em 1985, depois da morte dele passei a não querer mais voltar à Cabo Frio, não havia mais razão para ir. A cidade perdeu completamente o charme com a morte de Jean, nunca será mais a mesma. Posso dizer o mesmo sobre Carlinhos, mas é outra história. Ontem uma amiga me disse que eu vivi na França em outra encarnação, deve ser. Se existe... PS: Conheci, há algum tempo, outro homem charmoso como Jean, Olivier Anquier, não por acaso francês. Mas, este, só conheço de longe.

O reencontro com João










Ontem foi um dia inquietante.
À noite iria rever João Bosco depois de muitos anos. Estava se apresentando no teatro daqui.
Meu irmão disse:
- Não vai te reconhecer!
Retruquei lembrando as vezes que nos vimos. Não foram muitas, umas dez, sabia que poderia me reconhecer, mas, pensava: na época eu usava cabelos cacheados grandes, hoje são grisalhos e curtos.
Trabalhei até a hora do show, cheguei antes de meu filho e namorada, que me acompanhariam.
João está com a mesma voz potente e bonita. Cantou o tempo todo apenas acompanhado pelo seu violão, em pé.
Entre uma música e outra, contava sua história.
Estudante de engenharia, mineiro de Ponte Nova, morava em Ouro Preto quando conheceu Scliar, que o presentou Vinícius, em 1967- ano que o encontrei com outros três rapazes, na duna maior de Cabo Frio.
Era um passeio obrigatório para turistas e eu estava com duas amigas de Curitiba. Lembro bem da cena porque tenho uma foto de maiô preto- o único que usei durante anos- na duna branca. Eu tinha 20 anos, ele 21.
À noite fomos para à casa de Scliar, e, naturalmente, cada uma das moças ficou acompanhada por um dos rapazes. Scliar era amigo de meu irmão e eu o conhecia há anos também, passávamos os reveillons lá na bela casa colonial à beira do Canal de Itajuru em Cabo Frio. A casa dele era visitada pela beleza e arte. Havia e devem estar lá ainda- hoje é o Instituto Carlos Scliar- quadros de muitos pintores brasileiros, as paredes cobertas, coloridas. Esculturas de artesões belíssimas. O cheiro de madeira, o chão encerado, bem cuidado.
Estes encontros duraram algumas semanas, sempre aos fins de semana. João não havia levado o violão para Cabo Frio e ficou aqueles dias com o de minha irmã, que engatinhava nas cordas.
Íamos à boite do Hotel Palace, que era a da moda. Caminhávamos pela areia, muitas vezes. Não havia risco nenhum- a não ser umsiri pegar o pé de alguém.
Um dia eu não fui e João ficou com uma colega minha.
Tivemos uma breve DR, ele se justificou e voltamos a ficar juntos. Nada de sexo, apenas uns beijos.
Nesta época João ainda não havia lançado o primeiro disco, Agnus Sei (1972), vendido pelo Pasquim, o folhetim.
Alguns anos se passaram, João começou a ficar famoso, eu não o vi mais.
Em 70 fui morar no Rio, Ipanema. Uma amiga da faculdade namorava um rapaz de Ponte Nova, fui passar um feriado lá com um namorado, Fernando Bento, artista plástico, também amigo de Scliar. João fez uma show naqueles dias na sua cidade natal e fomos todos vê-lo. Já era conhecido, Elis já havia gravado.
Lembro que uma vez, fui sozinha ao teatro do shopping da Gávea, como não tinha dinheiro para pagar o ingresso, chamei-o e pedi para assistir. Sentei numa cadeira que colocaram na primaira fila.
Olhando para trás fico um pouco constrangida com a minha ousadia- eu achava que tinha direito a vê-lo, simples assim, na minha cabeça da época. Foi um dia inesquecível, pois Elis Regina deu "canja" cantando " O bêbado e o equilibrista". ainda bem que fui ousada!
João corria no calçadão da praia, encontrei-o várias vezes. Eu interrompia sua corrida- imaginem!- para cumprimentá-lo.
Nos encontramos mais uma vez no Luna bar, participei de um grupo grande, onde estava Mario Prata, e Fafá de Belém.
Eu me sentia meio peixe fora d'água, mas tinha uma passividade na época, que me fazia permanecer nos lugares até... hoje vejo isso.
Ontem tudo isto veio à tona, Scliar, Cabo Frio, os amores não vividos. Não fui apaixonada pelo João, havia um distanciamento nele. Depois que fui morar no Rio eu me perguntava se ele já tinha compromisso com a mulher com quem casou, na ocasião.
A vida é irônica. Trêzes anos depois do encontro com Bosco, eu me enamorei perdidamente por um dos outros rapazes daquele dia das dunas. Devo um grande amor ao Scliar, que à distância esteve presente na minha vida durante muitos anos, sem saber.
Ah! João me chamou de querida quando me reconheceu e me abraçou. Disse que moro no paraíso. Acho que eu aproveito pouco o paraíso.
Ele estava saindo para o aeroporto, eu queria ouvir mais, saber o que ficou daqueles dias, mas não deu tempo.

sábado, novembro 24, 2018

Camisa de força



Teu corpo contido vibra
Aprisionado
Meu corpo silencia
Apenas aos olhos é permitido ver
Mas seus olhos fogem
E o corpo cala

Adivinho teu desejo silenciado

Quem é o carrasco?

domingo, setembro 23, 2018

Miniconto- Manhã cinza

Manhã cinza

Olha o céu chumbo. Não venta. Mormaço.
Estica com as mãos as roupas recém penduradas. Pássaros voam grunhindo.  
Na cozinha, desliga o fogão- o arroz cozinhará sozinho- tem receio de esquecer a chama acesa.
Atravessa a sala, observando coisas fora do lugar.
Varre a varanda. Molha as plantas. A água da mangueira respinga nas pernas e vestido. Enrola a bainha molhada e prende no elástico da calcinha. Joga água nos pés descalços.  
Olha em torno- não há ninguém.
Sente frio, despe-se e entra no chuveiro quente. Lava com prazer os cabelos.
A chuva nas janelas a faz lembrar da roupa estendida. Corre enrolada na toalha para o quintal.
Puxa com força as roupas quase secas. Grampos alçam voo.
Sente frio.


quinta-feira, junho 21, 2018

O Barba Ruiva- filme de Akira Kurosawa



Vi "O Baraba Ruiva", filme de Akira Kurosawa. Filme fantástico. Interessante pois não é considerado um dos melhores dele, eu amei. Talvez por me identificar com o personagem, com a densidade da narrativa.
Um médico dirige uma pequena clínica social num lugarejo extremamente pobre,na antiga cidade de Edo, hoje Tóquio, sec XIX.  A verba é insuficiente. Como assistente ele recebe um médico, recém formado com a empáfia dos ignorantes.
Toshiro Mifune faz o barba ruiva, apresentado pelo assistente que está a abandonar o posto, como um ditador.  Mas percebe-se que tem algo a mais, que o outro não alcança- a sabedoria do grandes mestres. O jovem médico se revolta com as condições precárias do lugar e se rebela no início, porque acreditava que deveria ser médico de um Shogun e não de pessoas miseráveis. Ele se nega a usar a roupa apropriada, que o identificaria, e a dar ao superior suas anotações anteriores sobre as doenças- vinha de um lugar mais avançado. À medida que a história flui, os personagens vão se desconstruindo, se transformando- todos, exceto o mestre, que tem semblante de sábio. Toshiro tem presença extraordinária, foi premiado por este personagem.
Através das narrativas dos pacientes, a arrogância do jovem vai desbotando. A visão do mundo mudando.
Filme de um humanismo comovente, como muitos filmes do mestre e diretor. A história original não é dele, mas poderia ser.
Mostra a vida e a morte de forma crua. O mestre diz numa fala que a morte é digna e nos faz assistir a agonia de um homem nos últimos momentos. E suportamos. A morte seria um alívio para aquele ser.
Os personagens são apresentados com traços sutis- como em tantos outros filmes dele. Vamos conhecendo os dramas de cada um. Me lembrei de "Dodeskaden", dos personagens miseráveis da periferia da cidade.
Um filme imperdível. Recomento enfaticamente. Foi o último filme em preto e branco que ele fez.
Belo filme.

Veja o trailer aqui

Viver é preciso









É preciso escrever para sobreviver. Dói viver este mundo. Dói ver a violência. Dói assistir ao retrocesso antes nunca sonhado.
Quem me iludiu de que os homens haviam evoluído e aprendido com as guerras, as mortes desnecessárias, a dor excessiva da tortura?
Repetimos a perversidade, os grandes oprimindo, os poderosos aterrorizando.
A lei do senhor e o escravo está em todas as nossas relações.
Como não adoecer? Encontrar alegria? Ignorando os males?
Refugiando-se em deuses e preces? Isolando-se em bolhas?
Viver é preciso, saborear momentos de afeto e pequenos prazeres. Sonhar que um dia o bom senso aplacará a ambição voraz do homem.
Viver é preciso.