terça-feira, novembro 22, 2016

Alegria, alegria. Obrigada vida!











Hoje é um dia importante em nossas vidas, minha e de meus filhos. Danton, o mais novo, acabou a faculdade de arquitetura. Lucas segue o percurso em engenharia elétrica, faz mestrado em robótica(ou algo similar, nunca sei), gosta muito de estudar.



A alegria é imensa porque foram anos difíceis em muitos sentidos. Anos instáveis. Vivemos nos equilibrando, reequilibrando, do financeiro ao emocional. Anos solitários, diria. Educar filhos sozinha, apenas quem vive isso sabe. Sofremos junto, torcemos, esperamos o melhor. 

Agradeço aos filhos que tenho, agradeço à minha mãe que sempre ajudou-nos, da garra ao apoio financeiro. Hoje, com 90 anos, assistiu a apresentação do neto. Pensei: somos mulheres fortes. Aprendi com ela, talvez, a resistir, a ir atrás do desejo. Ela, separou-se de meu pai com 56 anos de idade, 36 anos de casada- na época em que mulheres não tinham esta coragem- foi morar em São Paulo com novo amor e estudou Letras no Mackensie. Cinco anos depois, só, de ônibus, saia de Cabo Frio, ainda de madrugada, para o curso de Mestrado na UFF. Lecionou na Faculdade de Letras de Cabo Frio. 

Enfim, hoje, os dois formados, homens admiráveis, honrados, bonitos, sinto que têm o básico para seguirem o caminho que escolheram. Desejo o melhor aos dois. 
Obrigada, filhos!

PS: O projeto de final de curso de Danton foi uma pousada, chamou de Vitória Régia.

segunda-feira, julho 25, 2016

Miniconto- A lembrança roubada



A lembrança roubada


Atravessa o longo corredor, passos lentos. Desconhecidos, recostados na parede, o cumprimentam no trajeto até o quarto da mãe.
Vacila na porta, enquanto alguns familiares, que há muito não via, estendem a mão e se afastam para que fique só. Ela está com um vestido cinza, meias e sapatos pretos.  Sente um calafrio e deseja cobrir-lhe. “Sinto muito frio no inverno”, parece ouvi-la dizer. Toca com a mão esquerda a perna magra, antes forte. Vem a imagem dela subindo a montanha com seu irmão no ombro, o pai um pouco à frente. Urge fugirem- é guerra. Toca-lhe a testa, debruça-se e a beija.
O irmão aproxima-se e o abraça. Neste instante, percebe que a lembrança foi roubada- ainda não havia nascido.


terça-feira, maio 31, 2016

Raduan Nassar-entrevista ao IMS






A conversa
"Conversar é muito importante, meu filho,
toda palavra, sim, é uma semente"
Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário — noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à plateia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou temas afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.
Nesta que concedeu aos CADERNOS, o autor de Lavoura arcaica concordou em quebrar duas regras que há anos vinha impondo a si mesmo. A primeira: sempre econômico em palavras, Raduan se dispôs a uma sabatina de setenta perguntas formuladas pela equipe da revista e por convidados. A segunda: para responder às questões e preparar sua participação neste número, ele manteve perto de dez encontros com Antonio Fernando De Franceschi, diretor dos CADERNOS (em sua casa em São Paulo e na Fazenda Lagoa do Sino, onde foi fotografado).
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever?
Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.
CADERNOS: Fala-se muito no "silêncio de Rossini" — moço ainda, e no auge da carreira, o músico parou de compor. Sabe-se que esse silêncio teve momentos de fecundidade, quando Rossini produziu obras que não quis destinar à divulgação. Estaria o mesmo acontecendo com você?
Raduan: Não é o meu caso. A coisa está encerrada há mais de vinte anos.
CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário?
Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.
CADERNOS: Mas você trabalhou muito com o aspecto formal, ou seja, com a "casca" das palavras, não?
Raduan: Trabalhei um pouco, com sons, grafias, sintaxes, pontuação, ritmo etc. Se em função disso tudo cheguei às vezes a violentar a semântica de algumas palavras, por outro lado trabalhava também com aquelas coordenadas em função dos significados. Era um trânsito de duas mãos, uma relação dinâmica entre os dois níveis.
CADERNOS: Na época em que você já tinha se definido pela literatura, teorizava-se muito sobre questões de forma, no contexto de uma estética antidiscursiva que, sobretudo na poesia, valorizava a síncope e o espaço em branco. Como você percebia essa tendência?
Continua aqui.


Arquivo. Raduan Nassar: " Cá entre nós,prefiro o silêncio"












Um pouco mais de Raduan aqui.

segunda-feira, maio 30, 2016

Raduan Nassar- Hoje de madrugada

Hoje de Madrugada

Raduan Nassar
O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.
O texto acima foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56.


quarta-feira, abril 27, 2016

Vice- versa








 


Ele fez uma série que chamou “Solidão urbana”. Estou de acordo com muitos itens.
Há muitos solitários em todos os lugares. Mas, onde não estaria o solitário urbano?
No bar tomando chope com amigos? Na cama com a amada? No ‘lar’ ao lado dos seus rebentos? Numa sala de reunião com colegas trocando ideias? Numa praia jogando vôlei? No campinho jogando uma pelada? Na cafeteria tomando um café com a amiga? Num projeto social como voluntário? No divã do analista?
Onde o homem não sente solidão?
Eu me sinto confortavelmente acompanhada quando os filhos estão por perto. Quando estou com a minha sobrinha. Quando tenho um amigo/a querido por perto. Durante o trabalho. Quando estava enamorada e retinha o amor- afeto dele em mim- mesmo à distância.
Acredito que é quando posso amar- dar amor.
Há momentos em que estou só e não me sinto solitária- pode ser pendurando uma roupa no varal, ou cuidando das plantas, ou fazendo um conto. Posso lavar roupas na mão e enquanto esfrego fazer um conto. Acontece muito. Saio daqui e vou descansar na lida doméstica. Conforta cuidar da casa- tira da subjetividade mais densa- afinal continuo pensante.
O que é solidão?
O homem é essencialmente só. Todos sabemos. E daí? Nascemos e morremos sós. É fato.
Outro dia me senti mal- uma tontura, um desfalecimento. Meu filho estava perto, pegou o aparelho para ver a pressão arterial. Normal. Comecei a chorar. Ele perguntou: “Mãe, por que está chorando?”. Não respondi. Mas eu sei. Senti uma solidão profunda, um luto, e entendi como é a morte.
Solidão abissal é morte. Ou vice- versa.

segunda-feira, agosto 17, 2015

Carlos Drummond de Andrade e meus meninos



Drummond entrou realmente na minha vida ao morrer.
Éramos amigos, sim, mas a minha vida mudou com a morte dele. Conto aqui o porquê da data ser tão importante para mim. Viva Drummond!

Era agosto, meu inferno astral, mês de mau agouro. A TV noticia a morte de Drummond. Fico triste. Havia falado com ele pouco antes, alguns dias depois da morte de sua filha, Maria Julieta. Ele pareceu tranquilo, disse que ela sofria muito, que foi um alívio para ela. Sofria de câncer nos ossos- ele cuidava dela, eu o encontrava na rua à caminho de sua casa, que ficava na rua Barão da Torre- pertinho da minha rua. Tinha pena de vê-lo tão triste, contou que ela usava colchão de água por causa das dores.

Confusa, não sei se devo ir ao enterro, detesto estas cerimônias. Dia cinzento, chuva fina. Às nove da manhã a imagem de Drummond no caixão me comove numa capela quase vazia. Resolvo ir.

Onze horas, hora do enterro, a capela, cada vez mais cheia, me sufoca. Saio para a varanda do cemitério São João Batista. Havia ali um homem bonito- alto, de terno de linho azul claro e olhos orquídea- e outros curiosos, políticos, artistas... Pergunto, a um homem qualquer, se há outra saída para o caixão- pois vejo repórteres correndo- o homem de terno de linho azul diz: “Vou ver". Na volta diz, fazendo um gesto com a mão: "Venha comigo". Fui.

Algum tempo depois eu esperava meu primeiro filho- dele.

Diz um amiga astróloga que quando morre um escorpião nasce outro, no meu caso nasceram dois geminianos.

Devo a Drummond meus dois lindos meninos, hoje homens.

domingo, agosto 02, 2015

Meu avô, por Danton Abreu





Uma história que Danton Abreu​ contou agora sobre seu avô e me comoveu.

"Meu avô, Ruy Abreu.


Minha avó sempre falou que ele era pão duro- pelo menos 3 vezes ao dia- e eu não tinha muito contato com ele o que me fazia pensar que era verdade.
Um dia sai com meu avô para caminhar (devia ter 7-9 anos).  Vi numa banca uma caneta do Pokemon, e como qualquer criança da época, quis a caneta.
Lembro que fiquei com receio de pedir, porque se tratava de dinheiro com o General Ruy Abreu... A vontade era tão grande que rompi a barreira da inibição e pedi! Já esperando que ele dissesse: "Não, você já tem muito brinquedo", como era de costume- (essa questão do muito dependia do seu referencial, ele não teve brinquedos, era muito pobre). A resposta foi um surpreendente (Será?) sim, e começou a mexer no seu bolso. A primeira coisa que vovô tirou foi seu famoso jornal, que lhe servia como um maravilhoso quebra sol, o segundo ou o terceiro não lembro a ordem, um deles foi um catalogo dos dias do ano, daqueles pequenos com imagem de bichinhos em uma face do papel, e o outro um papel com seu endereço- caso se perdesse, vale salientar que ele já estava começando a ficar senil. Por último tirou um plástico, parecido com aqueles que se guarda cartão de crédito, onde tinha sua identidade, uma nota de dinheiro e moedas. Então começou o momento de suspense para mim, meu avô contando sua nota com as moedas, será que iria dar para comprar?
O dinheiro era pouco, mas deu, e por sinal não sobrou nada de troco para o coitado. Depois que peguei a caneta lembro meu primeiro pensamento: Acho que não devia ter ficado com o dinheiro! O vovô ficou sem nada!
Mas vi sua felicidade em me agradar e não houve em nem um momento resistência para comprar algo tão supérfluo... porque ele era avesso a tudo que não fosse essencial.
Acho que o mais triste é que a caneta não durou um dia, isso me entristeceu muito, pois queria tê-la comigo para lembrar do grande episódio com meu avô, o mesquinho que comprou a caneta do Pokemon para mim!
Mesmo que o vovô fosse mesquinho- o que não é verdade, ele deixou terrenos, casas para todos os filhos e outros necessitados que cruzaram seu caminho.
O generoso Ruy Abreu nos deixou algo mais válido que qualquer dinheiro, que qualquer bem material, nos deixou virtudes plantadas no solo de nossa família!
Realmente, não sei o que seria de minha família sem meu avô! Por isso tenho um sentimento de gratidão eterna por ele!"

sábado, julho 18, 2015

A nudez crua da verdade







A nudez crua da verdade




A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma


Desalento e desesperança estão no ar. Ambos são tóxicos e maus conselheiros. Conduzem à paralisia ou ao cinismo do salve-se quem puder.
Sem minimizar o peso que a corrupção da política e os desastres da economia têm no cotidiano de cada um é bom lembrar que por maiores que sejam os desgostos que provocam o Brasil não se esgota na Praça do Três Poderes. A vida é feita de luzes e sombras e se só enxergarmos as sombras estaremos pecando por omissão. Há uma leitura possível dos fatos que é produtora de sentido e renovadora de esperança.
Saint Exupéry conhecia o poder constituinte da esperança. “Quem quiser construir um barco, não comece por juntar as madeiras, cortar as tábuas e distribuir o trabalho, e sim por despertar nos homens o desejo do mar aberto e infinito”.
É esse desejo de um novo horizonte, a dimensão da esperança, que já não conseguimos experimentar. Colados à temporalidade vertiginosa da notícia, a vista vai ficando míope. Sabemos tudo e imediatamente sobre a cotação das bolsas e os escândalos do dia. Telas divididas em quatro informam sobre quatro continentes, mil amigos na internet filmam o que acontece em cada esquina. A enxurrada de informações transborda da capacidade de processamento e nos deixa órfãos de sentido.
Essa subversão contínua do imediato por outro imediato, essa aceleração patológica não dá chance ao pensamento de amadurecer. Vão ficando à margem questões essenciais. Em que tipo de sociedade queremos viver? É possível escapar à violência de todos contra todos? Que novos atores estão influindo no destino do país? Questões que pedem maturação quando os velhos arcabouços ideológicos estão caindo de podres.
O cenário político é degradante, com dois ex-presidentes da República e os presidentes da Câmara e do Senado sob investigação da Justiça. Em compensação temos um Poder Judiciário que funciona. A coragem de juízes e procuradores que conduzem a operação Lava-Jato redime o país das bandalheiras que a operação vai revelando. O país que eles desvelaram não teria existido se o Judiciário tivesse sempre atuado como está atuando agora. Daqui para frente será bem mais difícil debochar da lei e transformar o Congresso em esconderijo.
Os brasileiros em sua esmagadora maioria ganham suas vidas com trabalho honesto e mal visualizam as cifras delirantes envolvidas na roubalheira de que ouvem falar. A indignação dessa população cresce a cada dia, alheia às querelas intramuros de partidos decadentes. É dela e, sobretudo, da juventude, que não se reconhece no Brasil que estertora, corrupto e carcomido, que virá a invenção de contextos originais de participação e a renovação de lideranças para governar o pais.
A execração pública de políticos que sempre foram de moralidade duvidosa, até aqui blindados em suas imunidades, o desmascaramento dos falsos heróis populares que, enfim, começa a romper a blindagem até mesmo dos que se julgavam invulneráveis, é uma purga necessária. Razão de otimismo.
Se dos porões do obscurantismo ressurgem atitudes e ideias que imaginávamos superadas e que se traduzem em tentativas de, via Congresso Nacional, balizar a sociedade brasileira com dogmas religiosos, esse açodamento tem a natureza aterrorizada de um exorcismo. O pavor de ver triunfar a ética libertária na maneira de viver e fazer escolhas morais.
Esse reacionarismo — e aqui essa palavra tão ultrapassada se justifica — é o reconhecimento por falsos moralistas de que a sociedade mudou. Improvisam-se, então, às pressas, projetos de lei estapafúrdios para tentar deter o curso do mundo contemporâneo. O destino desses projetos de lei que, na contramão da experiência vivida pela maioria da população, visam a cortejar o eleitorado mais conservador é virar letra morta. Mais uma razão de otimismo.
Se tanta violência eclode entre nós, sobretudo na internet onde as facadas virtuais são impunes, é porque este continente selvagem tem muito do mundo inconsciente. Sem lei, sem tabu, sem superego, o comportamento dessa população incorpórea assusta. Não somos as doces criaturas que pensávamos ser. A evidência de nossa violência envergonha e está sendo reconhecida e condenada. Instrumentos de vigilância e de regulação já tentam civilizar o continente selvagem.
A sociedade brasileira sairá mais sólida desse purgatório em que desconstrói os seus mitos e enfrenta o cara a cara consigo mesma.
Não há razão para desalento. O Brasil está vivendo um dos momentos mais fascinantes de sua história. O fim da impostura, a hora da nudez crua da verdade.
Rosiska Darcy de Oliveira é escritora

quinta-feira, junho 18, 2015

Contardo Calligaris- O mistério de Viviany

  






Durante a última Parada Gay, no domingo (7), uma jovem e bonita transexual, Viviany Beleboni, desfilou em cima de um trio elétrico, crucificada, com coroa de espinhos na testa, chaga do lado, sangue e expressão contida de agonia. No alto da cruz, um cartaz: "Basta de homofobia com GLBT (sigla para gays, lésbicas, bissexuais e transexuais)".
Viviany encenou a paixão final de Cristo. Houve pessoas para se indignarem, achando a performance satírica –o que é francamente bizarro: a encenação não debochava nem um pouco.
A própria já respondeu: "Jesus morreu por todos e foi humilhado, motivo de chacotas, agredido e morto, que é o que vem acontecendo diariamente com LGBTs, por não termos leis". Concordo, só não sei se isso acontece por não termos leis ou por termos muita "gente ignorante que não entende arte", como Viviany também disse, com razão.
Arte, alguém perguntará? Sim, claro, a performance de Viviany pertence a uma das formas tradicionais da arte teatral no Ocidente: os mistérios da Idade Média. Eram encenações sem palavras, do alto de charretes estacionadas ao redor da praça da igreja.
A representação da Paixão de Cristo nunca faltava durante a Semana Santa. E a tradição não se perdeu. Sobraram, por exemplo, as encenações grandiosas que são transmitidas pela TV.
Hoje, a Paixão de Cristo de Nova Jerusalém é encenada por atores globais. Agora, entre Viviany Beleboni e Thiago Lacerda, prefiro Viviany. Lacerda é bom ator, mas ela tem a autenticidade tocante de quem vive a Paixão a cada dia.
Vendo seu torso na cruz, só é possível pensar no calvário de quem é transgênero. Como é possível que alguns se sintam ofendidos por isso?
1. Em geral, os que transformam a fé em comércio preferem deter o monopólio de seu profeta, de seus dogmas, de suas cerimônias etc. Alguns não gostaram da encenação de Viviany, suponho, porque querem ser os únicos donos do Cristo –para vendê-lo melhor.
2. Estranho paradoxo: os que se indignaram porque Viviany desfilou na cruz são os mesmos que se agitam para que a vida dela seja um tormento: fomentam o preconceito contra ela, tentam impedir que possa se casar ou mesmo dispor de um registro de identidade certo para seu gênero –o que permitiria que ela assinasse um contrato de aluguel, trabalhasse com carteira etc.
Na quarta-feira (10), justamente, a dita "bancada evangélica" da Câmara protestou contra a performance, recitando um pai-nosso e erguendo fotografias que misturavam o obsceno ao sagrado. A bancada se sentiu ofendida pelo quê?
3. Ninguém se indignaria se quem desfilasse na cruz, identificando-se com o sofrimento de Cristo, fosse um peregrino penitente, um enfermo incurável ou, ainda, a vítima de uma tremenda injustiça social.
De fato, os homossexuais, sem nem mencionar os transgêneros, morreram nos grandes matadouros do século 20 e, da democrática Inglaterra até a Cuba comunista, foram vítimas de perseguições até os anos 1960, no mínimo.
Isso não conta para nossa "bancada evangélica". Porque, aparentemente, para nossa "bancada evangélica", tudo o que tem a ver com sexo (ou com gênero –para ela, aliás, tanto faz) é uma questão de falta de vergonha.
Para a tal bancada, o mistério encenado por Viviany só pode ser pornográfico porque ela é transgênero.
Prefiro nem imaginar os caminhos pelos quais os membros de nossa bancada chegaram a essa conclusão –suponho que seja uma mistura de ignorância com fantasias reprimidas, e uma dose de má-fé com a qual perco até a vontade de argumentar.
Em 1991, Oliviero Toscani tornou famosa uma fotografia de Therese Frare, que mostrava o ativista David Kirby no leito de morte, com seu pai, sua mãe e sua sobrinha.
Toscani chamou a foto de "A Pietà", que é o nome dado às representações da Virgem Maria chorando o filho depois de ele ter sido descido da cruz.
A "bancada evangélica" da época protestou, justamente porque Kirby, por mais que estivesse sofrendo, estava morrendo de Aids –vítima, segundo ela, de sua vida "promíscua".
Bom, a fotografia de Frare tornou-se, segundo a revista "Life", uma das "Cem Fotografias que Mudaram o Mundo".
E Toscani respondeu: "Chamei a foto de David Kirby e de sua família 'A Pietà' porque é uma Pietà que é real. A Pietà de Michelângelo, no Renascimento, pode ser falsa, Jesus Cristo pode nunca ter existido.
Mas sabemos que esta morte aconteceu. Essa é a coisa mesma (a Pietà verdadeira)". 

quinta-feira, maio 21, 2015

Vida e morte- um novo olhar






 






Há anos, Gustavo, o poeta e filósofo, me contou, que uma amiga dele, jornalista, disse que jamais leria um blog com o título do meu. Eu rio porque o nome eu criei sem amadurecer a ideia, como costumo fazer as coisas por aqui, e não soube trocar. Fiz este blog num impulso. Queria algo que sugerisse vida, me incomoda um pouco hoje, mas sou bastante conhecida através deste link- ficará. 
Quanto a jornalista, lamento por ela, perdeu.
Quero voltar a postar, mas anda difícil. Muitas pequenas coisas me atrapalham, falta organização no meu dia- um dia eu chego lá.
Eu sempre disse, desde que conheci o budismo, que um dia seria budista- cada dia estou mais perto. 

Sigo os oito caminhos de Buda, por isso também tenho me exposto menos- estou mais atenta ao que digo. A palavra correta, a palavra que não é vazia. Flávia diz: escreva mais, as pessoas se identificam e gostam. Sei que é verdade, muitas vezes me disseram isto. Quantas mulheres se aproximaram de mim, contando histórias pessoais comoventes depois de me lerem. Fora o dia a dia, o jogo de alegrias e dores do cotidiano.

Hoje acordei ligada, fiz muitas coisas, enquanto lavava roupas, preparava outro balde de compostagem e tal.

Estou mais leve e feliz. O que estranho porque dia 21 de maio me marcou dolorosamente, porque é o dia da morte do C. Faz sete anos! Sei porque não chorei pela primeira vez- estou vendo a morte sob novo ângulo, menos árido. 

Depois de uma vida ignorando racionalmente a reencarnação, agora me curvo e me sinto mais aliviada. Tão bom saber que o que ganhamos nesta vida levaremos para outra... dá certo conforto- então não viraremos apenas pó. A sabedoria oriental, secular, diz isto. Não é algo como dogma, eu entendi melhor o que viemos fazer nesta Terra maravilhosa. Nunca deixei de achar a natureza perfeita e divina. Era um tanto panteísta.
Deus estaria em tudo- o budismo diz isto- deus está em todos nós, mesmo nos homens vis- uma centelha divina nos habita, cada um faz o que quer com ela- nosso livre artítrio.

Falei com minha querida amiga Cinézia, exemplo de mulher- faz 82 anos, acho, e ainda sai para trabalhar diariamente, faz compras, vai a Bancos. Minha ídala. Uma baixinha, paraense arretada, vive no Rio desde jovem, chegou e foi empregada doméstica, logo virou secretária de Iracy Doyle e, mesmo depois da morte inesperada de Iracy, trabalha até hoje na sociedade psicanalítica fundada pela psicanalista. Grande Cinézia, mãezona de todos ali. Eu e meus filhos a amamos muito.

Agora vou sentar e meditar- precisava escrever antes.
Namastê.
(Interessante, quando criei o blog, me despedia com Namastê, depois deixei porque soava falso.)

quarta-feira, abril 22, 2015

Dia da Terra- arquivo blog revisado




















É estranho ver pessoas ignorarem a Terra- maltratarem. É assustador. Será que não têm consciência da sua importância?
Eu não gosto de fazer posts falando da Terra, é tudo tão óbvio, é tudo tão batido. Basta ver uma cena destas das fotos, ou olhar o céu, ou o mar para sentirmos o quanto Ela é poderosa e nos sentirmos felizes por fazermos parte deste todo- somos Uno: universo, seres humanos, animais, vegetais, minerais. Somos tão insignificantes diante desta grandeza, deveríamos reverenciá-la em todos os momentos.
Ontem vi o mar iluminado pela lua. Em alguns momentos escurecia pelas nuvens e o prata virava azul marinho. Momento de magia. Queria poder ficar ali observando até o fim. Quero morrer olhando o mar. E, ai, voltar para a terra em paz.