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terça-feira, maio 31, 2016

Raduan Nassar-entrevista ao IMS






A conversa
"Conversar é muito importante, meu filho,
toda palavra, sim, é uma semente"
Para Raduan Nassar, o capítulo menos atraente da literatura sempre foi o do burburinho literário — noites de autógrafos, debates, assédio da imprensa. Resultado: ele jamais admitiu autografar suas obras em festas de lançamento, não hesitou em comparecer a um encontro de escritores na França só para dizer à plateia que nada tinha a declarar e descobriu um modo educado de falar aos jornalistas que pode recebê-los, sim, a qualquer hora, desde que a conversa não gire em torno de literatura ou temas afins. Não é de estranhar, portanto, que sejam raras as entrevistas dadas por Raduan.
Nesta que concedeu aos CADERNOS, o autor de Lavoura arcaica concordou em quebrar duas regras que há anos vinha impondo a si mesmo. A primeira: sempre econômico em palavras, Raduan se dispôs a uma sabatina de setenta perguntas formuladas pela equipe da revista e por convidados. A segunda: para responder às questões e preparar sua participação neste número, ele manteve perto de dez encontros com Antonio Fernando De Franceschi, diretor dos CADERNOS (em sua casa em São Paulo e na Fazenda Lagoa do Sino, onde foi fotografado).
CADERNOS DE LITERATURA BRASILEIRA: O que o levou a dedicar-se inteiramente à literatura numa época, renunciando a tudo em nome dela, e depois parar de escrever?
Raduan Nassar: Foi a paixão pela literatura, que certamente tem a ver com uma história pessoal. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.
CADERNOS: Fala-se muito no "silêncio de Rossini" — moço ainda, e no auge da carreira, o músico parou de compor. Sabe-se que esse silêncio teve momentos de fecundidade, quando Rossini produziu obras que não quis destinar à divulgação. Estaria o mesmo acontecendo com você?
Raduan: Não é o meu caso. A coisa está encerrada há mais de vinte anos.
CADERNOS: Qual era, no início, o seu projeto literário?
Raduan: O projeto era escrever, não ia além disso. Dei conta de repente de que gostava de palavras, de que queria mexer com palavras. Não só com a casca delas, mas com a gema também. Achava que isso bastava.
CADERNOS: Mas você trabalhou muito com o aspecto formal, ou seja, com a "casca" das palavras, não?
Raduan: Trabalhei um pouco, com sons, grafias, sintaxes, pontuação, ritmo etc. Se em função disso tudo cheguei às vezes a violentar a semântica de algumas palavras, por outro lado trabalhava também com aquelas coordenadas em função dos significados. Era um trânsito de duas mãos, uma relação dinâmica entre os dois níveis.
CADERNOS: Na época em que você já tinha se definido pela literatura, teorizava-se muito sobre questões de forma, no contexto de uma estética antidiscursiva que, sobretudo na poesia, valorizava a síncope e o espaço em branco. Como você percebia essa tendência?
Continua aqui.


Arquivo. Raduan Nassar: " Cá entre nós,prefiro o silêncio"












Um pouco mais de Raduan aqui.

segunda-feira, maio 30, 2016

Raduan Nassar- Hoje de madrugada

Hoje de Madrugada

Raduan Nassar
O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.
O texto acima foi extraído dos "Cadernos de Literatura Brasileira", Instituto Moreira Salles - Rio de Janeiro, exemplar número 2 de setembro de 1996, pág. 56.


terça-feira, abril 23, 2013

Amo livros


Raduan Nassar



Hoje é o dia do livro! O meu livro favorito em português é "Lavoura arcaica" seguido de "Um copo de cólera", dos contos de Raduan Nassar.

A literatura de Clarice Lispector me comove e encanta.

 Os poemas de Drummond me entristecem porque os 'ouço' na vozinha dele. Manoel de Barros é especialíssimo- um passarinho de asas quebradas mágico.

 Outros tantos, como Augusto Cesar Proenca- excelente contista, Martha Galrão é admirável em sua simplicidade e facilidade em transformar o cotidiano em poesia.

Amo os escritores russos clássicos- Rolland Barthes, também pela sensibilidade e sabedoria. Kafka, Margherite Duras, Camus, Doris Lessing... Exupèry( Terra dos homens), Freud, genial...

Escrevo sem elaborar o que digo, saiu o que pensei agora. Se tivesse que escolher um para levar para a ilha deserta rs, seria o "Fragmentos de um discurso amoroso".

 E vocês, que livros amam?

Mais aqui.

domingo, agosto 26, 2012

Um homem muito especial








Há pessoas que são tão especiais que temos receio de perturbá-las. Raduan Nassar é uma delas.  

Drummond também. Ligo algumas vezes, não o encontro quase nunca- é preciso sorte, ele fica entre Sampa e o interior.

Hoje o encontrei e apesar da minha dor de cabeça, procurei ser leve.

Comentei sobre a doação que fez- disse que não queria alarde sobre, que espera que esqueçam logo- eu mostrei meu encantamento pelo seu gesto- maravilhoso! 

Eu disse: “Isso sim é socialismo, tem gente que se diz, mas na prática a comida da empregada é outra.”. 
Ele riu muito- amo seu riso aberto. Também disse que não me enganei com ele, que sabia que era especial e que sentia orgulho por tê-lo como amigo, assim como Drummond. 
Repeti que era uma das pessoas que eu amava. “Se cuide que ainda vou te visitar de novo.”.

Agradeceu meu telefonema, imagine, falar com ele faz bem para minh’ alma.

Hoje foi uma das poucas vezes em que o ouvi dizer que  está bem, com a saúde estável.

Estava de saída para almoçar com uma das irmãs.

Desliguei feliz.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Raduan Nassar- da "piauí"




Daqui

Depois da lavoura





Trinta anos após deixar a literatura, Raduan Nassar doa sua fazenda a uma universidade pública, abandona a agricultura e se recolhe em silêncio no Retiro Feliz
por RAFAEL CARIELLO



Raduan Nassar abandonou a agricultura comercial há poucomenos de um ano, no dia 3 de agos-to de 2011.
Até essa data, o autor de Lavoura Arcaica havia se dedicado profissionalmente à irrigação do arroz, à engorda de reses, ao plantio e à colheita de grãos por quase três décadas, desde que deixara claro, no início dos anos 80, que tinha interrompido sua carreira literária.
Raduan surpreendeu seus leitores numa entrevista em 1984 à Folha de S.Paulo. Sem dar muita explicação, disse que pouco tinha “a ver ainda com a literatura”. “Estou dando agora uma virada radical na minha vida”, resumiu. “Minha cabeça hoje fervilha com outras coisas, ando às voltas com agricultura e pecuária, procurando me enfronhar sobre tratores, implementos, formação de pastos, tipos de capim, braquiária, pangola, setária, humidícola”, enumerou o então novo produtor rural, visivelmente disposto a não abrir mão do rigor e da precisão vocabular que sempre cultivou.
A obra completa de Raduan Nassar até aquele momento, os romances Lavoura Arcaica Um Copo de Cólera, publicados em 1975 e 1978, ocupava pouco mais de 280 páginas impressas – suficientes, contudo, para lançar seu autor a um patamar que muito poucos alcançaram na literatura brasileira da segunda metade do século XX.
Quando anunciou o fim de sua carreira literária, Raduan já possuía um pequeno sítio no sul do estado de São Paulo. No ano seguinte, compraria a Fazenda Lagoa do Sino, localizada no município de Buri, a cerca de 250 quilômetros da capital paulista. Com quase 640 hectares – unidade de medida que equivale à dimensão aproximada de um campo de futebol –, é uma propriedade de tamanho médio para São Paulo. Existem no estado cerca de 4 mil fazendas desse tipo, medindo entre 500 e mil hectares. Acima delas, pouco mais de 2 mil unidades rurais realmente grandes medem entre mil e 5 mil hectares, cada uma. No topo da pirâmide fundiária, quase 100 fazendas paulistas possuem mais de 5 mil hectares.
A atitude do escritor que, no ápice do sucesso, resolve abandonar seu ofício para se dedicar à agricultura já seria inusitada nos dias de hoje, quando o agronegócio voltou a ganhar proeminência. Nos anos 80, quando o ambiente em que Raduan circulava recebia vagas notícias pela tevê de um mundo rural pouco produtivo e arcaico, sua escolha causou perplexidade.

m meados dos anos 90, em sua coluna na Folha, o jornalista Otavio Frias Filho constatou que a pergunta “Por que Raduan Nassar parou de escrever?” nunca deixou de representar um enigma. “No auge de uma carreira recém-começada, as traduções de vento em popa, quando seus leitores antecipam proezas ainda maiores que estavam por vir, de repente o escritor paulista anunciou que passava a arar outras terras, trocava a literatura pela agricultura, o que foi festejado como mais uma metáfora do mestre”, escreveu Frias Filho. “Mas não, a decisão era literal, quer dizer, agrícola.”
O cuidado minucioso dedicado desde então à Lagoa do Sino, a obra literal de Raduan, não passa despercebido para o visitante que cruza, ainda hoje, a porteiraprincipal da propriedade e toma o ca-minho de terra que leva à sede. No ter--reno de topografia aplainada, com horizonte largo ao fundo, logo se vê à esquerda de quem entra um jardim de pequenas flores amarelas e azuis; do lado direito fica o corpo-d’água que dá nome à fazenda. A seguir, fazendo sombra à estrada, erguem-se eucaliptos e araucárias imponentes, num gramado amplo e bem aparado. Casebres de colonos se espalham pela propriedade, dando a impressão de terem sido recém-pintados de branco.
Embora a Lagoa do Sino se encontre dentro dos limites de Buri, apenas uma ponte a separa da pequena Campina do Monte Alegre, onde vivem cerca de 6 mil pessoas. A maior parte delas trabalha na agricultura. Nas épocas de colheita da batata, do feijão ou da la-ranja – atividades intensivas em mão de obra –, uma dezena de ônibus com faixas amarelas nas laterais e a inscrição “RURAIS” pintada por cima circula desde cedo em Campina do Monte Alegre. Estão ali para embarcar os boias-frias, depois das cinco da manhã.
Foi nessa região relativamente pobre do estado que Raduan se enfurnou e se dedicou com afinco a uma atividade de fins comerciais a partir de 1985. Criou gado e plantou arroz. Investiu em maquinário e na irrigação do solo. Nos primeiros anos, a propriedade lhe rendeu frequentes prejuízos. O cultivo da soja e do milho fez a fazenda finalmente deslanchar na década passada, quando passou a dar bons lucros.
Foi só então que o escritor tomou nova decisão, em tudo semelhante à que provocara perplexidade décadas antes: estava na hora de parar.
Poderia ter arrendado ou vendido as terras, o que lhe garantiria uma renda mensal mais do que confortável. Não tem filhos, mas nada o impedia de deixá-la para os irmãos e seus respectivos herdeiros. Raduan, no entanto, deu outro destino a seus quase trinta anos de trabalho.

uma tarde azul e fria, em agosto de 2011, o escritor recebeu na casa térrea que serve de sede para a propriedade uma comitiva da Universidade Federal de São Carlos. Concluiu, numa breve reunião, a última etapa do processo de doação do imóvel, das benfeitorias ali realizadas e de quase todo o seu maquinário. A instituição de ensino superior se comprometia, segundo os termos do documento assinado pelo doador e pelo reitor Targino de Araújo Filho, a instalar na fazenda umcampus universitário.
A USCar já começou a reformar a Lagoa do Sino. Pretende iniciar as atividades pedagógicas do novo campus em 2013 – a princípio, com um curso de agronomia. Mas estuda-se a abertura de outras áreas de graduação, como engenharia florestal, economia, ciências sociais e pedagogia. Como parte do acordo, a fazenda continuará a produzir.
Na escritura de doação, a Lagoa do Sino tem seu valor estimado em 11 milhões de reais. Alguns anos antes da transferência, um fazendeiro chegou a oferecer 18 milhões pela propriedade. Se somarmos o maquinário também transferido ao governo federal, a oferta de “porteira fechada” de Raduan vale um montante superior a 20 milhões de reais.
Mas a doação da fazenda à universidade é apenas uma parte – a etapa final – da nova “virada radical” do escritor. A primeira providência foi tomada ainda em 2004, quando Raduan loteou um vasto terreno que possuía em Campina do Monte Alegre. A área de propriedade do escritor foi repartida em 321 lotes de 300 metros quadrados cada. Quase metade dos terrenos foi doada, em 2007, a uma associação particular, encarregada de vendê-los, a preços subsidiados, aos trabalhadores da região. Outra parte dos lotes originais, dezenas deles, foi oferecida gratuitamente por Raduan a funcionários e ex-funcionários da Lagoa do Sino.

liseu Crispim Rodrigues tem 35 anos e se mudou para a região ainda criança, quando seu pai, Antônio, foi contratado por Raduan para fazer “serviços gerais”. Recebeu um dos lotes doados pelo escritor, onde construiu sua casa. Mora lá, embora ainda falte “o acabamento, por fora”. Na adolescência, Eliseu ajudou a cuidar do gado, na fazenda. Nos últimos anos, ficou responsável por dirigir a máquina colheitadeira. Diz que Raduan não aceitava funcionário “sem registro” e pagava melhor que os fazendeiros da região.
“É uma pessoa muito boa”, contou Eliseu no início de abril, enquanto tirava o chapéu de palha e enxugava o suor do rosto. No final da manhã, a calça jeans e a camisa de mangas curtas já tinham algumas manchas de cimento. “Seu Raduan se dava muito bem com criança”, disse, interrompendo a construção de um muro numa casa próxima aos silos de estocagem. “Tenho três filhos. De vez em quando ele botava as crianças todas na Saveiro dele e passeava dentro da fazenda. Perguntava coisas para elas. E conversava, conversava. Com a gente mesmo, com os funcionários, conversava só o necessário.”
Eliseu vê seu futuro com certo fatalismo. Diz que vai continuar “nessa lenga-lenga de lavoura” até que os novos donos da fazenda resolvam lhe dar “uma bica na bunda”. Raduan não chegou a explicar aos funcionários o motivo da doação. “Da boca dele mesmo, não falou. No dia de acertar as contas, no último dia, ele chegou a chorar. Ficou sem palavra.”
Poucos passos além do local onde Eliseu trabalhava, numa sala invadida pela luz do sol, o administrador da fazenda, Newton Santos Correa, procurava um número no celular com a ajuda dos óculos de leitura dependurados na ponta do nariz. Aos 53 anos, Newton tem sido o braço direito de Raduan Nassar em suas atividades agrícolas desde o início, no prejuízo e na abundância.
“A plantação de aveia é a coisa mais linda”, comentou, interrompendo assim uma discussão com funcionários da Federal de São Carlos sobre o preço da semente do cereal. Corpulento, o administrador tem a pele clara do rosto avermelhada pelo sol. Os cabelos grisalhos também adquiriram uma coloração extra, de tom esverdeado. Ele é simpático e gentil, embora desconfiado. Observações estéticas – sobre a beleza de um caramanchão, de um conjunto de bois no pasto ou sobre as cores da aveia e do trigo – são comuns em sua boca, o que não denota falta de entusiasmo pelos aspectos mais práticos da vida rural.
Nos últimos meses o administrador tem ocupado uma sala desprovida de adornos, próxima à entrada da propriedade. Um pequeno calendário era o único objeto que pendia da parede do escritório. Sentado numa cadeira de plástico, diante de uma mesa simples de madeira, Newton relembrou o início difícil da Lagoa do Sino.
Quando Raduan adquiriu a propriedade e o convidou a administrá-la, “estava tudo caindo”, ele disse. “A fazenda estava malcuidada mesmo.” Pior: nem ele nem o futuro patrão tinham expe-riência em agricultura comercial de larga escala. Haviam se conhecido durante a negociação para a compra de uma outra propriedade, bem menor, onde o administrador trabalhava. Raduan confiou em sua honestidade e capacidade. Fez ofertas cada vez mais altas de salário, mas Newton resistia.
“Seu Raduan, como é que eu vou sair de 20 alqueires para cuidar de 220?”, argumentou. “Se acertarmos, nós vamos acertar juntos. Se errarmos, vamos errar juntos”, prometeu o escritor.
Na conversa daquela manhã de abril, descreveu o ex-patrão de maneira carinhosa como um sujeito turrão. Em mais de uma ocasião, brigaram – numa delas, Newton ameaçou ir embora. Raduan, ele diz, sempre foi muito exigente, inclusive ao contratar serviços para a fazenda. Discutia com frequência com os pedreiros. “Tudo tinha que ser certinho; ele reclamava que as paredes não estavam alinhadas”, contou, sorrindo.
Na recente rodada de doações, Newton recebeu do ex-patrão não um lote, mas uma pequena fazenda de 112 hectares.
Raduan Nassar também fez uma doação indireta ao restante da população campino-monte-alegrense. Comprou o único clube da cidade, que estava abandonado havia alguns anos, e o destinou à mesma associação responsável pela venda dos lotes. Feitas as reformas necessárias, os moradores da região poderão ter acesso, ao custo de 8 reais por dia, a três piscinas, quatro quadras poliesportivas e um campo de futebol-soçaite.
O escritor recebeu da Associação Capaúva, donatária dos lotes e do clube, a promessa de construir na cidade a “Sala de Estudos do Trabalhador Rural” – uma espécie de centro comunitário, com biblioteca, computadores ligados à internet e auditório para a realização de cursos de capacitação profissional. A entidade, cujos integrantes têm experiência em trabalhos com assentados da reforma agrária, é presidida por Hamilton de Souza Silva, ex-candidato a verea-dor pelo PT no município de Castilho, no extremo oeste de São Paulo.
Miltinho, como é conhecido, diz ter “um bom vínculo de amizade” com o MST. É magro, usa óculos e fala de maneira pausada, com a voz aguda. Faz lembrar um seminarista. Seu grupo foi indicado ao escritor pelo religioso dominicano Carlos Alberto Libânio Christo, o Frei Betto. Amigo de Raduan, o ex-assessor especial do presidente Lula presta assessoria a movimentos sociais.
Ao transferir propriedades à Associação Capaúva, a Eliseu, a Newton, a dezenas de outros trabalhadores rurais e ao poder público, o escritor acabou abrindo mão da maior parte da riqueza de que dispunha – bem como da renda obtida das gordas safras da Lagoa do Sino. “Ele não doou apenas o que estava sobrando”, afirma seu contador, Messias Barboza, um católico praticante. Antes de concluir a transferência da fazenda para a Federal de São Carlos, Raduan  avisou: não queria dar publicidade a seu gesto. Se a imprensa estivesse presente, não assinaria a escritura.

nquanto ainda se dedicava à literatura, Raduan falava pouco a jornalistas, e concedeu raras entrevistas desde que decidiu parar de escrever. Tem aversão a qualquer gesto que denote vaidade ou ostentação. O amigo Antonio Fernando de Franceschi, diretor editorial dos Cadernos de Literatura Brasileira,[1] conta que por alguns anos o escritor se recusou a usar a imponente sede da Lagoa do Sino, com seus 500 metros quadrados de área construída, como re-sidência. Em suas temporadas na fazenda, preferia se hospedar numa construção bem menor, de dois quartos, situada a poucos metros da casa-grande.
A “relação complicada” de Raduan com o narcisismo, como a descreve Franceschi, ajuda a explicar seu silêncio, que terminou por alimentar a fama de personalidade enigmática. Falar, aliás, não é uma garantia de esclarecimento, e o escritor parece não ter por hábito se justificar sobre suas decisões. Em 1996, instado a dizer o que o havia levado a se dedicar inteiramente à escrita numa determinada época de sua vida para depois parar, afirmou: “Foi a paixão pela literatura. Como começa essa paixão e por que acaba, não sei.”
Já a origem da paixão pela agricultura pode ser localizada. É uma herança familiar. O pai do escritor, João Nassar, um cristão ortodoxo, trabalhou como lavrador no Líbano sob domínio do Império Otomano, antes de migrar para o Brasil com a mulher, em 1920. Chafika Nassar era, segundo o filho, uma criadora de mão cheia de galinhas e perus, e foi dela que veio seu gosto pela criação de animais.

aduan nasceu no dia 27 de novembro de 1935, em Pindorama, no interior de São Paulo. Era o sétimo de dez filhos. Teve “uma das melhores alegrias da infância”, como a descreveria mais tarde, ao ganhar do pai, em 1943, um casal de galinhas-d’angola. No ano seguinte, teve início uma fase de fervor religioso. Ia à missa todos os dias para comungar e, em 1946, tornou-se coroinha.
Em 1953, a família se mudou para São Paulo. O pai abriu um pequeno armarinho no bairro de Pinheiros, o Bazar 13, que se tornaria uma das principais casas comerciais da cidade. Em 1955, Raduan decidiu ingressar simultaneamente na tradicional Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e no curso de letras clássicas da USP. Antes do final do ano, abandonou a segunda graduação. Mas logo encontraria uma nova área de estudo para dividir suas atenções – filosofia na USP, que passou a cursar em 1957.
É dessa época a formação de seu mais próximo grupo de amigos do Largo de São Francisco, todos com aspirações literárias. Modesto Carone, que se tornaria o principal tradutor de Franz Kafka no Brasil, foi apresentado a Raduan por Hamilton Trevisan,outro aluno das Arcadas. José Carlos Abbate, que se tornaria jornalista, completava o quarteto.

primeira grande fuga de Raduan – frustrada, é bem verdade – data também desse período. Numa crônica publicada em 1996 nos Cadernos de Literatura Brasileira dedicados a Raduan, Carone recorda “uma noite de largueza” em que o grupo de amigos bebia, como de hábito, num dos bares do centro de São Paulo. O tema recorrente das conversas, lembra o tradutor, era a relação entre a experiência e a literatura: “Quanto maior uma, melhor a outra.”
Seguindo uma lógica incontestável, alguém teve a ideia: deviam embarcar num navio para qualquer parte, par-tindo do porto de Santos, e só voltar “com a obra pronta”. “Acreditávamos plenamente que ia dar certo”, disse.
“Quase quarenta anos depois”, escreveu o tradutor de Kafka, “é difícil dizer quem parou o táxi junto à calçada. Hamilton, Raduan e eu entramos e Abbate ficou para informar as famílias sobre nossa partida. Mandamos o chofer rumar para o porto de Santos.”
Como não tinham dinheiro sobrando nem passaportes, só lhes restava a esperança de embarcar clandestinamente. Mas, no porto, uma “implacável grade de ferro” os separava do cais. Avistaram ao longe um portão aberto e bem iluminado. Sentado num banco alto, um empregado portuário que figuraria melhor num conto do escritor tcheco guardava a passagem, enquanto tocava uma improvável clarineta. “O funcionário ouviu as alegações com paciência, soprou no instrumento umas notas da Cavalgada das Valquírias e disse que era impossível”, escreveu Carone.
 “Acho que ali acabou a nossa adolescência”, concluiu o tradutor, durante uma entrevista recente por telefone.
Isso não impediria Raduan Nassar de tentar novas fugas. No que seria seu último ano na faculdade de direito, em 1959, abandonou o curso do Largo de São Francisco. Carone afirma que, à época, o amigo não deu maiores explicações sobre sua decisão – “Apenas parou de ir.”
Concluiria o curso de filosofia bem mais tarde, em 1963, depois de se desligar dos negócios da família – que via prosperar o Bazar 13 – e passar uma temporada no Canadá e nos Estados Unidos. Recusou, nessa mesma época, uma oferta para ser professor no departamento de pedagogia da USP. Em 1965, começou a se dedicar à criação de coelhos. No ano seguinte, passou a presidir a associação brasileira dos criadores do animal, mas essa atividade também foi interrompida em 1967.
Numa entrevista para a revista Veja, no final dos anos 90, Raduan aludiu à trajetória incomum que o transformava em objeto de permanente curiosidade. “Abandonei o curso científico e pulei para o clássico, abandonei um curso de letras na universidade, o curso de direito no último ano, a empresa familiar assim que meu pai faleceu. Abandonei ainda uma criação de coelhos, o jornalismo e outras coisas mais. Tudo somado, só levei a pecha de inconstante. Por que só quando abandonei a literatura eu teria me transformado em personagem fascinante?”
O início da atividade jornalística a que o escritor se refere coincide com o fim da criação de coelhos. Em 1967, Raduan fundou com os irmãos o Jornal do Bairro, publicação paulistana que, apesar do nome modesto, abria espaço para temas de política nacional e internacional.
Segundo o escritor, o jornal “fazia oposição ao regime da época e identificava-se com as reivindicações do então chamado Terceiro Mundo”. Em abril de 1974, deixou a direção do semanário, que já alcançava a expressiva tiragem de 160 mil exemplares por edição. Nos seis meses seguintes, se dedicaria exclusivamente a escrever seu primeiro romance, trabalhando às vezes mais de dez horas por dia.

avoura Arcaica é a história de uma fuga – e de suas consequências. O jovem André, protagonista e narrador do romance, encontra-se no quarto de uma velha pensão interiorana no capítulo inicial da obra.Deixou para trás a casa da família, uma propriedade rural em que numerosos irmãos e irmãs, o pai severo e a mãe acolhedora vivem em relativo isolamento do mundo.
O irmão mais velho, Pedro, é encarregado de cumprir a “sublime missão de devolver o filho tresmalhado ao seio da família”, e vai ao encontro de André. O caçula é repreendido, a princípio de forma amorosa. “Meu irmão prosseguia na sua prece, sugerindo a cada passo, e discretamente, a minha imaturidade na vida.” Segue-se um discurso de apresentação da vida familiar e a exposição de motivos do jovem narrador, que ocupa a maior parte da obra. O adolescente desgarrado contrapõe seu ceticismo – mais do que a ânsia de liberdade – ao relato dos sermões do pai, que em tom solene faz a defesa da ordem familiar, do comedimento, da tem-perança e da paciência.
Uma das forças do romance está no fato de André expor tanto as crenças do pai quanto a sua própria descrença de maneira equilibrada e com igual rigor de argumentos. Não é fácil recusar o grão de verdade existente nos valores do chefe da família, cujo discurso se ergue contra qualquer ameaça de desordem.
“O tempo é o maior tesouro de que um homem pode dispor; embora inconsumível, o tempo é o nosso melhor alimento; sem medida que o conheça, o tempo é contudo nosso bem de maior grandeza: não tem começo, não tem fim”, alerta o pai, aos filhos, da cabeceira da mesa.
“O equilíbrio da vida depende essencialmente deste bem supremo, e quem souber com acerto a quantidade de vagar, ou a de espera, que se deve pôr nas coisas não corre nunca o risco, ao buscar por elas, de defrontar-se com o que não é”, afirma. Mas “ai daquele que queima a garganta com tanto grito: será escutado por seus gemidos; ai daquele que se antecipa no processo das mudanças: terá as mãos cheias de sangue; ai daquele, mais lascivo, que tudo quer ver e sentir de um modo intenso: terá as mãos cheias de gesso, ou pó de osso, de um branco frio, ou quem sabe sepulcral [...]”.
André ainda tentará convencer o pai de que seus esforços e seus conselhos são vãos. “Toda ordem traz uma semente de desordem; a clareza, uma semente de obscuridade.” O chefe da família se mostra surpreso. “É muito estranho o que estou ouvindo”, diz ao filho. “Estranho é o mundo, pai, que só se une se desunindo; erguida sobre acidentes, não há ordem que se sustente.”
O tema rural e patriarcal e a prosa de acento bíblico de Lavoura Arcaica destoavam do ambiente dominante da literatura brasileira dos anos 70. “O livro do Raduan impacta pelo contraste e é recebido como uma coisa estranha”, afirma Homero Vizeu Araújo, professor de literatura da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, especialista na produção literária brasileira da segunda metade do século XX.
A característica que unifica um conjunto amplo de livros e autores daquela dezena de anos é uma espécie de ressaca, de decepção com o Brasil moderno real que surgia na esteira do golpe de 1964, muito distinto das promessas harmoniosas de uma ou duas décadas antes. Obras importantes daquele momento, como a prosa de Rubem Fonseca, se ocupavam da desordem e da violência das cidades, dos efeitos, explícitos ou tácitos, da ditadura militar.
 A estranheza de Lavoura Arcaica foi bem recebida, contudo. No ano seguinte ao de seu lançamento, a obra ganhou os principais prêmios literários do país: melhor romance, da Academia Brasileira de Letras; o Jabuti, na categoria Autor Revelação; e uma menção honrosa da APCA, a Associação Paulista de Críticos de Arte.
O fato de André ceder aos apelos do irmão mais velho e retornar às promessas de conforto familiar fez com que o enredo do romance fosse com frequência comparado à parábola bíblica do filho pródigo. No Evangelho de Lucas, o irmão mais novo de uma família abastada exige sua parte da herança e abandona a casa paterna. Partindo para um país longínquo, logo dissipa todos os seus bens, “vivendo dissolutamente”. Decide então voltar, para se oferecer como simples trabalhador assalariado ao pai, mas este o perdoa, sacrifica um novilho gordo e lhe oferece uma festa de boas-vindas.
No romance de Raduan, no entanto, os insistentes sermões do pai já são um indício da fragilidade da ordem que pretendiam reforçar. André foge de casa como reação a um outro impulso, confinado ao âmbito familiar, mas também desregrado: o desejo incestuoso pela irmã, Ana. Na celebração de sua volta, a irmã surge coberta dos enfeites de prostitutas que o adolescente trouxera na mala, e dança de maneira provocativa, para desespero do pai, que, descontrolado, a atinge com um golpe de foice.
“Ao contrário do filho bíblico, que vai se submeter à ordem, André provoca uma crise”, afirma Araújo.
Ao expressar um ceticismo que guarda relação com o de seu personagem e abandonar a literatura, Raduan também provocou uma crise considerável – pelo menos do ponto de vista de quem cultua a produção literária e faz discursos em seu louvor com solenidade análoga à do pai de André.
A incompreensão que cercou sua decisão, a esperança de que não podia estar falando sério ao igualar a invenção de romances à criação de galinhas, ensejou apelos de acolhimento tão sedutores quanto o carinho da mãe e das irmãs do narrador de Lavoura Arcaica.

um ensaio sobre a obra do escritor, de 1996, a crítica Leyla Perrone-Moisés se referia ao “impaciente Raduan, que finge não acreditar no valor da literatura apenas porque sua ação no mundo não é imediata e visível”. De maneira esperançosa, conclui o seu texto assinalando que “o deus da literatura nem sempre abandona os que dele descreem”. “Esperemos que, se Raduan abandonou a literatura, a literatura não o tenha abandonado, e o traga de volta a seus leitores.”
 “Impaciência”, “abandono”, “volta”. A escolha de palavras não poderia ser mais significativa do paralelo estabelecido, explicitamente, entre o escritor e seu personagem.
A desfeita do autor de Um Copo de Cólera aos valores da tradicional família literária provocou reação menos generosa por parte do crítico e jornalista José Castello. Em texto publicado no livroInventário das Sombras, de 1999, Castello conclui que “Raduan Nassar não suportou ser um grande escritor e desistiu da literatura para criar galinhas”. De maneira oblíqua, lamenta que ele não retorne ao lar. “Trocou a criação estética, que é complexa e desregrada, pela mecânica suave da avicultura, e parece muito satisfeito com isso, tanto que, resistindo a todos os apelos, se recusa a voltar atrás em sua decisão.”

“criação de galinhas” de Raduan Nassar possuía, ao ser doada, quatro tratores, três plantadeiras, uma colheitadeira, duas máquinas pulverizadoras de agroquímicos, quatro silos de estocagem – dois com capacidade para 7,5 mil sacas de 60 quilos cada, e outros dois capazes de armazenar até 17,5 mil sacas – e uma máquina de secagem de grãos, abrigada num prédio cujo pé-direito mede 6 metros de altura.
Sua complexa engrenagem, de mecânica pouco suave, passou a ser gerida, após a transferência de posse, por uma fundação ligada à Universidade Federal de São Carlos. Na primeira semana de abril, Valter Secco e José Eduardo Martinez, funcionários da entidade, chegaram para uma visita de dois dias à Lagoa do Sino, o que fazem com frequência semanal. Os dois são, para todos os efeitos, os atuais administradores da fazenda. Dividem a tarefa com Newton, o antigo responsável pela propriedade, que deve continuar a prestar os seus serviços até que os cursos de graduação comecem a funcionar.
Secco e Martinez vinham acompanhados do engenheiro Ricardo Rizzo Correia, representante da Federal de São Carlos encarregado de fiscalizar as obras que começam a ser realizadas na fazenda, a cargo de uma empresa terceirizada. Os três usam as instalações da sede da propriedade para trabalhar e guardar objetos pessoais, mas se hospedam em Campina do Monte Alegre.
Rizzo tem 40 anos, mas aparenta menos. O ex-professor universitário Valter Secco, aos 61, é administrador rural de primeira viagem. Os dois são práticos e bem-humorados. Decidem me levar para conhecer uma das joias da coroa da Lagoa do Sino. São três “pivôs”: grandes braços metálicos com inúmeras saídas para a água, como pequenos chuveirinhos, ao longo de centenas de metros de comprimento. O sistema de irrigação gira lentamente, preso a um eixo central, e garante ao agricultor relativa independência do imprevisível regime de chuvas e secas a que antes ficava sujeito.
É em direção ao menor deles, com um “braço” de pouco mais de 300 metros, que o administrador e o engenheiro se deslocam. Os outros dois, distantes dali, têm raios de alcance de mais de 500 metros cada.
Num passo vagaroso, seguimos a estrutura metálica de irrigação. A cada 50 metros há um par de rodas de trator que, em conjunto, sustentam a máquina. São oito minutos de caminhada até o centro do plantio, na parte mais elevada do terreno. Quase na linha do horizonte erguem-se pequenos morrotes, salpicados de branco. Cada pontinho é um boi. Secco explica que o gado pertence ao irmão de Raduan, Rauf Nassar, dono da fazenda vizinha, sede da Agropecuária Guatambu.

ligação da família Nassar com a região começou no final dos anos 60. Uma lei da época concedeu incentivos fiscais às empresas que comprassem terras para reflorestamento. O Bazar 13 decidiu então adquirir uma extensa propriedade em Buri, com essa finalidade. As terras viriam a ser divididas, na década seguinte, entre os irmãos. Com a venda de sua parte, Ra-duan comprou o pequeno sítio vizinho à Campina do Monte Alegre e, mais tarde, a Lagoa do Sino. O sistema de irrigação aumentou a produtividade da fazenda. Já os silos de armazenagem permitem guardar a safra por meses a fio, o que amplia a capacidade de barganha do produtor – à espera de um melhor preço de mercado. Toda essa aparelhagem foi adquirida aos poucos, ao longo dos anos 90, explica Newton.
Raduan é descrito pelo administrador e por Valter Secco como um negociador duro. A última safra de soja da Lagoa do Sino foi vendida por 51 reais a saca. Haviam colhido 21 mil sacas do grão. “Você faz a conta”, provocou Secco, com um sorriso nos lábios. A receita da fazenda, para um único produto, ultrapassa 1 milhão de reais. Cada alqueire agriculturável da terra – o equivalente a 2,4 hectares – poderia ser arrendado, na região, por até 2 mil reais. Isso significa que Lagoa do Sino é capaz de gerar uma renda anual, livre de qualquer custo, de pelo menos 360 mil reais. Bem tocada – como é –, rende muito mais.
“A fazenda é exemplar, é fantástica, é de cair o queixo”, avalia o agrônomo Antonio Roque Dechen, ex-diretor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, a Esalq, da USP. Dechen, hoje vice-reitor administrativo da Universidade de São Paulo, negociou com Raduan a possibilidade de a propriedade ser doada à instituição onde o escritor se formou.
O longo e penoso processo de tentativa de doação da Lagoa do Sino começou em abril de 2007, quando Raduan enviou uma carta à USP fazendo a oferta. Passaram-se meses sem resposta, segundo o contador Messias Barboza, até que o escritor procurasse diretamente o governo do estado. Precisou reiterar a sua intenção de transferir a propriedade, gratuitamente.
“Nos colocaram então em contato com a direção da Esalq”, afirma Barboza. Professores e alunos fizeram visitas à fazenda – vinham em grupos grandes, de ônibus, e demonstravam satisfação irrestrita com o que viam. Dechen não nega o entusiasmo, mas explica que mesmo assim as negociações chegaram a um impasse. A Esalq avaliava ter encontrado “um lugar fantástico para um polo avançado, em que alunos pudessem fazer, por exemplo, estágios de conclusão de curso”. Mas Raduan, segundo o vice-reitor da USP, fazia questão de que o novo campus oferecesse cursos de graduação.
A universidade tinha dúvidas sobre a viabilidade de novas faculdades na região. Segundo o ex-diretor da Esalq, não era possível garantir que haveria demanda por parte dos estudantes. “Virão cinquenta alunos de agronomia? Com as escolas que já existem? E iam morar onde? Não podia dar a garantia de que iria abrir um curso”, argumentou Dechen.
Barboza diz ter recebido outra explicação da USP. Numa carta a Raduan, a universidade alegou não poder garantir os investimentos exigidos pelo escritor em sua propriedade – a construção de 7 500 metros quadrados em novas instalações – para realizar a doação. “Não sabemos por que não deu certo”, diz o contador.
As negociações se estenderam por mais de dois anos e meio, até o final de 2009. Segundo Newton, o escritor se desgastou bastante nesse período. “Seu Raduan não sabia se plantava, se não plantava. Ficou decepcionado.”
Já em 2010, o proprietário da Lagoa do Sino foi convencido a procurar o governo federal, uma alternativa levantada por Messias Barboza enquanto ainda corriam as negociações com a usp. Dessa vez, tudo andou mais rápido, talvez pela força das relações pes-soais, talvez pela sintonia de projetos.
Um conhecido de Raduan e amigo de Gilberto Carvalho, o atual secretário-geral da Presidência, relatou ao então chefe de gabinete de Lula as dificuldades enfrentadas pelo escritor para doar a fazenda. A possibilidade de transferência da propriedade a uma universidade federal foi discutida entre Carvalho e o presidente, que repassou a tarefa a Fernando Haddad, então ministro da Educação.
“Recebi um telefonema do Gilberto Carvalho, falando do caso”, disse o candidato do PT à prefeitura de São Paulo. “Quando ele me ligou, estávamos planejando uma terceira fase de expansão das federais.”O local da fazenda casava com os interesses do governo, explicou Haddad, por se tratar de uma região onde “não havia oferta de educação pública”.
A transferência só foi concluída no governo Dilma. Com um custo extra para o escritor. Pela lei brasileira, o imposto de renda sobre ganho de capital – a diferença entre o preço de aquisição e o valor do mesmo bem na hora da transferência – é devido mesmo nos casos de doação. Por entregar gratuitamente sua fazenda ao poder público, Raduan foi taxado em 483 mil reais.
Quase todos os interlocutores do escritor no processo de doação da Lagoa do Sino se referem à ansiedade de Raduan para concluir a transferência. Antonio Roque Dechen disse não ter conversado explicitamente sobre as razões que levaram o escritor a se desfazer da fazenda. “Depois de um determinado momento da vida, os dias correm rápido, você vê que o seu tempo vai passando e começa a dar maior agilidade a essas decisões”, limitou-se a dizer.

uma conversa em abril, na sala improvisada que serve como escritório administrativo para a fazenda desde a doação, Newton explicou que o ex-patrão e amigo já não tinha nos últimos anos a mesma disposição para as tarefas cotidianas da propriedade. “A gente sentia que ele estava cansado”, comentou.
A interlocutores próximos, Raduan explicou que buscava, com as doações, devolver aos trabalhadores rurais o que deles havia recebido durante as suas quase três décadas de atividade. Notara, ao longo dos anos, a baixa autoestima de muitos lavradores, que teriam vergonha de ser identificados com a profissão. Do ponto de vista do escritor, a transferência de propriedades e a construção da “Sala de Estudos do Trabalhador Rural” – o centro comunitário em Campina do Monte Alegre – são uma tentativa, talvez utópica, de mudar essa realidade.
O autor de Lavoura Arcaica, de toda forma, não pretende se afastar do mundo rural, ao qual dedicou metade de sua vida adulta, como de resto nunca conseguiu se desvincular completamente da literatura. Ao mesmo tempo que se desfazia da fazenda, tratou de comprar uma nova. Seis vezes menor e vizinha à Lagoa do Sino, possui o sugestivo nome de Retiro Feliz.
Newton também é dono de uma casa na nova propriedade. Por um dos caminhos de terra da fazenda, ladeado por duas fileiras de velhos ciprestes, ele me conduziu a uma igrejinha discreta, de fachada branca e detalhes em azul. Diante da construção, o administrador se voltou para a estrada que havíamos acabado de percorrer e apontou na direção da casa principal. Chamou a atenção para a simetria de duas séries de edificações: “Está vendo? É tudo alinhado. É muito bonito.”
Newton explicou também que a nova propriedade não tem finalidade produtiva: “Tem um plantiozinho lá, mas vai virar pastagem. Não é mais para negócio. É para ver uns boizinhos.”
Raduan agora divide o seu tempo entre a beleza ordeira e sem opulência da Retiro Feliz, em Buri, e o apartamento que mantém em São Paulo. Numa dessas idas e vindas, o escritor recebeu, assim que chegou a São Paulo, uma mensagem minha. Ao convite para comentar, em entrevista, suas motivações e decisões, respondeu de maneira educada e gentil. Ao final, dizia: “Aqui entre nós, falando baixinho: prefiro o silêncio.” 




[1]publisher de piauí é presidente do Instituto Moreira Salles, que edita os Cadernos de Literatura Brasileira.


domingo, outubro 23, 2011

Hoje de Madrugada







Raduan Nassar

O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que  não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.


Está neste livro.
Prêmio Jabuti 1998 de Melhor Livro de Contos e Crônicas


Este conto é um dos que eu mais gosto. Chico Buarque o leu num encontro com o Raduan- e quase chorou lendo- eu vi. Contei aqui em outros posts.




 
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sábado, novembro 27, 2010

Vida longa, meu querido Raduan





Raduan Nassar faz anos hoje.


Raduan é um homem que está na minha vida desde que li “Um copo de cólera”. OK. está muito mais no meu imaginário, mas é presente.  Lembro quase todos os dias dele, gostaria de telefonar- não ligo, sei que prefere assim. Se eu disser o quanto é importante para mim dirá: “O que é isso, menina? Você me superestima”. Ouvi isso do Drummond, também. A vida me deu estes presentes. Ou eu busquei estes prêmios? Acho que mereço. Por que? Ah! Só eu sei ... :) Que vida!

Raduan é especialíssimo, quem conhece sabe. De uma simplicidade que não se encontra mais atualmente.  Ao mesmo tempo é um curioso  e está sempre atualizado. É famosa a frase dele de que prefere criar galinhas a escrever livros. Deixou de escrever faz anos. Não cria mais galinhas, cultiva soja, arroz, estas coisas. Também diz que não gosta mais de ler. “Só leio obrigado, os livros de amigos”.
Sempre que nos falamos, meu coração bate mais forte, e desligo o telefone sorrindo- ele ri muito comigo, porque sou gaiata e espontânea com ele. Quando nos conhecemos disse: “Você tem uma espontaneidade cativante.” Não tenho medo de dizer o que sinto- ele me deu a senha.
Me chama de menina, digo: “Raduan, não sou mais menina, envelheço como você. Envelhecer não é privilégio seu.” Ele ri e diz: “Mas você ainda é uma adolescente.”
No ponto de vista do sonho, dos amores platônicos, sou, sim, uma adolescente.



Do arquivo.

Este trecho, hoje atualizado, eu havia escrito antes, num outro post.

Vocês sabem que sou fã de Raduan, o meu segundo post foi um conto dele, para que todos pudessem ler. Para mim, ele é o maior escritor brasileiro do nosso tempo, alguns dizem que é Guimarães Rosa, outros Rubem Fonseca, eu fico com Raduan. É uma escolha subjetiva acima de tudo, porque tudo que ele escreveu eu gostei, tudo. Publicou poucos livros e não quer escrever mais. Diz que agora só lê livros dos amigos porque é obrigado.

O Caderno de Literatura do Instituto Moreira Salles sobre o escritor é excelente, se você quer conhecer mais o brasileiro-libanês compre o Caderno, é ótimo.

Conheço Raduan há anos, meus meninos eram pequenos. Nosso primeiro contato foi muito engraçado. Eu havia feito um trabalho de psicanálise em cima do “Um copo de cólera”, uma amiga me disse que a irmã havia conhecido Raduan, porque estava a fim de fazer uma peça de teatro baseada no conto "Ventre seco", e que ele foi muito simpático- recebeu-a na casa dele. Pedi o endereço para mandar meu texto, mas esta amiga é muito desligada, ou desinteressada, como queiram, e não pegava nunca o endereço. Estávamos no Rio, ele em São Paulo, um dia eu desliguei o telefone acabando de falar com ela e liguei 102, pedi o telefone de Raduan, me deram.

Liguei pensando que uma secretária atenderia, aquelas coisas, ele atendeu, ai eu não sabia o que dizer, disse que não esperava que ele atendesse e, ansiosa, me apresentei e comecei a falar que havia feito um trabalho etc e tal. Depois de certo tempo ele me disse pausadamente, com aquela voz de paulista: ”Estamos conversando há quinze minutos e você não disse seu nome.”

Foi nosso primeiro contato e falamos uns cinqüenta minutos, a ligação era interurbana, eu não queria desligar nunca, imaginem minha emoção. A partir daí passamos a nos falar sempre, pelo menos uma vez por mês. Uns dois anos depois, um dia ele me disse: “Ficarei velhinho e você não virá me conhecer”. Foi a senha para que eu fosse.

O primeiro encontro foi na casa dele e Raduan me fez falar, perguntou TUDO sobre minha vida e minha família. Ficamos até uma da manhã conversando, aliás, ele me ouvindo, então me levou para a casa de meus amigos, onde eu estava hospedada. Ficamos de almoçar juntos no dia seguinte, eu voltaria para o Rio à tarde, mas no dia seguinte ele ligou dizendo que havia esquecido que era aniversário de sua mulher, hoje ex., que ficaria para a próxima vez.

Depois nos vimos no Rio num encontro que ele teve com Chico Buarque onde fizeram leituras de trechos de seus livros, Raduan leu Chico, Chico leu Raduan- já contei aqui que o compositor se engasgou e quase chorou lendo “Hoje de madrugada”. Ganhei de presente "Menina a caminho".

Não voltamos a nos ver por longos anos. Ele gostaria de vir ao nordeste, mas anda com probleminhas de saúde, adiou a viagem que seria em fevereiro, quer vir visitar Ariano Suassuna de quem é amigo.
No ano passado fui à São Paulo e nos encontramos perto da casa dele, numa cafeteria. Ele chegou com a respiração ofegante, havia feito uma cirurgia há pouco tempo.

Temos uma relação bonita de afeto, é um amor impossível meu, já contei antes- nos encontramos muito tarde, e com longas distâncias geográficas. É um homem gentil. Sou encantada por ele.

Ele diz que o chateiam para dar entrevistas, acho que quem quiser saber mais sobre Raduan deve ler o Caderno e devem respeitar seu silêncio, ele concordou quando eu disse isto, as pessoas insistem, querem descobrir o porquê do silêncio. Meu Deus! se alguém pede silêncio, respeitem. O que vale é a obra maravilhosa dele, se parou de escrever, é isto ai.  “É um fato”, ele disse, “e ponto final”. Concordo. Há dias em que ligo e ele está muito quieto, então eu digo:” Não quer falar hoje, não é?” “Não é com você, você sabe.” Eu sei, eu o respeito e vou amá-lo sempre, mesmo no seu silêncio: “Homem maduro, coração duro”*, eu digo, ai ele cai numa gargalhada que me faz feliz, ele ri comigo, isto é o bastante.

Vida longa para meu querido amigo Raduan!


* frase do conto "Ventre seco".