Segunda-feira, Novembro 29, 2010

Mini crônicas: Rompendo o silêncio- meninos do Rio













Foto daqui





Nossos meninos


Cheguei ao Rio de Janeiro em 70, vivi 30 anos no mesmo lugar, uma rua arborizada e tranquila em Ipanema.
Vi meninos de rua crescerem, alguns literalmente- vi se tornarem homens e desaparecerem. No início de 80 eram alguns, em 2000, muitos, agora já organizados, andavam em grupos, batiam com pedaços de paus nas grades das lojas fechadas- algumas com portas fechadas antes das 19 h por medo. Era assustador.
Eu via aquele bando e pensava em abandono- desciam do morro onde sofriam agressão e descaso e no asfalto eram 'poderosos' com pedaços de paus e cacos de vidro.
Uma vez, uma amiga levava a filha para a escola- ainda no tempo dos vidros abertos- um menino gritou:
- "Passe o dinheiro"
Ela tranquilamente disse:
- "Não tenho dinheiro, quer este pacote de biscoito?"
Ele respondeu:
- "Quero tia" e sentou no meio fio para comer o biscoito.




A decisão


Atendia um cliente no consultório na Rua Visconde de Pirajá, perto da Praça gal. Osório, nove e pouco da noite, ouvimos tiros, muitos, pareciam atingir os prédios em frente, olhamos pela janela, não havia nada estranho. Voltei a atendê-lo.
Saímos do prédio juntos, os tiros vinham da favela- o porteiro da noite já sabia.
A rua estava deserta. Ao dobrar a esquina da Rua Farme de Amoedo ouço som animado de 'Chorinho' vindo do bar badalado.
Quinta era dia de Chorinho, estava lotado, todos animados bebiam o chope famoso. Na esquina um carro da polícia vinha da rua onde há entrada para o morro.
No dia seguinte ao comentar ouvi de várias pessoas: "É...foi lá no morro".
Nada parecia acontecer.
Neste dia decidi que sairia do Rio com meus dois filhos.
Neste dia decidi sair do Rio de Janeiro.




A despedida



Era minha última noite no Rio, dezembro de 2002, depois de uma via sacra de despedidas emocionadas, fui ao encontro de um amigo psicanalista num restaurante tradicional na Avenida Atlântica, posto 6.
Há anos não me sentava naquelas varandas divertidas com gente exótica, mulheres enroladas em cobras, seresteiros, homens vendendo bonecos gigantes, travestis.
Neste noite não havia ninguém. Havia silêncio.
Saímos à meia noite, rua deserta.
Era um silêncio que eu desconhecia. Dava medo.

Eu e o Rio




Vou contar para vocês sobre o meu Rio, um pouquinho, senão fico horas aqui e estou com dor de cabeça e não interessa a todos, claro.

Fui para a cidade do Rio em 70, antes morava em Cabo Frio, e menina, em Curitiba. Nasci por acaso no RS, meu pai foi servir lá.

Bom, eu já conhecia o Rio de passagem- a cidade mais linda que conheço- pode ser que existam outras cem, mas eu só conheço algumas. O carioca, tido como o malandro, o bom de papo, foi o povo que melhor me acolheu. Cheguei lá sem parentes, alguns amigos, que conheci em Cabo Frio- claro que entre eles estava uma das pessoas mais importantes da minha vida, o Carlinhos, já falei dele antes aqui, várias vezes- outro amor impossível- este porque era gay- dizia: “Se um dia me casar será com você”. Era um gaúcho lindo e charmosíssimo, além de bon-vivant- vivia de rendas- Fazenda.

Eu morava em Ipanema- que é, ainda, uma república- usava o orelhão da padaria da esquina, conhecia os comerciantes todos do pedaço, os jornaleiros- comprava fiado em alguns lugares. Quando fui em 2007, fui cumprimentar vários deles- parecia que havia passado apenas uns meses fora. Desde seu Antonio, do Bofetada, até o dono, esqueci o nome... do Via Farme (era um restaurante muito bom e preço bom, além da varanda deliciosa- ainda existe, acho). Meu ex, boêmio, me levou a a conhecer botequins- não é o que eu mais gosto- são barulhentos.

Naquela época começaram a surgir nas ruas meninos vagando- um deles eu vi crescer, depois sumiu. Há um morro ali próximo- Pavão-Pavãozinho, havia um CIEP na época do Brizola que funcionava – num lugar lindo, privilegiado- tem vista para a Lagoa e mar. Depois não sei o que aconteceu- desativaram. Antes do CIEP foi um Clube depois um restaurante. Havia alguns “malucos” no bairro. A Maria, uma negra baixinha, que não podia me ver, vinha me cumprimentar, esticava a mão para mim. Eu sempre lhe dava um trocadinho- não sei o que fazia- não bebia de cair- acho que era maluquinha, mesmo. Um outra dormia na entrada dos prédios quando estava alcoolizada... Esta tinha um filho- foi este que vi crescer. Havia a lenda de que ela tinha dinheiro, mas gostava da rua. Nesta época, ficávamos em frente ao prédio até dar sono- recostados em carros, ou dentro, batendo papo- dando voltas pela Lagoa. A gasolina não era cara. E não havia perigo algum.

Os meninos cresceram, sumiram, outros vieram, às vezes em bandos, com paus nas mãos. Nunca me perturbaram- aprendi que assustavam quem tinha medo. Me chamavam de tia: “Tia me dá um troco ai?” Eu tinha um certo receio dos maiores que chegavam e diziam: “Madame, me dá...” Sempre respondia: “Não sou madame... pegue aqui”.

Um parêntese: nunca fui madame, para vocês terem uma idéia, hoje acordei cedo para tomar café como filho que faz vestibular, já molhei jardim, lavei roupas e as pendurei num sol de lascar, vou fazer almoço daqui a pouco- aqui não tem horário de verão. Mais tarde varro casa, passo pano, tiro roupas do varal, molho jardim- a grama. E assim vou, amanhã tem consultório- amo psicanálise, vocês sabem.

Ficavam feito abelhas cercando nas lojas de sucos- o que é constrangedor- ali eu dava um lanche. Eu só andava a pé- trabalhava a cinco minutos de casa- fazia tudo por ali- tenho saudades disto- aqui preciso andar de carro até para ir à praia.

Estes dias está havendo uma guerra contra o tráfico no Rio. Dói ver o Rio em imagens tão tristes, mas, ao mesmo tempo, dá alívio em pensar que é a primeira vez que há uma reação inteligente e forte contra traficantes. Eu sempre ouvi a frase: “O governo não pode fazer nada, são mais armados que a polícia” Mas não são mais armados que as Forças Armadas. Antes, me parece, as Forças Armadas se negavam a usar sua força. Desta vez o tráfico deu um tiro no pé. Ao colocar fogo nas ruas, pediu um basta. Uma das razões de eu ter vindo para cá era o incomodo que sentiu quando ouvia tiros no Morro- era distante, mas ouvia e ninguém se importava. No dia seguinte perguntava se ouviram de madrugada, diziam que sim, mas era no morro... era para avisar que a droga chegou. Bom, agora foi diferente.

Vocês sabem que sou tuiteira- gosto do Twitter, gosto de saber o que acontece, trocar idéias- lá é bom para isso. Tenho vários‘amigos’ lá, alguns serão amigos para sempre como fiz aqui, outros de uma temporada, não importa. Tenho uma ex ‘amiga’(no passado porque se aborreceu comigo com uma besteira, ou outra coisa, nunca soube) que ontem disse lá: “Sabe o filme “A classe operária vai ao paraíso”? esta situação no Rio parece a classe média indo ao paraíso como se o Rio estivesse limpo kakakaka.

Tai uma coisa que eu não tolero, ironizar sobre a dor dos outros. O Rio de Janeiro sofre, o Rio está em guerra, muitos estão com risco de vida, dos dois lados. Não há o lado do BEM e o lado do MAL- são todos homens, mulheres, mães, pais, filhos, vizinhos- gente como a gente, apenas menos favorecidos. Por que o deboche? Em seguida ela diz, ou antes, que pegou o bonde andando. Não é isso, conheço a figura, adora ironizar sobre cariocas, adora colocar nordestinos X cariocas, é uma estupidez, apenas acirra rancores. Vivi no Rio, zona sul, trinta anos. Todos os porteiros eram daqui do nordeste- todos muito queridos, não vi, nem conheço, nenhuma história de preconceito contra eles. OK. São os porteiros. Mas, não só porteiros, minha melhor amiga- difícil dizer isso “melhor amiga”, mas foi a que mais me acolheu- a mãe eu queria ter tido- eu digo para ela, ela retruca: “E você a filha que gostaria de ter”- é uma paraense maravilhosa, mais velha que eu vários anos e uma mulher admirável- eu a amo. Figura queridíssima na SPYD, sociedade de psicanálise onde estudei e participei mais de dez anos- como eu trabalhava no mesmo prédio convivi com Cinézia muito- nunca me desapontou. Os membros mais importantes da sociedade de psicanálise mais interessante de lá, para mim, hoje, são nordestinos.

Agora, me digam: por que esta rixa com cariocas? Por quê? Queria entender. Inveja? Somos- Ah! Eu sei que não sou carioca da gema, mas sou por opção, por adoção- e lá, ninguém diz diante de uma crítica ao Rio- há muitas- por que veio morar aqui? Nunca ouvi isto. O carioca é acolhedor e solidário. Quem torce contra o Rio vai ter que torcer o rabo, como a porca.

Vamos mandar energias boas para lá- para todos os cariocas e moradores- muitos nordestinos que se consideram hoje tão cariocas quanto eu- somos um povo só. Preconceito? Existe, sim, mas são os babacas arrogantes que têm, como são os babacas arrogantes daqui que têm contra o carioca, os estrangeiros- gente de má índole. Para mim pessoas xenófobas são asquerosas.

Namastê.

Fui. Até outro dia, desculpem o desabafo. Desculpem a pressa, há coisas para fazer.
Não fiz revisão, deve ter erros, podem apontar- agradecerei. Escrevi agora na pressa para fazer catarse, mesmo.
Leiam os posts anteriores e vejam que gente fantástica.

Notícias de uma guerra particular



Aqui: Notícias de uma guerra particular


Rene Silva, jovem do morador do Morro do Adeus, twittou em tempo real a invasão da polícia ao Complexo do Alemão. 


                                                        

" Estudante e morador do
Morro do Adeus, no Complexo
do Alemão, Rene é repórter,
fotógrafo, redator, editor e colunista
do Voz da comunidade,
jornal que criou há cinco anos
para denunciar os problemas
da sua região. O sucesso do
periódico fez com que ele conseguisse
o patrocínio de uma
operadora de celular, que lhe
deu um iPhone, aparelho que
também usa para twittar e fazer
fotos e vídeos."

Rio- José Junior: ‘Foi a primeira vez em que mediei sendo um alvo’



Leia aqui: O DIA ONLINE - RIO - José Junior: ‘Foi a primeira vez em que mediei sendo um alvo’
Obrigada, José Junior. Os deuses te protejam.

Nápoles pede socorro!

Foto daqui

Colaborando com Giovanna, amiga querida do sul da Itália.:

A cidade de Nápoles, Itália, está soterrada por toneladas de lixo: nas ruas, na porta de escolas, monumentos, praças, igrejas.
A Região toda, por quase 20 anos, foi LIXÃO das industrias do Norte da Itália e, parece, de parte da Europa também.
Boa parte do interior do Sul da Itália foi destino do lixo tóxico de industrias, hospitais etc. a partir dos anos 90, quando houve a proibição de enviar o lixo tóxico para a África. Em muitos casos, no passado, o lixo tóxico foi descarregado na África com a autorização dos Governos Africanos, em troca de armas para as inúmeras guerras civis.


Uma PENA!
Napoli está vivendo agora um drama humano, sanitário e social.
Estamos chamando a atenção da população e da Mídia através de uma iniciativa
que pretende utilizar o Futebol, pela sua importância- em particular o time de Futebol da cidade- o Napoli, sendo este o padrinho do protesto.
A nossa proposta é solicitar uma FAIXA PRETA DE LUTO no braço de todos os jogadores, até que o Governo local e Nacional acabe com esse drama e essa vergonha.


É preciso fazer algo- nos ajude a divulgar.

Clique aqui e "PARTICIPE" por favor, convidando mais amigos.
Mais aqui.

Que pena!

Domingo, Novembro 28, 2010

Complexo do Alemão- Jorge Mario Jáuregui


Vejam o projeto socail para o Morro do Alemão: aqui.
Via Jose Junior- @JJAfroReggae

Sábado, Novembro 27, 2010

Vida longa, meu querido Raduan





Raduan Nassar faz anos hoje.


Raduan é um homem que está na minha vida desde que li “Um copo de cólera”. OK. está muito mais no meu imaginário, mas é presente.  Lembro quase todos os dias dele, gostaria de telefonar- não ligo, sei que prefere assim. Se eu disser o quanto é importante para mim dirá: “O que é isso, menina? Você me superestima”. Ouvi isso do Drummond, também. A vida me deu estes presentes. Ou eu busquei estes prêmios? Acho que mereço. Por que? Ah! Só eu sei ... :) Que vida!

Raduan é especialíssimo, quem conhece sabe. De uma simplicidade que não se encontra mais atualmente.  Ao mesmo tempo é um curioso  e está sempre atualizado. É famosa a frase dele de que prefere criar galinhas a escrever livros. Deixou de escrever faz anos. Não cria mais galinhas, cultiva soja, arroz, estas coisas. Também diz que não gosta mais de ler. “Só leio obrigado, os livros de amigos”.
Sempre que nos falamos, meu coração bate mais forte, e desligo o telefone sorrindo- ele ri muito comigo, porque sou gaiata e espontânea com ele. Quando nos conhecemos disse: “Você tem uma espontaneidade cativante.” Não tenho medo de dizer o que sinto- ele me deu a senha.
Me chama de menina, digo: “Raduan, não sou mais menina, envelheço como você. Envelhecer não é privilégio seu.” Ele ri e diz: “Mas você ainda é uma adolescente.”
No ponto de vista do sonho, dos amores platônicos, sou, sim, uma adolescente.



Do arquivo.

Este trecho, hoje atualizado, eu havia escrito antes, num outro post.

Vocês sabem que sou fã de Raduan, o meu segundo post foi um conto dele, para que todos pudessem ler. Para mim, ele é o maior escritor brasileiro do nosso tempo, alguns dizem que é Guimarães Rosa, outros Rubem Fonseca, eu fico com Raduan. É uma escolha subjetiva acima de tudo, porque tudo que ele escreveu eu gostei, tudo. Publicou poucos livros e não quer escrever mais. Diz que agora só lê livros dos amigos porque é obrigado.

O Caderno de Literatura do Instituto Moreira Salles sobre o escritor é excelente, se você quer conhecer mais o brasileiro-libanês compre o Caderno, é ótimo.

Conheço Raduan há anos, meus meninos eram pequenos. Nosso primeiro contato foi muito engraçado. Eu havia feito um trabalho de psicanálise em cima do “Um copo de cólera”, uma amiga me disse que a irmã havia conhecido Raduan, porque estava a fim de fazer uma peça de teatro baseada no conto "Ventre seco", e que ele foi muito simpático- recebeu-a na casa dele. Pedi o endereço para mandar meu texto, mas esta amiga é muito desligada, ou desinteressada, como queiram, e não pegava nunca o endereço. Estávamos no Rio, ele em São Paulo, um dia eu desliguei o telefone acabando de falar com ela e liguei 102, pedi o telefone de Raduan, me deram.

Liguei pensando que uma secretária atenderia, aquelas coisas, ele atendeu, ai eu não sabia o que dizer, disse que não esperava que ele atendesse e, ansiosa, me apresentei e comecei a falar que havia feito um trabalho etc e tal. Depois de certo tempo ele me disse pausadamente, com aquela voz de paulista: ”Estamos conversando há quinze minutos e você não disse seu nome.”

Foi nosso primeiro contato e falamos uns cinqüenta minutos, a ligação era interurbana, eu não queria desligar nunca, imaginem minha emoção. A partir daí passamos a nos falar sempre, pelo menos uma vez por mês. Uns dois anos depois, um dia ele me disse: “Ficarei velhinho e você não virá me conhecer”. Foi a senha para que eu fosse.

O primeiro encontro foi na casa dele e Raduan me fez falar, perguntou TUDO sobre minha vida e minha família. Ficamos até uma da manhã conversando, aliás, ele me ouvindo, então me levou para a casa de meus amigos, onde eu estava hospedada. Ficamos de almoçar juntos no dia seguinte, eu voltaria para o Rio à tarde, mas no dia seguinte ele ligou dizendo que havia esquecido que era aniversário de sua mulher, hoje ex., que ficaria para a próxima vez.

Depois nos vimos no Rio num encontro que ele teve com Chico Buarque onde fizeram leituras de trechos de seus livros, Raduan leu Chico, Chico leu Raduan- já contei aqui que o compositor se engasgou e quase chorou lendo “Hoje de madrugada”. Ganhei de presente "Menina a caminho".

Não voltamos a nos ver por longos anos. Ele gostaria de vir ao nordeste, mas anda com probleminhas de saúde, adiou a viagem que seria em fevereiro, quer vir visitar Ariano Suassuna de quem é amigo.
No ano passado fui à São Paulo e nos encontramos perto da casa dele, numa cafeteria. Ele chegou com a respiração ofegante, havia feito uma cirurgia há pouco tempo.

Temos uma relação bonita de afeto, é um amor impossível meu, já contei antes- nos encontramos muito tarde, e com longas distâncias geográficas. É um homem gentil. Sou encantada por ele.

Ele diz que o chateiam para dar entrevistas, acho que quem quiser saber mais sobre Raduan deve ler o Caderno e devem respeitar seu silêncio, ele concordou quando eu disse isto, as pessoas insistem, querem descobrir o porquê do silêncio. Meu Deus! se alguém pede silêncio, respeitem. O que vale é a obra maravilhosa dele, se parou de escrever, é isto ai.  “É um fato”, ele disse, “e ponto final”. Concordo. Há dias em que ligo e ele está muito quieto, então eu digo:” Não quer falar hoje, não é?” “Não é com você, você sabe.” Eu sei, eu o respeito e vou amá-lo sempre, mesmo no seu silêncio: “Homem maduro, coração duro”*, eu digo, ai ele cai numa gargalhada que me faz feliz, ele ri comigo, isto é o bastante.

Vida longa para meu querido amigo Raduan!


* frase do conto "Ventre seco".




















Hoje, dia 27, é aniversário de Raduan Nassar, a quem tenho grande afeto. Raduan é um dos meus casos impossíveis. Uma das minhas histórias com sensação de que cheguei na hora errada, tarde.
Um bem precioso.

Feliz aniversário Raduan! Saúde. Vida longa e plena para você!






















Adoro a risada dele, é deliciosa.
Fotos do "Caderno de literatura- Raduan Nassar" do Instituto Moreira Salles.

Editores sugerem novo Jabuti em 2011


Leiam aqui: CONTEÚDO LIVRE: Editores sugerem novo Jabuti em 2011

Quinta-feira, Novembro 25, 2010

Proust e a Fotografia

A entrevista de Lula aos blogueiros


Leiam aqui: Altamiro Borges: A entrevista de Lula aos blogueiros
Claro, que estão criticando blá blá blá mas foi super importante para a blogosfera, para a mídia toda- que ficou enciumada e nem deu destaque.
6mil pessoas assistiram ao vivo- eu inclusive- e muitos comentaram no Twitter. Foi emocionante. Lula, como sempre, um diplomata, um homem inteligentíssimo- ou alguém duvida?
@maria_fro ai na telinha da foto- é minha amiga virtual- um barato! Ganhou um pito- uma trolagem, chamam- do presidente por estar fumando. Como fumas ainda, Conceição_fro? :)

Terça-feira, Novembro 23, 2010

Beleza!



Para Eduardo.

Mais fotos incríveis aqui. Via @revistabula

Segunda-feira, Novembro 22, 2010

Leo Tolstoy- 1908-1910



"Chronicle. Rare film footage of Leo Tolstoy at the end of his life (music: Tchaikovsky - Piano sonata in G major, op. 37, 1st movt)."

Domingo, Novembro 21, 2010

Um dia mais leve



Há dias quero escrever no blog e não consigo. Faço mil coisas ao mesmo tempo, fico dispersa.

Semana tão tensa... Eu com problemas objetivos, meu filho com problemas amorosos... Enfim, as coisas estão indo para o lugar, com dificuldades, mas caminhando melhor.

A gente faz escolhas, se enraíza e perde a liberdade.

Os filhos têm sido prioridade na minha vida desde que surgiram- a palavra sugere algo imprevisto- eu vivi tanto tempo sozinha- apenas amando, namorando- que ter filhos ainda me surpreende. Talvez me espante com a capacidade de me doar, de ser algo que sempre me disseram eu não seria capaz.

Tenho orgulho da mãe que sou, tenho orgulho do meninos- hoje homens- que têm tanto ainda a aprender com a vida, com as mulheres. Nós conversamos muito- eles têm sorte de terem uma mãe que tenha tempo para isso. Neste aspecto não me arrependo por ter vindo para cá- sobra tempo para eles.

OK. Estão grandes, mas como somos muito sós, precisamos uns dos outros. Um dia eles não precisarão da mãe para colos subjetivos ou não. Espero poder estar presente até ficar velhinha- mesmo de longe.

O pai, meu ex, anda mais próximo- não o julgo- mas acredito que seja por estar vulnerável, com medo de morrer- conheço a figura. Não vai morrer- fará uma cirurgia- um tumor benigno.

Houve o aniversário de Clarice, minha sobrinha, na semana passada e foi bom- conversei com pessoas que nunca havia conversado.

Uma médica gaúcha disse que teve muita dificuldade em fazer amigos aqui, morou nos EEUU e na Alemanha, disse que lá foi mais fácil. Aqui convidou muito para sua casa. É casada, fica mais fácil- concordou.

Quem eu chamaria para vir aqui? Rs O namorado da minha cunhada disse que eu preciso convidar para jantar, comprar um vinho...

Pois é. Ele disse brincando, mas disse uma verdade- convite solto não acontece- só vêm quando há um compromisso.

Ando muito cansada. Casa dá trabalho- eu sabia. Preciso voltar à piscina- fazer hidro, meditar. Desde aquele e-mail violento deixei de ir à piscina, faz mais de um ano- deveria descobrir quem foi e processar. Tirou minha liberdade de ir e vir aqui- me sinto observada lá, na ladeira- moro na última casa- são 19 de cada lado. Quem mandou o e-mail? Quem assinaria embaixo?

Ontem e hoje foram dias diferentes- estive mais feliz- foi bom- mesmo com ... deixa pra lá.
As visitas aqui no blog diminuíram muito- em número não tanto- vêm via Google, mas os amigos... eu também não os visito, eu sei. Olhos cansados- velhice se aproximando, podem crer- há um momento em que a gente cansa de ser a f. , creiam. Foi o que aconteceu comigo, era a guerreira, pois a mulher forte e lutadora, quando sentiu que os filhos cresceram, ficou vulnerável e assustada com o mundo lá fora.

Não é para menos: logo que cheguei jogaram um ovo na minha casa. "Não foi ninguém"- havia uma obra ao lado- mas é um condomínio fechado.

Meses depois recebi um e-mail anônimo violentíssimo- já mostrei aqui, não gosto nem de falar no assunto- o advogado disse que não é crime porque só eu sofri, sem presença de testemunhas- não seria danos morais por isso. Hã...

Recebi intimação num processo onde a "amiga" que me levou para sublocar consultório testemunhava contra mim.Ela saiu fora, fiquei só e o dono da sala cobrava mais- como se eu houvesse alugado, usei pouquíssimo o consultório, vocês sabem. O Juiz foi razoável,entendeu- os dois: o dono da sala e a "amiga" são muito proximos- não me sai mal- preferia não ter que pagar nada, pero...

Descobri que o despachante, que resolve o processo da transferência do carro, não fez nada com o dinheiro que eu dei.

Na semana passada jogaram um tijolaço aqui no quintal. Pensei que tivesse vindo da obra ao lado- mas foi, segundo o mestre de obras, da duna- meu filho foi ver o terreno e viu que havia outros cacos de tijolo lá. Felizmente não havia ninguém no quintal.

Torçam por mim. Energias boas são bem-vindas, sempre.

Laura em Paris: Paris das alturas !

Laura em Paris: Paris das alturas !: "A grande roda gigante (65 metros de altura) está de volta na Place de la Concorde para as festas de fim de ano. Lá de cima tem-se um panoram..."

Ah! quem me dera ser eu esta Laura... Merci, ma chérie.

Sábado, Novembro 20, 2010

Billie Holiday & Louis Armstrong



Comentário lá no youtube:
"It's a fragment of the film "New Orleans", directed by Arthur Lubin in 1947. This is the saddest part of the film, in my opinion, because everybody is obliged to leave the city they learnt to call a home and that's what this song tell us about."

Billie Holiday "One for my Baby..."



Sempre divina!

Sexta-feira, Novembro 19, 2010

Piazzolla & Tango



Amo tudo de Piazzolla. Adios nonino é a preferida, ainda. Não coneço tudo, claro.

Olivier Anquier

Vejam que lindo!

Olivier Anquier | Flickr – Compartilhamento de fotos!

O caso Joaquina


Foto daqui




Meu querido amigo, César,  enviou a sinopse do filme baseado em texto seu.


O CASO DE JOANITA

SINOPSE

O CASO DE JOANITA é um média-metragem de ficção de aproximadamente 30 minutos. Foi gravado inteiramente em Corumbá, cidade fronteiriça de MS com a Bolívia, em vídeo digital HD, em outubro de 2010.

A história narra as venturas e desventuras de Joanita, uma bela mulher de 30 anos, cobiçada pelos homens da cidade, casada com um senhor muito mais velho do que ela, Nicanor, suposto traficante e incapaz de satisfazê-la física e afetivamente.

Insatisfeita, deprimida, Joanita se ampara nos antidepressivos, no seu analista, na religião, nos exercícios físicos e na amizade de Olga, cujo filho adolescente, Carlinhos, tem por ela fascinação e desejo.

Uma briga conjugal precipita um fato que irá modificar profundamente sua vida. Divorciada, ela retorna a Corumbá, um ano depois e se envolve em outros acontecimentos que, eventualmente, provocarão a sua partida definitiva da cidade.

Realizado em 8 dias em Corumbá, roteirizado, fotografado e dirigido por Reynaldo Paes de Barros, a partir do conto homônimo do escritor corumbaense Augusto César Proença, o vídeo foi editado e finalizado em São Paulo por Pepe Chevs e terá cópias disponíveis em DVD e mídia digital “Blue Ray”, com possibilidade de” transfer” para filme de 35mm, para exibição em cinemas.

Os atores principais são do teatro amador de Campo Grande. Luciana Kreutzer interpreta as nuances da personagem Joanita de forma inesquecível, João Júlio Dittmar compõe um Nicanor autoritário com muita propriedade.

O resto do elenco é corumbaense e também tem um desempenho superlativo: a experiente Bianca Machado é Olga, amiga leal de Joanita. E o estreante Bruno Lopes surpreende como seu filho adolescente, Carlinhos.

É um filme da produtora: Aries Filmes, São Paulo, SP.

Quarta-feira, Novembro 17, 2010

Sobre psicanalistas e grana- Woody Allen



A grana preta e suas relações com o inconsciente

Quando se analisa um magnata, pode ser difícil para o profissional resistir à tentação de adotar, de maneira bajulatória, o ponto de vista do paciente

WOODY ALLEN


Se as orgias, o arremesso ocasional de um cristão aos leões e a regurgitação de línguas de pavão a fim de preparar o estômago para a segunda rodada de miolos de macaco representaram, para Edward Gibbon, indícios de que a toga romana estava prestes a sair de circulação, uma reportagem na qual meus olhos resvalaram quando punha em dia a leitura de números atrasados do New York Times serve de funesto testemunho sobre o futuro dos adeptos de banhos de leite.

Parece que agora existem psicanalistas especializados no tratamento dos super-ricos, um grupo cuja fortuna e poder criam problemas peculiares que intimidam e até instigam a inveja de psiquiatras classificados em faixas de tributação do imposto de renda menos obesas. Segundo a reportagem intitulada “Os desafios de tratar pacientes que pagam 600 dólares por sessão”, quando se psicanalisa o magnata típico, pode ser difícil para o médico resistir à tentação de “adotar, de maneira bajulatória, o ponto de vista do paciente”.

Em certos casos, aponta a matéria, “os pacientes tratam o terapeuta como apenas mais um membro de seu séquito de serviçais”. Um analista, incapaz de encontrar cinquenta minutos livres para atender um mandachuva, recebeu da secretária do paciente a seguinte pergunta: “Que tal às 10 horas? Ele vai voar para Hamptons, mas vamos mandar um carro buscar o senhor para que possa pegar o helicóptero junto com ele e fazer a terapia durante o voo.” De resto, os problemas que afligem os super-ricos podem ser menos existenciais do que, digamos, um mineiro de carvão que passa a sofrer de claustrofobia ao descer quilômetros abaixo da superfície da terra. Como exemplo de uma crise de maior requinte, a reportagem apresenta uma senhora abastada que se convenceu de que era uma jogadora de tênis pouco hábil. Podemos imaginar os soluços histéricos de uma loura da Quinta Avenida, paramentada de Prada: “Doutor, o senhor tem de me ajudar. Parece que não consigo de jeito nenhum acertar meu segundo saque.”

Toda essa decadência não poderia deixar de trazer à mente o seguinte esquete, que tanto pode ser lido como rasgado, ou quem sabe possa ser usado para deduções do imposto de renda.

O doutor Leon Parafuso Frouxo era a imagem exata que um cartunista faria de um psicanalista freudiano: meio calvo, atarracado, um cavanhaque à la Van Dyke, que evocava o mundo de Strauss e strudel da velha Viena, enquanto caminhava afobado, não pela Ringstrasse, mas pela Park Avenue, rumo a um atendimento domiciliar. “Não posso me atrasar”...

Mais aqui

Woody Allen para distrair




A grana preta e suas relações com o inconsciente

Quando se analisa um magnata, pode ser difícil para o profissional resistir à tentação de adotar, de maneira bajulatória, o ponto de vista do paciente


WOODY ALLEN


Se as orgias, o arremesso ocasional de um cristão aos leões e a regurgitação de línguas de pavão a fim de preparar o estômago para a segunda rodada de miolos de macaco representaram, para Edward Gibbon, indícios de que a toga romana estava prestes a sair de circulação, uma reportagem na qual meus olhos resvalaram quando punha em dia a leitura de números atrasados do New York Times serve de funesto testemunho sobre o futuro dos adeptos de banhos de leite.

Parece que agora existem psicanalistas especializados no tratamento dos super-ricos, um grupo cuja fortuna e poder criam problemas peculiares que intimidam e até instigam a inveja de psiquiatras classificados em faixas de tributação do imposto de renda menos obesas. Segundo a reportagem intitulada “Os desafios de tratar pacientes que pagam 600 dólares por sessão”, quando se psicanalisa o magnata típico, pode ser difícil para o médico resistir à tentação de “adotar, de maneira bajulatória, o ponto de vista do paciente”.

Em certos casos, aponta a matéria, “os pacientes tratam o terapeuta como apenas mais um membro de seu séquito de serviçais”. Um analista, incapaz de encontrar cinquenta minutos livres para atender um mandachuva, recebeu da secretária do paciente a seguinte pergunta: “Que tal às 10 horas? Ele vai voar para Hamptons, mas vamos mandar um carro buscar o senhor para que possa pegar o helicóptero junto com ele e fazer a terapia durante o voo.” De resto, os problemas que afligem os super-ricos podem ser menos existenciais do que, digamos, um mineiro de carvão que passa a sofrer de claustrofobia ao descer quilômetros abaixo da superfície da terra. Como exemplo de uma crise de maior requinte, a reportagem apresenta uma senhora abastada que se convenceu de que era uma jogadora de tênis pouco hábil. Podemos imaginar os soluços histéricos de uma loura da Quinta Avenida, paramentada de Prada: “Doutor, o senhor tem de me ajudar. Parece que não consigo de jeito nenhum acertar meu segundo saque.”

Toda essa decadência não poderia deixar de trazer à mente o seguinte esquete, que tanto pode ser lido como rasgado, ou quem sabe possa ser usado para deduções do imposto de renda.

O doutor Leon Parafuso Frouxo era a imagem exata que um cartunista faria de um psicanalista freudiano: meio calvo, atarracado, um cavanhaque à la Van Dyke, que evocava o mundo de Strauss e strudel da velha Viena, enquanto caminhava afobado, não pela Ringstrasse, mas pela Park Avenue, rumo a um atendimento domiciliar. “Não posso me atrasar”...

Mais aqui

Terça-feira, Novembro 16, 2010

Woody Allen: "Igual a tudo na vida"



Traduzido por "Igual a tudo na vida"- é filme imperdível. Woody Allen é traz à cena novamente a insegurança,a leviandade, os medos de todos nós. Desta vez com atores jovens e ele, Woody no personagem de um guru- ou advogado do diabo. As cenas sobre o analista são divertidas também. Bom e leve.

Sábado, Novembro 13, 2010

A vida vista através do facebook- Genial!



Pois é, é isso ai... Mundo contemporâneo.

Quinta-feira, Novembro 11, 2010

Depende do seu ponto de vista



Foto daqui.


Ando cansada. Putz! Acho que falta a piscina na minha vida e não tenho conseguido ir- faz mais de um ano que deixei de ir. Algo se rompeu em mim. Cansei. A casa exige mais cuidado, estou sem ninguém para ajudar, os meninos estudando paca- o que me dá alegria também e orgulho.
O mais novo está estudando de manhã, de tarde e também trabalhando no cursinho- para obter a bolsa. Vai até nos fins de semana. Não se queixa, está orgulhoso por conseguir se virar.
O outro estudando engenharia e cheio de trabalhos da faculdade. Sobra para mim a casa, o jardim, as compras, os pagamentos, os gatos, enfim... o dia à dia.
E eu quero ficar aqui lendo, escrevendo,vendo fotos, vídeos. Recebo muitos vídeos bons, fico tentada a ver.
O consultório é bom, é a hora em que esqueço tudo de fora e me volto para a escuta do outro. Cansei de mim, acho. Não resta força para o novo. Perdi o interesse em muitas coisas. Interessante, meus pais ao envelhecerem diziam isso- será que fiquei velha? O mundo aqui fora não me diz muito, fora a natureza... meu mundo está aqui nos amigos que estão longe e na casa, nos filhos, na escrita.

Quero viajar assim que for possível.

Ah! Uma coisa nova, sim, recebi um hóspede francês. Educado, mas egoísta demais para o meu gosto- nos conhecemos há anos, vive no sul da França. Um homem simples, de hábitos quase espartanos- nisso lembrou muito meu pai, que era assim- deus meu! Meu ai vivia com pouquíssimo e também era um homem de poucas palavras. O meu amigo fala pouco- fala português bem, mas não tem hábito de falar, confirmou quando perguntei. É aquele que tem um ultraleve- gosta de voar, isso sim. Andou a cavalo pela mata aqui atrás e foi a pela primeira vez que subiu num cavalo.

Está descendo o Brasil, visitando amigos/as- é um cara que quer mais, mas não sabe seduzir. Por timidez, talvez, por desinteresse pelos outros, não sei. Gostou daqui, disse que voltará, gostou muito dos meninos também, que foram gentilíssimos- um orgulho para a mãe- conversaram com ele- levaram para passear quando eu não ia.

Foi bom- quebrou minha pasmaceira. Só isso.

Também ando enjoada de algumas pessoas no virtual, gente que me chateia por nada, me seguem sem que eu deseje ser lida por elas- isso no Twitter, vocês aqui não me aborrecem.

Outro dia uma conhecida e muito querida de todos, me chamou de "padeiro literário" rs. Dei block, claro, ela disse que não entendia estes 'padeiros literários' que escrevem todos os dias minicontos, microcontos, poemas. Eu acabara de postar um microconto que é coisa facílima de se fazer, é só querer.
Eu tenho muita facilidade por causa dos minicontos- basta enxugar mais os minis e tirar um micro dali.
Vá se catar- invejosa, erva venenosa, ôooooo...
Xô! Bye, até breve, quero voltar a fazer o blog como antes- gosto dele como era no início, lembra Madoka?
Bom dia para vocês.

Ah! entrem no link da foto, tem 50 fotos legais ali, nem todas são, mas tem muitas muito interessantes.

“Show bizz”, poema de Charles Bukowski








Charles Bukowski | Trad. Alice Dias

eu não posso ter isso
você não pode ter isso
e nós não
alcançaremos isso

então não aposte isso
e nem mesmo pense sobre
isso

levante-se da cama
toda manhã
lave-se
barbeie-se
vista-se
e saia
para fora disso

porque
fora disso
o que sobra
é loucura
e suicídio

então
não
espere o bastante

você não
deve nem mesmo
esperar

então o que você faz
é
trabalhar
a partir duma
base
mínima

como quando
voce sai
e durante o voltar
fica feliz pela
possibilidade
de seu carro
estar
no mesmo lugar

isso se os
pneus
não estiverem
carecas

aí você entra
e se conseguir dar a partida
você dá a partida.

e
isso é o filme mais imbecil
que voce já viu
porque
dele você
participa.

salário baixo
e
4 bilhões
de críticos

com a mais
longa estrada
que voce jamais
esperou
acerca
disso

um
dia.



Daqui.

Quarta-feira, Novembro 10, 2010

Antonin Artaud - 'Sur le suicide' -com texto em francês



Antonin Artaud- um homem à frente de seu tempo e 'suicidado' pela sociedade. Já falei dele há anos aqui. Quem se interessa pelo assunto procure ler os textos dele. Também aqui ele fala de Van Gogh.

O texto:


Antonin Artaud – Sur le suicide (1925)


Avant de me suicider je demande qu’on m’assure de l’être, je voudrais être sûr de la mort. La vie ne m’apparaît que comme un consentement à la lisibilité apparente des choses et à leur liaison dans l’esprit. je ne me sens plus comme le carrefour irréductible des choses, la mort qui guérit, guérit en nous disjoignant de la nature, mais si je ne suis plus qu’un déduit de douleurs où les choses ne passent pas?

Si je me tue ce ne sera pas pour me détruire, mais pour me reconstituer, le suicide ne sera pour moi qu’un moyen de me reconquérir violemment, de faire brutalement irruption dans mon être, de devancer l’avance incertaine de Dieu. Par le suicide, je réintroduis mon dessin dans la nature, je donne pour la première fois aux choses la forme de ma volonté. Je me délivre de ce conditionnement de mes organes si mal ajustés avec mon moi, et la vie n’est plus pour moi un hasard absurde où je pense ce qu’on me donne à penser. je choisis alors ma pensée et la direction de mes forces, de mes tendances, de ma réalité. Je me place entre le beau et le laid, entre le bon et le méchant Je me fais suspendu, sans inclination, neutre, en proie à l’équilibre des bonnes et des mauvaises sollicitations.

Car la vie elle-même n’est pas une solution, la vie n’a aucune espèce d’existence choisie, con-sentie, déterminée. Elle n’est qu’une série d’appétits et de forces adverses, de petites contradictions qui aboutissent ou avortent suivant les circonstances d’un hasard odieux. Le mal est déposé inégalement dans chaque homme, comme le génie, comme la folie. Le bien, comme le mal, sont le produit des circonstances et d’un levain plus ou moins agissant.

Il est certainement abject d’être créé et de vivre et de se sentir jusque dans les moindres réduits, jusque dans les ramifications les plus impensées de son être irréductiblement détermine. Nous ne sommes que des arbres après tout, et il est probablement inscrit dans un coude quelconque de l’arbre de ma race que je me tuerai un jour donne.

L’idée même de la liberté du suicide tombe comme un arbre coupe. Je ne crée ni le temps, ni le lieu, ni les circonstances de mon suicide. Je n’en invente même pas la pensée, en sentirai-je l’arrachement?

Il se peut qu’à cet instant se dissolve mon être, mais s’il demeure entier, comment réagiront mes organes ruines, avec quels impossibles organes en enregistrerai-je le déchirement? je sens la mort sur moi comme un torrent, comme le bondissement instantané d’une foudre dont je n’imagine pas la capacité. Je sens la mort chargée de délices, de dédales tourbillonnants. Où est là-dedans la pensée de mon être?

Mais voici Dieu tout à coup comme un poing, comme une faux de lumière coupante. Je me suis séparé volontairement de la vie, j’ai voulu remonter mon destin!

Il a disposé de moi jusqu’à l’absurde, ce Dieu; il m’a maintenu vivant dans un vide de négations, de reniements acharnés de moi-même, il a détruit en moi

jusqu’aux moindres poussées de la vie pensante, de la vie sentie. Il m’a réduit à être comme un automate qui marche, mais un automate qui sentirait la rupture de son inconsciente.

Et voici que j’ai voulu faire preuve de vie, j’ai voulu me rejoindre avec la réalité résonnante des choses, j’ai voulu rompre ma fatalité.

Et ce Dieu que dit-il?

Je ne sentais pas la vie, la circulation de toute idée morale était pour moi comme un fleuve tari. La vie n’était pas pour moi un objet, une forme; elle était devenue une série de raisonnements. Mais des raisonnements qui tournaient à vide, des raisonnements qui ne tournaient pas, qui étaient en moi comme des « schèmes » possibles que ma volonté n’arrivait pas à fixer.

Même pour en arriver à l’état de suicide, il me faut attendre le retour de mon moi, il me faut le libre jeu de toutes les articulations de mon être. Dieu m’a placé dans le désespoir comme dans une constellation d’impasses dont le rayonnement aboutit à moi. Je ne puis ni mourir, ni vivre, ni ne pas désirer de mourir ou de vivre. Et tous les hommes sont comme moi.

Le Disque Vert.
4ème série n°1 – Janvier 192

Daqui.

Terça-feira, Novembro 09, 2010

Chagall- Russian Animation



Que lindo!

Francesco Zizola - Beach Culture



Que barato!
Via @adrianapaiva

Roda Viva: Contardo Calligaris



Já está online o Roda Viva.
TV Cultura | Roda Viva | Contardo Calligaris |
Aqui também.

Segunda-feira, Novembro 08, 2010

Passeio Virtual.wmv



Um gênio este homem- pena que foi um cara triste. Adoro os filmes dele.
Tks @DonaDorf

Um mini documentário sobre o mestre Laerte

Um mini documentário sobre o mestre Laerte | IdeaFixa - artes visuais, ilustração, design e fotografia.
É bonito quando as pessoas falam com afeto. Bonito quando as pessoas se desmascaram.
Daqui.

O Rio de Janeiro é lindo!

A cidade mais linda que eu conheço:

Veja aqui: gigapan: Sugar Loaf - 0.15 Terapix

Antonin Artaud



YouTube - Antonin Artaud.

Que maravilha!

Suicidados pela sociedade- Arquivo



Este texto eu fiz em abril de 2005- precisaria reler com mais atenção- revisar,mas estou sem vontade de.

Segunda vi no “Manhattan Connection”uma reportagem de Lucia Guimarães sobre a Diana Arbus, as fotos dela sempre me impressionaram muito- havia visto há anos na Galeria do Thomas e Myriam Cohn em Ipanema. A foto do catálogo da exposição esteve na minha estante anos, agora com as mudanças está guardada em algum lugar, é uma foto de 20/20cm de uma senhora idosa, vaidosa, adoro aquela foto.

Fui conferir sobre ela, havia pegado o bonde andando no programa, acontece sempre, e li que ela se matou aos 48 anos, no ano seguinte seria escolhida a primeira fotógrafo/a da América pela Bienal de Veneza. Ironias da vida...Nemo Nox escreve sobre a exposicão dela no blog, se quiserem saber mais...

As fotos de Arbus estão em exposição no Metropolitan Museu de NY. A Galeria do Thomas sempre nos trouxe estas preciosidades, sinto muita falta de artes plásticas, aqui é zero a esquerda. São fotos de anões, doentes mentais, gente estranha, e ela os colocava numa pose para as fotos intrigante, você sente um certo orgulho nos fotografados, uma alegria contida, a gente não esquece as fotos dela, eu vi há muitos anos e tenho gravadas na memória várias delas.

Lembro dos “hospícios”que conheci, quando trabalhei em hospitais psiquiátricos, é um mundo fascinante, tenho saudade, eu gosto de lidar com psicóticos, naturalmente psicóticos sob algum controle, não loucos desvairados, são pessoas muito interessantes, inteligentes, extremamente sensíveis a tudo e todos.

Suicidas sempre me intrigaram muito, estes dias Wilton no blog postou um poema de Florbela Espanca, outra suicida, quando vi a peça de teatro baseada na vida de Florbela, sofri demais, chorei sem parar, precisei ir lavar o rosto na saída, nunca havia acontecido antes. Zezé Polessa estava perfeita, eu sou muito critica, e ela me pegou. A vida de Florbela é triste, muitos amores e desamores- me identifico- além do desejo frustrado de Florbela ter filhos- abortava espontaneamente- sofreu muito a morte de um irmão querido três anos antes de se matar.

O amor, sempre o amor, leiam o começo de um dos seus mais conhecidos sonetos:

Eu quero amar, amar perdidamente !
Amar só por amar: Aqui ... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente ...
Amar ! Amar! E não amar ninguém !
e no final da quadra seguinte
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!


Leia mais:
Em Toledo:

As tuas mãos tacteiam-me a tremer...
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço,
Ébrio de Sol, de aroma, de prazer!



Mais Florbela*:

À morte

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!


Pois é, aí fui deitar pensando em suicídio, peguei um livro de contos de Tchekhov, e fui reler “ Uma crise”, juro que foi por acaso, quem sabe inconscientemente lembrava do texto. Acredito que Tchekhov consegue mostrar bem o que leva um suicida ao gesto extremo de por fim à vida, afinal temos um instinto de vida fortíssimo...

Leiam, eu tirei só um trechinho:
“Procurando desviar a sua dor intima com alguma nova sensação ou com outra dor, não sabendo o que fazer, chorando e tremendo, Vassíliev desabotoou o sobretudo e o paletó e colocou o seu peito nu em contato com a neve úmida e o vento. Mas nem isso diminuiu a dor. Então ele se inclinou sobre o peitoril da ponte e olhou para baixo, para o negro e tumultuoso Iausa, e teve um desejo de se atirar para baixo, de cabeça, não por asco à vida, não para se suicidar, mas para se machucar ao menos e distrair uma dor com outra”.

Lembram de "Hiroshima, Mon Amour", de Alain Resnais?

Antonin Artaud tem um texto sobre Van Gogh que todos deveriam ler, chama-se. “Van Gogh: o suicidado pela sociedade”, leiam aqui.





















Este auto retrato de Van Gogh sem orelha é terrível, lembra as fotos da Arbus.
Vocês têm dúvidas quanto a Artaud ou Nietzsche, daquele sofrimento todo... não teriam sido suicidados pela sociedade?
Quem não leu, leia “Quando Nietzsche chorou” de I Yalon , da Ediouro. É um belo livro, está a venda nas livrarias novamente, deve ser nova edição.
Acredito que é por aí... Ou leiam o próprio Nietzsche- maravilhoso!


*1894: No princípio da madrugada de 08 de dezembro, nasce, em Vila Viçosa (Alentejo), Florbela d’Alma da Conceição Espanca, na casa de sua mãe Antônia da Conceição Lobo, à Rua do Angerino.
1930
Seu Diário se encerra em 02 de dezembro com uma única frase “e não haver gestos novos nem palavras novas!�? Na passagem de 07 para 08 de dezembro, Florbela d’Alma da Conceição Espanca suicida-se em Matosinhos e é enterrada, no mesmo dia 08, no Cemitério de Sedin.

Fotos Google, esta abaixo daqui- adorei o blog, vejam lá.

Domingo, Novembro 07, 2010

Assinatura Veja



YouTube - Assinatura Veja.
Ri muito.
Diogo Mainardi está fora???? nem acredito! precisam tirá-lo do Manhatan Connection. Ele está em Veneza- deve ser consolo- melhor do que no governo Dilma aqui- ele deve pensar :)))
E o Reinaldo Azevedo??? deusdocéu!
Ricardo Amorim tem estado otimo no MC, salva o programa. Nunca vi tanta gente distorcer fatos como fizeram nesta eleição. Ufa! ainda bem que acabou e VIVA DILMA!!!! :)))))

Anos atrás eu processei a Veja por assinatura indébita- fizeram mais de uma assinatura com meu CPF e outro nome- imaginem! Ganhei, claro, mas só o dinheiro de volta e aborrecimentos. Não prestam, mesmo- faz tempo.

O Laerte se garante


Quem tem inveja do Laerte

NINA LEMOS
aqui na FOLHA.

Quarta-feira, Novembro 03, 2010

Querem afogar nordestinos




Muito triste isto. Vivi no sul, depois sudeste e nunca havia visto uma reação hostil tão intensa.
Vivo no nordeste, admiro o nordestino pela força, pelo trabalho. Não é um povo, como pensam muitos, que vive na rede, ou de esmola- é um povo que trabalha sob um sol de deserto, sem água, sem sombra, sem refresco.

Observo isto desde que cheguei- usam camisas de mangas compridas- um dia perguntei a um pedreiro o porquê: Para não pegar tanto sol.

Imaginem, sol a pino, 40°, e você trabalhando das sete às cinco da tarde, com 20' para almoçar.

Me referi aqui aos trabalhadores de obras, que são os que eu pude ver de perto enquanto faziam minha casa e as outras do condomínio. Eles continuam aqui ao lado construindo outro condomínio para a classe média alta viver.
São simples, não têm inveja, agradecem o que têm. Dizem naquele sol escaldante quando passo por um e digo:
- Que sol, hein?

- É, mas graças a Deus temos emprego.

Nordestino não vive de esmola, trabalha se tem emprego, trabalha duro. Vejo os vizinhos, saem cedo, mal os vejo, voltam tarde- muitos à noite, estudam.

Lamento que uma elite arrogante pense ser melhor do que este povo daqui. Prefiro mil vezes uma pessoa simples do que o esnobismo do frequentador de um shopping center.

Evito citar os lugares dos ataques contra nós- também me incluo, afinal escolhi viver aqui-porque sei que não vem de um setor apenas, de uma região- aqui mesmo em Natal ouvi uma pessoa dizer que Dilma iria ganhar porque a esmola do Lula  funcionou.

Não sou especiaista no assunto, mas sei que alguns ganham, sim, uma cesta básica- ou bolsa família- para que os filhos não morram de fome. Há muita pobreza ainda, sim- há mulheres sozinhas, muitas, criando vários filhos sem recursos nenhum- sem instrução, sem apoio, sem saúde- estas são beneficiadas com o Bolsa família. Estas são beneficiadas com o leite para os filhos. Algumas se drogam, vendem o que recebem em cesta básica- esta é uma realidade que eu sei que está muito próxima de mim- ali onde minha faxineira mora.
Como condenar à morte esta geração de mulheres e crianças? Como fingir que não existem?
Por isso votei em Dilma.

O mínimo que um Governo precisa fazer por um povo é não deixá-lo morrer de fome. Lula não deixou e ofereceu emprego, abriu frentes de trabalho- eu vejo aqui o número enorme de obras da construção civil. Ai, dizem, a classe média se ferra. Não, esta classe se beneficia com as facilidades de um financiamento para comprar uma casa própria- é o que acontece por aqui. Ai, não?

Eu nunca fui lulista nem dilmista, mas no momento em que vi Dilma ser atacada assumi o meu papel de mulher na campanha- não poderia permanecer impassível diante de tantos ataques a uma pessoa que lutou por democracia enquanto eu me fechava por medo.

Obrigada Lula, obrigada Dilma!

Sorte e vida longe para os dois.

E quanto a este povinho reacionário, insensível, cego à pobreza que ainda persiste, o nosso desprezo.
Não pensem que por viveram em cidades com mais recursos, mais ricas, isso faz de vocês pessoas melhores- pelo contrário- estão  mostrando o que há de pior nos Homens- o preconceito, o racismo, o ódio, quando todos somos irmãos.

Alguém duvida?

O Brasil nasceu aqui. Ou não sabem história do Brasil?

Minha família tem origem na Paraíba, lembrei agora.

Vídeo daqui:

Mayara Petruso quer afogar nordestinos. Ela não é a única | Blog do Rovai

A mãe da Dilma



Via Ailton Medeiros

Terça-feira, Novembro 02, 2010

Flor, telefone, moça – Carlos Drummond de Andrade



Flor, telefone, moça – Carlos Drummond de Andrade


Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava. É doce ouvir os amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais. Até sem olhos.

Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga – bom, agora me recordo que a conversa era sobre flores – ficou subitamente grave, sua voz murchou um pouquinho.

– Sei de um caso de flor que é tão triste!

E sorrindo:

– Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a amiga asseverou que a história era verdadeira.

– Era uma moça que morava na Rua Gerenal Polidoro, começou ela. Perto do Cemitério São João Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte. Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente, gostava mais de ver passar enterro do que não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente? Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega desacompanhado de flores – por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas não prestigiam apenas o defundo, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e a acompanhar o préstimo até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar pra passear no Rio! E no caso da moça, quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco, debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens, as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!

– No interior isso não é raro…

– Mas a moça era de Botafogo.

– Ela trabalhava?

– Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir certidão de idade da moça, nem sua descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde costumava passear – ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em cisma… Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida, uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos, considerava retratos em medalhões – sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.

– Que flor?

– Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé de flor. Apanha, leva ao nariz – não tem cheiro, como inconscientemente já esperava –, depois amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.

Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa, também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o telefone tocou, ela atendeu.

– Aloooô…

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:

– O quê?

Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava de novo.

– Alô.

– Quede a flor que você tirou de minha sepultura?

Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo, mas preparada.

– Está aqui comigo, vem buscar.

No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:

– Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça topou a conversa:

– Vem buscar, estou te dizendo.

– Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem obrigação de devolver.

– Mas quem está falando aí?

– Me dá minha flor, eu estou te suplicando.

– Diga o nome, senão eu não dou.

– Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha sepultura.

O trote era estúpido, não variava, e moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais nada.

Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.

– Alô!

– Quede a flor…

Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada voltou à costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa recomeçasse:

– Olhe, vire a chapa, já está pau.

– Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.

– Essa é fraquinha. Não sabe de outra?

E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a idéia daquela flor, ou antes, a idéia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe, como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter medo.

– E eu também.

– Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno – admitindo que se tratasse de pessoa morta – ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa, e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil (palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria providências.

A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.) Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a ele, diziam “a voz”.

– A voz chamou hoje? Indagava o pai, chegando da cidade.

– Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.

Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a freqüentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual. Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?

O rapaz começou a tocar para todos os telefones da Rua General Polidoro, depois para todos os telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia o alô, conferia a voz – não era –, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por perto – o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça – e bem escondida estava ela, que só se fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou à família algumas diligências. Mas infrutíferas.

Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem com as amigas. Então a “voz”, que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem que restituir”, etc. Diálogo com essas pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.

Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos, mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou investigações telefônicas não eram sua especialidade – o fato é que não se apurou nada. Então o pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…

– Mas é a tranqüilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?

– Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte para sua casa, tranqüilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem disse que ela queria mais ver enterro passando? Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque – já disse que era distraída – nem mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…

O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde, havia cinco sepulturas plantadas. A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente sobre os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado – se é que os mortos sofrem, e aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.

Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela, miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de outra terra, não brotavam de seu estrume – isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor. Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais se recusaram a cooperar, ou eles mesmos são impotentes, quando alguém quer alguma coisa até sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica. Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo), seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar, como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e esta flor não existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?

– Mas, e a moça?

– Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses, exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.


Li aqui, via Twitter.

Já contei algumas vezes aqui que conheci o pai dos meus filhos no cemitério, no enterro de Drummond. Interessante, não é? Pois é...Ele se foi e deixou herança maravilhosa para mim.

Segunda-feira, Novembro 01, 2010

Adital - 500 anos esta noite [homenagem a Dilma]

Adital - 500 anos esta noite [homenagem a Dilma]


Hamilton Pereira - Pedro Tierra *

Adital -

De onde vem essa mulher
que bate à nossa porta
500 anos depois?
Reconheço esse rosto estampado
em pano e bandeiras e lhes digo:
vem da madrugada que acendemos
no coração da noite.

De onde vem essa mulher
que bate às portas do país
dos patriarcas em nome
dos que estavam famintos
e agora têm pão e trabalho?
Reconheço esse rosto
e lhes digo:
vem dos rios subterrâneos da esperança,
que fecundaram o trigo e
fermentaram o pão.

De onde vem essa mulher
que apedrejam, mas
não se detém,
protegida pelas mãos aflitas dos pobres
que invadiram os espaços de mando?
Reconheço esse rosto e lhes digo:
vem do lado esquerdo do peito.

Por minha boca de clamores e silêncios
ecoe a voz da geração insubmissa para contar
sob sol da praça
aos que nasceram e aos que nascerão,
de onde vem essa mulher.

Que rosto tem, que sonhos traz?
Não me falte agora a palavra que retive
ou que iludiu a fúria dos carrascos
durante o tempo sombrio
que nos coube combater.

Filha do espanto e da indignação,
filha da liberdade e da coragem,
recortado o rosto e o riso como centelha:
metal e flor, madeira e memória.

No continente de esporas de prata
e rebenque, o sonho dissolve a treva espessa, recolhe os cambaus, a brutalidade,
o pelourinho, afasta a força que sufoca e silencia
séculos de alcova, estupro
e tirania e lança luz sobre o rosto dessa mulher
que bate às portas do nosso coração.

As mãos do metalúrgico,
as mãos da multidão inumerável
moldaram na doçura do barro
e no metal oculto dos sonhos
a vontade e a têmpera
para disputar o país.

Dilma se afarta da luz
que esculpiu seu rosto
ante os olhos da multidão
para disputar o país,
para governar o país.
Nasce uma nova aurora:

BOM DILMA!!!

Pedro Tierra

Brasília, 31 de outubro de 2010.

* Ministério do Meio Ambiente

Página Inicial

Obrigada Brasil



Acordei e parecia um sonho. Dilma foi eleita!

Estou feliz por Dilma, Lula, pelo Brasil.

Feliz por uma mulher ser presidenta do Brasil.

Feliz por esta mulher, que é da minha geração, e foi torturada por ter lutado contra a ditadura, estar sendo hoje reverenciada no mundo todo.

Feliz pelo discurso simples e claro apaziguando, tranquilizando, a oposição- não há motivo para pânico, como alguns supõem.

Feliz por ela, na primeira fala, defender posição a favor das mulheres.

Feliz por meus filhos a admirarem, conhecerem um pouco os porões da ditadura- não serem alienados.

Feliz.

Finalmente, depois de meses de uma campanha de baixo nível, vemos a coerência no Poder.

Feliz pelo povo ter votado nela apesar de tantas acusações falsas. E não foi a Bolsa Família que elegeu Dilma, foi um desejo maior de fazermos um Brasil melhor, menos desigual.

Dilmaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa parabéns!

Força e Saúde!

Agora ela merece colo. Esta foto é linda. Obrigada Lula, obrigada povo brasileiro.