segunda-feira, novembro 29, 2010

Mini crônicas: Rompendo o silêncio- meninos do Rio













Foto daqui





Nossos meninos


Cheguei ao Rio de Janeiro em 70, vivi 30 anos no mesmo lugar, uma rua arborizada e tranquila em Ipanema.
Vi meninos de rua crescerem, alguns literalmente- vi se tornarem homens e desaparecerem. No início de 80 eram alguns, em 2000, muitos, agora já organizados, andavam em grupos, batiam com pedaços de paus nas grades das lojas fechadas- algumas com portas fechadas antes das 19 h por medo. Era assustador.
Eu via aquele bando e pensava em abandono- desciam do morro onde sofriam agressão e descaso e no asfalto eram 'poderosos' com pedaços de paus e cacos de vidro.
Uma vez, uma amiga levava a filha para a escola- ainda no tempo dos vidros abertos- um menino gritou:
- "Passe o dinheiro"
Ela tranquilamente disse:
- "Não tenho dinheiro, quer este pacote de biscoito?"
Ele respondeu:
- "Quero tia" e sentou no meio fio para comer o biscoito.




A decisão


Atendia um cliente no consultório na Rua Visconde de Pirajá, perto da Praça gal. Osório, nove e pouco da noite, ouvimos tiros, muitos, pareciam atingir os prédios em frente, olhamos pela janela, não havia nada estranho. Voltei a atendê-lo.
Saímos do prédio juntos, os tiros vinham da favela- o porteiro da noite já sabia.
A rua estava deserta. Ao dobrar a esquina da Rua Farme de Amoedo ouço som animado de 'Chorinho' vindo do bar badalado.
Quinta era dia de Chorinho, estava lotado, todos animados bebiam o chope famoso. Na esquina um carro da polícia vinha da rua onde há entrada para o morro.
No dia seguinte ao comentar ouvi de várias pessoas: "É...foi lá no morro".
Nada parecia acontecer.
Neste dia decidi que sairia do Rio com meus dois filhos.
Neste dia decidi sair do Rio de Janeiro.




A despedida



Era minha última noite no Rio, dezembro de 2002, depois de uma via sacra de despedidas emocionadas, fui ao encontro de um amigo psicanalista num restaurante tradicional na Avenida Atlântica, posto 6.
Há anos não me sentava naquelas varandas divertidas com gente exótica, mulheres enroladas em cobras, seresteiros, homens vendendo bonecos gigantes, travestis.
Neste noite não havia ninguém. Havia silêncio.
Saímos à meia noite, rua deserta.
Era um silêncio que eu desconhecia. Dava medo.

3 comentários:

teresa disse...

muito lindos seus posts!

Diz disse...

Obrigada Teresa. É a Teresa Abreu? ou uma nova Teresa?
Bj Laura

Anônimo disse...

Laura/Eliane
Bom, primeiramente digo que não entendi direito se chamas Laura ou Eliane.
Mas tenho certeza que seremos bons amigos, pois temos uma admiração comum:JUAREZ ACHADO.Principalmente a obra gráfica dele. Estou organizando toda a obra gráfica do artista, para ano que vem fazer uma exposição em seus 70 anos. Eu tenho muita coisa, e meu amigo caricaturista Nei Lima, no Rio, tem outras tantas. E agora descubro que você também é do time.
Gostaria muito de falar com você, pra formar este triangulo amoroso em torno do mestre Juarez.
grande abraço
joão antonio b almeida
campinas sp
jabuhrer.almeda@gmail.com