sábado, novembro 27, 2010

Vida longa, meu querido Raduan





Raduan Nassar faz anos hoje.


Raduan é um homem que está na minha vida desde que li “Um copo de cólera”. OK. está muito mais no meu imaginário, mas é presente.  Lembro quase todos os dias dele, gostaria de telefonar- não ligo, sei que prefere assim. Se eu disser o quanto é importante para mim dirá: “O que é isso, menina? Você me superestima”. Ouvi isso do Drummond, também. A vida me deu estes presentes. Ou eu busquei estes prêmios? Acho que mereço. Por que? Ah! Só eu sei ... :) Que vida!

Raduan é especialíssimo, quem conhece sabe. De uma simplicidade que não se encontra mais atualmente.  Ao mesmo tempo é um curioso  e está sempre atualizado. É famosa a frase dele de que prefere criar galinhas a escrever livros. Deixou de escrever faz anos. Não cria mais galinhas, cultiva soja, arroz, estas coisas. Também diz que não gosta mais de ler. “Só leio obrigado, os livros de amigos”.
Sempre que nos falamos, meu coração bate mais forte, e desligo o telefone sorrindo- ele ri muito comigo, porque sou gaiata e espontânea com ele. Quando nos conhecemos disse: “Você tem uma espontaneidade cativante.” Não tenho medo de dizer o que sinto- ele me deu a senha.
Me chama de menina, digo: “Raduan, não sou mais menina, envelheço como você. Envelhecer não é privilégio seu.” Ele ri e diz: “Mas você ainda é uma adolescente.”
No ponto de vista do sonho, dos amores platônicos, sou, sim, uma adolescente.



Do arquivo.

Este trecho, hoje atualizado, eu havia escrito antes, num outro post.

Vocês sabem que sou fã de Raduan, o meu segundo post foi um conto dele, para que todos pudessem ler. Para mim, ele é o maior escritor brasileiro do nosso tempo, alguns dizem que é Guimarães Rosa, outros Rubem Fonseca, eu fico com Raduan. É uma escolha subjetiva acima de tudo, porque tudo que ele escreveu eu gostei, tudo. Publicou poucos livros e não quer escrever mais. Diz que agora só lê livros dos amigos porque é obrigado.

O Caderno de Literatura do Instituto Moreira Salles sobre o escritor é excelente, se você quer conhecer mais o brasileiro-libanês compre o Caderno, é ótimo.

Conheço Raduan há anos, meus meninos eram pequenos. Nosso primeiro contato foi muito engraçado. Eu havia feito um trabalho de psicanálise em cima do “Um copo de cólera”, uma amiga me disse que a irmã havia conhecido Raduan, porque estava a fim de fazer uma peça de teatro baseada no conto "Ventre seco", e que ele foi muito simpático- recebeu-a na casa dele. Pedi o endereço para mandar meu texto, mas esta amiga é muito desligada, ou desinteressada, como queiram, e não pegava nunca o endereço. Estávamos no Rio, ele em São Paulo, um dia eu desliguei o telefone acabando de falar com ela e liguei 102, pedi o telefone de Raduan, me deram.

Liguei pensando que uma secretária atenderia, aquelas coisas, ele atendeu, ai eu não sabia o que dizer, disse que não esperava que ele atendesse e, ansiosa, me apresentei e comecei a falar que havia feito um trabalho etc e tal. Depois de certo tempo ele me disse pausadamente, com aquela voz de paulista: ”Estamos conversando há quinze minutos e você não disse seu nome.”

Foi nosso primeiro contato e falamos uns cinqüenta minutos, a ligação era interurbana, eu não queria desligar nunca, imaginem minha emoção. A partir daí passamos a nos falar sempre, pelo menos uma vez por mês. Uns dois anos depois, um dia ele me disse: “Ficarei velhinho e você não virá me conhecer”. Foi a senha para que eu fosse.

O primeiro encontro foi na casa dele e Raduan me fez falar, perguntou TUDO sobre minha vida e minha família. Ficamos até uma da manhã conversando, aliás, ele me ouvindo, então me levou para a casa de meus amigos, onde eu estava hospedada. Ficamos de almoçar juntos no dia seguinte, eu voltaria para o Rio à tarde, mas no dia seguinte ele ligou dizendo que havia esquecido que era aniversário de sua mulher, hoje ex., que ficaria para a próxima vez.

Depois nos vimos no Rio num encontro que ele teve com Chico Buarque onde fizeram leituras de trechos de seus livros, Raduan leu Chico, Chico leu Raduan- já contei aqui que o compositor se engasgou e quase chorou lendo “Hoje de madrugada”. Ganhei de presente "Menina a caminho".

Não voltamos a nos ver por longos anos. Ele gostaria de vir ao nordeste, mas anda com probleminhas de saúde, adiou a viagem que seria em fevereiro, quer vir visitar Ariano Suassuna de quem é amigo.
No ano passado fui à São Paulo e nos encontramos perto da casa dele, numa cafeteria. Ele chegou com a respiração ofegante, havia feito uma cirurgia há pouco tempo.

Temos uma relação bonita de afeto, é um amor impossível meu, já contei antes- nos encontramos muito tarde, e com longas distâncias geográficas. É um homem gentil. Sou encantada por ele.

Ele diz que o chateiam para dar entrevistas, acho que quem quiser saber mais sobre Raduan deve ler o Caderno e devem respeitar seu silêncio, ele concordou quando eu disse isto, as pessoas insistem, querem descobrir o porquê do silêncio. Meu Deus! se alguém pede silêncio, respeitem. O que vale é a obra maravilhosa dele, se parou de escrever, é isto ai.  “É um fato”, ele disse, “e ponto final”. Concordo. Há dias em que ligo e ele está muito quieto, então eu digo:” Não quer falar hoje, não é?” “Não é com você, você sabe.” Eu sei, eu o respeito e vou amá-lo sempre, mesmo no seu silêncio: “Homem maduro, coração duro”*, eu digo, ai ele cai numa gargalhada que me faz feliz, ele ri comigo, isto é o bastante.

Vida longa para meu querido amigo Raduan!


* frase do conto "Ventre seco".

6 comentários:

Adriana disse...

Adorei seu texto, vi o link no blog da Cia.
A senhora escreve muito gostoso, tem um gingado, um rebolado que envolve e deixa o texto fluir como num sonho.
Eu também tenho amores impossíveis com vários escritores, e não conheço nenhum pessoalmente; mas amá-los basta, e como...!
Um abração, obrigada pelo texto.
Foi um prazer,
Adriana de Godoy

Diz disse...

Obrigada Adriana, vc é gentil. :)
Seja bem-vinda.
É um prazer te conhecer tb, já te li lá no blog da Cia.
Abs, Laura

Adriana disse...

Imagina, a gentileza é toda sua, quem sou eu...!
Sua escrita reflete um pouco o fato de que não mora em São Paulo, estou certa? Aqui é muito difícil escrever com leveza e gingado, o ar é pesado, é necessário um esforço.
Aqui os dramas se desenvolvem de maneira mais carregada.
Vou lendo seus textos e, se não atrapalhar, comentarei, tá bom?
Eu gosto de falar com gente que gosta de escrever, é uma benção.
Abração, valeu.

Dai disse...

tb achei o texto ótimo, delicado e franco.
Os escritores devem ser devidamente apaixonáveis, não? Assim o encantamento se torna mais completo, dividido entre texto e pessoa. Beijos!

Diz disse...

Dai, bom que gostou tb :)
Encantamento quase sempre. Nem sempre :)
E, qto à delicadeza, vc sabe q o Raduan é mto tímido, precisa-se ter mt cuidado c ele- com c o Drummond tb- outros são cínicos, ai a linguagem pode ser outra, né? vc sabe :)
Bjs

Camille disse...

Fala serio guria!!! Por um lado todo amor é impossivel,quando se trata de uma "relaçao". Por outro, nenhum amor é impossivel se os dois se conhecem e nao é fruto da imaginaçao, nao é platonico. POis se jogue de cabeça nesse amor, que distancia que o que!!!! Nao conheço Raduan, confesso minha ignorancia. Mas ja vi esse rosto antes.Ou se parece com alguem que eu conheço ou é mega famoso o escritor.
Depois me conta como foi o noivado!!!
Beijos e boa semana!
Cam