sábado, outubro 29, 2011

Um lugar especial


IMS - Instituto Moreira Salles

Que bom que o IMS está homenageando o Drummond.

Vou lá ver a expo de Mira Schendel e otras cositas más.

Estou no Rio curtindo que nem pinto no lixo- feliz.

Observo árvores centenárias, genter de bom humor, velhinhas faceiras.

Vou postar fotos, ainda não fiz- mas vou fotografar as orquídeas das ruas de Ipa e Leblon.

Até mais. Vou curtir minha amiga aqui, é velhinha e eu a amo- tem 80 anos, conheço desdeeee 71 :)

domingo, outubro 23, 2011

Hoje de Madrugada







Raduan Nassar

O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos, passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.

Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos: "responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido. Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada; provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos. Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.

Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira, e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro, abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.

Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro, próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava, resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra: a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca escancarada, e eu não minto quando digo que  não eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.

Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.


Está neste livro.
Prêmio Jabuti 1998 de Melhor Livro de Contos e Crônicas


Este conto é um dos que eu mais gosto. Chico Buarque o leu num encontro com o Raduan- e quase chorou lendo- eu vi. Contei aqui em outros posts.




 
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 .

"Sunny"




Adoroooooooooooo. Do meu tempo de mocinhaaaaaaaaaaa...

sábado, outubro 22, 2011

Um sol para você





Feliz aniversário, querido.

Queria te dar um presente especial- só achei o sol.
:)


quarta-feira, outubro 19, 2011

segunda-feira, outubro 17, 2011

Miniconto: A flor



A flor

O sol a pino aquecia o pátio onde eles se protegiam na estreita sombra. Amontoavam-se recostados na parede encardida. Alguns jogados no chão, alheios. Talvez não sentissem o queimar.
Os homens, com canecas nas mãos, batiam ruidosos no portão de ferro, que se abriria em alguns minutos. Era hora do almoço.
A alegria do primeiro emprego desapareceu ao cruzar a porta para os alojamentos, que recendiam à urina.
Uma mulher lhe sorria sentada perto da entrada. Vigiava a passagem. Esperaria alguém? Boca desdentada, faces rubras, boca carmim borrada. Uma flor murcha caía de sua orelha esquerda. Retribuiu o sorriso.
No carro, de volta, chorou. Não sabe se por eles ou por ela.

quinta-feira, outubro 13, 2011

Amenidades



Estes dias vi "A vida da gente". É um dramalhão, sim, mas tem ótimos atores. As moças estão muito bem- Fernanda Vasconcellos e Marjorie Estiano, e Ana Baeatriz Nogueira está dando um show. Nicete Bruno também está ótima como a mãe-avó, cuidadosa. Primeira vez que a vejo tão bem.

Leia aqui: Ana Beatriz Nogueira acredita na boa intenção de sua personagem Eva, em "A Vida da Gente".

Reynaldo Gianecchini em vídeo fala do câncer

A doença do Reynaldo Gianecchini me entristeceu muito, fiquei dias triste- tão jovem, tão querido- ele passa isso, com certeza é um cara muito legal. Percebe-se o quanto se esforça para melhorar como ator, faz cursos, teatro... Estou na torcida por ele. O vídeo mostra a tranquilidade dele, mesmo na dor é belo. Força Giane!

quarta-feira, outubro 12, 2011

O meu pintor preferido: Marc Chagall







Copiei do "Beto Palaio Descobri, depois que postei, que a fotógrafa é Lotte Jacobi. Mais uma foto dela com o Chagalll e a filha".
Conheci tarde o Chagall, lembro que o Thomas Cohnfalava nele e eu visualizava uns desenhos, graças à Internet vi tantos trabalhos dele. Em Paris me comovi em frente de um quadro no Museu D'Orsay.
As cores de Chagall são as minhas preferidas, os quadros têm fantasia, sonho. Antes de conhecer Chagall eu preferia Van Gogh, Miró, Matisse... Hoje ele é meu preferido. Tenho fases, quem sabe ainda mudo.






Mais aqui.

quinta-feira, outubro 06, 2011

Miniconto- Mormaço



O dia está nublado. A grama molhada traz calor. O chão da varanda brilha. Hoje não será preciso molhar o jardim. Ao longe, o choro de uma criança desde o amanhecer. O boiadeiro me despertou com seu 'eia, eia'. Da janela vejo o gado disperso na Fazenda vizinha. Porções de branco na pastagem. O amigo disse: "São garças, não emas.". Não as vejo mais perto apesar do rio tão próximo. Onde o belo voo ao entardecer? Escondem-se de mim, as garças?. Olho meu escritório, livros por toda parte, a mesa desarrumada. Atrás, à minha direita, duas pranchas de surf encostadas, à frente, na sala, duas guitarras apoiadas no sofá. O olhar encontra, ainda, os gatos enlaçados- ela, no cio, geme. O mormaço parece retardar o tempo.

A mulher de preto- Miniconto










Ainda atordoado com as palmas saí para o saguão. Pedi um táxi, não gosto de dirigir à noite. Ao afundar no banco de trás, exausto e feliz, me vem a imagem da mulher de preto sentada na primeira fila. Já a vi em algum lugar, o cansaço não me ajuda a lembrar. Talvez um rosto conhecido. Das três perguntas que me fizeram, a última foi dela, perguntou algo sobre amor.
Na cama, após alguns minutos deitado, revejo seus traços, agora sim, sei quem é. Mas como? Está longe! Seria mesmo ela? Como soube da palestra? Por que não veio até mim?
No dia seguinte os e-mails retornam, uma mensagem automática diz que ela está viajando e volta só daqui a um mês.
Sinto-me estranho.


Postado antes em 2006. Aqui.

Steve Jobs


Daqui.

domingo, outubro 02, 2011

A dedicatória mais preciosa


Drummond deixou este livro na minha portaria. Naquela época estávamos sempre em contato. É um presente muito especial. Vou colocar as outras aos poucos aqui- há anos queria fazer isso, mas sou desorganizada. Odeio digitalizar, também.
Ai no ladinho tem um link- título: Dedicatória, onde há outras dedicatórias legais.

Livro, pra que te quero?





Ando cansada. OK., não é novidade, mas desta vez não estou depressiva. Passei o último mês sobre os contos, relendo, trocando ideias com Daiany, que revisava para mim. Estava com pressa, havia prazo por causa do concurso do SESC.
Ai, na véspera- como convém a uma boa brasileira- fui reler o edital- que havia sido atualizado e estava lá:

6 - Será permitida a inscrição de obra cuja pequena parcela do conteúdo tenha sido publicada em blogs pessoais ou revistas eletrônicas, desde que não ultrapasse 25% do total da obra.

Poxa, fiquei desapontada. Penso que quem fez isso- claro que é uma equipe- desconhece o meio virtual, só assim entendo.

Blogs são multiplicadores- a Editora Record- que irá publicar o livro premiado, seria mais divulgada. Também desconhecem que quem lê blogs compram livros e divulgam.

Quantas vezes eu divulguei livros de amigos blogueiros aqui? Muitas.

Será que desconhecem os escritores que publicam em blogs, esperam um reconhecimento maior, dos meios de circulação convencionais?

Isso me chateou. Eliminarem de cara alguém que publica em blogs é ignorar o que rola no mundo atual. #prontofalei.

Alguns dizem, ou pensam, mas se ela já tem leitores no blog pra que quer publicar um livro? Porque o objeto- livro é fascinante para mim.

Amo livros. E, tem mais, como sou da antiga, tenho amigos que não leem no virtual e adorariam ter meu livro nas mãos.

Ai, eu penso, para me confortar, que o livro que eu enviaria, não é o que eu gostaria de fazer. Quero um livro com menos contos- selecionei muitos para enviar, seria como uma amostra maior. Quero um livro bonito, com desenhos meus. Penso que posso dividir o livro com desenhos. Agora é fazer a ‘boneca’e ir à luta.