Raduan Nassar
O que registro agora aconteceu hoje de madrugada quando a porta do meu quarto de trabalho
se abriu mansamente, sem que eu notasse. Ergui um instante os olhos da mesa e encontrei os
olhos perdidos da minha mulher. Descalça, entrava aqui feito ladrão. Adivinhei logo seu
corpo obsceno debaixo da camisola, assim como a tensão escondida na moleza daqueles seus
braços, enérgicos em outros tempos. Assim que entrou, ficou espremida ali ao canto; me
olhando. Ela não dizia nada, eu não dizia nada. Senti num momento que minha mulher mal
sustentava a cabeça sob o peso de coisas tão misturadas, ela pensando inclusive que .me
atrapalhava nessa hora absurda em que raramente trabalho, eu que não trabalhava. Cheguei
a pensar que dessa vez ela fosse desabar, mas continuei sem dizer nada, mesmo sabendo que
qualquer palavra desprezível poderia quem sabe tranqüilizá-la. De olhos sempre baixos,
passei a rabiscar ao verso de uma folha usada, e continuamos os dois quietos: ela acuada
ali no canto, os olhos em cima de mim; eu aqui na mesa, meus olhas em cima do papel que eu
rabiscava. De permeio, um e outro estalido na madeira do assoalho.
Não me mexi na cadeira quando percebi que minha mulher abandonava o seu canto, não ergui
os olhos quando vi sua mão apanhar o bloco de rascunho que tenho entre meus papéis. Foi
uma caligrafia rápida e nervosa; foi una frase curta que ela escreveu, me empurrando o
bloco todo, sem destacar a folha, para o foco dos meus olhos: "vim em busca de
amor" estava escrito, e em cada letra era fácil de ouvir o grito de socorro. Não
disse nada, não fiz um movimento, continuei com os olhos pregados na mesa. ?Mas logo pude
ver sua mão pegar de novo o bloco e quase em seguida me devolvê-lo aos olhos:
"responda" ela tinha escrito mais embaixo numa letra desesperada, era um gemido.
Fiquei um tempo sem me mexer, mesmo sabendo que ela sofria, que pedia em súplica, que
mendigava afeto. Tentei arrumar (foi um esforço) sua imagem remota, iluminada;
provocadoramente altiva, e que agora expunha a nuca a um golpe de misericórdia. E ali, do
outro lado da mesa, minha mulher apertava as mãos, e esperava. Interrompi o rabisco e
escrevi sem pressa: "não tenho afeto para dar", não cuidando sequer de lhe
empurrar o bloco de volta, mas nem foi preciso, sua mão, com a avidez de um bico, se
lançou sobre o grão amargo que eu, num desperdício, deixei escapar entre meus dedos.
Mantive os olhos baixos, enquanto ela deitava o bloco na mesa com calma e zelo
surpreendentes, era assim talvez que ela pensava refazer-se do seu ímpeto.
Não demorou, minha mulher deu a volta na mesa e logo senti sua sombra atrás da cadeira,
e suas unhas no dorso do meu pescoço, me roçando as orelhas de passagem, raspando o meu
couro, seus dedos trêmulos me entrando pelos cabelos desde a nuca. Sem me virar, subi o
braço, fechei minha mão ao alto, retirando sua mão dali como se retirasse um objeto
corrompido, mas de repente frio, perdido entre meus cabelos. Desci lentamente nossas mãos
até onde chegava o comprimento do seu braço, e foi nessa altura que eu, num gesto claro,
abandonei sua mão no ar. A sombra atrás de mim se deslocou, o pano da camisola esboçou
um vôo largo, foi num só lance para a janela, tinha até verdade naquela ponta de
teatralidade. Mas as venezianas estavam fechadas, ela não tinha o que ver, nem mesmo
através das frinchas, a madrugada lá fora ainda ressonava. Espreitei um instante: minha
mulher estava de costas, a mão suspensa na boca, mordia os dedos.
Quando ela veio da janela, ficando de novo à minha frente, do outro lado da mesa, não me
surpreendi com o laço desfeito do decote, nem com os seios flácidos tristemente
expostos, e nem com o traço de demência lhe pervertendo a cara. Retomei o rabisco
enquanto ela espalmava as mãos na superfície, e, debaixo da mesa, onde eu tinha os pés
descalços na travessa, tampouco me surpreendi com a artimanha do seu pé, tocando com as
pontas dos dedos a sola do meu, sondando clandestino minha pele no subsolo. Mais seguro,
próspero, devasso, seu pé logo se perdeu sob o pano do meu pijama, se esfregando na
densidade dos meus pêlos, subindo afoito, me lambendo a perna feito uma chama. Fiz a
tentativa com vagar, seu pé de início se atracou voluntarioso na barra, e brigava,
resistia, mas sem pressa me desembaracei dele, recolhendo meus próprios pés que cruzei
sob a cadeira. Voltei a erguer os olhos, sua postura, ainda que eloqüente, era de pedra:
a cabeça jogada em arremesso para trás, os cabelos escorridos sem tocar as costas, os
olhos cerrados; dois frisos úmidos e brilhantes contornando o arco das pálpebras; a boca
escancarada, e eu não minto quando digo que não
eram os lábios descorados, mas seus dentes é que tremiam.
Numa arrancada súbita, ela se deslocou quase solene em direção à porta; logo freando
porém o passo. E parou. Fazemos muitas paradas na vida, mas supondo-se que aquela não
fosse uma parada qualquer, não seria fácil descobrir o que teria interrompido o seu
andar. Pode ser simplesmente que ela se remetesse então a uma tarefa trivial a ser
cumprida quando o dia clareasse. Ou pode ser também que ela não entendesse a progressiva
escuridão que se instalava para sempre em sua memória. Não importa que fosse por esse
ou aquele motivo, só sei que, passado o instante de suposta reflexão minha mulher, os
ombros caídos, deixou o quarto feito sonâmbula.

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