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domingo, abril 23, 2017

O Coração Imobiliário- Crônica de Drummond

“Coração Imobiliário”

Um dia Carlos Drummond me telefonou e disse:
- Posso publicar uma crônica que fiz para você?
- Claro, é um prazer, querido!
- Chamo a personagem de Cristiane para você não ser identificada.

Dias depois, estava lá a crônica “Coração imobiliário” no Jornal do Brasil.
Eu nunca fiz cópia, esqueço. Depois desta crônica, ele publicou uma sobre Pedro Nava e a última se despedindo- dizia que estava cansado, ia pessoalmente levar o texto até a Av. Brasil, de táxi.

Bom, a Cristiane tinha mais de um amor. Drummond sabia que eu tinha uma paixão, um caso de amor clandestino, ele conhecia bem isto, vocês sabem. Ele também sabia, porque eu contava minha vida, que um amigo norte americano costumava tomar café da manhã comigo. Pois bem, a estória é de uma moça que recebe amigos em casa.

Não o questionei. Acredito que estava enciumado e ressentido, dava sinais de que estava apaixonado por mim e eu fugia, fugia literalmente, o enganava sobre meus horários de trabalho, dizia que trabalharia o dia todo, quando ele perguntava o que eu iria fazer no dia seguinte. Levei um susto quando ele contou que terminou com a Lygia! A amante de 30 anos!
Mas, o término durou pouco, porque ele adoeceu de uma infecção urinária e eles voltaram.

Ele dizia que de manhã a Dolores, esposa, cuidava dele e de noite ele cuidava dela, dava remédios. Dormia tarde, tomava um licorzinho e ouvia músicas. Me telefonava nestas horas- uma vez ligou meia noite e meia, eu não estava, minha irmã atendeu. Eu não queria feri-lo com meu desamor, preferia fugir. Eu o amava como um amigo especial, nada além.

No final da crônica ele diz: posso dar uma espiadinha no apartamento?
Querendo dizer que ele também queria frequentar minha casa. Ou meu coração imobiliário- onde cabiam vários amores.

O americano era apenas amigo, era muito solitário e me ligava perguntando se poderia ir para o breakfast e para que eu jogasse o “I Ching” para ele. Estava apaixonado por uma moça. É o violinista, contei outro dia, que fez um recital para mim no dia 16 setembro dia do meu aniversário. Deve ter sido em 84, ano da crônica, que foi publicada em 25 de setembro,

Tad Lawer, era o Spalla da OSB na ocasião. Ganhei um presente de luxo.
Ah! Ele esteve na minha casa uma vez. Trouxe de presente uma gravura de Renina Katz, tomamos um chá inglês com docinhos comprados com carinho para ele. Neste dia me contou sobre uma quantidade enorme de paqueras dele- não anotei, esqueci. Era muito safado- a palavra é esta- não exagero. O teor das conversas dele comigo no telefone me encabulavam. Ele dizia: Mas você não é psicanalista? Eu respondia: Mas tenho alma de poeta, Drummond.

Conto sobre este chá na crônica “O poeta frugal”. 

sexta-feira, outubro 31, 2014

O poeta frugal- Carlos Drummond de Andrade




 



Chá das quatro com Drummond


Drummond se aproximou mais de mim, depois da morte de Pedro Nava, fui amorosa com ele, fiz um cartão com um desenho bonito, caminhamos de mãos dadas por Ipanema... Ele sofreu muito com a morte de Nava, não se conformava, dizia: "Por que ele fez aquilo?"
Não sabíamos do drama que Nava vivia na ocasião.

Ele me perguntava, todos os dias, como seria a minha tarde no dia seguinte, e eu lhe dizia que teria um dia de trabalho cheio, às vezes mentia, eu não queria estar a sós com ele. Pode parecer estranho para muitos, mas é verdade, eu tinha receio de criar uma expectativa muito grande e não corresponder, não queria ser culpada por vê-lo infeliz.

Nesta ocasião ele rompeu com a namorada, por uma razão que não lembro, uma bobagem, disse que não a queria mais. Fiquei assustada, eu era muito discreta, não o procurava, esperava que ele se aproximasse.

Eu estava, naquele momento, completamente apaixonada por outro homem, impossível jogar charme a quem fosse, mesmo para o poeta. Eu lhe contava sobre o meu amor, e ele dizia que se eu quisesse manter a paixão deveria viver em casas separadas, como ele fez com a namorada- estavam juntos há trinta anos, como amantes.

Um dia eu o convidei para tomar chá comigo. Ele trouxe de presente uma gravura abstrata de Renina Katz, em azul, muito bonita. Elogiou meus desenhos, contou muitas histórias de flertes e namoricos que teve ao longo da vida. Preparei uma bela mesa com chá inglês, geleia dinamarquesa, quindim mineiro, torradas...Tomou chá, disse que a mesa era linda, mas ele era frugal. Todas as vezes que ouço esta palavra lembro dele- frugal- combina com o Carlos. Ele me pedia para chamá-lo assim, eu preferia Drummond, era como o conhecia antes, só quando me corrigia chamava-o pelo primeiro nome.

Tenho saudades de Carlos, o poeta frugal.



quinta-feira, outubro 31, 2013

Drummond ainda vive




                                                                   *

Lembrar Drummond ainda me dói. 
Há muitas boas lembranças,  
e a emoção me toma e comove. 
Luc, meu filho mais velho fez 25 anos este ano. 
Não fosse a morte do poeta, não o teria, nem Dan. 
Como seria minha vida sem eles? Muito triste, suponho.

Conheci Drummond ao acaso,  
como quase tudo na minha vida.   
Nos cruzávamos por Ipanema.  
Eu a caminho do trabalho, ele ao encontro da amante.
Viramos amigos, trocávamos confidências. 
Nossas tristezas, prazeres.
Um dia, caminhávamos de mãos dadas pela Praça Gal. Osório, ele disse:
Se quiser viver uma paixão, não case. Ele estava certo. 
Casamentos desbotam chamas. 

Foram cinco anos em que me senti privilegiada, 
mas sei que há outras por quem se enamorou.
Naquele dia fomos até a esquina de sua casa caminhando no final do dia, ele disse:
"Você é sangue novo em minhas veias.  Sinto desejo,
mas o corpo não corresponde mais.".
 Ele estava com mais de 80 anos, eu tinha pouco mais que 30. 
Lygia, sua eterna namorada, mantinha encontros clandestinos com ele há 30 anos, 
ele estava casado há 50, por ai.  Fez piada sobre isso. 
Disse que se somassem os anos com as 2, 
daria mais do que sua idade. 
Era um homem denso, mas bem humorado, leve.
Um dia me ligou e disse: 
Posso fazer uma crônica sobre você? 
Respondi, que seria uma honra. 
Ele: Vou mudar seu nome para Cristiane.
Ansiosa comprei o JB para ler. O título: Coração imobiliário.
Por que?  A tal Cristiane tinha vários visitantes amigos.
Não era lisongeiro, mas enciumado o seu texto.
Este Drummond... 
No final ele dizia: Posso dar uma espiadinha nesta cobertura?  ;)
Depois perguntou: Você sabe o que significa cobertura entre animais? Eu sabia.
Quando eu dizia: Assim você me deixa encabulada, Carlos. 
(Queria que o chamasse pelo primeiro nome, 
eu preferia o Drummond, afinal...
nunca me senti muito à vontade diante dele.).
Ele respondia: Ué, você é psicanalista...
E eu: Mas tenho alma de poeta.
Ficaria o dia a contar historinhas dele,  
mas já contei antes, podem ler em Drummond e eu.
Link abaixo, na imagem da escultura dele. 
Ele está vivo em mim e nos meus filhos tão especiais.
Viva o nosso poeta!

*Este belo poema ganhei de presente, deixou na portaria do meu prédio.
Eu também deixava cartinha lá. 
 Não fez para mim,
não chegamos a tanto. 




sábado, outubro 29, 2011

Um lugar especial


IMS - Instituto Moreira Salles

Que bom que o IMS está homenageando o Drummond.

Vou lá ver a expo de Mira Schendel e otras cositas más.

Estou no Rio curtindo que nem pinto no lixo- feliz.

Observo árvores centenárias, genter de bom humor, velhinhas faceiras.

Vou postar fotos, ainda não fiz- mas vou fotografar as orquídeas das ruas de Ipa e Leblon.

Até mais. Vou curtir minha amiga aqui, é velhinha e eu a amo- tem 80 anos, conheço desdeeee 71 :)

domingo, outubro 02, 2011

A dedicatória mais preciosa


Drummond deixou este livro na minha portaria. Naquela época estávamos sempre em contato. É um presente muito especial. Vou colocar as outras aos poucos aqui- há anos queria fazer isso, mas sou desorganizada. Odeio digitalizar, também.
Ai no ladinho tem um link- título: Dedicatória, onde há outras dedicatórias legais.

quinta-feira, setembro 22, 2011

O poeta frugal- Carlos Drummond de Andrade




 


Chá das quatro com Drummond

Drummond se aproximou mais de mim, não sei exatamente porquê, depois da morte de Pedro Nava, fui amorosa com ele, fiz um cartão com um desenho bonito, caminhamos de mãos dadas por Ipanema...Ele sofreu muito com a morte de Nava, não se conformava, dizia: "Por que ele fez aquilo?"
Não sabíamos do drama que Nava vivia na ocasião.

Ele me perguntava, todos os dias, como seria a minha tarde no dia seguinte, e eu lhe dizia que teria um dia de trabalho cheio, às vezes mentia, eu não queria estar a sós com ele. Pode parecer estranho para muitos, mas é verdade, eu tinha receio de criar uma expectativa muito grande e não corresponder, não queria ser culpada por vê-lo infeliz.

Nesta ocasião ele rompeu com a namorada, por uma razão que não lembro, uma bobagem, disse que não a queria mais. Fiquei assustada, eu era muito discreta, não o procurava, esperava que ele se aproximasse.

Eu estava, naquele momento, completamente apaixonada por outro homem, impossível jogar charme a quem fosse, mesmo para o poeta. Eu lhe contava sobre o meu amor, e ele dizia que se eu quisesse manter a paixão deveria viver em casa separadas, como ele fez com a namorada, estavam juntos há trinta anos, como amantes.

Um dia eu o convidei para tomar chá comigo. Ele trouxe de presente uma gravura abstrata de Renina Katz, em azul, muito bonita. Elogiou meus desenhos, contou muitas histórias de flertes e namoricos que teve ao longo da vida. Preparei uma bela mesa com chá inglês, geléia dinamarquesa, quindim mineiro, torradas...Tomou chá, disse que a mesa era linda, mas ele era frugal. Todas as vezes que ouço esta palavra lembro dele- frugal- combina com o Carlos. Ele me pedia para chamá-lo assim, eu preferia Drummond, era como o conhecia antes, só quando me corrigia chamava-o pelo primeiro nome.

Tenho saudades de Carlos, o poeta frugal.

quinta-feira, setembro 08, 2011

Drummond e a Garganta Profunda






Drummond, o Carlos, me contou que foi ver o filme “Garganta Profunda” no Cine Scala, em Botafogo no Rio de Janeiro. Chegou de mansinho, pediu o ingresso, meio de lado para que mal fosse visto- era quase uma linha imaginária. Viu o filme, saia pé ante pé, quando ouviu a bilheteira dizer em alto e bom tom:
- "E aí, poeta, gostou do filme?"

terça-feira, maio 31, 2005

Drummond e os meus meninos




Drummond entrou realmente na minha vida ao morrer.
Era agosto, meu inferno astral, mês de mau agouro. A TV noticia a morte de Drummond. Fico triste e confusa, não sei se devo ir ao enterro, detesto estas cerimônias. Dia cinzento, chuva fina, às nove da manhã a imagem de Drummond no caixão me comove na capela quase vazia. Resolvo ir.

Onze horas, hora do enterro, a capela cada vez mais cheia me sufoca. Saio para a varanda do cemitério São João Batista. Havia um homem bonito de terno de linho azul à espera, e outros homens- políticos, artistas, curiosos. Pergunto, a um homem qualquer, se há outra saida para o caixão- pois vejo repórteres correndo, homem de terno de linho azul diz: "Vou ver". Na volta diz: "Venha comigo". Fui. Algum tempo depois eu esperava meu primeiro filho- dele.

Diz um amiga astróloga que quando morre um escorpião nasce outro, no meu caso nasceram dois geminianos.
Devo a Drummond meus dois lindos meninos, hoje homens.

Que viva Drummond! Que vivam meus meninos!