domingo, abril 23, 2023

Contardo Calligaris e eu- crônica










Muitos amigos sentem curiosidade sobre minha amizade com Contardo Calligaris. Vou tentar contar.
Era uma relação muito interessante, mas não é fácil expressar em palavras. Havia muitos sentimentos envolvidos.
Conheci Contardo lendo a FSP, isso há muitos anos, década de 90, não sei bem quando. Mas quando meus filhos nasceram eu ainda não era amiga dele, é uma referência para mim.
Lembro que o nome dele me causou estranheza, eu não conseguia saber qual a nacionalidade dele pelo nome, o que me deixava curiosa. Gostei dos textos dele desde sempre. Contardo escrevia de 15 em 15 dias e dividia o espaço com Javier Marias- escritor espanhol que sempre gostei muito. Morreu recentemente.
Uma colega psicanalista descobriu quem era o Contardo e passou a fazer análise ou supervisão com ele. Ela ia do Rio para São Paulo e ficava no mesmo Flat onde ele tinha o consultório, que mais tarde conheci.
Eram duas salas com objetos de arte e muitos livros de fotografia na sala de espera.
Na FSP vinha o e-mail dele, vocês sabem, adorava retorno. Bom, uma vez li um texto dele que me mobilizou muito sobre violência contra mulheres. Eu lhe escrevi um texto gigante e ele respondeu com delicadeza. também contei da grande paixão da minha vida que estava longe.
Passei a escrever sempre. Contava tudo que achava relevante de minha vida para ele. Não era uma terapia, ele não agia como, pelo contrário dava respostas divertidas, irônicas, algumas vezes me retrucava. Sempre mensagens muito curtas, exceto quando falava algo dele, como quando morreu o irmão, ou quando falávamos de psicanálise. Afinei sempre com ele na técnica psicanalítica. Não tinha como discutir teoria com ele, óbvio, ele sabia muito. Sempre me ouviu e concordava comigo quando eu falava de algum caso e achava que seria boa uma indicação para uma terapia winnicottiana. Contardo era múltiplo, penso que eu também sou.
Eu tinha um misto de paixão e admiração por ele, todos percebiam porque eu postava muitos textos dele.
Era uma relação nada fácil. Nos correspondíamos todos os dias sempre eu que provocava a conversa.
Acho que uma três vezes ele escreveu, lembro que uma das vezes estava em NY, outra em Veneza e uma outra em Sampa. Uma das vezes era sobre o Twitter, que fui eu quem criei a conta dele e ele nem sabia usar. Fiz uma senha com o segundo nome dele, Luigi. Eu descobria tudo sobre ele, stalkeava. De uns anos para cá, ele virou estrela e eu deixei de ver muita coisa. Acredito que o Twitter que eu fiz e a divulgação que eu fazia no TT e tal ajudaram a ele ficar mais conhecido, no início ele não era nada famoso.
Ele não falava da vida íntima, claro! Gostava de manter a minha curiosidade, era um grande sedutor.
Quando era explícito eu lhe respondia: "Você é muito fdp!". Sempre me senti muito livre com ele, que gostava de me provocar. às vezes eu contava para os filhos sobre algo que disse para ele e já antecipava: "Só quero ver o que ele vai responder?!..." Bingo! Era uma correspondência divertida e bastante afetiva.
Houve um tempo em que eu resolvi fazê-lo lembrar do tempo de adolescente e mandava músicas daquela época para ele, que dizia: Voltei no tempo, Elianne. "Amore scusami", foi uma delas.
Uma vez perguntei na véspera do aniversário dele, quais as atrizes que mais gostava, ele citou Julia Roberts e outras duas italianas que não lembro mais, não eram conhecidas por mim, pois eu fiz uma colagem no blog com fotos delas e lhe mandei- a postagem eu ocultei depois, claro. Era muito divertido. Ele nunca deixou de me dar corda, mas também eu sentia que, exceto umas poucas vezes, deu mais asas às minhas fantasias.
Aí tivemos uma discussão. Mas depois voltou tudo a ser como antes.
Quando o conheci mandei desenhos para ele que agradeceu e disse que agora entendia o porquê do Drummond gostar tanto dos meus desenhos. Eu contei do Drummond, claro. Faz parte do meu currículo, como disse uma amiga.
Na época eu era uma blogueira atuante, conhecida no meio e houve um concurso em um site de literatura ítalo-brasileiro e eu tirei o primeiro lugar. O prêmio era a tradução do conto para o italiano. mandei para ele que adorou o conto e disse que a tradução estava perfeita. Passei a escrever diariamente. Eu tinha tempo, trabalhava muito pouco porque não era conhecida aqui em Natal. Tinha meu escritório agradável- perdi, hoje é o quarto de minha mãe. Tinha espaço interno e externo. Gosto de escrever sem perturbação, não sou uma Clarice que escrevia na sala com crianças ao redor.
Tudo que eu escrevia, mandava para Contardo. Foi meu primeiro leitor e meu maior fã. Uma vez ficou zangado comigo e disse que não falaria comigo se não fosse atrás de fazer o livro. Eu não o fiz até hoje. Voltou a falar comigo, óbvio. Pouco antes de morrer eu disse que estava relendo os textos e pretendo, (mudei a forma verbal), publicar com o título: "O homem menos estranho e outros contos.". Ele aprovou. Fez uma dedicatória para mim onde diz que meus minicontos são maravilhosos! Com exclamação.
Quando a relação dele com a Mônica Torres foi oficializada eu mudei a comunicação com ele. Na época ele perdeu o irmão- só restaram dois sobrinhos da família e o filho, Max, que morava em NY, e é solteiro. Eu lhe disse que esperava que a Mônica o confortasse. Também mandei um elogio para ela sobre uma papel que fez de presidiária no seriado dirigido e produzido por ele no HBO, "Psi".
Ah! Sim, eu fui encontrá-lo, almoçamos juntos. Ele me ouviu muito, como sempre, e falou pouco. Foi super agradável, ele era muito querido, mas pessoalmente ele não era o Contardo do meu imaginário, nunca são,
era baixo, curvadinho de tanto ficar sentado, muito mais envelhecido do que imaginava e era uma ano mais novo que eu, mas não dormia direito, passava noites lendo, acordado.

Quando eu li "O conto do amor" me desapontei também, ele não era bom em romances. Eu disse que lembrei do "Código da Vinci", ele ficou muito contrariado, discordou. Eu não era fácil, também disse que a personagem, por quem o protagonista se enamorou no final, lembrava a mãe dele, a moça usava camisas de linho largas, como ele disse uma vez que a mãe usava- não tenho a mínima ideia de onde li ou ouvi isso. Ele gostava de mulheres grandes, a Eliana, Mônica e a Maria são mulheres com traços fortes e nada mingnons.
Gosto demais do livro " Hello Brasil", dos das crônicas, tenho o " Terra de ninguém"- fiz um conto com esse nome, inspirado no CC.- gosto demais dos de terapia: "Cartas a um jovem terapeuta". Tenho um sobre psicose na teoria lacaniana, que desisti de insistir em tentar entender. É considerado muito bom.
Muita história para contar. Contardo foi meu muso, fiz muitos contos inspirados num homem intelectual, charmoso, sedutor.
Fiz um de cara envelhecido se olhando no espelho e debochando das mulheres que enlouqueceram por ele. Olha os dentes amarelados e pensa ironicamente sobre o passado. mandei par ale, claro. Respondeu: "Mas meus dentes são bons, Elianne."
Nunca terei um outro amigo assim e agradeço `a vida por eu não ter receio de me aproximar dos famosos, porque como eu, também têm fragilidades. Contardo no fundo era melancólico e solitário, adorava dirigir pela cidade deserta de madrugada. Eu observava muito ele- observo todos e sei que sempre foi um estrangeiro, mesmo no seu próprio país, que só ia nas férias em Veneza, saiu de casa aos 17 anos. A mãe engravidou dele numa depressão grave, o pai achou que o filho a salvaria (sic), um psicanalista sabe o que isso significa.
Quando a mãe morreu, chegou tarde para o velório- fiz um conto comovente sobre essa cena- me disse que lamentava ter vivido tanto tempo longe da mãe e disse que eu aproveitasse a minha.
Sinto uma falta enorme dele. Sentia uma alegria ansiosa ao ver a mensagem dele na minha caixa de e-mails, nunca era previsível e nós gostávamos desse jogo amoroso.
Saudades de Contardo. Ficaria muito preocupado se soubesse que estou com um problema de saúde, era quando se aproximava mais. Sinto falta do meu amigo italiano que odiava a vulgaridade como eu. Afinávamos em muitas coisas, sei que em outras discordávamos bastante. enfim... C'est la vie, c'est l'amour, c'est l'amitié.
Ele era poliglota, invejável. Aliás, que vida rica ele teve. Por isso dizia sempre que a vida não tem que ser feliz, deve ser interessante. A dele foi, a minha também é. Amém! Fui. texto muito longo.

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