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quinta-feira, abril 30, 2026

Miniconto: Uma coisinha à toa

 

Uma coisinha à toa




Quando ela disse
que estava apaixonada por ele e se casariam- foi leviana ou pueril? Não sei... , meu coração disparou.

Por minutos enlouqueci. Poderia dizer qualquer coisa naquele momento, estava louca. É possível estar louca num minuto e no outro lúcida? Eu sou assim, louca e lúcida. Como sou racional! Qualquer amigo endossa isto.
"Ela é razoável sempre", dirão.

Estão certos, não me deixo enlouquecer. Como? Ora, eu respiro fundo e me distancio. Vejo à distância aquilo que me afogou por uns segundos. O ar fresco me salva das bobagens que poderia fazer. Sou salva de mim mesma.

Sinto-me ridícula enciumada, absolutamente idiota, envergonhada, a própria tola.

" Não poderia ter ciúmes dele", você poderá pensar, afinal... não somos nada, e nada é nada, ponto final.

Mas onde o ponto final? Quem disse que no amor imaginário existe ponto final? Ele está colado a mim. Outros poderão vir, colo por cima, ele fica embaixo, escondido, guardado. Quando um amor descola, o de cima, lá vem ele de novo perturbar meu sonho. Sonho com ele, sonho com o outro, sonho com rostos conhecidos. Nunca um homem estranho- aquele que poderá vir a ser. Não, absolutamente, eu sonho com os que já estiveram no meu colo, aqueles que me amaram ou desejei amar.

"Por que digo estas coisas?", você pensa. Para deixar a loucura de lado.
Lá, na água, onde estive esta manhã, deixei algumas lágrimas. Elas me aliviam, chorei para mim, elas me dizem: Por que está a sofrer? Deixe isto de lado, é só uma coisinha à toa.

As lágrimas confirmam minha dor, mas o que narro, agora, conta
a minha história.

Narro para não sofrer. Ou narro para vive
r.

terça-feira, agosto 05, 2025

Treze de maio- miniconto

 

Treze de maio.


“À treze de maio na Cova da Iria,

no céu aparece a Virgem Maria.

Ave, ave, Ave Maria, ave, ave, Ave Maria...”


“Ave, ave, avestruz...Ave, ave, avestruz...”


Entrávamos solenes na capela do colégio, vestidas de gala, mangas compridas, sapatos de verniz pretos.

Eu, sacrílega e solene, sentia emoção confusa, desejo de rir e chorar.

O jejum doía. Queria sair dali o mais depressa possível.

A hóstia grudada no céu da boca confirmava minha pouca vocação religiosa.

domingo, agosto 03, 2025

Através da cortina- miniconto

 

Através da cortina

 

Entrei em casa tirando a roupa e deitei nu. Estava exausto. Batem na porta, penso em não levantar, não quero ver ninguém.  Insistem. Melhor ver quem é.

Pelo olho mágico vejo Clara: olhos pintados com kajal, boca vermelha, como gosta. Recuo em silêncio. Não poderia abrir, virá como cão farejador:

“Que cheiro é este na sua barba?” “Esteve com ela de novo, não foi?”

Através da cortina vejo-a atravessar a rua. Coloca um pacote sobre o capô do carro. “Deve ser um livro”. Ajeita a meia preta: “Só uso meias pretas”, ela diz, com cara de mulher segura. Está impaciente, olha para o relógio, para a casa, para os dois lados da rua. Imagina que eu chegue a qualquer momento.

Se eu abrisse a porta me diria: “Seu cretino, onde você estava? Desligou o telefone de novo!". Eu responderia que não, que havia acabado de chegar, que estive pesquisando para o livro”.  Não convencida, ela me daria socos no peito, exasperada.

“Mentiroso, cretino, você não estava trabalhando, eu sei”.

Eu a seguraria firme pelos braços e beijaria aquela boca rubra até que se calasse. Lágrimas desceriam dos olhos, agora borrados de negro.

Ela me olharia perdida:

“Você é um cretino, filho da puta” diria entre um suspiro e outro, minhas mãos deslizando nas coxas lisas, seda pura.

Ela estará cansada de tanto esperar, serei eu o condutor, não pedirá nada, se entregará como sempre, como se fosse a última.

Ela sabe que pode estar certa.


Fome de amor- miniconto

 

Fome de amor


Quando os olhos dele pousaram nos dela depois de tanta ausência, o peito disparou, mal entendeu o que ele disse. Queria sair dali o mais depressa possível, recuperar o fôlego. Todos em volta passaram a intrusos. Caminharam em silêncio até o estacionamento. Num acordo silencioso dirigiram-se para o carro dela.

- Senti sua falta, ela disse insegura.

- Precisei viajar às pressas, ele respondeu.

Não disse mais nada, beijou-a, as mãos subindo pelas coxas lisas, buscavam o sexo intumescido.

- Abra mais as pernas.

Minutos depois numa cama de hotel, ela recebia o membro rijo em sua boca como num gesto litúrgico.

Depois abria-se despudorada, morna e úmida. Ele estava ali, como sonhara, os olhos a devorando.

Fome de amor


sábado, agosto 02, 2025

Tão longe o Japão- miniconto

 

Tão longe o Japão


Onde a lua?

Meus olhos nada veem
Meu estômago travou com seu golpe de palavras frias.

Encolho o corpo para aliviar. Quando durmo esqueço.

Há dias tento não despertar. O sol insiste em entrar pelas frestas golpeando meu corpo que arde no sol, não mais por amor.

Como máquina ligo o fogão, como pão, sirvo o cão de comida e água, dou bom dia a quem encontro.

O peito pede para ser rasgado com faca, como no Japão. Tão longe o Japão.

Então espero passar com chás e unguentos.

Quem sabe com coragem consiga um banho de mar.

Ou um mergulho.

O mar.

O mar.

Sempre a chamar, o mar.


domingo, julho 27, 2025

Miniconto- O casaco que ele veste

 

O casaco que ele veste

Além dela, havia uma mulher muito magra, lábios finos, cabelos mal tingidos, e ele. Ele vestia um agasalho, destes com fecho na frente. Tinha os olhos grudados num livro. Ao abri-lo, deixou cair um marcador. Ela desejou pegar, mas não teve coragem. Observou-o atentamente. Ele não percebia a presença dos outros. O cabelo grisalho, sem corte, o rosto marcado pelo nariz e rugas de expressão. Usava óculos para leitura. A testa, às vezes, franzia, ou a boca entortava, num sorriso esgar. Há meia hora estavam ali. Imaginava qual seria o problema dele. Pensava em como alguém pode estar tanto tempo entre outras pessoas e não vê-las. Poderia ser um arrogante, daqueles que não se misturam e fingem estar sós. Mas, algo nele a comove. O casaco que ele veste lhe dá desejo de se aconchegar. A sala é fria, muito fria. Imagina-se muito perto e seus olhos nela. Imagina a mulher magra entrando na sala do médico e os dois na sala vazia. Então, ele a beijaria enfiando as mãos entre suas pernas, abrindo com os dedos magros sua fenda úmida. Ela o beijaria com ternura, ele não.  Ele a desejaria desesperadamente, morderia seus lábios que sangrariam. Ela sabe que há muito ele não tem uma mulher.


quinta-feira, julho 24, 2025

Miniconto- Primavera

 

Primavera

Acordou, abriu as janelas, o sol batia no assoalho brilhante. Deitou no chão fresco e foi se despindo até ficar nua.

Levantou quando o sol - num feixe vibrante - a cortava ao meio. Em vez de colocar o vestido desbotado, escolheu outro - de uma das freguesas. O mais bonito: de seda preta, com decote e fenda do lado esquerdo da saia. Calçou o par de sandálias de saltos altos, sujas de mofo.

Passou batom, coloriu as faces desbotadas.

Olhou-se no espelho e tentou dançar sozinha.


domingo, abril 16, 2023

Amor fulminante- miniconto



 Amor fulminante


Viu os olhos dele a fulminarem quando disse: 

-Não mudo uma vírgula na minha vida por você. 

Lança afiada no coração. Por uns segundos, pensou como viveria sem ele.

Mas o amor dela é tanto que supre o dele. "Homem maduro, coração duro".

Foi até a cozinha. Fez o café como ele gosta- quase amargo. Ao oferecer a xícara seus olhos eram frios. Deixou que tomasse o café, aproximou-se. Beijou seus lábios até adocicarem e ele a tomar nos braços.

Ela o amaria mais densa que nunca- teve os segundos de luto - beijaria aquele corpo religiosamente até ele lhe oferecer o gozo em jorros e entrega. 

Depois, na praia, se jogou na areia molhada. Pensava: se o mar me quiser, que leve.

A maré rasa não a carregou.

Levantou quando ouviu vozes de crianças em volta.

Foi seu último carnaval.


PS: É inspirado num conto de Raduan Nassar: "Paula", onde ele diz: "Homem maduro, coração duro".

Sábado no ônibus- miniconto


Sábado no ônibus


Entrei no ônibus com dificuldade, o motorista me olhou enviesado.
Não havia onde sentar, a mão engessada doía, o braço onde fui furado, doía. Era preciso me equilibrar na barra. 
Senti o olhar de uma mulher. Senti vergonha, queria me esconder. Todos fingiam não me ver, exceto a mulher que olhava discretamente. Ouve um momento que senti que ela ia levantar e me dar o lugar. Podia ser minha mãe, talvez me visse como filho, talvez me visse através daquela roupa suja de sangue que fedia. 
Ela não
se levantou, ainda bem, eu sentiria mais vergonha.



terça-feira, fevereiro 28, 2023

O desbotar da memória- miniconto

 Não sabe quando começou a sentir as memórias difusas. Nada perece muito nítido. 

Aquele dia que cruzou a ponte viu ou não viu os cadeados?  Teria visto depois num filme? 

Não sabe. Faz tantos anos, pensa. Mas não são só as lembranças antigas que se desbotam.
O filme que viu recentemente, e tem que buscar caminhos, quase aflitos, na mente para lembrar.
Seria isso normal? 
O francês, que estuda há dois anos, flui bem. Ça marche! Haveria motivo para se preocupar?
Talvez o excesso de informação cause o cansaço, o mesmo que sente ao amanhecer.
Há que fazer algo. Buscar o silêncio que tanto gosta, urge.

segunda-feira, fevereiro 27, 2023

O espelho, miniconto


Olha-se no espelho pela manhã e diz: "Que canseira!" e fica a se perguntar o porquê do cansaço depois de uma noite inteira de sono. 

Seria a vida que pesa mais? Não, já foi pior!  Sim, a idade... Não creio.

A palavra canseira ainda se usa? Lembra da infância, de que naquele tempo diziam: Que canseira!

Mais tarde pesquisa a palavra. Sim, canseira é o mesmo que cansaço, mas isso ela já sabia! Canseira, diz o dicionário, é desestímulo. 

Mas não sente depressão, onde há o desestímulo. Sente vontade de fazer coisas que talvez não consiga. Sempre foi assim. Quando tinha dinheiro, existia tristeza e falta de desejo. Quando se enamorava, a paixão devorava suas horas. Onde o caminho do meio? Sim, agora não há amores desatinados, há tempo de sobra, então por que o cansaço? Talvez pelo espelho lhe avisar que não tem mais todo o tempo do mundo.