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segunda-feira, dezembro 18, 2017

O tempo é implacável








Canta o vento, invade todas as frestas. Na banheira silencio o corpo na água quase fria. Observo apenas. Não há desejo.
Janelas abertas. “Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família, até que a plenitude e a morte coincidissem um dia...”
Quatro da tarde, hora da análise, e eu lembro desta música, desde sábado a ouço interiormente. Alguém me pediu para cantarolar.
Sim, eu poderia deitar mais uma vez no divã e borbulhar palavras sobre a família. Não há mais um amor a cantar ou contar. Resta a mãe, desde a infância “ausente”, agora mais que presente.
Nada há para queixar, há que se aceitar- e daí? Fazer o quê?
Há que dissolver as amarras, as amargas lembranças já não existem. Há que ser leve e não lamentar.

"O tempo é implacável", é uma frase que ouvi inúmeras vezes. O tempo é implacável, mãe, mas o tempo também é generoso, desbota dores, gritos. E agora estamos aqui, nós duas, novamente, sobreviventes. E eu estou feliz.

terça-feira, dezembro 04, 2012

A minha mãe e minha vassoura SS







- Diga à sua patroa que não estou levando nada dela.
Com esta frase- dita para a empregada- minha mãe saiu, sorrateiramente, aqui de casa, como havia feito antes. Eu acreditava que, como ninguém a queria em suas casas- os filhos- o jeito era cuidar dela, apesar de sua hostilidade comigo. Me enganei mais uma vez- ela não me suporta.  
Eu fui descansar e quando desci para fazer um lanche, antes de trabalhar, à noite, ela não estava aqui. Telefonei para meu irmão, não atenderam. Meu filho, que estava na aula, disse que ela queria ir para a casa do tio.
Foi super bem cuidada-  tanto que se renovou aqui. Foi amada pelos netos. Nada valeu- é uma mulher fria e narcisista. Véspera de Natal, eu dizendo que faria o jantar aqui e ela faz isso.
Onde está? Na casa de um irmão, dormindo no chão. Aqui cedi meu escritório com cama e tudo que ela precisasse ou desejasse. Ah! Não esqueceu de levar a garrafa de vinho que estava na geladeira.  Quando eu vi tive que rir.
Assim é a vida.
Será que ela levou minha vassoura? rs
Outro dia ela disse, quando eu perguntei se estava tomando seu remédio, que eu era pior que SSs, pior que Gestapo- assim mesmo. Eu tenho que rir. isso porque eu a controlava, sim- como não cuidar de uma idosa de 86 anos?
Desisti dela- pela enésima vez, espero que seja a última. Cansei de ser mal tratada.

sexta-feira, setembro 14, 2012

A flor da calçada





Terça-feira voltei a pé do Pilates e peguei, numa calçada, esta flor.
Disse para minha mãe: "Trouxe para você." Ela: "Mas que linda! Nunca havia visto! Onde encontrou?" Contei. Ela foi à cozinha pegou um copinho e a colocou lá, observando a flor e repetindo o quanto era linda.

No dia seguinte, eu estava aqui e ela veio da cozinha com o copinho na mão e disse: "Quem trouxe esta flor tão linda? Nunca havia visto igual."

Isto me entristece.

Hoje perguntou, vendo Ana Maria Braga: "O que é tapioca?". Na casa do meu irmão, onde ficou 2 anos, até uns meses atrás, ela comia taioca, a empregada fazia. Estes dias piorou de novo a memória, há epocas em que melhora. Interessante é que sobre literatura e cinema ela lembra muitas coisas- às vezes, confunde um ator, mas quando vê o nome de um diretor bom, ela diz: Deve ser um bom filme- quando estamos procurando um filme na TV paga. Outro dia reviu "Gritos e sussurros". Quando cheguei do consultório contou.