sexta-feira, abril 26, 2013

Um senhor escritor- Javier Marias





Um dos meus preferidos.

"Nasceu em Madri em 1951. Formado em letras e especializado em filologia, trabalhou como roteirista e tradutor, além de ter lecionado na Universidade de Oxford e na Complutense de Madrid. Estreou na ficção com Os domínios do lobo, em 1971. Desde então, já escreveu mais de trinta livros, entre romances, ensaios e coletâneas de contos, traduzidos em pelo menos quarenta idiomas, tendo vendido mais de 6 milhões de exemplares pelo mundo. Site do autor: www.javiermarias.es Twitter: @jmariasblog "

Concurso internacional de fotografia- Sony divulga vencedores




                                  Há belas fotos.
                                  Leiam a reportagem              
                                                    e legendas aqui.
                                                           






quinta-feira, abril 25, 2013

A praia que eu amo- Arquivo 2005/08/27



























Eu adoraria passear neste lugar hoje, foi aqui que vi Brigite Bardot,
já faz muitos anos,
Brigite de biquini, sozinha, nesta praia em frente à casa de Bob Zagury.
Ela não era nada de exuberante, uma mulher sozinha sentada na areia, meu pai- que não era bobo- logo que soube que Brigite estava lá, nos pegou e fomos passear na praia da Armação deserta.
Passamos discaradamente em sua frente, hoje não faria isto, éramos adolescentes.
Eu estranhava a beleza dela, nem achei tão bonita assim.
Hoje reconheço que foi muito sensual com os lábios carnudos, era diferente.


















Búzios era uma aldeia de pescadores desconhecida, por causa de Brigite saiu em todos os jornais do mundo e se tornou o que é hoje.
Cheíssima nos feriados não dá para chegar até lá, congestiona, o bom é ir fora de temporada. Tem praias pequenas e deliciosas, franceses e argentinos adoram, a maioria das pousadas é de estrangeiros.
É um lugar sofisticado, à noite tem Jazz para quem gosta, boites que começam à uma da manhã, é uma cidade com intensa vida noturna.
A rua das Pedras, a principal, é cheia de lojas chics, restaurantes caros.
Adoro Búzios. Lá qualquer boteco é chiquezinho, nada é de qualquer jeito, isto foram os estrangeiros, com certeza, que trouxeram, gosto disto, acho que tudo que se faz deve ser com cuidado.
Saudades de Búzios...
Aqui na Praia da Armação vi o pôr- do- sol mais fantástico de toda a minha vida, foi impressionante e inesquecível.
Eu estava com meus dois meninos e eles também não esquecem, foi um dia especial em nossas vidas pela imagem extraordinária que presenciamos.

Se você não fez o Puzzle ai está a foto.


















Fazíamos pic nic com Carlinhos, César e uma galera aqui. Na época não havia nenhum vendedor ambulante. Nada. Levávamos tudo, enterrávamos as garrafas na areia molhada para ficarem frescas.
Fico feliz por ter curtido estes lugares paradisíacos desertos-antes de serem descobertos pela multidão que hoje invade aquele recanto abençoado.


Contardo Calligaris- Irresponsabilidades








A coluna da semana passada tratava da maioridade penal. Eu disse que sou a favor de considerar que, nos crimes mais graves (sobretudo contra a pessoa), os jovens sejam responsáveis pelos seus atos.
A partir de que idade? Talvez um juiz ou uma corte especial possam decidir, em cada circunstância, quando um jovem deve ser julgado como adulto ou não.
A coluna suscitou um grande número de comentários, pelos quais agradeço e aos quais não terei como responder individualmente. Tento resumir algumas objeções, organizando-as em quatro eixos:
1) A redução da maioridade penal não vai resolver o problema da violência.
Concordo: em geral, a severidade das penas não produz o efeito mágico de estancar a violência e o crime. Em compensação, a impunidade, ela sim, autoriza o crime e seu crescimento. Mas tanto faz: o que importa é que a violência criminosa baixa quando sobem não tanto as penas quanto a inclusão social e o sentimento de pertencermos todos a uma mesma comunidade de destino.
Desse ponto de vista, no máximo, a redução da maioridade penal faria que menos adolescentes fossem arregimentados pelo tráfico --mas nem isso é uma certeza.
2) Então, para que serve a proposta de reduzir a maioridade penal?
A Justiça e o sistema penitenciário sonham em amedrontar e dissuadir do crime. Também eles sonham com a reabilitação dos criminosos condenados. Agora, mais prosaicamente, eles têm a tarefa (menos gloriosa) de punir os criminosos de forma que a sociedade se sinta vingada e que, portanto, as vítimas não inaugurem ciclos de vendetas privadas.
A questão da maioridade penal se coloca relativamente a essa última tarefa da Justiça: podemos e devemos punir os jovens da mesma forma que os adultos?
3) Sobretudo, no caso dos jovens, não deveríamos querer que eles sejam reabilitados em vez de punidos? Para que encarcerar os jovens se sabemos que a detenção será uma escola do crime e não um lugar onde seria preparada sua reinserção social?
O sistema penitenciário moderno é paradoxal: nele, tanto para os jovens quanto para os adultos, a vontade de punir coexiste e rivaliza com a vontade de reeducar. Esse conflito de intenções talvez não seja uma falha, mas a propriedade essencial do sistema.
Nota: à vista do fracasso crônico de reabilitação e reinserção é possível pensar que a intenção de reeducar seja sobretudo o álibi necessário de uma punição que se envergonha de si mesma. Ou seja, queremos reeducar (e nunca conseguimos) porque nos envergonhamos de estarmos "ainda" punindo os criminosos. Gostaria de ter o tempo de reler "Vigiar e Punir", de Michel Foucault, pensando nisso.
4) A redução da maioridade penal significaria encher as cadeias de crianças pobres.
Em Brasília, 16 anos atrás, cinco jovens de classe média assassinaram barbaramente um índio, colocando fogo em seu corpo. Eles se desculparam dizendo, aliás, que não sabiam que era um índio, achavam que fosse um mendigo.
Graças a seu privilégio social, quatro desses jovens, condenados, cumpriram sua pena estudando e trabalhando fora da prisão. O quinto, que tinha 17 anos na época, ficou três meses num centro de reabilitação e só. Eu acho que ele deveria ter sido julgado como adulto.
Mais uma coisa. A coluna da semana passada queria abordar um problema mais amplo do que a simples maioridade penal. Explico.
Uma das grandes novidades de nossa cultura é que ela promove a obrigação de cada um responder por suas ações. Talvez por isso mesmo, para descansarmos um pouco de tamanho encargo, um dos grandes sonhos contemporâneos seja a irresponsabilidade.
É assim que nos tornamos mestres nas explicações que valem como desculpas.
Os assassinos de Brasília passearam demais pelos shoppings da capital e foram mimados pelos pais, e o assassino de Victor Hugo Deppman talvez tenha crescido em algum tipo de favela. Sempre há um trauma, um abuso passado, que "explica" e que serve para transferir a culpa.
Ao mesmo tempo, somos uma cultura "infantólatra", ou seja, que idealiza e venera as crianças como crianças. Ou seja, amamos vê-las sem nenhum dos pesos que castigam a vida adulta.
No sonho de irresponsabilidade que mencionei antes, esses dois traços de nossa cultura se combinam assim: 1) as crianças são todas querubins irresponsáveis e 2) a história da nossa infância nos torna irresponsáveis quando adultos. Que maravilha.

25/04/2013
Da Folha de São Paulo. 


quarta-feira, abril 24, 2013

Um brasileiro expõe em Paris





"La Galerie Ad Hoc Corner présente les nouvelles oeuvres de l'artiste peintre brésilien, Edson Castro. 
Les oeuvres d'Edson Castro oscillent entre l'abstrait et le figuratif, fortement inspiré de ses origines, il nous invite à voyager et laisse libre cours à notre imagination. 
En savoir plus sur la galerie - Cliquez ici." 
Aqui mais.

Olivier Anquier: Com quantos reais se faz um omelete





Com este texto, gostaria de demonstrar minha indignação e tristeza diante da atitude agressiva e covarde de um site de denúncia que aponta o dedo destrutivo para "lugares que cobram demais e entregam de menos" e cuja atividade descobri lendo uma reportagem de três páginas no caderno "Comida" desta Folha, no último dia 17.

Realmente não acredito que um indivíduo saia de sua casa só para comer um ovo frito ou um omelete acompanhado de arroz branco e couve num restaurante como o Dona Onça e pagar de três a cinco vezes o preço que pagaria se o cozinhasse em casa.


A primeira pergunta a fazer é: "Por que a pessoa saiu de casa para pedir um omelete no Dona Onça?".

Provavelmente pelo prazer de sair para se divertir, de comer um omelete de qualidade, em um estabelecimento que um empresário corajoso idealizou, apoiando-se em anos de trabalho para montar um lugar agradável, com alma.

Um estabelecimento onde alguém (a dona, muitas vezes) vai preparar ovo com arroz e couve, servido por um garçom atencioso --pois esse indivíduo exige tal qualidade.

Ademais, há que considerar a tranquilidade relativa --uma vez que os governos não são capazes de provê-la-- proporcionada por seguranças na porta do estabelecimento, pelo manobrista, por toda a infraestrutura de conforto adquirido que o indivíduo veio buscar.

Esses são os primeiros aspectos a justificar por que este indivíduo pagaria um preço diferente em tal ou qual lugar --ou outro se, simplesmente, fizesse o ovo em sua casa.

Há que levar em conta ainda o custo da matéria-prima, adquirida de fornecedores escolhidos a dedo, após minuciosa pesquisa, para oferecer ao indivíduo um bom omelete, preparado com um ovo de qualidade superior ao que ele encontraria no comércio local.
Que esse ovo seja bem mais caro que a média não justifica, porém, o troféu que São Paulo ergue como a cidade dos restaurantes mais caros do mundo; este se deve aos pesadíssimos impostos embutidos no preço final e seus impactos no custo da matéria prima --basta ver o tomate mais caro do mundo.

O custo estratosférico dos encargos e obrigações trabalhistas --e seus absurdos efeitos colaterais, como processos sistemáticos, sistematicamente perdidos, com indenizações de cifras irreais (e sublinho que não se debate aqui o mérito das decisões jurídicas, mas sim os altíssimos valores das indenizações)-- é um capítulo à parte.
Visca/Folhapress

Há, também, a obrigatoriedade de contratar batalhões de garçons para suprir a total falta de capacitação profissional e atingir o atendimento esperado pelo indivíduo.

E atenção: esta análise refere-se exclusivamente aos custos do salão, sem colocar na conta as despesas com toda a infraestrutura escondida do público: cozinha, estoque, administração, advogados, nutricionistas, contadores, fornecedores --e, além dessas, as consequências das calamidades, que vão de são Pedro aos cortes de energia.

É evidente que não se procuram as mesmas coisas na casa de comida nordestina da Galeria Metrópole e no Dona Onça no Copan; no bistrô de Alex Atala e na galinhada do estádio da Portuguesa; no McDonald's e na Lanchonete da Cidade. Esta é uma falsa comparação.

Todos esses argumentos justificam que o preço que você vai pagar pelo omelete com uma concha de arroz branco e um punhado de couve do Dona Onça seja muito superior aos R$ 8 que gastaria nos insumos para cozinhá-los em casa e comê-los sozinho, em silêncio, na companhia da TV.

Concluiria perguntando: por que tanta agressividade dirigida a esses guerreiros da economia de serviços do Brasil, homens e mulheres, às vezes famílias inteiras que ousaram enfrentar o risco? Pois somente a obstinação e a coragem movem-nos a colocar em ação a monstruosa máquina que é uma empresa para a satisfação do seu público.

Por fim, gostaria de deixar claro que, de maneira nenhuma, me queixo do sistema que assumi, como assumi ser brasileiro. Mas me revolta esse "neoterrorismo" eletrônico covarde e destruidor. Vamos construir: enquanto isso a gente se vira.

OLIVIER ANQUIER, 53, é padeiro, cozinheiro e "restaurateur"

Da Folha de São Paulo.

terça-feira, abril 23, 2013

Lee Miller, Man Ray e Hitler...




 Lee Miller by Man Ray via Adalberto

Que linda foi!





Lee Miller, 1930 — Man Ray



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Lee Miller in Hitler's Bath, Hitler's Apartment, Munich, Germany, 1945
© Lee Miller Archives, Muddles Green, Chiddingly,
East Sussex, BN8 6HW,
England


Amo livros


Raduan Nassar



Hoje é o dia do livro! O meu livro favorito em português é "Lavoura arcaica" seguido de "Um copo de cólera", dos contos de Raduan Nassar.

A literatura de Clarice Lispector me comove e encanta.

 Os poemas de Drummond me entristecem porque os 'ouço' na vozinha dele. Manoel de Barros é especialíssimo- um passarinho de asas quebradas mágico.

 Outros tantos, como Augusto Cesar Proenca- excelente contista, Martha Galrão é admirável em sua simplicidade e facilidade em transformar o cotidiano em poesia.

Amo os escritores russos clássicos- Rolland Barthes, também pela sensibilidade e sabedoria. Kafka, Margherite Duras, Camus, Doris Lessing... Exupèry( Terra dos homens), Freud, genial...

Escrevo sem elaborar o que digo, saiu o que pensei agora. Se tivesse que escolher um para levar para a ilha deserta rs, seria o "Fragmentos de um discurso amoroso".

 E vocês, que livros amam?

Mais aqui.

Cidades coloridas- arquitetura




Daqui.

quinta-feira, abril 18, 2013

domingo, abril 14, 2013

As portas da percepção e a arte




 “Triptriptych” (1983), uma das obras-primas doartista do grafite Jean-Michel Basquiat



via Semióticas
"“Desde o início dos tempos, desde o alvorecer da civilização humana, os artistas sempre encontraram pelo caminho substâncias psicoativas em plantas, fungos, maceração e bebidas as mais variadas, que levaram a passagens místicas, à iluminação, mas também provocaram confusão, intoxicação, morte” – explica Antoine Perpère, curador da exposição na Maison Rouge e coordenador de um centro de atendimento a dependentes químicos em Paris..."


Leiam mais aqui

quinta-feira, abril 11, 2013

Mulheres infelizes- por Contardo Calligaris



Therese D (2012) Poster





Via Folha de São Paulo

11/04/2013 - 03h00

Mulheres infelizes


François Mauriac publicou "Thérèse Desqueyroux" (Cosac Naify) em 1927; o romance foi um sucesso e, provavelmente, valeu ao seu autor o prêmio Nobel. A história é levada para o cinema (pela segunda vez) por Claude Miller, com o título, no Brasil, de "Therese D." (para que ninguém se atrapalhe com a pronúncia).

Tolstói publicou "Anna Karenina" (Itatiaia) entre 1873 e 77. O romance é levado para o cinema (pela sexta vez) por Joe Wright, com o título original.

Gustave Flaubert publicou "Madame Bovary" (Penguin Companhia e outras editoras) em 1857. O romance foi levado oito vezes para o cinema.

No Rio e em São Paulo, ainda é possível assistir a "Anna Karenina", de Joe Wright, e a "Therese D.", de Claude Miller, no mesmo cinema.
Depois disso, recomendo se enfiar na cama com uma cópia de "Madame Bovary" e ler até o amanhecer. Ou, então, na mesma cama, assistir a um DVD de "Madame Bovary" na versão de Vincente Minnelli (1949 --inesquecível Jennifer Jones perdida em devaneios) ou na de Claude Chabrol (1991).

Receio que a versão de Jean Renoir, de 1933, tenha envelhecido, mas que cada um escolha.

É sábio juntar as três histórias? Em termos; se você for um homem casado, prudência: afinal, trata-se de três mulheres infelizes com o marido, que é provedor, fiel, gentil e insosso.

Para mim, a modernidade poderia (ou deveria) começar, exemplarmente, com essas três histórias de insatisfação feminina, ou seja, com a descoberta de que as mulheres têm sonhos e devaneios que vão além de um marido devoto, de uma família e de uma vida ao abrigo da necessidade --em outras palavras, com a descoberta de que existe um desejo feminino.

Claro, talvez alguns homens prefiram pensar que o desejo feminino seja apenas uma necessidade do capitalismo moderno. As mulheres insatisfeitas seriam as consumidoras deslumbradas, perdidas pelos grandes magazines, das quais a sociedade de consumo precisa. É o que deixa esperar "O Paraíso das Damas", de Emile Zola, de 1882-83, (Estação Liberdade).

Mas o desejo feminino é mais do que isso, e sua aparição implica uma séria crise masculina. No fundo, trata-se de uma descoberta só: as mulheres têm desejos, e os homens não fazem suas companheiras tão felizes quanto eles imaginam ter feito a felicidade de suas mães (repito: IMAGINAM).

Não é por acaso, aliás, que, nos três romances, a maternidade não faz a felicidade das mães. A descoberta do desejo feminino acompanha a descoberta da inadequação e da insuficiência dos homens, como maridos e também como filhos.

Para Anna Karenina e para Emma Bovary, outros homens do que seus maridos se tornam desejáveis. Mas são todos medíocres (Vronsky como Rodolphe, como Léon).

Tanto Anna quanto Emma são julgadas por seus narradores. As duas acabam mal, e talvez essa punição final de mulheres e mães "indignas" tornasse os romances aceitáveis (embora os dois tenham escandalizado seus contemporâneos).
Thérèse é mais moderna. À diferença de Emma, ela é uma verdadeira leitora, não uma vítima de romances melados; por isso mesmo, ela não conhece a raiz de sua insatisfação com a vida que lhe cabe.

Como a gente, Thérèse não sabe o que quer. E ela não sonha propriamente com outro homem: ela é mais profundamente infiel e traidora do marido, pois ela sonha com algo maior do que um amante, ela quer algo que ela não saberia dizer sem citar "Os Frutos da Terra", de Gide, ela quer uma outra intensidade da vida.

SPOILER: pule este breve parágrafo se você não conhece a história. No fim do romance (e do filme), Thérèse não será punida pela infidelidade de seu desejo, ao contrário, ela parece se transformar na nova mulher do século 20, livre e urbana.

Mauriac era cristão e tradicionalista. Em 1935, ele não se aguentou e escreveu a continuação de "Thérèse Desqueyroux", "La Fin de la Nuit" (o fim da noite), em que Thérèse acaba pior do que suas antecessoras, Emma e Anna.

O jovem Sartre defendeu Thérèse, acusando Mauriac de julgar, perseguir e condenar a própria personagem que ele tinha criado, ou seja, de não respeitar a liberdade de Thérèse Desqueyroux, sua adorável criatura. Concordo com Sartre.

Fato curioso, tanto "Anna Karenina" quanto "Therese D." foram maltratados por críticos que respeito. Os dois filmes têm méritos diferentes ("Anna Karenina", em particular, é genial no conceito e na arte), mas talvez eles tenham mesmo um "defeito" comum: contam histórias que não acalentam os ouvidos masculinos.

terça-feira, abril 09, 2013

O MAR de cima a baixo – por Sérgio Bruno Martins





O MAR de cima a baixo – por Sérgio Bruno Martins


IMS | 07.04.2013, 10:58

Há que ser dito: o Museu de Arte do Rio (MAR) é um recém-nascido deveras contraditório. Não é por menos que duas posturas diametralmente opostas venham polarizando sua recepção. Por um lado, opositores ferrenhos caracterizam o museu como uma mera locomotiva da especulação imobiliária, da qual a arte e os artistas ali expostos seriam nada mais que engrenagens. Por outro, uma parcela significativa do meio de arte só vê em sua inauguração motivos para brindar (não que eu tenha objeções à afirmação ‘é importante que tenhamos um museu’; o problema é quando isso se transforma em ‘o importante é que temos um museu’). Em ambos os casos, o erro é o mesmo: determinar o valor do todo (a significância do MAR para a cidade) a partir de apenas uma de suas dimensões. Mais difícil, porém necessário, é colocar o museu numa perspectiva crítica capaz de reconhecer suas incongruências. Há pelo menos dois aspectos que saltam aos olhos aqui. Um diz respeito à conjuntura complexa que marca seu aparecimento, ou seja, tanto ao seu lugar institucional em meio à política cultural oficial do Rio de Janeiro quanto ao seu papel de emblema do projeto Porto Maravilha. Já o outro diz respeito mais estritamente à sua atuação enquanto museu de arte e à lacuna histórica que ele vem suprir: a de uma instituição pública capaz de investir na formação de acervo. É claro que há pontos de contato relevantes entre essas facetas do museu, mas elas não se sobrepõem por completo.
Comecemos pelo contexto urbano que cerca o MAR, o que aliás condiz com o percurso arquitetônico proposto pelo escritório Bernardes Jacobsen: para entrar no prédio de exposições (o antigo edifício da Inspetoria dos Portos, de arquitetura eclética) devemos antes subir de elevador até o terraço do prédio modernista repaginado para abrigar a chamada Escola do Olhar (o ambicioso projeto educativo do museu), onde, sob a sombra da icônica cobertura em forma de onda que une visualmente os dois edifícios, deparamo-nos com uma vista impressionante da região portuária e da baía da Guanabara. Antes de o conhecermos como museu, é como mirante que experimentamos o MAR. Isso inevitavelmente confere ao museu um apelo um tanto turístico, mas o fato é que esta não é uma vista convencional – a baía está lá, verdade, mas também vemos coisas que a perspectiva da rua não revela, como um sobrado do qual só restou a fachada e que hoje serve de estacionamento. É uma vista disparatada e que não deixa de ser um preâmbulo oportuno para a primeira das quatro exposições em cartaz (das quais tratarei adiante), cuja proposta é mostrar a construção histórica e cultural da paisagem carioca.
Há uma complicação, no entanto. Num dos cantos do terraço, foram instalados pequenos monitores interativos que podem ser girados de modo a reproduzir o pedaço da paisagem para o qual apontam. É uma peça de propaganda do Porto Maravilha. Se enquadramos o Píer Mauá ou o imenso canteiro de obras aberto na própria praça, surge a opção de assistir a vídeos que simulam como será o Museu do Amanhã ou como ficará toda a região dos armazéns após a derrubada do Elevado da Perimetral. A retórica oficial se faz presente através do tom de celebração com o qual as obras são apresentadas. O que essa retórica exclui, claro, é o fato destes serem projetos contestados e cujo martelo foi batido sem maiores discussões públicas.
No jargão de arquitetura, há um nome para esse tipo de vídeo ou imagem digital que representa um projeto como se já estivesse pronto: é o rendering.[1] É um procedimento comum no dia a dia do mercado imobiliário, mas que ganha novos contornos contra o pano de fundo das transformações drásticas e aceleradas que a zona portuária vem sofrendo. Vou direto ao ponto: acredito que orendering é a figura que melhor condensa, do ponto de vista ideológico, o Porto Maravilha, já que alia a visibilidade espetacular (e frequentemente espelhada) de suas torres de luxo à opacidade que reveste de incerteza a política habitacional e urbanística da área. A ausência de debates prévios e aprofundados, capazes de dar voz e vez a anseios outros que os do interesse econômico, é compensada por visões virtualmente acabadas de um futuro já decidido e embalado para consumo; em outras palavras, a possibilidade de se pensar alternativas é preterida em favor de  uma solução que já se apresenta como definitiva. Ao rendering de um passeio arborizado brotando na esteira de uma Perimetral que se desmancha no ar corresponde, por exemplo, o de um mega-hotel envidraçado de 25 andares, projetado por Paulo Casé. Propagandeada através desses e de tantos outrosrenderings, e desprovida de um planejamento transparente, a revitalização da zona portuária é reduzida ao plano paisagístico, ou melhor, ao plano dessa imagem fantástica feita sob medida para circular em jornais e press releases, informando assim o imaginário triunfalista da cidade olímpica (mesmo de uma perspectiva estritamente paisagística, o hotel de Casé ainda seria absurdo: se um dos motivos alegados para a derrubada da Perimetral é que ela obstrui a vista do porto, qual o sentido de construir naquela área um prédio que, do ângulo de quem chega de barco, rivalizará visualmente com o Corcovado? Prova de que a vista de fato incomodada pela Perimetral pertence aos novos hotéis de luxo e edifícios corporativos que também brotarão por ali).
Rendering
Sob essa ótica do rendering como imagem ideológica do Porto Maravilha, fica patente mais um aspecto problemático do projeto arquitetônico do MAR: sua conformidade à lógica da imagem. O sintoma disso, mais ainda do que a cobertura do museu (solução elegante, mas que sem dúvida cumpre a função de emblema), é a alça de ligação entre os dois prédios. Tanto da perspectiva plástica quando da técnica, esse é o calcanhar de aquiles do projeto: vista de trás, a partir da rua Venezuela, a alça se mostra um corpo estranho, um pouco como um finger de aeroporto mal-acoplado. Mas o que importa aqui é menos o acabamento da alça e mais sua aversão inata a esse ponto de vista, ou seja, o fato de que ela se presta exclusivamente à imagem frontal do museu. Tal redução da experiência do espaço à imagem mantém o edifício, ainda que já construído, na órbita ideológica do rendering (note-se que a reforma liberou visualmente o espaço dos pilotis apenas para segregá-lo da Praça Mauá através de uma barreira de vidro constrangedoramente reminiscente da última tendência em grades nos condomínios da zona sul).
Cabe então relativizar um dos méritos aparentes do projeto, a preservação e recuperação de edifícios já existentes na área. É claro que num sentido estritamente material isso é positivo, mas também é verdade que os prédios sofreram uma espécie de desrealização, isto é, cortaram os laços com a realidade que os cerca e passaram a pertencer ao âmbito de uma idealidade que alimenta, através da circulação de imagens, o imaginário de um futuro talhado para se sobrepor ao presente como que num inequívoco passe de mágica – ou seja, numa realização do que é mostrado nosrenderings. O maior risco que o museu corre, nesse sentido, é o de deixar-se levar pelo slogan do Porto Maravilha: “um sonho que virou realidade”. O sucesso do MAR depende fundamentalmente de sua capacidade de compreender esse risco, e de sua independência para enfrentá-lo.
II.
Desçamos, então. Já no terceiro andar do prédio eclético, a primeiro parada é Rio de imagensUma paisagem em construção. Com curadoria de Carlos Martins e Rafael Cardoso, é a meu ver o ponto alto do museu em sua rodada inaugural de mostras. Tomada como um traço natural e essencial da identidade carioca, a paisagem se tornou um de seus componentes mais ideologicamente carregados (tudo o que acabo de dizer a respeito dos renderings nada mais é do que um desdobramento disso). Daí o valor de se mostrar com clareza sua artificialidade, isto é, seu caráter de construção cultural. E de mostrar,  sobretudo, a ramificação dessa construção para além do universo das artes plásticas, evidenciando sua disseminação na imprensa, na cultura material e emsouvenirs comemorativos, entre outros meios e suportes.
Num panorama desenhado por Benjamin Mary em 1835, por exemplo, a paisagem de traços cinzas e minguados esmorece por trás de uma cortina de vegetação cujo ritmo convoluto é premiado com uma rica paleta de verdes. Com a vastidão da cidade abandonada a um tênue segundo plano, o olhar do espectador se enrosca na intricada cadência das folhagens e trepadeiras de tal modo que a profundidade do panorama termina por ceder lugar à horizontalidade do friso. Uma outra vitrine mostra diversas publicações que celebram a inauguração do Cristo Redentor, entre elas uma revista italiana de cunho notadamente fascista. Tais peças evidenciam a premissa central da exposição: não há nada de realmente estável nas categorias inventadas para dar conta da paisagem. O que entendemos por paisagem mostra-se indissociável das transformações, ao longo da história, das técnicas, motivações e convenções envolvidas em sua representação. Talvez por isso mesmo a parte dedicada à arte contemporânea fique aquém do resto da exposição: caberia desdobrar com mais abrangência (e talvez com mais espaço do que o disponível) os destinos da paisagem numa época em que ela não mais se sustenta enquanto gênero artístico.
Rio de Imagens
As duas exposições seguintes mostram obras pertencentes às coleções do marchand romeno Jean Boghici e do advogado Sérgio Fadel. Elas remetem a um primeiro momento na concepção do MAR, inicialmente idealizado com o intuito de organizar mostras a partir de coleções particulares. Embora a opção pela formação de um acervo próprio seja incomparavelmente melhor,  é importante que esse foco não tenha sido simplesmente descartado, já que o déficit histórico de acervos institucionais no Brasil fez com que conjuntos essenciais à compreensão de nossa história da arte tenham ido parar em coleções privadas.
Dito isso, são mostras completamente diferentes. Segundo Leonel Kaz, curador de O colecionador – Arte brasileira e internacional na Coleção Jean Boghici junto com Luciano Migliaccio, seu objetivo foi “deixar livre” o olhar do visitante. É uma premissa precária. Para começar, o olhar “sem preconceitos de mercado, de valor, de importância e de nome” defendido por Kaz é um mito. Tudo o que vemos adquire sentido num jogo, consciente ou não, com nossas experiências passadas (falo não só de memórias visuais, mas também da linguagem que nos permite discutir ou descrever as coisas vistas). Ademais, esse mito entra em contradição com o fato de que não haveria coleção para expor não fosse pelo olhar seletivo de Boghici – que a exposição constrói como aberto, sensível e experimentado. O que a curadoria faz, na verdade, é abrir mão de sua função de perguntar sobre os sentidos possíveis daquele conjunto de obras para escorar-se preguiçosamente na biografia do colecionador. O arranjo cenográfico de Daniela Thomas e Felipe Tassara tenta, sem sucesso, compensar esse vazio curatorial. Elencadas em categorias disparatadas (como “surrealismo”, “arte espontânea”, “abstração informal” e “pintura chinesa”), obras excepcionais se perdem em meio a um pano de imagens que incita o olhar mais a deslizar sem compromisso de um lado para o outro do que a se engajar com o que quer que seja. Isso que Kaz enxerga como liberdade é, na verdade, um culto ao fetiche e à indistinção das coisas, ou seja, ao estatuto da mercadoria (feiras de arte também penduram obras lado a lado sem maiores preocupações hierárquicas, nem por isso merecem a alcunha de território da liberdade).
MAR

Já Vontade construtiva na Coleção Fadel – mostra assinada pelo diretor cultural do museu, Paulo Herkenhoff, e por Roberto Conduru – parte de um patamar curatorial muito superior. Seu mote é um manifesto essencial de Hélio Oiticica, para quem a vanguarda brasileira em meados dos anos 1960 seria caracterizada por uma “vontade construtiva geral”. Com efeito, as salas dedicadas ao modernismo e às vertentes concretas evidenciam a relevância histórica da coleção, cuja força transparece também em seções autorais como as de Volpi, Tarsila do Amaral e Ione Saldanha. A vitrine inicial revela uma leitura alargada dessa vontade construtiva ao tomar o barroco mineiro como seu antecedente histórico privilegiado. É uma tese que flerta com o pseudomorfismo, ou seja, com a semelhança aparente entre formas originadas em situações históricas ou culturais distintas, e seu objetivo é claramente questionar o papel hegemônico de categorias formais modernistas na historiografia da arte brasileira. Por vezes produtiva, essa estratégia também acarreta certos riscos: é difícil ver a ideia de vontade construtiva acolher uma artista como Tomie Ohtake sem que seu sentido histórico se torne demasiado frouxo. E por que colocar uma foto solitária do compositor Cartola logo acima de um dos mais surpreendentes achados da exposição, os estudos feitos por Oiticica em 1970 para os cenários do filme A Cangaceira Eletrônica? É verdade que a Mangueira foi um marco na trajetória do artista, mas nem por isso faz sentido assinalá-la de forma tão arbitrária, como se a leitura de qualquer trabalho seu tivesse que passar obrigatoriamente por essa chave interpretativa (e pela frequente romantização de sua relação com a escola de samba).
E assim chegamos ao térreo. A mostra O abrigo e o terreno: Arte e sociedade no Brasil I, curadoria de Herkenhoff e Clarissa Diniz, é parte de um projeto que pretende se desdobrar ao longo dos próximos quatro anos. Conceitualmente, a proposta é ambiciosa e instigante. O lugar da arte é entendido aqui, contra o pano de fundo da cidade, como o da formalização de mediações possíveis ou imaginadas entre os âmbitos político, legal e subjetivo, e também de evidenciação dos impasses reais ou simbólicos que simultaneamente atravancam e estruturam a sociabilidade. O leque de trabalhos selecionados inclui desde artistas modernos e contemporâneos a ações como as publicações do coletivo Dulcineia Catadora em parceria com moradores do Morro da Providência, passando pelo resgate do projeto, capitaneado por Carlos Nelson Ferreira dos Santos nos anos 1960, de uma urbanização participativa em Brás de Pina. O que há de mais promissor nessa seleção – a ideia da cidade como um campo que informa diferentes articulações entre a produção e a recepção da arte e da arquitetura – é também o que traz dificuldades para a curadoria. Frente ao dilema de como juntar obras que pressupõem modelos diferentes e por vezes antagônicos de experiência, a opção parece ter sido pela via da contaminação e do excesso. As obras são submetidas a diálogos improváveis (ecos do pseudomorfismo) sem antes ter o tempo (ou, mais precisamente, o espaço) de dizer a que vieram, ou seja, de afirmar minimamente o tipo de experiência por elas pressuposto. O solilóquio dá lugar menos à conversa produtiva do que ao ruído indistinto, tornando a exposição mais bem-sucedida no papel (e talvez num futuro catálogo) do que no espaço.
III.
Juntando as pontas – mais precisamente, o térreo e o terceiro andar – fica claro que a vocação do MAR é híbrida, no limiar entre museu de arte e museu da cidade. Que o Rio não tenha sido capaz de montar e manter um museu da cidade à altura de sua história é algo pouco discutido, mas também é sem dúvida uma de suas lacunas culturais mais lamentáveis. Se o MAR conseguir levar adiante sua promessa de promover uma “leitura transversal da história da cidade, seu tecido social, sua vida simbólica, desafios e expectativas sociais”, e se isso abarcar também uma política consistente de pesquisa e publicações, essa terá sido uma contribuição valiosa para o panorama cultural da cidade. A ver. De toda forma, com isso em mente, já é possível alertar para algumas dificuldades que nascem em meio ao discurso do museu.
O caso do coletivo Opavivará! – cuja ação envolvendo parte de uma escola de samba mirim foi impedida de acontecer por conta da presença da presidente da República na inauguração – é emblemático nesse sentido. Por um lado, a simples inclusão do coletivo na mostra O abrigo e o terreno sinaliza uma atitude genuinamente aberta a posições discordantes; basta lembrar que Clarissa Diniz é autora de um texto excelente e profundamente crítico em relação ao horizonte político de coletivos como o GIA (seu caso de estudo) e o Opavivará!. Por outro lado, é inevitável que esse episódio lance dúvidas sobre os limites da independência institucional (e portanto curatorial) do MAR. Que a guarda presidencial tenha assumido a segurança do museu e restringido o acesso durante a visita da presidente, é perfeitamente compreensível. Que a Guarda Municipal tenha ido um passo além e impedido que o coletivo saísse do galpão para as ruas, não. A nota divulgada pelo museu para esclarecer o ocorrido narra de forma crível e ponderada o empenho da curadoria em dialogar e colaborar com o Opavivará!, mas falha ao não se posicionar contra a atitude de órgãos ligados à prefeitura e denunciar quão arbitrário foi proibir que a ação transcorresse normalmente pelo menos até o perímetro estabelecido pela segurança da presidente.
Mas a passagem mais problemática dessa nota é a afirmação de que questões como gentrificação e remoções compulsórias “não são tabu para o Museu de Arte do Rio ­– MAR, ou para a Prefeitura do Rio de Janeiro”. Deixemos de lado o que quer que se possa pensar do conteúdo dessa frase e vamos ao essencial: é um completo disparate uma nota assinada pelo MAR, pela Fundação Roberto Marinho e pelo Instituto Odeon (organização social vencedora do concurso público para gerir o museu) falar também em nome da Prefeitura do Rio de Janeiro. Ora, a condição mínima necessária para que se possa dizer que nada disso é realmente “tabu” para o museu é que lhe seja assegurada sua autonomia para descolar-se do discurso da prefeitura, e que o próprio museu zele por esta autonomia. Porta-vozes, por definição, não questionam a voz que portam.
MAR
Este último problema vai além dos limites físicos e institucionais do museu, especialmente numa cidade em que o poder público e a imprensa manifestam, com frequência perturbadora, sua alergia ao dissenso. É sintomático que a cobertura do jornal O Globo tenha ignorado os protestos ocorridos, durante a inauguração do museu, contra as políticas urbanística e cultural da prefeitura. E é especialmente grave que a crítica assinada por Marisa Flórido no mesmo jornal tenha celebrado irrestritamente o MAR (elogiando suas “quatro ótimas mostras” e encerrando com votos de que ele se torne “a reserva de nossos sonhos”), restringindo o trato da cidade a um tom vago e abstrato que passa ao largo de qualquer problematização efetiva do lugar físico, institucional e simbólico que o museu passa a ocupar dentro do atual contexto urbano.
Por fim, é lamentável que a trinca de museus concebidos pela Fundação Roberto Marinho importe para cá, e especialmente para aquele lugar, o modelo de museus-símbolos de cidades globais, com seu apelo eminentemente turístico, lojas de design e aberturas VIP. É um modelo já tão disseminado que parece inevitável, mas não é preciso olhar muito longe para ver que as coisas não são bem assim: um modelo como o do Sesc Pompeia de Lina Bo Bardi teria oferecido respostas mais imaginativas, sensíveis e permeáveis à dinâmica cultural da zona portuária. Ter consciência disso não significa condenar inequivocamente o MAR; se o museu que nos foi entregue é um museu contraditório, isso também significa que há por onde agir para torná-lo mais problematizador do que problemático (vide, a título de exemplo, o trabalho de Manuel Borja-Villel à frente do Macba, em Barcelona). Para isso, será preciso que vozes dentro e fora do MAR se comprometam com o questionamento do verdadeiro imperativo político e cultural que o culto ao consenso vem se tornando. Pois não há nada mais avesso à transversalidade do que o uníssono.
* Sérgio Bruno Martins é crítico de arte e doutor em história da arte pela University College London.

O termo vem do verbo em inglês to render, que é uma forma de dizer ‘representar’. Embora seja comum falarmos em renders no Brasil, o correto é fazer referência a estas imagens como renderings, já que o tempo verbal que se presta à substantivação na língua inglesa é o gerúndio. [voltar]


quinta-feira, abril 04, 2013

O que deixamos de viver- por Calligaris, Contardo






As vidas que deixamos de viver


As crianças nunca são medíocres ou preguiçosas, 
elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial"


Quase sempre, quando encontramos alguém que nos encanta, começamos por lhe contar nossa vida e expor nossos projetos -pois é possível que, para um casal, compartilhar planos seja mais importante do que cada um conhecer e entender o passado do outro.
Em suma, a gente se apresenta ao outro como numa entrevista de emprego, dizendo o que fizemos e o que esperamos. Afinal, somos uma mistura da vida vivida com o futuro sonhado, não é?
Acabo de ler o último livro de Adam Phillips, psicanalista inglês que é um dos autores que mais me estimulam a pensar: "Missing out: In Praise of the Unlived Life", (Farrar, Straus and Giroux) (perder: elogio da vida não vivida -"missing out" é perder no sentido em que você chega atrasado na festa e pergunta: perdi alguma coisa?).
Justamente, à história passada e aos sonhos Phillips acrescenta mais um ingrediente que nos define: o conjunto das vidas que deixamos de viver -porque não foi possível, porque alguém nos impediu, porque ficamos com medo, porque escolhemos outro caminho, porque a sorte não quis.
Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
Também, mais dolorosamente, as vidas não vividas são caminhos pelos quais não ousamos nos enveredar (na inscrição para o vestibular, na decisão de voltar de um lugar onde teríamos começado outra vida, nos conformismos de cada dia).
Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.
Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.
Aqui, um conselho: é útil frequentar as vidas não vividas de nossos parceiros (para evitar surpresas desnecessárias, como a chegada de personagens que não fazem parte nem do passado nem dos sonhos do outro, mas das vidas às quais ele achava ter renunciado).
Agora, as vidas não vividas podem sobretudo nos empobrecer, levando-nos a viver num eterno lamento por algo que não nos foi dado, que perdemos ou do qual desistimos. Esse, aliás, é o futuro que estamos preparando para nossas crianças.
Uma das razões pelas quais as vidas não vividas condenarão as crianças de hoje à sensação de desperdício é a popularidade do mito do potencial. Alguém não está se tornando tudo o que esperávamos? Que pena, com o potencial que ele tinha...
De onde vem a ideia de que nossas crianças seriam dotadas de disposições milagrosas e que o maior risco seria o de elas desperdiçarem o que já é seu patrimônio?
O potencial das crianças modernas tem duas propriedades: ele é genérico (ou seja, não é fundado em nenhuma observação específica, é uma espécie de a priori: criança tem grande potencial, em tudo) e ele deve dar seus frutos espontaneamente, sem esforço algum da parte da criança.
Nossos rebentos são dotadíssimos para esporte, desenho, criação, música, ciência, estudo, línguas estrangeiras etc. E, se os resultados escolares forem péssimos, as crianças nunca são preguiçosas, elas só estão desperdiçando seu "incrível potencial". Há uma cumplicidade de todos ao redor dessa ideia.
Os pais querem que as crianças sejam tudo o que eles não conseguiram ser na vida. Pior, eles querem que as crianças cumpram essa missão sem esforços, por milagre (o milagre do "potencial").
Os professores acham no potencial uma maneira maravilhosa de assinalar que fulano é medíocre sem atrapalhar o sonho dos pais da criança, os quais podem seguir pensando que seu filho leva notas infernais, mas vale a pena insistir (e pagar a escola mais cara) porque ele tem um potencial extraordinário.
Quanto aos filhos, acreditar em seu próprio "potencial" é uma maneira barata para se sentir especial, apesar de resultados pífios. Problema: na hora, inevitável, do fracasso, quem aposta no seu potencial conhece a sensação especialmente dolorosa de ter traído a si mesmo (ou seja, ao seu "potencial").

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quarta-feira, abril 03, 2013

Preconceito e medo




Outro dia eu estava no Hospital do Exército esperando, quando uma Sra. que limpava o chão, me disse algo sobre como o mundo mudou, como na juventude dela havia mais respeito, as pessoas eram mais solidárias... Ela vinha conversando com outra Sra. que seguiu, ela continuou na minha frente, como se falasse sozinha.
Um cidadão sentado ao meu lado, com cara de interiorano- chapéu da cangaceiro- disse: - E você não - Sabe por que o mundo está assim?
Ela continuou falando, contando que educou os filhos com dignidade, que a respeitam, que fazem universidade- eu respondi que os meus também e tal.
O homenzinho repetiu:
- E não sabe por que o mundo está assim? (desta vez irritado).
Nós o ignoramos- eu sabia que vinha bíblia no papo e ela talvez adivinhasse, pode ser que já o conheça. Ele então, sem ser convidado a entrar no papo disse:
 - É o diabo! É o diabo! Senti uma energia tão ruim, que mudei de cadeira- juro.

A mulher seguiu com seu carrinho limpando o chão brilhante.

terça-feira, abril 02, 2013

Dias de iguana








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Os dias têm sido diferentes, num ritmo mais lento. Preciso cuidar dos olhos, não posso fazer exercícios físicos, nem baixar a cabeça- recomendações pela cirurgia das cataratas. Não pensei que estivesse com estas teias a me tomarem. Quando o médico disse, fiquei um pouco surpresa- levei quase um ano para voltar lá- ele havia dito que estava no início. Há anos tenho sentido dificuldade para ler, cada vez lia menos, difícil enxergar letrinhas de embalagens, bulas, então, impossível- lia na internet- santa net.

Pode ser que tenha piorado pelo excesso da telinha, há muito meus amigos estão longe e me comunico por aqui, mais do que aqui na terra. Poderia rir, mas isto me entristece. O interessante é que fiz amigos- poucos aqui- e eles se vão. É de doer. Se eu não tivesse os dois filhos amados aqui perto, viveria numa solidão de dar dó.

Por que vim para cá? Muitos perguntam. Porque os irmãos estavam todos aqui, inclusive meu pai, que faleceu dois anos depois que cheguei. Vim em 2002- dezembro. O que me salva além dos filhos? O meu trabalho, que eu amo. Sou muito feliz com a psicanálise. É um dom maravilhoso, ver as pessoas crescerem, serem mais felizes porque você está ali, atenta, ouvindo-as, ‘lendo’ cada uma além do que é dito. Tentando chegar mais próximo do seu desejo. É ali naquele ‘silêncio’, penumbra, que me sinto mais inteira.

Mudando da água pro vinho. Outro dia meu filho, Dan, saia para surfar e eu disse: Gosto tanto de praia... O outro completou: A mãe tem amor platônico pela praia. Eu: Acho que todos os meus amores são platônicos. E rimos. Atualmente são. É pra rir ou chorar rs. Fui à praia durante muitos anos. Quando morava em Cabo Frio. Mocinha, só íamos nas férias porque era muito deserta e perigosa. Esperávamos os amigos chegarem de fora para irmos: Carlinhos, César, os paulistas... eram muitos. No Rio fui muito também com Marilda. Se tivesse sol e pudéssemos ir, íamos- ela chagava cedo, eu só depois da duas horas- acordava tarde e nunca suportei sol forte. Ela torrava, ficava negra. Marildinha...se foi cedo- droga de vida- ou de morte, que levou tantos amigos antes de mim- dirão: Ainda bem, pero... dói. Também em Cabo Frio tinha poucos amigos. Penso que eu tive uma educação que acabou me fazendo diferente: lia muito, era muito quieta, triste, nunca gostei de beber, de perder o controle.

Pois é, dias lentos e sem sol. Numa das amoreiras mora um iguana- quero que fique meu amigo. Ontem tentei lhe dar uma amora, mas fugiu. Procuro e a encontro com dificuldade, está camuflado- é verde como as folhas, que ele come. Eu como as frutinhas, ele as folhas. A amoreira que o síndico detesta. Está enorme, puxamos para dentro do jardim os galhos, amarramos- são bem flexíveis- já nos deixa menos devassados- a sala não é vista de fora como antes pelos vizinhos. OK. Quem iria ficar a olhar? Ninguém. Mas prefiro assim. A cortina é leve demais, passa luz e imagem à noite.

Até breve, amigos, espero retomar o blog- também amo blogar e vocês me fazem bem. Hoje tenho menos leitores, mas não importa, é bom escrever aqui. Bye e boa semana para vocês.




*
"O doodle - grafismo em homenagem a personalidades ou datas comemorativas - do Google desta terça-feira, 2 de abril, presta homenagem ao 366º aniversário de Maria Sibylla Merian, naturalista e ilustradora científica que se dedicou a estudar plantas e insetos, fazendo pinturas detalhadas sobre eles.
Maria Sibylla Merian nasceu em Frankfurt em 1647. Em 1675, aos 28 anos, publicou seu primeiro livro, intitulado "Novo livro de flores", em que ela reproduz de forma detalhada apenas flores. Dois anos depois, Merian publica os dois últimos volumes da obra."

Muito legal!

segunda-feira, abril 01, 2013

A rede e a liberdade de criação


Folha de São Paulo

A rede e a liberdade de criação
SERGIO AMADEU DA SILVEIRA

A internet coloca em risco os velhos modelos de negócios. Sua natureza aberta torna-se alvo de grandes corporações de telecomunicação


Os dois filósofos suecos Alexander Bard e Jan Söderqvist já haviam detectado que em uma rede distribuída como a internet, "todo ator individual decide sobre si mesmo, mas carece da capacidade e da oportunidade para decidir sobre qualquer dos demais atores".
Essa tese foi testada pelo poderoso governo norte-americano quando, em dezembro de 2010, agiu de modo contundente sobre os provedores para retirar o site do Wikileaks da rede. Em menos de dois dias, foram criados mais de 800 "sites espelhos" nos cinco continentes, que replicavam exatamente o conteúdo do site bloqueado.
Se a liberdade de expressão e de opinião distribuídas pelas plataformas da rede incomodam sobremaneira os setores que definem as razões de Estado como princípio superior, a liberdade de criação de novas tecnologias, aplicações ou formatos têm preocupado e colocado em risco os velhos modelos de negócios de grandes corporações erguidas no mundo industrial.
Assim, a natureza aberta da internet torna-se alvo de parte da indústria de intermediação cultural e de grandes corporações de telecomunicações.
Em 1989, Tim Berners-Lee desenvolveu o modo gráfico da internet. Até 1999, Shawn Fanning e Sean Parker não haviam criado o Napster, considerado um dos precursores das redes P2P, que mudaram o modo dos jovens acessarem arquivos digitais em todo o mundo. Foi em abril de 2001 que Bram Cohen lançou o protocolo BitTorrent; Janus Friis e Niklas Zennström desenvolveram o Skype, em 2003. Hurley, Chen e Karim criaram o YouTube em fevereiro de 2005. Jack Dorsey deu vida ao microblogging Twitter em 2006.
Nenhum desses criadores teve que pedir autorização para governos ou corporações para desenvolver e distribuir na rede suas invenções e plataformas tecnológicas.
A internet, até o momento, é uma rede aberta, não proprietária e desenvolvida colaborativamente, a partir dos esforços de empresas, universidades, técnicas e técnicos de órgãos públicos e da comunidade hacker. Para acessá-la, não precisamos recorrer a centros obrigatórios, tal como ocorria na rede de computadores francesa chamada Minitel. São os protocolos da internet que asseguram esse fantástico arranjo comunicacional.
Entretanto, quem controla a infraestrutura de conexão pode controlar o fluxo de informações. Dito de outro modo: os donos dos cabos e fibras ópticas por onde passam os fluxos de informação podem filtrar e bloquear os pacotes de dados.
Se o dono da infraestrutura de cabos e fibras ópticas não for neutro em relação aos conteúdos e aplicativos que nela trafegam, estaremos subordinando a liberdade de criação aos seus interesses, sejam econômicos ou políticos.
Na internet, não pedimos autorização para nenhuma corporação ou Estado para criarmos e lançarmos um novo aplicativo ou plataforma. A liberdade tem sido a maior força e fonte de inventividade e criatividade. Emprestando os termos do jurista Lawrence Lessig, perderemos diversidade e intensidade criativa se substituirmos a lógica da liberdade pela lógica da permissão.
A possibilidade de criar livremente um novo aplicativo, uma nova tecnologia ou um novo protocolo será gravemente afetada e comprometida com a quebra da neutralidade da rede.
Hoje, em todo o mundo, há um grande embate entre as operadoras de telecomunicação e os defensores da liberdade e diversidade culturais. O oligopólio da telecom pressiona os Estados nacionais e suas agências reguladoras para aprovarem legislações que assegurem a possibilidade deles filtrarem, bloquearem e pedagiarem o fluxo de informações no ciberespaço. Isso implicará na permissão para que se tornem "gatekeepers" da criatividade. Precisamos defender a liberdade de criação tecnológica.


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