domingo, novembro 20, 2005

Caymmi, o Dorival.






















Quem não gosta de Caymmi é ruim da cabeça, com certeza, esta música é uma delícia e "Marina" também, são tantas, todas lindas. Nasceu em 1914! meu pai em 1913 e está aí inteiro, vi outro dia,numa homenagem de artistas plásticos, pintaram quadros inspirados em suas músicas, não gosto deste tipo de arte, mas vale se é para um homem tão querido como ele, ainda por cima nos deu a filha como presente, eu amo a voz de Nana, vou breve fazer um post com ela, aliás já está pronto, é paixão, choro como um bebê desmamado quando a ouço e tive o prazer de ver ao vivo e chorar muito, amor vem sempre com dor, não é?

Doralice.
Clique em "Doralice" e ouça com João Gilberto.
Dorival Caymmi

Doralice eu bem que lhe disse,
Amar é tolice,
É bobagem, ilusão
Eu prefiro viver tão sozinho,
Ao som do lamento do meu violão
Doralice eu bem que lhe disse,
Olha essa embrulhada,
Em que voume meter
Agora amor,
Doralice meu bem,
Como é que nós vamos fazer?
Um belo dia você me surgiu,
Eu quis fugir mas você insitiu
Alguma coisa bem que andava me avisando,
Até parece que euestava adivinhando
Eu bem que não queria me casar contigo,
Bem que não queriaenfrentar, esse perigo Doralice
Agora você tem que me dizer,
Como é que nós vamos fazer?


Aqui ele canta com Dick Farney que era primo de minha mãe.

Marina


Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
Marina, morena
Marina, você se pintou
Marina, você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
Que eu gosto e que é só meu
Marina, você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci, me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outra igual
Desculpe, Marina, morena
Mas eu tô de mal
De mal com você
De mal com você.

Ela faz cem anos cheia de charme.















Foto da Avenida em 1949.

Avenida Rio Branco-Rio de Janeiro.
Ela começa na Praça Mauá, onde se misturam putas e marinheiros e acaba na Cinelândia, pertinho do mar,que leva longe todas as dores.
Andei por ali pouco, não ia muito ao centro do Rio, mas as vezes que fui sorvi cada metro quadrado daquela linda arquitetura, dos tipos excêntricos entre os executivos de gravatas italianas. Passava por ali de frescão(ônibus refrigerados) todas as semanas a caminho de Ipanema no último ano quando vivia em Cabo Frio. Hoje me emocionei ao lembrar o Rio. Como alguém que ama tanto um lugar, vai para tão longe?
Este homem poderia ser meu pai, viveu no Rio antes de casar e depois, com minha mãe e eu pequenina. Fazia escola militar em Realengo, lembrei agora. Adorava o Rio, vinha me visitar depois raras vezes, mas falava com alegria do Rio que conheceu jovem, foi um jovem elegante, boa postura, bigodinho fino, aparado com carinho.
Ainda tem muito charme a avenida Rio Branco, com seus prédios antigos misturados aos envidraçados e sua gente de todos os tipos.






"Buena Vista Social Club"














Dos Gardenias

Composição: Isolina Carrillo

Dos gardenias para ti
Con ellas quiero decir
Te quiero, te adoro, mi vida
Ponles toda tu atención
Porque son tu corazón y el mío

Dos gardenias para ti
Que tendrán todo el calor de un beso
De esos besos que te di
Y que jamás encontrarás
En el calor de otro querer

A tu lado vivirán y se hablarán
Como cuando estás conmigo
Y hasta creerás que te dirán
Te quiero

Pero si un atardecer
Las gardenias de mi amor se mueren
Es porque han adivinado
Que tu amor me ha traicionado
Porque existe otro querer

Acordei com "Dos gardenias" na cabeça, é tão triste...

Hoje, domingo, o canal GNT passará novamente "Buena Vista Social Club" às 19 hs.

Escolham: na rádio UOL podem ouvir com o grupo ou aqui com Maria Rita, também gosto muito.

sábado, novembro 19, 2005

"I want to be alone"
































Greta Garbo.

"Greta Garbo, quem diria, acabou no Irajá"


Quatro momentos.

"18 de Setembro de 1905 — nascia, em Estocolmo, Greta Lovisa Gustaffson que viria a transformar-se numa nas maiores estrelas de toda a história do cinema: Greta Garbo. Passado um século, o seu nome persiste, a sua lenda é indestrutível"
Acabo de ler e penso que em comum com ela tenho a data de nascimento, nasci em 16 de setembro, virginianas :)
Quero escrever sobre os mitos, mais sobre a solidão, depois escrevo.
Disse a um amigo depois que li a Cult: "Será que sou uma espécie de Greta Garbo quem diria acabou em Natal?" Teria fugido para cá? Teria meu gesto de mudança do Rio para cá sido uma espécie de “I want to be alone"?
Se não foi proposital acabei ficando só, vim atrás dos meus irmãos e não encontrei receptividade, acabei só com os meninos. Falo como algo definitivo, não é, lógico, mas é o que vivo atualmente. Tenho tido muita dificuldade em me inserir, sem trabalho fixo, sem marido, sem grana, tudo fica mais complicado. Não estou me queixando apenas constatando. Quem sabe não sou eu a avarenta? :) A entrevista de Calligaris me fez pensar se não sou eu quem me fecho para o mundo, aliás este questionamento me faço sempre, acredito que não há muito mais a fazer neste aspecto, neste momento da vida, depois dos 50 é mais difícil, mesmo, fazer amigos, ter namorados, ou amigos coloridos. O blog me abriu um leque, mas estão todos distantes.
Ah! vou conhecer a Dai e Denise e outras blogueiras em dezembro. Viva!
Vejam como o tempo também maltratou a belíssima Greta Garbo, a última foto é de 56, ela e Onassis. Ah, o tempo...estou saudosa hoje, mas não estou triste, estou leve, que bom.






sexta-feira, novembro 18, 2005

Como é gostoso estar só. É?












Tenho uma nova leitora do além mar "Eu" que anda falando de solidão, aí vem Calligaris dizendo na semana passada aqui
que é melhor não conhecermos aquele que amamos e nesta entrevista da Revista Cult fala de solidão- eu ainda não li, só este trecho, (aqui onde moro, padaria e banca ficam longe uns 400 metros, para mim é um horror, acostumada a bancas em todas as esquinas).
Eu vivi só quase sempre, estive "casada" apenas cinco anos, agora vivo com meus dois filhos. Foi uma escolha, eu não quis casar aos vinte nem aos trinta, quando foi chegando perto dos quarenta eu queria viver com alguém, me sentia muito só, mas era por estar sofrendo muito uma perda amorosa importante, eu precisei desistir do meu sonho do amor ideal realizável, chorava muito, doía muito, pensei em morar com alguma amiga, não queria mais acordar só todos os dias, passear pela praia só. Fiquei muito triste. As amigas a esta altura casadas ou longe, foi aí que encontrei o pai dos meninos no enterro do Drummond, leia aqui, se não conhece a historinha, é divertida. Foi tudo muito rápido, engravidei, tive dois filhos e nos separamos, não diria que foi um equívoco, não, eu era consciente do que fazia, mas sofri muito, ele é muito diferente de mim, em muitos aspectos difíceis de se conviver, para começar o estilo de vida, completamente boêmio, eu adorava dormir tarde, estas coisas, mas todas as noites bar e restaurante, é impossível, trabalhava de dia e a noite queria estar em casa, acostumada a estar só, gosto de estar comigo, sempre gostei, se ficar muitas horas grudada com alguém,implico, quero estar só.
Estar só por opção é ótimo, há momentos de carência que poderiam, deveriam, ser suridos por amigos, amigos coloridos, namorados eventuais, amores clandestinos.
Eu acredito que o ideal é viver em casas separadas, não tenho dúvidas, infelizmente as pessoas não fazem isto, por não ficar bem ou por falta de grana, mesmo, viver no mesmo teto sai mais barato.
Jean Guillaume, meu querido amigo francês dizia isto sempre, ele nunca casou e me influenciou bastante na minha formação, eu era muito jovem quando convivi com ele, era um homem fascinante.
Calligaris fala do fascínio que o mistério traz, é verdade, aquele que é inatingível é fascinante, mitificamos... Precisamos colocar mais graça às nossas vidas buscando dentro de nós a riqueza, a beleza, sempre há, pode crer. E só então a solidão terá charme, aí sim. Liberdade, beleza, charme, amores... hummmm aí é bom, não é?
Estou ouvindo Billie Holiday
agora diga se é possível ouví-la e não se sentir só, é difícil. Vou mudar de estação :), não, está uma delícia, ouçam também.

quinta-feira, novembro 17, 2005

Mais Calligaris.

A Lou está avisando que o Calligaris está na Cult nas bancas, aqui tem uma parte da entrevista.
O título é "Ser sozinho é um charme" hihihi é? muitas vezes é, em outras muito difícil, hoje acordei péssima, só, me sentindo horrível, mais tarde as coisas foram se desenrolando, resolvi problemas, fiz Yoga, vi um " A Grande família" hilariante e estou me sentindo ótima. Continuo só, nada mudou, é muito engraçada a vida...só com meus dois filhotes, rimos juntos vendo a história confusa de Adriana falcão e outros, aposto como foi mais dela, sempre é ótima, vou fazer um post sobre ela qualquer dia.
Amanhã preciso pensar um novo colégio para meu filho de 15 anos, é um assunto difícil, preciso fazer contatos , escrever meus contos- ah, tenho postado pouco os contos porque quero mandar para concursos e pedem inéditos, alguns destacam que não devem ter sido publicados na internet, será que em blogs pessoais pode? alguém sabe?

Contardo Calligaris.



















O mundo como nação

O Perserec (Personnel Security Research, em Monterey, Califórnia) é um centro de pesquisa em segurança empresarial e institucional.
Acabo de ler um relatório recente do Perserec: "Technological, Social, and Economic Trends that are Increasing U.S. Vulnerability to Insider Espionage" (tendências tecnológicas, sociais e econômicas que aumentam a vulnerabilidade dos EUA à espionagem interna; www.fas.org/sgp/othergov/ dod/).
O relatório começa salientando os aspectos do mundo atual que facilitam o trabalho do espião: possibilidade de digitalizar as informações, ampliação do mercado das informações (mais concorrentes ou países querendo comprar), internacionalização do comércio e da ciência com aumento de contatos do pessoal com concorrentes e estrangeiros, expansão da internet (facilidade da transmissão e do anonimato na correspondência).
A seguir, são examinadas as motivações dos espiões. Constata-se que, cada vez mais, os americanos vivem crises financeiras pessoais produzidas por seus hábitos "agressivamente consumistas". Talvez por causa dessas crises, a prática compulsiva do jogo está aumentando. As dívidas são fontes prováveis de motivação para a espionagem.
Enfim, o texto chega às três questões seguintes.
1) Diminuiu a lealdade institucional. As empresas obedecem brutalmente às necessidades do mercado, racionalizando, transferindo, demitindo. Os funcionários mudam de empresa segundo seu interesse econômico e suas ambições. Acaba o mito da empresa como família e a sensação de pertencer a uma comunidade de trabalho.
2) Fato relevante para as repartições públicas, um número crescente de americanos tem laços étnicos com outros países. Isso sempre foi o caso nos EUA, mas a facilidade das comunicações faz com que o imigrante não seja obrigado a queimar os barcos. Telefonar "para casa" (justamente, qual "casa"?) sai de graça ou quase, e viajar a cada ano para o país de origem está ao alcance da pequena classe média. Conseqüência: nos novos imigrantes, o sentimento de pertencer à nação americana pode ser dúbio e conflituoso. A permissão de manter uma dupla nacionalidade é mais a expressão do que a causa dessa situação.
3) Um número crescente de americanos vêem o mundo como uma sociedade global, de pessoas e grupos interdependentes, e não como um teatro em que se afrontariam "nações". Um cidadão pode se tornar espião para servir o interesse superior da "comunidade mundial". É citado o caso de Ana Montes, uma analista do serviço de informações do Ministério da Defesa que transmitiu dados sigilosos para Cuba. Montes não era comunista nem filocubana, mas se sentia "moralmente obrigada" a agir para "promover a tolerância e a cooperação em nossa única pátria, que é o mundo".
Sem querer, o relatório mostra que um suposto mal-estar da dita pós-modernidade (o sentimento de não pertencer a quase nada) é apenas a realização de um dos maiores sonhos da modernidade. Explico. Uma grande idéia moderna diz que, se nós nos concebermos como agentes econômicos (como produtores, trabalhadores etc., e não como membros de tribos e clubes), passaremos a reconhecer a igualdade de todos: a espécie humana será nosso povo e o mundo, nossa pátria.
Esse sonho atravessa tanto o iluminismo francês quanto o anglo-saxão. A idéia marxista do internacionalismo proletário não tem outra origem.
Pois bem, ao que parece, o iluminismo está funcionando. Aos poucos, a espécie humana em sua diversidade começa a nos aparecer como um povo só e o planeta como uma única grande nação.
É normal que isso incomode a segurança nacional de qualquer país e, no caso, a dos EUA, mas, de uma certa forma, o que está acontecendo é um efeito do próprio projeto americano. As Américas, esquecendo seus pecados originais (extermínios dos índios e escravatura), prefiguram o sonho moderno do mundo como pátria, por serem o lugar onde vivem sociedades compostas pela imigração de etnias, fés e passados diferentes.
Estamos longe do declínio final das nações. Há os que protegem sua identidade de grupo semeando bombas. Há os que erigem barreiras comerciais para privilegiar sua nação. Há os que seguem acreditando nas seleções nacionais, embora sejam compostas por jogadores que vivem e criam filhos em vários outros países. E, claro, há os que confundem seu país com o mundo-pátria (como se já existisse) e se arrogam o direito de serem os gendarmes de todos.
No entanto, ao ler o relatório, parece que a verdadeira crise que ameaça hoje o "império" é a realização de seu próprio sonho: a nação composta por sujeitos do mundo inteiro se identifica com um mundo em que a idéia de nação perde sentido. Com isso, ela pode se desfazer como nação.
Nota. Sobre a crise em curso na França, talvez reste prever que ela não encontrará solução na integração "nacional" dos jovens de ascendência árabe. Pelo passivo histórico e pelas paixões em jogo (décadas de retórica da nação árabe e séculos de retórica da nação francesa), a crise só poderá ser resolvida na perspectiva (longínqua) de um mundo que seja a pátria de todos.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Mais Cláudia e "Fitzcarraldo".







Klaus Kinski e Jose Lewgoy em "Fitzcarraldo"










Jose Lewgoy e Cláudia Cardinale.















O barco.








Coloquei a entrevista da Cláudia Cardinale aqui segunda feira e esqueci de dizer que tenho uma biografia escrita por ela e Anna Maria Mori “Eu, Cláudia, você, Cláudia” da Ed. Record
Conta que nasceu na África, sabiam? é da Tunísia, os dois casamentos, a paixão pelo marido Pasquale Squitieri e a paixonite por Marlon Brando( quem não se apaixonaria contracenando com ele? uau ), conta sobre os sets de filmagem. “Fitzcarraldo” foi uma grande aventura sofrida para todos, diz que Herzog era um masoquista e ela só suportou o calor de 50 graus nos ambientes de locação porque tem sangue africano, deve ser mesmo. Alguns enlouqueceram de verdade, como um dos câmeras, Jason Robards, pirou, teve que abandonar as filmagens, foi substituído por Klaus Kinski, excelente escolha, Mick Jagger, saiu para turnês, adoeciam, sofriam ataques dos índios, foi realmente uma odisséia. Kinski era excêntrico, muito louco, não deixava que o vissem filmando, tinham que cobrir o rosto, ficava hora no espelho, escolhia o ângulo melhor, era insuportável, mas está ótimo no filme.
O avô de Cláudia construía barcos, fazia grandes embarcações deve ser por isto que ela suportou com tanta galhardia as dificuldades da filmagem de “Fitzcarraldo”. Herzog é um gênio louco, fez com que homens atravessassem a floresta empurrando um barco a vapor, com mais de uma centena de toneladas, queria construir um teatro e encenar uma Òpera.
Uma vez durante a filmagem de “Uma rosa para todos” no Rio, bronzeava- se no terraço do Hotel e um helicóptero jogou-a longe, quase morreu. Assustou-se com os fãs no Rio, diz:”o Brasil é um país muito violento”, engraçado isto em 1960/70, não sei bem, estranho...
É fã de Marlon Brando, é o primeiro de sua lista, depois vem Delon, Belmondo, temos gostos parecidos, Marlon Brando é o maior para mim.
“Fitzcarraldo” é um filme que todos deveriam ver, os jovens principalmente, é um belo filme sobre sonhos e realizações de desejos. Preciso rever.
Com a palavra vocês que entendem melhor de cinema que eu, como Zed, Marfil, etc.








Klaus Kinski, o pai de Natassia Kinski, o próprio.





Belíssima!

segunda-feira, novembro 14, 2005

"Todos os que amei não estão mais aqui"

Eu a vi no Fantástico(o show da vida :))está bonita com seus 67 anos, e sem plásticas, pelo menos foi o que disse. É bom ver mulheres envelhecendo assim, com dignidade, sem desespero para se manterem jovens, não é?
Vade retro! eu não quero sobreviver aos homens que amei, prefiro que eles chorem por mim :)

















Deu na Folha de São Paulo:

Convidada do 2º Amazonas Film Festival, antiga musa do cinema italiano relembra parcerias com Visconti e Herzog

"Todos os que amei não estão mais aqui", diz Cardinale

SILVANA ARANTES
ENVIADA ESPECIAL A MANAUS

Pela segunda vez, a atriz italiana Claudia Cardinale, 67, vai embora da Amazônia pensando em voltar. "Acho que ainda venho outra vez", disse a um teatro Amazonas que a aplaudia de pé. A atriz foi homenageada em Manaus pelo 2º Amazonas Film Festival, que terminou na última quinta.
O longa "Fitzcarraldo", que ela filmou na região com Werner Herzog em 1982, foi exibido na mostra. Mas foi um curto e caseiro vídeo com trechos de outros filmes seus que mais a emocionou. "Eu me dei conta de que todas as pessoas que amei não estão mais aqui." Apesar disso, a atriz se comportou como a mais alegre das criaturas. Sempre sorrindo, conversou com todos que se aproximaram e não rejeitou convites para passear na selva nem para se esbaldar na pista de dança, ao lado de um grupo de folclore. Na última terça, ao atravessar o rio Negro de barco, Cardinale falou à Folha. Leia a entrevista.

Folha - A sra. parece ser uma pessoa muito feliz. Como conseguiu atingir a felicidade?
Claudia Cardinale - Nessa profissão, você tem de ser muito forte interiormente. Do contrário, é devorada; é um ambiente canibalesco. E você perde sua identidade, perde a cabeça e se considera uma diva. Para seguir essa profissão, é preciso ser muito forte e distinguir entre o seu trabalho e a sua vida. Eu sempre fiz essa distinção.

Folha - A sra. se referiu ao ator Klaus Kinski, com quem contracenou em "Fitzcarraldo", como "louco". Qual sua principal memória das filmagens na Amazônia?
Cardinale - O cinema é aventura, e "Fitzcarraldo" é o verdadeiro cinema da total aventura. Isso significa que foi de uma dificuldade extrema. Éramos poucos no set. Tivemos muitos problemas. O filme começou com [o ator] Jason Robards [1922-2000], mas ele era muito frágil e perdeu a cabeça. Interrompemos o filme e recomeçamos com Klaus Kinski. Ele era totalmente louco. Mas Herzog é um homem que adora as coisas impossíveis. Também gosto disso.

Folha - É o gosto da aventura que a trouxe de volta à Amazônia?
Cardinale - Quis voltar porque adoro a natureza e a Amazônia. Acho interessante que o mundo fale sobre essa região, e o festival é importante para isso. Por isso vim.

Folha - Qual é a principal mudança no cinema desde o início de sua carreira até hoje?
Cardinale - Antes era a arte, agora é business. Para mim isso é muito difícil porque fui uma pessoa privilegiada -filmei com os maiores cineastas do mundo. Agora é difícil que eu aceite fazer um filme porque eu sinto: eu sou um animal [cinematográfico].

Folha - Não há mais cineastas com quem a sra. queira filmar?
Cardinale - Não sei. Eu nunca telefonei para nenhum cineasta. Sempre fui escolhida por eles.

Folha - Entre os grandes mestres com quem a sra. trabalhou, qual é o seu favorito?
Cardinale - Existem muitos, mas o ponto alto da minha vida foi o encontro com [Luchino] Visconti [1906-1976]. Era um mestre, foi mágico, o encontro fatal, que me ensinou muita coisa.

Folha - Que sensação a sra. teve ao ver o vídeo com trechos de sua carreira?
Cardinale - Foi muito emocionante porque eu me dei conta de que todas as pessoas que amei não estão mais aqui. É triste. Elas partiram. É duro. Por exemplo, em "Era uma Vez no Oeste" todos partiram -cineasta, ator, não há mais ninguém. Tenho saudades de muitos diretores, como [Federico] Fellini [1920-93], Visconti, [Mauro] Bolognini [1922-2001], e também de atores com quem trabalhei, como Burt Lancaster [1913-94], John Wayne [1907-79] e Rita Hayworth [1918-87].

Folha - A sra. conhece algo da produção recente de filmes da América do Sul?
Cardinale - Muito pouco, porque os filmes não viajam o suficiente pelo mundo. Mesmo em Paris, hoje, não se vê quase nada do cinema italiano, que, no entanto, está ali do lado. Imagine como é com o cinema da América do Sul, ainda mais difícil. Acho que é preciso voltar a fazer como era antes, quando os filmes estreavam no mundo todo porque eram co-produções entre muitos países.

Folha - A uma diva é indispensável perguntar: qual é seu segredo de beleza?
Cardinale - Nunca fiz lifting. Tenho uma vida saudável. Como pouco e faço ginástica. Ou então caminho muito. E amo a vida.
A jornalista Silvana Arantes viajou a convite do 2º Amazonas Film Festival

domingo, novembro 13, 2005

A semana.










A imagem mais chocante da semana para mim foi esta do desespero da mulher com o carrinho do bebê em Seul. O carrinho ficou preso na porta do trem, leia aqui.
Dá aflição ver, coitada!




















Eu vi na Globo News um Milênio onde foram entrevistados alguns especialistas em comportamento social para tentarem explicar o que acontece na França,Jailson de Sousa e Silva, geógrafo brasileiro, nordestino, que veio do meio pobre, foi o que melhor se expressou, pena que deram pouco espaço para ele. Fechou a reportagem dizendo
que faltam âncoras para estes jovens, instituições como a família, a Igreja, os sindicatos, nada disto tem mais a força que tinha anteriormente. Estão os franceses diante de um enigma, quem são estes jovens? É preciso abrir espaços sociais para estes jovens, permitir que possam construir uma identidade.
Assino embaixo.
Depois vi o ex embaixador Sérgio Amaral, num " Globo News Painel" de William Waack ele lembrou que estes jovens são a terceira geração de imigrantes, são jovens franceses, nascidos na França, lembra que no início do século passado havia espaço para os avós e pais deles, hoje são ignorados, excluídos.

Aqui tem um bom artigo para se ler e pensar sobre o assunto, afinal não é só a Europa que sofre com os excluídos, aqui na nossa cara está cheio de jovens sem espaço, jovens que a maioria finge não ver.



Não sei quem é esta Stephanie, mas gostei do que disse, é um bonito depoimento pessoal. Também gosto de Madonna, menos pelas músicas, ouço quase nada dela, mais pela postura de quem sabe o que quer e vai atrás, disto eu gosto.








Camaleoa mesmo.
















E linda.

É melhor ser alegre que ser triste.




















Não sei se Vinicius era poetão ou poetinha, mas dava muito prazer ouví-lo, tem lindas letras, belas melodias e ótimos parcerias. Além disto, foi um grande amante, teve inúmeras mulheres. Viva Vinicius! Vamos ver o filme, valerá pelas músicas, pelos amigos dele, vamos lá.













Samba da benção


Vinícius de Moraes e Baden Powell.

É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não

Senão é como amar uma mulher só linda; e daí?
Uma mulher tem que ter qualquer coisa além da beleza
Qualquer coisa de triste, qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado,
Uma beleza que vem da tristeza de se saber mulher,
Feita apenas para amar, para sofrer pelo seu amor
E para ser só perdão

Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não...

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence
A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração



Ricardo Calil
. Nominino.

Vinícius, o poetão



11.11.2005 | Sabe aquela sensação de que não há nada de interessante para ver no cinema? Pois aí vai uma boa notícia: você não a terá por algum tempo. As estréias deste final de semana formam uma espécie de dream team do cinema contemporâneo atual.

Entre os internacionais, há “Marcas da Violência”, brilhante estudo do canadense David Cronenberg sobre as relações entre tendências agressivas e impulsos sexuais. Também estréia “Manderlay”, segunda parte da trilogia do dinamarquês Lars von Trier sobre os Estados Unidos, que trata do racismo sem poupar brancos ou negros.

Dos nacionais, chega ao circuito “Cinema, Aspirinas e Urubus”, excelente estréia em longa de Marcelo Gomes, sobre a amizade entre um pernambucano e um alemão no sertão nordestino durante a Segunda Guerra Mundial. Com toda justiça, o filme vem colhendo prêmios em todos os festivais de que participa.

E finalmente estréia “O Signo do Caos”, testamento cinematográfico de Rogério Sganzerla, um dos maiores cineastas brasileiros de todos os tempos, morto no ano passado. A produção fala do pouco caso do governo com a memória cinematográfica nacional (a demora para a distribuição do filme se tornou um exemplo daquilo que ele denuncia).

Com tantos filmes ficcionais brilhantes, por que escrever sobre o documentário “Vinícius”, talvez a menos ousada das estréias? Em parte, porque os outros já foram comentados aqui durante o último Festival do Rio ou em outras ocasiões. Mas, acima de tudo, porque “Vinícius” tem o personagem mais fascinante.

O documentário assume de cara suas duas características. É um projeto afetivo, produzido pela filha Suzana de Moraes e dirigido por Miguel de Faria (que foi casado com a produtora e era amigo do artista). É também um filme com uma missão clara: desconstruir a imagem do “poetinha” – epíteto que esconde, sob a sonoridade carinhosa, uma tentativa de diminuir a importância de Vinícius de Moraes como escritor, de aprisioná-lo em seu lado mais folclórico.

Nesse sentido, o filme é muito bem-sucedido. Ele consegue apresentar um mosaico abrangente da trajetória pessoal e intelectual de Vinícius: poeta erudito, diplomata, autor teatral, crítico de cinema, criador da bossa nova, um dos nomes fundamentais da cultura brasileira no século 20. Também estão presentes, embora diluídos, os lados beberrão e paquerador de Vinícius, que se casou nove vezes e que dizia que o uísque, esse cachorro engarrafado, é o melhor amigo do homem.

Para ilustrar as muitas facetas do artista, o filme atacou em diversas frentes. Conseguiu algumas imagens de arquivo preciosas, como a de Vinícius apresentando o “Canto de Oxossi” no filme “Les Carnets Brésiliens”, de Pierre Kast, ou a de Elizete Cardoso e João Gilberto interpretando “Eu Não Existo Sem Você” no longa “Pista de Grama”, de Haroldo Costa.

Faria também convidou dez jovens cantores para gravar versões inéditas de músicas de Vinícius. A lista prima pelo ecletismo: vai de Adriana Calcanhoto e Yamandú Costa a Zeca Pagodinho e Mart’Nália, entre outros. Embora o resultado seja desigual, como sempre há de ser nesses casos, há alguns momentos iluminados, como as músicas cantadas por Mônica Salmaso ou Edu Lobo tocando um dos afro-sambas ao violão.

Há ainda uma série de entrevistas com amigos e parentes de Vinícius, que formam o ponto mais forte do filme. Pela óbvia admiração de todas as pessoas ouvidas pelo personagem e pela amizade de algumas pelo diretor, os depoimentos são mais francos, descontraídos e reveladores do que costumam ser em documentários biográficos.

Chama atenção principalmente a desenvoltura sorridente com que Chico Buarque, grande amigo de Faria, conta “causos” sobre Vinícius. Ferreira Gullar, Antônio Cândido e Tônia Carrero são outros que dão depoimentos marcantes, pela graça ou pela emoção.

Com essas três frentes, o filme consegue dar conta das principais contradições que alimentaram a obra e a vida de Vinícius: o embate entre o erudito e o popular, a dúvida entre os salões e os botecos, o paradoxo entre o artista sofrido e o bon vivant.

Existe, porém, uma quarta frente em “Vinícius”, que é seu aspecto mais problemático e que prejudica o resultado final. O fio condutor do filme é uma espécie de pocket-show (a definição é da própria produção) comandado por Camila Morgado e Ricardo Blat, que declamam poesias e interpretam textos do autor.

A encenação dessas seqüências é marcada por uma pompa e uma formalidade que têm muito pouco a ver com Vinícius. Fica evidente o enorme esforço de Morgado e Blat para carregar cada palavra de significados – movimento contrário ao de Vinícius, que fazia o complexo parecer simples.

Nessas cenas, o filme parece querer substituir a imagem do “poetinha” pela do “poetão”, o escritor folclórico pelo oficial. Sem perceber, o filme cria outra prisão para a obra de Vinícius. Ainda bem que o próprio aparece na tela em vários momentos para debochar dessa imagem.


Agora vejam que coisa linda Tom Jobim no detalhe. Lembra meu ex quando conheci, era muito bonito.

sábado, novembro 12, 2005

Mais Leonilson














Cintia encontrou o vídeo com Leonilson, é um barato, vejam.

Livro sobre o universo de Pina Bausch






























Se você está em São Paulo, vá até lá. Leia aqui
e mais aqui.

Eu só a vi no cinema, é impressionante, imagine ao vivo. O livro deve ser ótimo.

sexta-feira, novembro 11, 2005

Garotinho e Garotinha podem ser reeleitos. Cuidado!















Casal Garotinho volta a ser elegível para próximas eleições


RIO DE JANEIRO (Reuters) - "O casal Garotinho vai poder concorrer nas eleições do próximo ano, após o Tribunal Regional do Rio de Janeiro (TRE) acatar os recursos da defesa de Anthony Garotinho e da governadora Rosinha Matheus.

"O parecer favorável aos dois foi decidido na madrugada de sexta-feira com voto de minerva do presidente do TRE do Rio de Janeiro, Marlan Marinho, após empate em três a três dos outros juízes." leia mais aqui.


Que vergonha!
Prestem atenção, eles têm carisma com o povão, comecem a se mexer senão Garotinho chegará à presidencia da República, acreditem, eu sou meio paranóide, intuo as coisas de longe :) a vantagem de ser grilada, fujo antes que as desgraças aconteçam.
Luto! tem o sentido de lutar também, vamos lá, cada um faça sua parte.

quinta-feira, novembro 10, 2005

"VOILÀ MON COEUR". Leonilson.






















Leonilson me comove e ando pensando nele há dias. Tenho um desenho "O Jardim" de L. está no meu quarto vejo sempre, olho com atenção as peças do jardim, ganhei de um amigo querido Thomas Cohn, marchand e galerista- vão conhecer a Galeria Thomas Cohn aí em São Paulo, fica na Av. Europa, conheçam a Myriam Cohn, sempre gentil, tenho saudade de nossos papos, digam que fui eu quem recomendei, tomem um cafezinho :), vale a pena visitá-la, foi lá que conheci Leonilson em 83, sua delicadeza, sua sensibilidade. Impossível não se emocionar com o trabalho dele. Vi três exposições, a última bem no finalzinho, quando a vida se esvaia e Leonilson denunciava através dos paninhos o preconceito com a Aids e o homossexualismo, sua dor.
Cearense, magrinho, mostrou uma arte que é impossível desvincular da sua vida. Depois que fez uma transfusão de sangue, colocou num paninho uma gota de sangue e a partir dali fez o mais dramático e comovente trabalho de arte que eu vi. Escreveu palavras nos paninhos, como nome de flores, tudo singelo e cruel. Leonilson me lembra o Bispo do Rosário, lembra Ana Cristina César, Billie Holliday, Artaud, Nijinsky , Isadora Duncan, Van Gogh, Genet...e outros, mas não muitos. Todos me comovem, me tocam profundamente.
O vídeo "Com o oceano inteiro para Nadar" é fantástico, vi na Tv num daqueles acasos maravilhosos. é impressionante ouvir Leonilson. Se vocês tiverem acesso ao UOL, vejam, é triste saber que morreu tão cedo, era tão sensível, eu me entristeço.
Ele cita em ingles:
"Ele se machucou bastante
mas ninguém nunca soube,
com exceção,
claro,
do seu travesseiro,
para quem ele contou seus problemas,
o rei do sono"

poema de Duane Michaels. Acabo de copiar da revista Bravo de 2003.
Adriano Pedrosa, crítico de arte, foi amigo íntimo de Leonilson e escreveu este texto, leiam que vale a pena, é comovente, uma bela declaração de amor.
A vida nos dá alguns presentes como este que Thomas me deu, talvez eu só muito mais tarde descobrisse o Leonilson,, depois tive um cliente que era amigo de Adriano, a gente vai "vivendo" muitas vidas, observando...muitos dos meus contos são lembranças fortes que clientes me deixaram.
Leonilson foi talvez o maior artista plástico da geração dele e um dos maiores brasileiros de todos os tempos, assim como o Bispo do Rosário, sujeitos simples, que sofreram preconceitos, peças raras. Aqui vocês lêem o que escevi sobre o Bispo há algum tempo.






Melhor não conhecer quem você ama. Contardo Calligaris.

CONTARDO CALLIGARIS


Faz tempo que Laura Kipnis, professora de comunicação na Universidade Northwestern, nos EUA, escreve sobre a vida amorosa e sexual com uma inteligência e com um brio invejáveis. Seu último livro acaba de ser publicado no Brasil, "Contra o Amor, uma Polêmica" (Record).
Para Kipnis, diante da vida de casal (e no meio dela), nossa ambivalência é sem solução: "Por um lado, o anseio por intimidade; por outro, o desejo de autonomia; por um lado, o conforto e a segurança da rotina; por outro, sua medonha previsibilidade; por um lado, o prazer de ser conhecido profundamente (e de conhecer profundamente outra pessoa); por outro, os papéis restritivos que essa familiaridade prevê".
Kipnis acrescenta que a familiaridade produz "a rotina do "Pare de Tentar Me Mudar" e a rotina do "Pare de Me Culpar por Sua Infelicidade'". São, de fato, duas grandes armadilhas da intimidade do casal: "Você me conhece tão bem que o deleite da surpresa foi substituído pela paixão pedagógica de me transformar". Ou então: "Você me conhece tão bem que consegue sempre encontrar em mim as razões de sua insatisfação".
Não sei se existem formas de convivência íntima capazes de evitar que o parceiro se torne tristemente familiar. Kipnis pensa que não; pessimista e freudiana, ela não acredita em esparadrapos: na vida de casal, anseios contraditórios se chocam sem parar e sem remédio. Queremos o impossível: a transparência recíproca e, ao mesmo tempo (paradoxo), a preservação daquela aura misteriosa sem a qual, para o outro, somos "o cara" ou "a mina" de sempre, sem surpresas.
Muitos acham intolerável ser conhecidos profundamente pelo parceiro. Na convivência do casal, uma expressão banal como "Eu te conheço" pode ser recebida com ojeriza e rebeldia, como se o olhar do outro se tornasse, assim, a tumba de todos os possíveis: "Você é este aqui, que amo e conheço, e não é, não foi e não será nenhum outro".
Ora, freqüentemente, uma fantasia responde a essa dificuldade do amor. É o devaneio de uma vida passada, totalmente outra e geralmente excessiva, arriscada e aventurosa -o contrário, em geral, do cotidiano atual do casal. O parceiro desconheceria esse passado: ele nos amaria sem saber quem somos, ou melhor, ela amaria, em nós, um mistério.
Por isso, acontece, às vezes, que um dos membros de um casal fabule sobre seu passado, não para tornar-se mais digno do amor recebido (ou seja, mais conforme com o que o outro espera), mas para declarar que ele pode ser radicalmente diferente do que o parceiro imagina. No caso, trata-se de mentiras que não querem "melhorar" a imagem de quem fabula; ao contrário, elas inventam um currículo inquietante: "Já fui drogado, heroína na veia", "Teve uma época em que transava só em grupo, com homens, mulheres e qualquer coisa que se mexesse" e por aí vai.
Conheci, por exemplo, um casal em que o marido jurava ter passado anos na prisão (e não por um erro judiciário). A mulher teimava em demonstrar que o marido mentia, exibia certificados de antecedentes penais, alegava testemunhas, provava que nada disso era possível. Ela ganhou a disputa, mas foi o fim do casal, pois o marido mentia para continuar acreditando que, apesar da "normalidade" do casamento, sua vida permanecia livre e aventurosa. Mais do que isso, ele queria ser amado pelo mistério de seu passado inventado, não pelo conformismo de seu presente. Privado de um falso "segredo" que o mantivesse como enigma aos olhos de sua amada, ele recorreu à banalidade de pequenas traições para criar, em compensação, segredos reais. Logicamente, a relação acabou.
Para esse impasse da vida amorosa, o cinema, repertório de nossos devaneios, propõe algumas soluções.
O exemplo inaugural é "Gatilho Relâmpago" ("The Fastest Gun Alive", 1956), de Russel Rouse, em que Glenn Ford vive como comerciante tranqüilo (e quase "moscão") numa pequena cidade do Oeste americano. De fato, ele e sua família estão fugindo de um passado em que ele era o maior dos pistoleiros. Claro, um dia a coisa estoura.
Melhor ainda é um filme que estréia amanhã no Brasil, "Marcas da Violência", de David Cronenberg. Melhor, digo, não só por ser dirigido com extrema simplicidade e maestria, mas por propor uma versão aprimorada da fantasia em questão. À diferença do que acontece em "Gatilho Relâmpago", aqui ninguém sabe se o protagonista esconde ou não um estranho passado: nem o espectador nem (mais importante) a mulher. Ao meu entender (vejam se vocês concordam), depois dos acontecimentos, a família continuará mais unida do que nunca, por todos terem aprendido a amar sem a pretensão de conhecer quem eles amam.
Agora, a solução ideal mesmo é a história de Jason Bourne ("A Identidade Bourne", de 2002, e "A Supremacia Bourne", de 2004). Nesse caso, nem Bourne sabe direito qual foi seu passado. A mulher que, no primeiro filme, torna-se sua companheira se apaixona por um sujeito que é um enigma para ele mesmo. Talvez essa seja a melhor maneira de amar e de ser amado. Mas fazer o quê? Nem todo mundo pode ser agente secreto e amnésico.

quarta-feira, novembro 09, 2005

O ano do Brasil na França.

















Outro dia eu disse lá no Jôka que já havia namorado muito no Arpoador, ele respondeu que atualmente é impossível ir até lá, há perigo de assaltos, roubos, arrastões.
Sérgio Zalis, em Nominimo mostra fotos antigas e atuais de alguns lugares do Rio, vale a pena ir lá ver.
Alguém me disse sobre Paris: "É o ano do Brasil em Paris", piadinha de humor negro,mas que cola, será que foi um carioca que fez? não duvido, ou paulista, estes adoram dizer que o Rio é violento. Talvez em São Paulo a violência fique mais concentrada nos subúrbio, na periferia, como em Paris*, no Rio está ali na nossa cara a pobreza, a miséria, as diferenças de cor, de modos de vida. É difícil viver no Rio, concordo, mas é um lugar onde a natureza em especial nos faz bem, nos alimenta a alma com tanta beleza. E o carioca é meio superficial, disperso, mas é gente boa, cordial, alegre, solidário. Difícil alguém sentir-se só no Rio, há sempre alguém com quem conversar, desde o jornaleiro da esquina, o taxista, até o artista famoso (como Tom Jobim- estava sempre lá aos sábados- Ubaldo, Ferreira Gullar) que freqüenta o " Bar Bofetada" como tantos outros lugares, o carioca não é arrogante. Eu amo o Rio e amo Paris sem nunca ter pisado lá,um dia vou, mesmo velhinha sentar num café e ficar horas olhando as pessoas passarem, ah vou.

Nominimo traz esta semana um artigo de Mario Sérgio Conti " Uma semana atipicamente francesa". Copiei um trecho:
"Os motivos da revolta são mais que sabidos. “Periferia”, em francês, se diz “banlieu”, que é uma contração de “banir” e “lugar”: banidos para um lugar. Para as periferias pobres foram banidos os imigrantes árabes e africanos e seus filhos, os desempregados, os fracassados, todos aqueles que a República rejeita. Nas periferias há menos escolas, menos creches, menos equipamentos esportivos, menos hospitais que em Paris, Marselha, Toulouse ou Strasbourg. E há mais desemprego, mais banditismo, moradias inferiores, mais sujeira. A esse problema o Estado vem respondendo com mais violência policial, que é temida e hostilizada"
Leiam mais aqui
Ah para quem não sabe o ano do Brasil lá na França faz o maior sucesso, artesanato, utensílios indígenas, plumagem, artes plásticas, literatura, cinema, estilistas (o chitão, aquele tecido estampado colorido, foi sucesso- eles adoram cores), Gilson Martins, que faz bolsas bem brasileiras, vejam aqui faz sucesso lá e muitos outros.




Inagaki e outros no Blog de papel.

terça-feira, novembro 08, 2005

Belíssima.



















Podem me chamar de noveleira, não importa, eu vejo quando gosto. A melhor novela que vi, perfeita, foi "A cabocla" com direção de Luiz Fernando Carvalho.
Ontem foi o primeiro capitulo de "Belíssima" e foi uma hora de imagens belíssimas da Grécia mais gente elegante e bonita. Quanta diferença daquela novela horrorosa que acabou...eu desligava a Tv, era insuportável.
Fernanda Montenegro, eu já sabia, está ótima no papel da ricaça poderosa e arrogante, Glória Pires sempre bem, acredito que virão ótimas cenas das duas, já houve um ensaio. E o Pedro Paulo Rangel? estava um gato de azul e amarelo, quanta elegância! o personagem dele vai ser o interlocutor das duas pelo jeito, estará sempre por ali, espero que dêem espaço para que ele cresça, Pedro Paulo é um ator maravilhoso, e como ele vem aqui às vezes a gente sempre torce para que tenha um personagem excelente. Representar com Fernandona e Glória já deve ser um exercício e tanto para qualquer ator. Cláudia Abreu, lindinha, os outros todos lindos. Eu gosto de ver gente bonita, esta novela vou ver e falo da beleza de Fernanda Montenegro também, um bela senhora, a beleza não está só nos traços e linhas perfeitas. Gosto mais do Tony Ramos agora do que quando era galã, acho que fará bem o personagem dele, em "Cabolha" estava ótimo, ontem achei meio forçado, mas acho que é porque ainda está esquentando.
Mas o que eu mais gostei- e a Globo fez de propósito- foi mostrar a Grécia, o mar azul do Mediterrâneo, o contraste do branco da arquitetura e do azul do mar, a transparência, fizeram até uma cena debaixo da água, pode? Pode , eles são capazes de tudo para seduzir, um beijo embaixo da água, tipo "Lagoa Azul' agora me digam se não foi um sucesso? é claro que foi, eu não consegui tirar os olhos da TV as imagens eram lindas! e as flores da casa da vilã? a decoração? contrataram alguém que entende do assunto, a casa é linda e como disse o Joãozinho Trinta "quem gosta de pobreza é intelectual" hihihi

Adorei, mas como me conheço vou implicar com alguns, achar muitas coisas óbvias, mas com este elenco ninguém tem nada para perder, pelo menos os vemos em cena, já valeu.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Poeminha despretensioso7. Paisagem.


















Ao perceber teus passos
não vejo mais a rua
tuas mãos
suaves
desnudam minha nuca
Um calafrio me percorre.


Encontrei a foto aqui.
Fui procurar saber quem é Vicente Huidobro aqui, vocês conhecem? eu não conhecia.

domingo, novembro 06, 2005

Buena vista Social Club .
























Acordei cansada, o computador me cansa, os ombros começam a doer, tendinite, os olhos andam secos, ardem, por isso não tenho circulado por aí. Gosto muito de visitar os blogs de todos vocês, podem crer, mas estou com um ressecamento nos olhos que causam este cansaço, perdi a receita do médico, tenho que voltar lá. Pela primeira vez na vida perdi uma receita, achei estranho...bom ele me mandou usar um remedinho diariamente durante uma ano que custa a bagatela de mais de cento e quarenta reais, impossível na minha atual conjuntura, ele me deu uma amostra para dois dias, nem usei, é para usar um ano, diz que cura o ressecamento. Este jovem médico chegou de NY há um ano, está fora de nossa realidade, só pode.
Ontem fiz palestra para a Pastoral, para lideres e coordenadores de área, gostei muito, é um projeto maravilhoso, Dra Zilda Arns, é uma das mulheres que mais admiro. falei sobre o que é ser pai e mãe, a função do pai e da mãe.
Fui muito bem acolhida, fiquei muito feliz, coisa difícil aqui nesta terrinha, ser bem recebida, quem for daqui que me perdoe, mas é o que vivencio e ouço das pessoas de fora. Natal é um lugar pouco acolhedor, infelizmente foi aqui que escolhi para viver, gosto da cidade. Agora venta muito, isto também cansa, é muito poeira das dunas no ar, zumbido do vento entrando pelas frestas...
Sai da Pastoral feliz aí vem alguém da família e despeja ódio sobre mim por causa de uma distorção, coisa de gente confusa e neurótica, me fez muito mal, aí me vem `a memória uma infância cheia de rancores, distorções, é triste. Difícil ser feliz num ambiente assim, por isso eu fui tão triste. Eu adoro estar em paz comigo e com os outros, talvez por isso fique tão só com os meus filhotes amados.

Estou ouvindo Buena Vista Social Club adoro, me faz bem.

Outro dia Vi uma entrevista na Globo News com Omara Portuondo, é uma grande interprete e uma bela mulher, falou da falta que sente de Combay Segundo, Ibrahim Ferrer e dos outros companheiros de tantos anos,mas é preciso continuar o projeto, continuar cantando.
Quem não viu o filme de Wim Wenders não deixe de ver, maravilhoso, o grupo ganhou o Grammy e fizeram sucesso enorme com o filme..
Compay foi um dos velhos mais charmosos que vi, era fascinante falando, dava vontade de conhecê-lo.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Ah! que bela imagem!

Contardo Calligaris. A armadilha da corrupção

CONTARDO CALLIGARIS


No fim de semana passado, estive no encontro do Instituto DNA Brasil, em Campos do Jordão. O evento reunia pessoas representativas de várias áreas, para que, durante três dias, debatessem sobre os meios para tornar o país "justo e habitável com dignidade".
Um dia inteiro foi dedicado ao tema da corrupção. A imprensa já relatou as sugestões às quais a gente chegou, consensualmente ou quase: desde o financiamento público das campanhas até o voto distrital misto ou a possibilidade de revogar os mandatos antes do seu fim.
No sábado, bem na hora em que começava a discussão sobre a corrupção, chegou a revista "Veja", com a reportagem de capa sobre o suposto financiamento cubano na campanha do PT de 2002. A pior conseqüência desta série interminável de denúncias e apurações é a aparente "confirmação" de um lugar-comum desastroso: "Eles são todos corruptos" ("eles" são, no caso, os políticos).
Não me importa agora decidir se "eles" são mesmo todos corruptos. Tampouco penso que a imprensa tenha de esconder o que ela descobre só para não "comprovar" que "eles são todos corruptos". Mas o fato é que esse lugar-comum é uma armadilha para nossa capacidade de agir como cidadãos.
Aparte: a reunião do DNA não caiu na armadilha da indignação diante da corrupção generalizada, e esse não foi o menor de seus méritos. Mas a exceção não derruba a regra que vou expor.
Qual é o efeito em nós do "eles são todos corruptos"?
Várias vezes, nos últimos meses, fui entrevistado sobre o estado de espírito dos brasileiros nas circunstâncias atuais. A pergunta, quase sempre, sugeria a resposta esperada: "Quais são os efeitos em seus pacientes da decepção e da depressão nacionais?". Em geral, respondi, preguiçosamente, que, de fato, os acontecimentos são tristes e deprimentes.
Mas essa resposta óbvia (para a qual não seria preciso de um especialista) é falsa.
Em regra, o narcisismo da gente funciona assim: quanto maior a imperfeição do mundo, quanto maior a decepção que nos é imposta pela conduta dos outros, tanto maior é nossa exaltação narcisista. No caso, atrás das queixas, a constatação de que nossos representantes e governantes seriam todos corruptos está longe de ser depressiva.
É lógico: acreditar que os outros sejam todos deficientes morais é o melhor jeito de afirmar que nós, ao contrário e em comparação, somos gigantes da moralidade.
Contemplar o mundo como um vasto teatro de defeitos equivale a erigir um monumento à nossa suposta integridade, graças ao seguinte raciocínio implícito (capenga, mas gratificante): se podemos constatar que todos os outros são corruptos, é porque somos os ÚNICOS limpos. De repente, confirmar nossa grandiosa unicidade se torna nossa ocupação principal. Com isso, é paralisada nossa capacidade de transformar o mundo.
A psicologia do self (esta foi, ao meu ver, sua maior contribuição à psicanálise) mostrou o seguinte: temos acesso ao mundo e a uma ação minimamente eficaz para transformá-lo quando paramos de contemplar sua imperfeição (celebrando a unicidade de nossa diferença) e enxergamos na realidade algo (diferente de nós) que possamos idealizar.
Por exemplo, se vivo numa cidade em que acho horríveis todas as habitações salvo a minha, dedico-me integralmente a caiar de branco a fachada de minha casa, na qual, aliás, fecho-me como num sepulcro. Mas se reconheço que, na cidade, há outras moradias que são mais bonitas do que a minha, há chances que um dia eu queira sair de pincel e vassoura na mão para pintar de branco as fachadas da cidade inteira e para lavar as calçadas.
O que vale para as casas vale para os outros. Se acho que todos os outros são imperfeitos, considero-me como a única exceção, torno-me meu próprio ideal, ou seja, só idealizo (e amo) a mim mesmo. É a razão pela qual, em geral, um terapeuta se abstém de julgar moralmente seus pacientes: quem julga está quase sempre mais preocupado em comemorar sua própria integridade do que em entender o outro.
Em suma, as denúncias que assolam nosso cotidiano podem dar lugar a uma vontade de transformar o mundo só se nossa indignação não afetar o mundo inteiro. "Eles são TODOS corruptos" é um pensamento que serve apenas para "confirmar" a "integridade" de quem se indigna.
O lugar-comum sobre a corrupção generalizada não é uma armadilha para os corruptos: eles continuam iguais e livres, enquanto, fechados em casa, festejamos nossa esplendorosa retidão. O dito lugar-comum é uma armadilha que amarra e imobiliza os mesmos que denunciam a imperfeição do mundo inteiro.


Nota . Alguns conseguem contemplar e lamentar a imperfeição do mundo sem se gabar de sua própria perfeição. O melhor exemplo (e o mais raro) são os santos. A santidade não consiste só em reconhecer suas próprias falhas ou em perdoar as falhas dos outros. O santo, além disso, enxerga a imperfeição do mundo, mas continua encontrando razões para amá-lo, ou seja, continua encontrando seus ideais lá fora, na banalidade imperfeita dos outros.

quarta-feira, novembro 02, 2005

Cenas de uma varanda II

Lá vem um sofá
sobre uma charrete
Dorme o menino
sobre o sofá.
Embalado
pelo
trote
lento
do
jumento
lá vai o menino
dormindo sobre o sofá.
Será que lembra da mãe
o menino no embalo
do jumento sobre o sofá?

terça-feira, novembro 01, 2005

Cenas de uma novela e adendo de aviso.































Cenas da novela das oito, que está acabando, de Glória Perez não resisto:
Sol suplica à Nossa Senhora e o céu se abre em azul, encontra a praia em Miami.
Tião em coma, nunca esteve tão bem, meu filho disse outro dia, maldade...
Tião encontra-se no purgatório, um tunel que não tem a qualidade Global, tão conhecida, tão estranho, entre o Bem e o Mal,
o Bem: Nossa Senhora( uma linda atriz negra que nunca sei o nome, vive sorrindo desde a última novela onde era a amiga da Adriane Esteves e namorava o Mauricio Mattar, já sabem quem é, não é? deve ter motivos para sorrir tanto mesmo nas cenas dramáticas),
o Mal é Juliana Paes linda, sexy e provocante, Nossa Senhora Aparecida diz:
- Você que sempre pecou pela carne, meu filho, se passar pelo portão do Inferno não mais retornará. (ou qualquer coisa assim).
Perai, até a Glória Perez?
Na novela das seis é uma pieguice só, almas gêmeas, reencarnação, etc e tal, um elenco que dá vontade de chorar, a direção escolheu a dedo, só o casal cheio de tesão convence- Malvino e a dona do restaurante. hihihi só rindo.
Triste.
Nunca desejei tanto que uma nova novela entrasse no ar, entra dia 07/11 chama-se " Belíssima", no elenco: a diva Fernanda Montenegro, Cláudia Abreu(linda e talentosa), Glória Pires, sempre bonita e bem em todos os papéis, Cláudia Raia, sexy, Giannechini, lindo, nosso amigo daqui do blog Pedro Paulo Rangel, Marcelo Anthony, precisa mais?
Ah! e a escolha do elenco é de Denise Saraceni, não é preciso dizer mais nada. A Globo erra mas não insiste no erro, não é burra. Chega de bobagens insuportáveis.
Meu filho diz: "por que você vê se você diz que é horrível?" Juro, chega a ser divertido ver aquela baboseira toda.O melhor é o "Casseta" quando entra em seguida, Maria Paula vesga é demais, a ceguinha, o ceguinho,é muito engraçado. Olha não tenho nada contra os especiais, viu? pelo contrário, mas aquele programa...


Pedro Paulo Rangel está na peça "Soppa de letra" e avisa:

SOPPA NEWS

Estaremos nos apresentando no SESC em Brasília, na próxima sexta-feira, dia 4 de novembro.
A lotação é pequena, apenas 200 lugares.
Espero vocês lá!
Soppa de letra

Entre bruxas e sacis












MARCIA CAMARGOS e VLADIMIR SACCHETTA

Para quem ainda não sabe, 31 de outubro é o Dia do Saci, oficialmente instituído em São Paulo nos âmbitos municipal e estadual. Os projetos de lei de Aldo Rebelo e Ângela Guadagnin para estender a data a todo o território nacional tramitam em conjunto na Câmara dos Deputados e despertam muita polêmica. Alguns alegam que diante das chamadas pautas de relevância pendentes na agenda do Congresso eles soam supérfluos, exóticos ou até mesmo risíveis. A esses, lembramos que o processo legislativo democrático pressupõe iniciativas sobre os mais diversos temas que, só depois de avaliadas em sua pertinência e constitucionalidade, viram leis. Quanto ao Dia do Saci, já aprovado pela Comissão de Educação, é fundamental entender o que está por trás dele.
A idéia da sua criação partiu do grupo que em 2003 fundou a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) para resgatar nossos mitos e difundir o folclore. E a escolha do 31 de outubro não ocorreu por acaso. Numa estratégia para confrontar o Dia das Bruxas, que tem ocupado com força crescente espaços do imaginário, pretende sensibilizar pais e educadores sobre a necessidade de (re)descobrirmos as tradições populares, oferecendo às crianças e jovens alternativas lúdicas e divertidas.
Símbolo de resistência aos estrangeirismos, o saci congrega elementos multirraciais que configuram o povo brasileiro. Nascido tupi-guarani há 200 anos na zona fronteiriça com o Paraguai, incorporou feições africanas e um pito de preto velho no contato com os escravos. E, se perdeu uma perna para representar o ser humano mutilado pela violência do cativeiro, ganhou o piléu vermelho, emblema da liberdade na Roma antiga -que se converteria no barrete frígio adotado pelos republicanos após a Revolução Francesa de 1789.
Já o Halloween tem origem nos rituais do norte da Europa que celebravam o final das colheitas, antecedendo um longo período de inverno, quando os celtas invocavam seus ancestrais e homenageavam os mortos. Com o tempo, a Igreja Católica absorveu o festival pagão, convertendo-o em Dia de Todos os Santos (All Hallows" Eve), seguido por Finados. Restrito à cultura anglo-saxônica, o Halloween ganhou popularidade no século 19 com a imigração irlandesa para os EUA e começou a ser comemorado no Brasil há cerca de 20 anos, principalmente nas escolas de inglês. Logo tomou os colégios particulares, a rede de ensino pública e as lojas, que passaram a suprir um mercado ávido por produtos e modismos importados.
Esse hábito de "macaquear" o que vem de fora foi detectado por Monteiro Lobato já nas primeiras décadas do século 20, quando Paris se impunha como modelo. Em artigos inflamados, o escritor não se cansava de denunciar o desenraizamento cultural do país, chamando a atenção para a estatuária de ninfas, faunos e anõezinhos nibelúngicos nos parques públicos como o Jardim da Luz, no centro da capital paulista, em lugar de boitatás, iaras ou sacis.
Ciente da importância do saci como portador de múltiplas significações, Monteiro Lobato realizou em 1917 uma pesquisa para estabelecer os contornos antropológicos do "insigne perneta". As conclusões foram lançadas em livro na fase mais cruenta da Guerra Mundial que assolava a Europa, paradigma de civilização aos olhos da elite intelectual da época. Contrapondo à barbárie do conflito um personagem negro, travesso e de uma perna só, "O Saci Pererê: Resultado de um Inquérito" vinha, segundo Monteiro Lobato, despertar consciências adormecidas. Assim como o Jeca Tatu, síntese de um heroísmo silencioso que morre, mas não adere, o saci seria revelador da alma de nossa terra e da nossa gente.
Nunca é demais salientar que referências mitológicas ajudam a firmar a identidade de uma nação. Contribuem para costurar a memória coletiva, reforçar os liames do tecido social, mostrando que fazemos parte de um todo, que temos uma história em comum.
Na medida em que imitamos efemérides de outras culturas de maneira simplória, nos tornamos vulneráveis. Não se trata aqui de endossar posturas xenófobas, mas sim de reivindicar uma troca de mão dupla, que inclui a possibilidade de povoar com sacis o Central Park de Nova Iorque e o Hyde Park de Londres. E, a exemplo de Oswald de Andrade, promover um grande ritual antropofágico de deglutição das abóboras, que traduzem o que há de pior na geopolítica do novo milênio.
No mundo globalizado, ridículo não é acreditar no saci e em tudo o que ele expressa. Lamentável mesmo é se fantasiar de bruxa, em uma atitude de submissão ao colonialismo enlatado, sedimentando o que Silvio Romero dizia se tratar de nosso maior mal: pretender ser o que não somos, trazendo, em contrapartida, o desconhecimento de nós mesmos.

Texto enviado por Ana Carranza.
Minha queridas amigas "americanas" me perdoem, mas achei o texto bom para reflexão, não sei se é exagero, mas acho que é bom a gente pensar um pouquinho nestas assimilações que fazemos de outras culturas. Aqui as menininhas do condomínio estavam vestidas de bruxas pedindo doces nas portas. Penso que não faz mal, mas também não leva a nada.

Viva Clodoaldo dos Santos!















Vocês conhecem o Clodoaldo? é daqui de Natal, é de família muito simples, mora num bairro muito pobre o Mãe Luiza, é paraplégico e campeão olímpico, ganhou sozinho o maior número de medalhas da Olimpíada. Ele acaba de ganhar mais prêmios, o prêmio dos prêmios,não só pelo sucesso nas piscinas, mas pelo comportamento fora dela. Parabéns! Natal deveria estar em festa, não vi nada nos jornais on-line daqui.