sábado, setembro 03, 2011

Relendo cartas






Aqui mais uma carta do meu amigo Pimenta, que me amou intensamente sem nada pedir- se você quiser ler mais cartas e poemas dele encontrará em posts anteriores, (início do blog em 2005).

Abri a pasta cheia de poemas e encontro esta carta, é de doer. Ele morreu um pouco depois de aneurisma, ou doença de Chagas, não sei, não importa mais, tinha menos de trinta anos, era engenheiro e poeta.

A saudade não dói mais, faz tantos anos, mas eu sinto falta ainda dele- é incrível.

Estudamos juntos Integrais e derivadas, Luc estuda agora em engenharia, eu vejo e lembro do Pim, fazíamos exercícios e mais exercícios, enchíamos cadernos de Integrais, limites, estas coisas- eu adorava estudar matemática, álgebra- talvez por estudar com ele- que era tido com gênio por todos, só tirava dez em tudo.

Depois, quando fomos fazer nossos cursos superiores, ele foi para Niterói, eu para o Rio. Passamos a nos ver muito pouco. Eu tinha um namorado, o A., e Pim acabou casando, mas nunca deixou de me escrever- escondia minha existência da mulher- eu era uma fantasia.

Ele me escrevia- e eu a ele, várias vezes por semana, então até hoje, muitas vezes, quando olho para o chão perto da porta, ou vejo uma cena num filme, me lembro dele- cartas no chão. Eu recebi muitas, muitas mesmo, durante anos. Levava na bolsa para a faculdade, relia, são muito lindas.


Niterói, 13 de março.



Lian querida


Você está linda. Assim na carta, o caminhar estranho em chão de pedras, o velho, seu livro, deram-me uma sensação de desencontro em mim mesmo, o que você deve ter sentido também, um analfabeto acharia sua carta bonita, a letra, o jeito feminino ( aliás esta mulher –total em você até me assusta, porque não se dá,não se conhece) de tudo, lembrando seda/rosa, quietude e horizontais. Eu não posso falar destas coisas, não, eu não posso, porque existe a promessa de uma nitidez e coerência, apego ao aparente –real e o encanto me leva a desvarios, e as palavras embriagam. Mas, que fique a proposição : Lian, você é linda.
A morte, suas redondezas, radijacências. Nós estamos computados. Não creia na data/fim, ela é medo apenas. Eu a vi no espelho hoje, branca, trêmula, sardenta, ruiva: roubara-me a figuração. Caratonhei, vias de dúvida- ela mesma suarenta, querendo sentar. Eu não costumo aceitar ordens da morte, mesmo quando me leva amigos e mestres conhecidos. E ouvi dizer: espera. Entende? Não há porque, janelas abram-se em plenilua. Meu anjo.
Ah, Lian, quanta forquilha, quando se espera! Deixa estar.
Vou escrever para você- a que me ouve,a que não tem medo de dizer amizade. Meu anjo, ainda te conheço qualquer dia desses!
Um beijo,
Pimenta.


PS: Sou um imbecil, mas não vem ao caso. Em miúdos: até hoje não sei falar com você. Aceita uma visita?

2 comentários:

Maíra da Fonseca Ramos disse...

Passando por aqui para conhecer seu belo espaço!

Diz disse...

Obrigada, Maíra, fico feliz qdo as pessoas gostam daqui. Seja bem-vinda.