sexta-feira, janeiro 08, 2010

Um dia, uma mãe...


Clique duas vezes que aumenta.

Vou contar para vocês: la vida acá con mi madre requiere mucha paciencia.


Eu acordo relativamente cedo, lá por oito horas, oito e meia- antes acordava às sete, ando cansada- ela já está acordada e me diz que a pia estava suja (algumas louças deixadas pelos netos), que não gosta de sujeira pblá blá blá Respondo que eu também não gosto. Imaginem, eu fui uma Neurótica Obsessiva de livro- hoje não mais- mas a sujeira me incomoda muito- passo o dia limpando esta casa.- até gosto de me mover, saio daqui do computador, me distraio.


Ai vem o preparo do almoço: ela não come carne, nem suporta alho. Sobram legumes, verduras...

É preciso fazer feijão com alho e sem alho. Arroz sem tempero algum. Não posso colocar shoyo- nunca provou nem quer. Cebola só grandinha para ela poder retirar do prato. Felizmente gosta de arroz e batatas hihihi e ovos! Também gosta de um vinhozinho, azeitonas, bons queijos. Onde moro não tem nada perto que preste, é preciso ir mais longe para comprar. Hoje fiz uma berinjela ótima, com azeite e tomate, não comentou- gosta de dizer quando está ruim. Hihihi


Estou rindo, é melhor assim.


Pior é que passa a maior parte do dia sentada na poltrona falando mal dos homens, de meu pai- que foi uma figura maravilhosa: “Nenhum homem presta, são todos iguais...”

Diz também que sente-se num deserto aqui, que gosta de ver gente, mas se sair fica exausta, volta arriada, reclamando que o trânsito é horrível, que aqui é longe demais-10’ dos bairros onde freqüentamos- Capim Macio ou Ponta Negra.


Outro dia ela disse: Espirrei duas vezes hoje!

:)

Não tem pressão alta, nem glicose alta, nada orgânico, mas tem dor nas costas- caiu e quebrou duas costelas- tem que conviver com a dor. Sei que é difícil.


Este ano ela caiu treze vezes- o remédio que tomava a deixava zonza. Não toma mais.


Aqui em casa, vive bem, come comida saudável-adora comer bobagens. Fizemos mudanças nos quartos, está no lugar que menos venta, um quarto grande- era o de Luc, que passou para o de Dan, que foi para a sala zen. Nada disto ela vê. O quarto tem um banheiro- é uma semi suíte.

Ela sobe a escada- eu queria colocá-la aqui no meu escritório, mas não quer- lá é mais acolhedor. Aqui é junto da sala....

Gosta de ler, lê muito, está aqui há dois meses e já leu uns oito livros- verdade- só bons livros. A biografia de Clarice Lispector ela devorou, levou uns três dias ou menos.


Ela quer atenção o dia todo. Se tiver alguém para ouvi-la fica ótima, tem muitas histórias para contar- é excelente escritora- não quer mais escrever. Eu digo: Coloque estas coisas no papel, mãe. Não quer, diz que cansou de escrever. Foi amiga de muita gente conhecida, intelectuais, gosta de contar, peço para escrever- nadica.


Hoje dormi de tarde, ando exausta. Quando acordei- dormi das quatro às seis- ela está estranha, voz implicante. Outro dia eu tive um piti e disse que são todos egoístas, não vêem o meu lado, que me esforço para estar bem, para dar conta de tudo.


Algumas pessoas pensam que a minha vida é fácil, outros que sou depressiva demais. Nem uma coisa nem outra. Sei curtir o que eu gosto, procuro me defender do que me faz mal- algumas vezes em mim mesma.

Chega de alugar vocês.

Boa noite.

Bom dia, Madoka e outros que estão do outro lado do mundo.

Obrigada a todos por me ouvirem. Preciso desabafar.


Reli isto e achei tão bonito:

“Uma bonita expressão francesa designa esses espaços como "salles des pas perdus", com ou sem hífen, que significa "salas dos passos perdidos".”

É de um artigo do Contardo Calligaris. Ele se refere a salas de espera, saguões de aeroporto... Francês é tão poético, não é, Leila?


Obrigada a todos pelo carinho, pelos votos de feliz ano novo, ando sem tempo e dispersa-tonta,sento aqui para agradecer e esqueço... Maluquinha :) Mas sou grata a cada um de vocês, podem crer.

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Laura,

lembrar que mãe é uma só, e que TODOS nós, um dia, passaremos por isso! Vale a pena TODO sacrificio, que na verdade nunca é muito, perto do que a ELAS fizeram por nós!

Bjs

Olavo disse...

A convivencia é algo dificil mesmo..e quando vamos ficando mais velhos pior ainda..o jeito é paciencia.
Bjs bom final de semana

nogflavia disse...

Feliz Ano Novo!
Continue falando em "voz alta" (escrevendo) seu desabafo! Tão bom de ler. E com certeza, fica mais leve.
Eu lembrei do Sr. Anselmo e D. Lourdes ( 94 e 89 anos, respectivamente). Eles foram no meu trabalho. E ele todo falastrão, contando mil histórias. D. Lourdes resmungou: " Em casa, ele só reclama, reclama, reclama. Aqui... vixe... fica todo soltinho!" Haha.
Uma graça de casal.

Leila Silva disse...

Bonne nuit, madame. Torço para que as coisas melhorem para você...Me identifico com muitas dessas coisas, sabe? Nem sempre (quase nunca) tenho coragem de desabafar no blog, como você faz. Acho que tem gente da família lendo, ou alguns amigos (inimigos não tenho, mas tem gente que eu preferiria que não lesse). Enfim, acho que sou assim complicada como você.
Quanto ao francês eu sou suspeita...rs, gosto muito da língua e agora lendo Yourcenar me apaixonei mais ainda.
Bises

Eduardo P.L disse...

Diz, como só faltam dois dias para o termino do prazo para cumprimento das TAREFAS da BlogGincana de Dezembro, gostaria se pudesse fazer o seu pot para que o ultimo inscrito ainda tivesse tempo para adaptar o fim. Digo adaptar, porque ele se adiantou e postou muito antes de sua vez, um fim para a Blogstória!
Antecipadamente agradeço. Sei que esta com a vida corrida! Mas peço, mais este esforço. Bjs

Anônimo disse...

Laura querida, concordo com todos os seus leitores especiais aqui. O seu desabafo é realmente muito bom de ler, e outra, nos faz refletir sobre o que vc comenta, sobre nossas vidas também. Eu não sei se é característica dos orientais, mesmo sentindo dores, não são de reclamar muito, sofrem em silêncio, exemplo minha avó, e meus pais. A uma certa altura da idade, eles voltam a ser como crianças né? Parecem meus filhos, eu gosto, ou não gosto disso. Enfim, continue com os seus escritos .
bjs
madoka