quinta-feira, janeiro 28, 2010

"Ave Maria, Gratia plena"




Hoje quando li o Contardo fiquei tocada –alguns artigos me atingem mais que outros. Este gostei especialmente. Não é a primeira vez que ele fala sobre a arte e o apreciar a natureza, se não me engano.
“Oscar Wilde afirmava que o pôr do sol só passou a existir com as pinturas de William Turner, no começo do século 19; era um jeito de dizer que a natureza está lá desde sempre, mas é a arte que nos ensina a enxergá-la”.
Eu tenho visto, quase todos os dias, o entardecer da minha varanda. Algumas vezes me distraio e o sol não está mais lá. Armo a rede e fico olhando o sol sumir deslizando- tão rápido... Ontem era uma bola de fogo, mas quando cheguei na varanda não o via mais inteiro. Era preciso não desviar o olhar para absorver melhor a cena bela e efêmera.

Houve um tempo em que me entristecia ao anoitecer. Lembro que ousei escrever uma cartinha para Drummond onde ensaiava um poema sobre o crepúsculo- hoje me envergonho, deve estar no meio da correspondência dele- que vexame! Mas não foi tão desabonador assim, ele continuou meu amigo RS

À hora da Ave Maria o sino da Igreja da rua Silva Jardim em Curitiba soava, na rádio a música: “Ave Maria... Gratia plena...” Minha avó paterna, uma portuguesa de saia longa preta, chorava a morte da filha. Todos os dias. Era a hora em que nós, crianças, ficávamos perto dela, na saleta, na janela, e ela chorava. Vivia nostálgica. Não era amorosa com os netos. Uma mulher fria, seca. Uma única vez foi amorosa comigo- quando fui me despedir e ela sabia que não nos veríamos mais. A morte se aproximava, ela intuía. Foi quando eu fui morar no Rio.

Hoje eu gosto do anoitecer- a manhã é mais difícil- fico ansiosa, coisas para escrever, ler, e-mails para responder- almoço para providenciar... Quando o sol se põe eu relaxo, não há mais ansiedade, nenhuma expectativa- nada- apenas o fim do dia.
Interessante que é o momento em que consigo sentar e ler- coisa que não está sendo fácil. Lógico que neste momento não tenho mais solicitações- a funcionária já se foi com seu ruído alegre, (gosto dela), água já foi comprada, os filhos estão espalhados por ai, a mãe recolhida ou vendo TV.

Estou lendo o livro sobre Clarice, leio aos poucos. É muito bom. Ele se repete um pouco, mas não me incomoda.
Li que Clarice fez análise com Inês Besouchet, por indicação de Helio Pellegrino.
Coincidência: uma vez, há muitos anos, eu telefonei para o Helio e disse que estava sofrendo muito por causa de uma paixão avassaladora. Queria fazer análise com ele. Respondeu: Ah! Este assunto é bom para a Inês. http://www.submarino.com.br/produto/1/13519/
Liguei para ela, não tinha hora. Foi gentil e me indicou Regina Landin- como me lembro do nome dela agora não me pergunte. Esta também não tinha hora e me indicou Nilza Rocha. Fiz muitos anos de análise com ela. Me virou ao avesso. Eu já tinha muitos anos de análise, alguns muito bons, outros, tempo jogado fora, ela resgatou em mim a possibilidade de ter filhos- que estava sob impacto- reprimido por um trauma infantil.
Pois é, o texto do Contardo me lembrou tudo isto e muito mais, mas paro por aqui.
Chega de umbigo por hoje.

Não fiz revisão.

6 comentários:

Maria Muadiê disse...

Eliane, o final da tarde também me enchia de tristeza, e pior, muitas vezes de angústia.
Hoje isso está bem melhor...
Também estou lendo o livro sobre Clarice, é mesmo, ele se repete,e eu esperava mais do livro. Mas estou grudada nele e esta leitura está mexendo muito comigo. Vontade de chorar, algumas descobertas(minhas) e uma boa dose de angústia.
um beijo

Diz disse...

Martha, o livro mexe comigo tb- Clarice mexe demais comigo.
E tem o Rio, a história do Brasil, os amigos dela que eu sei quem são, fico curiosa em saber mais sobre todos. E a tristeza de Clarice, a escritora angustiada, a mãe sofrida, a mulher insatisfeita- amada por muitos e infeliz. Tts coisas, né?
Bjs Elianne

Beatriz disse...

tantas coisas, né? não dou conta. não damos.

vou aí, sim, aproveitar dessa varanda, me aguarde! não conheço Natal. Domingo eu estava com uma amiga q esteve aí e adorou a cidade, disse q teve vontade de ficar.
Salvador está bem complicada, cresceu muito, a desigualdade imeeeensa, etc...etc...

alexandra disse...

Antigamente a noite também me causava tristeza. Agora já não. Tive uma filha linda há 4 meses.
Lembra-se de mim ?Alexandra - Portugal

Diz disse...

É Martha ou Beatriz? :)
Respondi p Beatriz,mas acho que foi a mãe, né?

Alexandra, parabéns e felicidades com sua filha, que te dê mtas alegrias.

Leila Silva disse...

Eu também gostei muito do texto do Contardo, e adorei o seu.
Abraço