sexta-feira, outubro 23, 2009

Drummond e eu- Arquivo




Desde o início do blog venho lembrando o Drummond, o Carlos, tenho muito cuidado ao falar de Drummond, é uma pessoa muito especial.

Eu e Drummond nos cruzávamos nas ruas de Ipanema. Ele em direção à rua Barão de Jaguaribe, eu em direção à Rua Visconde de Pirajá. Durante anos nos cruzamos. Eu dizia: “Boa tarde, poeta” e seguia. Ele olhava timidamente e respondia. Nossos horários coincidiam- lá pelas três da tarde (engraçado, é o titulo de um conto do Raduan). Drummond, depois me contou que ia visitar uma pessoa, que ele namorava há 30 anos. Dizia gaiato: Se você somar os anos de namoro e de casamento dá mais de 80 anos, minha idade.

Em 1982 a imprensa festejou seus 80 anos. Pensei em escrever uma carta e lhe entregar, mas um dia- nestes meus rompantes- eu o parei e disse que queria cumprimentá-lo pelo aniversário. Ele disse qualquer coisa que não lembro- tipo: eu não mereço. Ele costumava dizer estas coisas-dei um abraço e segui cheia de ansiedade em direção ao meu consultório- o pior é segurar a ansiedade sem poder falar com ninguém até encontrar um amigo, não é?
Lembram da piada do cara que está numa ilha deserta com a Sharon Stone? Para os clientes não podia contar.

Continuei mais dois anos, eu acho, só o cumprimentando, até que um dia eu estava mostrando meus desenhos para Creuza- uma atriz que tinha um restaurante de comida caseira na rua Barão da Torre. Lembro que comprou uma aquarela de uma fatia de melância- nunca mais repeti o desenho. Drummond passou, lá pelas 6 da tarde, eu o chamei e disse que queria lhe dar um desenho. Ele olhava e dizia: "Não posso aceitar, são muito lindos. Você poderia fazer ilustração de meus poemas eróticos...”. Argumentei dizendo que ficaria ofendida se ele não aceitasse, que era um prazer lhe dar um de presente... Aceitou, pegou meu endereço e telefone e saiu apressado-mais apressado que ele só o Chico Buarque- este eu não tive a ousadia de parar, nunca, never. O que faria com Chico na frente? Ficaria deslumbrada e infartava!

Dez dias depois recebo pelo correio o poema “O que se passa na cama é segredo de quem ama”. Lindo poema erótico. Fiquei sem saber o que fazer, liguei ansiosa para meu amigo Chico que disse: ”Ligue para ele”. Perguntei ao poeta se o poema era para eu ilustrar ou era simplesmente um presente, respondeu que era um presente, mas que se eu quisesse poderia ilustrar.

Aqui começou uma bela amizade. Eu não ilustrei seus poemas. Ele dizia: “Não vou publicar senão dirão que sou um velhinho tarado”. Tarado não sei, mas sacana era. Drummond me constrangia no telefone, fazia perguntas íntimas cabeludas, eu não queria responder, ele retrucava: “Mas você não é psicanalista?...”
Para não entrar em detalhes, conto uma historinha que ilustra bem isto.

Um dia o encontrei com a filha na rua Farme de Amoedo, em frente à loja Forma que vende móveis importados. Após as apresentações, ele disse: "Minha filha, a Elianne é psicanalista. Elianne me diga o que significa comprar cadeira?" Eu respondi: “Deixe de brincar, Drummond...” Ele, rapidamente emenda: “Comprar cadeira para ficar ereto”.
Uma outra vez me telefona e diz que fez uma crônica para mim, que a personagem da crônica mora numa cobertura, aí diz: ” Você sabe o que é cobertura? É o que os machos fazem com as fêmeas no cio”. Assim era o Drummond que eu conheci com mais de 80 anos, imaginem antes como não seria? Quando comecei a escrever sobre ele aqui hoje, escrevi que nos cruzávamos pelas ruas, fiz de propósito lembrando dele.

Ele me confessou que sentia desejo por mim, apenas o corpo não respondia mais, e disse uma coisa que me faz muito feliz, afinal ele tinha mais de 80 anos: “Você foi um sangue novo em minhas veias”.
Drummond é mais um dos meus casos impossíveis, a diferença de idade era muito grande e eu não o via como objeto de amor.
A vida me deu vários casos impossíveis, o maior talvez o Jean Guillaume, mas é outra história, outro caso.
Devo ter sido uma amante terrível na outra encarnação, vim pagar os pecados, desejando e sendo desejada por homens impossíveis. Grandes e complicados amores. O pior é que não acredito em reencarnação...

Por hoje chega, outro dia continuo a contar minhas histórias com Carlos Drummond de Andrade.

Mais historinhas aqui e aqui

O poema que ele me mandou:


O que se passa na cama


(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.


Faz bem para a alma, não faz?

Um comentário:

Ilana disse...

Eu engoli o texto. Até agora ñ acredito. Você realmente conheceu ele? Putzz.. putzzz.. e putzz...
Tudo o que eu li estava lindo, o seu texto, o poema, as imagens produzidas por minha mente...

Enfim, deixa eu parar...


abrs