terça-feira, outubro 21, 2008

Conto 'As pedrinhas transparentes'

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20/10/2008

Autor: Laura Diz

As pedrinhas transparentes


Aos domingos, na praia, catava pedrinhas, escolhia as brancas e as transparentes.
Um dia um homem se abaixou e lhe deu uma. Seguiram assim catando pedrinhas. Acompanhou-a até sua porta, despediu-se com um ‘até domingo’. Ela sentiu algo diferente. Há muito não tinha contato com homens.
Esperou ansiosa o domingo. Saiu antes da hora de sempre, da calçada viu o homem na beira mar. Foi em sua direção, tímida. Será que a reconheceria?
Ele foi cordial, logo seguiram caminhando. Falavam pouco, ela desacostumada de falar, ele só dizia o essencial.
No terceiro domingo, ele entrou em sua casa. Ela havia se preparado, sabia que ele viria. Se amaram ali na sala, no chão sobre a colcha que cobria o sofá. Ela desejou que o tempo parasse. Desejou aquele homem na vida dela.
Enquanto ele se vestia, pegou um copo de conhaque que o ex- marido usava, colocou as mais belas pedrinhas dentro, sobre elas um caramujo que guardava, entregou a ele de presente. Ele não disse obrigado, apenas olhou com olhos de surpresa. Quando se despediram ele disse: “Até mais”, não sabia bem o que ele queria dizer. Intuiu algo ainda indefinido. Sentiu-se estranha, talvez não devesse ter-lhe dado nada. Mas, e se ele voltasse mais tarde? Era domingo, poderiam sair, gostaria de ir até a Livraria Cultura no Paço Alfândega*, mostraria para ele o lugar que prefere ir.
Nada sabia dele, nem onde morava ou o que fazia. E se não gostasse de livros? Sabe que gosta, intui que ele é como ela, o jeito misterioso é de quem ama livros.
No domingo seguinte ele não estava na praia. Pensou tantas coisas: poderia estar viajando, doente, viria mais tarde...Quem sabe? Mas ele não veio. Esperou até o pôr- do- sol, até sentir frio.
Os domingos passaram a ser sombrios, já não o buscava mais entre outros rostos, caminhava até a livraria e ali ficava até cansar. Era seu refúgio.
Não se importa mais com as pedrinhas, às vezes vê uma muito linda, pega, olha, então, devolve para o mar.

*Recife- PE

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