terça-feira, abril 10, 2007

Mini conto

























Holofotes


Naquela tarde havia um movimento diferente no portão. De longe notou que eram da imprensa. Não sentiu medo, nem susto, apenas surpresa.
Cumprimentou um estranho que fumava na varanda e foi entrando na casa tão conhecida como uma intrusa. Ele estava no escritório, sob holofotes. Um repórter o entrevistava. Esgueirou-se entre fios, recostando-se na parede lateral. Mal o via dali. Ouviu quando disse que lançaria um livro em breve, uma novela, um diretor amigo pediu que escrevesse. Será filmada no próximo ano, disse orgulhoso.
Suas palavras a atingiram como lanças.
Por que não falou do livro? "Ficarei em silêncio estes dias, não estranhe", dizia. Acostumada ao pouco que recebia, não o questionava.
Quanto dela estaria no livro? Sentiu um calafrio.
Não esperou a entrevista acabar. Saiu de fininho. Anoitecia, a casa estava escura, acendeu apenas o abajur da sala. Parou na porta, olhou a sala, pousou os olhos em cada objeto, gostava daquela sala, tudo ali tinha uma história. Pegou um ex-voto, guardou no bolso, ele saberia que foi ela quem levou. Sabia que não voltaria mais.
Despediu-se de Zampanô, o vira latas, que a acompanhou até o portão. Sentiria sua falta. Não olhou para os dois homens que conversavam recostados no carro. Não queria que a vissem aos prantos.

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