Há dias venho pensando em dividir com vocês o que venho sentindo. Acentuou-se com a morte do meu cãozinho, Dersu Uzala, dia 15 de abril. Ele se foi tranquilamente. Eu havia chamado meu outro filho, que não mora comigo, para vir despedir-se e ele morreu com o carinho dele e de todos. Foi bonito. Parecia que havia esperado Lucas para ir embora. Ele era muito velhinho, mas bastante alegrinho, ágil. Viveu uns 15 anos, o que é bastante. Não sabemos sua idade exata porque veio de uma tutora irresponsável; enfim... deu muito amor a todos.
Está enterrado no jardim, embaixo da minha janela. Continua perto.
Tenho sentido lutos contínuos — OK, "c'est la vie", mas penso que a morte está presente em excesso no meu pensamento e contagiou a família nuclear. O netinho pergunta muito sobre a morte; falamos sobre o tema desde que minha mãe vivia, porque ele precisava ser preparado para isso. Foi triste e penoso assistir ao fim de minha mãe. Nos últimos cinco anos dela, que se foi há dois anos, houve muitos momentos em que parecia o fim, mas ela "ressuscitava", como eu e a cuidadora dizíamos, até com graça, porque era um susto e um alívio. Enfim, num dia 2 de março, ela se foi. Não chorei quando a vi morta na cama, fechei seus olhos, cobri seu rosto. Antes do caixão ser fechado tive uma crise de choro que me surpreendeu. Ali lamentei tudo que eu vivi com minha mãe, uma mulher extraordinária, culta, inteligente, forte, mas cruel comigo. Foram dias difíceis de convivência, até porque eu também sou uma mulher forte. Ela não queria ceder diante da fragilidade da velhice, era arrogante e amarga e odiava estar submetida aos meus cuidados, direta ou indiretamente.
Nesses últimos anos venho tendo problemas de saúde, nada gravíssimo, mas chatinhos, que me impedem de ter minha rotina de exercícios físicos de forma contínua. Isso me aborrece bastante. Estou cada dia mais reclusa, uma tendência, desde menina. Desejo de sair… zero. Prefiro sempre permanecer em casa, o que me torna um ser cada dia mais antissocial.
Gosto de sair para a academia, sim, lá é tudo superficial, um ambiente diverso, onde me distraio observando as pessoas- sou super observadora- obsessivos são controladores e veem tudo. lá a música pop não me aborrece, a música me lembra a juventude, lá sou mais jovial. verdade! Agora reconheci isso. Também lá sou querida e tida como uma velhinha especial porque sou muito agradável, sim, socialmente sou muito leve e divertida, sempre. Parece uma contradição com minha mente profunda e pensativa, mas sou sempre divertida nas conversas. não sei de onde vem isso, acho que do meu pai, um homem muito sério, mas muito gaiato, sou gaita, diria, também um tanto desbocada. Aqui sou a única que solta uns palavrões, o netinho me reprime, aí o filho justifica que é porque sou adulta, ou velhinha- velhos são perdoados pelas asneiras que falam, não é?
Voltando aos lutos: viver muito tempo traz muitas perdas, perdem-se amigos pelo caminho, pela morte ou distância, perde-se o desejo por muitas coisas antes relevantes- isso muitas vezes traz mais tranquilidade- velhos não estão em busca de amores, prazeres diversos. Há quem discorde. O corpo, ah! o corpo... onde aquele corpo que era desejado e amado? Onde aquela pele de pêssego tão admirada? Eu sempre aceitei meu nariz feio, minha falta de queixo, a barriguinha sempre presente, mas hoje sinto que perdi o controle do corpo. Não há como voltar atrás, antes era possível, uma dieta, uns meses de exercício e ok, estava razoável, agora não dá para disfarçar a flacidez dos braços, a barriga que insiste em não diminuir... As pálpebras caídas... Estarei sendo fútil? Não creio, acho que todos sentimos isso mas não confessamos nem para o espelho. Ah! o espelho... como é possível não esquecer o rosto que seu imaginário gravou? Olho e vejo a flacidez das bochechas, o cabelo que vai ficando ralo. E o nariz cresceu, as orelhas também!
Mi madrecita dizia: "O tempo é implacável!"
Continuo com os lábios coloridos para sair ou trabalhar, continuo com uma dieta moderada, não desisto! Quero ser uma velhinha bonitinha e viver muito, prometi para o netinha que vou fazer tudo para viver muito para vê-lo crescer. Hoje ele me fez essa pergunta. Como não sentir que é preciso ser forte com uma demanda dessas? O amor é tanto... quero viver o máximo que puder, lúcida, para não fazer meu neto sofrer. Ele já disse que quando eu morrer não quer me ver morta- imaginem as nossas conversas. É por aí, mas é de forma leve, acreditem! Também brincamos bastante.
Tenho sentido lutos contínuos — OK, "c'est la vie", mas penso que a morte está presente em excesso no meu pensamento e contagiou a família nuclear. O netinho pergunta muito sobre a morte; falamos sobre o tema desde que minha mãe vivia, porque ele precisava ser preparado para isso. Foi triste e penoso assistir ao fim de minha mãe. Nos últimos cinco anos dela, que se foi há dois anos, houve muitos momentos em que parecia o fim, mas ela "ressuscitava", como eu e a cuidadora dizíamos, até com graça, porque era um susto e um alívio. Enfim, num dia 2 de março, ela se foi. Não chorei quando a vi morta na cama, fechei seus olhos, cobri seu rosto. Antes do caixão ser fechado tive uma crise de choro que me surpreendeu. Ali lamentei tudo que eu vivi com minha mãe, uma mulher extraordinária, culta, inteligente, forte, mas cruel comigo. Foram dias difíceis de convivência, até porque eu também sou uma mulher forte. Ela não queria ceder diante da fragilidade da velhice, era arrogante e amarga e odiava estar submetida aos meus cuidados, direta ou indiretamente.
Nesses últimos anos venho tendo problemas de saúde, nada gravíssimo, mas chatinhos, que me impedem de ter minha rotina de exercícios físicos de forma contínua. Isso me aborrece bastante. Estou cada dia mais reclusa, uma tendência, desde menina. Desejo de sair… zero. Prefiro sempre permanecer em casa, o que me torna um ser cada dia mais antissocial.
Gosto de sair para a academia, sim, lá é tudo superficial, um ambiente diverso, onde me distraio observando as pessoas- sou super observadora- obsessivos são controladores e veem tudo. lá a música pop não me aborrece, a música me lembra a juventude, lá sou mais jovial. verdade! Agora reconheci isso. Também lá sou querida e tida como uma velhinha especial porque sou muito agradável, sim, socialmente sou muito leve e divertida, sempre. Parece uma contradição com minha mente profunda e pensativa, mas sou sempre divertida nas conversas. não sei de onde vem isso, acho que do meu pai, um homem muito sério, mas muito gaiato, sou gaita, diria, também um tanto desbocada. Aqui sou a única que solta uns palavrões, o netinho me reprime, aí o filho justifica que é porque sou adulta, ou velhinha- velhos são perdoados pelas asneiras que falam, não é?
Voltando aos lutos: viver muito tempo traz muitas perdas, perdem-se amigos pelo caminho, pela morte ou distância, perde-se o desejo por muitas coisas antes relevantes- isso muitas vezes traz mais tranquilidade- velhos não estão em busca de amores, prazeres diversos. Há quem discorde. O corpo, ah! o corpo... onde aquele corpo que era desejado e amado? Onde aquela pele de pêssego tão admirada? Eu sempre aceitei meu nariz feio, minha falta de queixo, a barriguinha sempre presente, mas hoje sinto que perdi o controle do corpo. Não há como voltar atrás, antes era possível, uma dieta, uns meses de exercício e ok, estava razoável, agora não dá para disfarçar a flacidez dos braços, a barriga que insiste em não diminuir... As pálpebras caídas... Estarei sendo fútil? Não creio, acho que todos sentimos isso mas não confessamos nem para o espelho. Ah! o espelho... como é possível não esquecer o rosto que seu imaginário gravou? Olho e vejo a flacidez das bochechas, o cabelo que vai ficando ralo. E o nariz cresceu, as orelhas também!
Mi madrecita dizia: "O tempo é implacável!"
Continuo com os lábios coloridos para sair ou trabalhar, continuo com uma dieta moderada, não desisto! Quero ser uma velhinha bonitinha e viver muito, prometi para o netinha que vou fazer tudo para viver muito para vê-lo crescer. Hoje ele me fez essa pergunta. Como não sentir que é preciso ser forte com uma demanda dessas? O amor é tanto... quero viver o máximo que puder, lúcida, para não fazer meu neto sofrer. Ele já disse que quando eu morrer não quer me ver morta- imaginem as nossas conversas. É por aí, mas é de forma leve, acreditem! Também brincamos bastante.
Ah! Também o luto pelas cidades perdidas, O meu Rio amado é o que mais dói, mas também sei que a cidade continua linda, pero no quiero volver más allí.
Enfim, obrigada por estarem aqui e, se quiser, diga algo, como você sente o envelhecimento e a vida.
Enfim, obrigada por estarem aqui e, se quiser, diga algo, como você sente o envelhecimento e a vida.
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