sexta-feira, março 30, 2012

Perdemos o nosso gênio




Há mais alguém com a grandeza intelectual e criativa de Millôr na atualidade?  Não lembro...


La dernière translation

Millôr Fernandes

Quando morre um velho tradutor
Sua alma, anima, soul,
Já livre do cansativo ofício de verter
... Vai direta pro céu, in cielo, to the heaven,
au ciel, in caelum, zum himmel,
Ou pro inferno, Holle, dos grandes traditori?
Ou um tradutor será considerado
In the minute hierarquia do divino (himm'lisch)
Nem peixe nem água, ni poisson ni l'eau,
Neither water nor fish, nichts, assolutamente niente?
Que irá descobrir de essencial
Esse mero intermediário da semântica
Corretor da Babel universal?
A comunicação definitiva, sem palavras?
Outra vez o verbo inicial?
Saberá, enfim!, se Ele fala hebraico
Ou latim?
Ou ficará infinitamente no infinito
Até ouvir a Voz, Voix, Voce, Voice, Stimme, Vox,
Do Supremo Mistério partindo do Além
Voando como um pássarobirduccelopájarovogel
Se dirigindo a ele em...
E lhe dando, afinal,
A tradução para o Amén?

quinta-feira, março 29, 2012

Um dia, a tarântula e a orquídea fragile





Ontem levamos um bauta susto com esta aranha gigante- os meninos não tiveram tempo hoje de lavá-la para a mata, espero que esteja à vista amanhã. Ontem ENTROU na sala, foi um auê, dá medo, mas é inofensiva, parece. Cruz credo! Parece filme de terror.

 
O bambusa floriu depois de anos... uma bela orquídea, durou dois dias, ou três. São efêmeras.

Tenho cuidado do jardim- estou amando. O Dan também está apaixonado por plantas, o que anima bastante porque há coisas que eu não consigo fazer- pegar peso e tal.

Escrevo diretamente aqui, é assim que refiro. Incomodados se mudem.

Tenho visto filmes também, curtido ficar em casa, já que é inevitável... não tenho vontade de sair por sair e pouca coisa me atrai.

Vi "Cenas de um casamento" de Bergman, eu só havia assistido no cinema, lá por 74, foi o filme em que mais chorei até hoje- outros foram: "O carteiro e o poeta", porque sabia que o ator morreu ao acabar o filme e tinha um ar tão triste... 
Outro foi "Tudo sobre minha mãe" de Almodóvar, que me comoveu demais também- o filho morre no início e ela sofre o filme todo- a personagem. ai ai 

Meus filhos viram o filme de Bergman comigo e também gostaram- ufa! Fico feliz por eles. Estão ficando bastante exigentes com cinema, é bom isso. Vimos "Os pássaros", “Tempos modernos”- genial- (lembrei muito de meu pai, que amava os filmes do Chaplin).
 Estou vendo muitos filmes bons.

Agora passava "Laura" que gosto pela música, mais do que do filme. Não prestei muita atenção, estava aqui, já vi mais de uma vez.

A vida ficou mais tranquila, estou mais feliz, acho que os lutos 
estão passando. Quem me conhece sabe a que lutos me refiro.
Hoje reli uma das últimas cartas de Carlinhos e não chorei. Estou conseguindo lembrar de C. curtindo mais do que sofrendo- nos amamos tanto... e há tanta gente qu enem sabe o que é amor. 

Bye, bye, até breve, espero- ando com preguiça- não, é o calor que não me deixa ficar sentada aqui. Ok, venta paca, mas mesmo assim é quente- 
bate sol à tarde na parede lateral da sala e eu gosto de ficar por aqui- mania. 

Erros? avisem, pls. :)

Foto do Rio



Fernando Rabelo tem fotos belíssimas, dele e de outros- aqui

quarta-feira, março 28, 2012

Que viva Millôr!

Olho, alarmado;
E se a vida for
Do outro lado?
xxx
Eu vim com pão, azeite e aço;
Me deram vinho, apreço, abraço:
O sal eu faço.


 
Nada tem nexo.
Tudo é apenas
Um reflexo. 


 

 


Para mim, Millôr Fernandes foi um brasileiro extraordinário. Fará falta. 
O Brasil ficou mais pobre em cultura e inteligência, sem falar no humor requintado- 
maravilhoso! 
Felizmente tive o privilégio de ser contemporânea, de abrir o jornal todos os dias e ir a seu encontro, com suas criticas bem humoradas, sua visão do mundo.Que triste saber que se foi.
 Espero que não o esqueçamos jamais.
Um brasileiro que saiu da pobreza para vir a ser uma das figuras mais importantes da nossa cultura.
Conhecem a história de vida dele? Parece ficçao.
Que viva Millôr!

1924
Nascido Milton Fernandes, no Meyer, em 16 de agosto. Ou em 27 de maio? Ou em 27 de maio do ano anterior? Há desencontros de opinião na família. Na carteira de identidade: 27-05-1924. Meu amigo, Frederico Chateaubriand, sempre repetia, quando se falava que alguém estava "muito moço", isto é, aparentava menos que a idade que tinha: "Idade é a da carteira". Isto é, não adianta ter qualquer esperança contra a cronologia. No meu caso talvez a carteira esteja (um pouquinho) a meu favor.


1925
Morto meu pai. Nessa idade a orfandade passa impressentida. Mas a família - mãe com quatro filhos - cai de nível imediatamente.


1931
Entrada para a Escola Enes de Sousa, no mesmo Meyer, educandário dirigido por Isabel Mendes, mestra extraordinária que mais tarde receberia a homenagem de ter o colégio batizado com o seu nome. Enes de Sousa, só fui saber quem era muitos anos mais tarde, nas memórias de Pedro Navas. Um abolicionista, se é que isso existe.


1934
Morta minha mãe. Sozinho no mundo tive a sensação da injustiça da vida e concluí que Deus em absoluto não existia. Mas o sentimento foi de paz, que durou para sempre, com relação à religião: a paz da descrença.


1934 a 1937
O período dickensiano, vendo o bife ser posto no prato dos primos, sem que o órfão tivesse direito. A família dispersa, os quatro irmãos cada qual pro seu lado, tentando sobreviver.


1938
15 de março: início da profissão de jornalista. Continua..aqui