domingo, março 21, 2010

É isto?




No dia em que minha mãe fugiu da minha casa- parece título de filme, ou livro, mas é real- eu comprei umas plantas para a casa e pedi ao dono do horto um pé de arruda. Me deu. Cheguei em casa e ela, a mãe, estava fugindo- com a ajuda de minha irmã- óbvio.
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A arruda morreu em seguida- completamente.

Ontem vi um filme, nada pretensioso, mas comovente e muito bom: “A família Savage”.

Os atores estão excelentes, a direção não perde a mão.
A história: irmãos, Jon e Wendy- ele mais velho alguns anos- são obrigados a cuidar de um pai que mal conhecem. Os pais os abandonaram cedo- a mãe, depressiva, não aparece quase nada na história, e o pai foi um homem indiferente e bruto com o filho. Wendy vive em NY, tenta a vida como dramaturga, sem sucesso. O irmão é professor de literatura, especialista em Brecht- doutor. Ambos com dificuldade em relacionamento amoroso- e entre eles- irmãos.

“Qual a diferença entre trama(ou seria ação?) e narrativa, para Brecht, professor?”, pergunta uma aluna no momento em que ele desliga o telefone- acabara de ouvir que o pai estava à morte.

Vivemos este drama em nossas vidas. Tão difícil... O que fazer? Abandonar nossas vidas e socorrer os pais? E nossos projetos? Deixá-los num asilo?

É comovente ver a filha tentando resgatar o pai- para ela e para a vida- e ele virar e dizer:
“Eu a pago para cuidar de mim!...” Ele não a reconhecia.

Pais narcisistas, egoistas, que nunca se importaram com filhos, ao envelhecerem precisam deles. O conflito é enorme- há o desejo de conquistar aquele pai (pai ou mãe)- desejo de ser amado- e ao mesmo tempo, ser obrigado e reviver o passado.

A memória afetiva é, sempre, muito intensa- gruda. Daí, o sofrimento maior.

Eu já autorizei meus filhos a me internarem se ficar senil ou der trabalho- não quero que sintam culpa, nem desejo atrapalhar a vida deles. Espero poder pagar um lugar limpinho e com trato.
Eu digo a eles que tem que ser limpinho- se bem que senil... hihihi
Peço aos deuses para ir antes disto, porque sentir- se abandonado não é fácil- sei o que é.
E há lugares onde os velhos sentem-se bem- têm amigos- os outros velhinhos, é melhor do que ficar na casa de um filho com uma nora desejando sua morte. Eu acho.

Meu pai viveu até os 91 anos, sofreu demais nos últimos anos, muito- tadinho- senil, numa cama com dores fortes- sofreu quedas, quebrou fêmur. Muito triste.

Eu vim morar em Natal- ele estava aqui com os filhos homens e solteiros- três.

Quando cheguei ele dizia ao me ver: “Estou reconhecendo você...”- havia afeto na expressão dele. Eu respondia: “Sou sua filha, pai, a Elianne”. Muito triste.
Eu amei este pai- ainda amo. Era calado, esquisito para alguns, mas sempre senti afeto, mesmo no silêncio dele. (Estou chorando.)

Vejam o filme, não estou a fim de falar mais sobre isto- acabo de levar uma porrada inesperada da vida e ... Deixa pra lá. Um dia...

No livro de Chico Buarque, “Leite derramado”, um velho senil passa o tempo todo falando sobre o passado e não se sabe bem com quem fala- não importa...

Quando o pai no filme morre, a filha olha para o irmã e diz: "É isto?". Ele responde: "É."

Ah! tem um "final feliz"- libertador, podem ver, mesmo os que detestam se entristecer em filmes- vale a pena ver.

* Wendy é personagem de "Peter e Wendy" que todos conhecem pelo "Peter Pan". Wendy é levada para a "Terra do Nunca". No filme a personagem é bastante infantil- foge através de mentiras. Mas está, naquele momento, tentando crescer.

3 comentários:

Leila Silva disse...

Como assim, sua mãe fugiu?

Eu vi este filme, gosto muito muito.

Acho que você sabe que eu não tenho filhos, outro dia no salão me perguntaram o porquê e a dona do salão ainda disse 'mas ainda dá tempo, quantos anos você tem?' Eu disse que sabia que ainda dava tempo, mas eu era uma opção, ela veio com essa velha história de 'quem vai cuidar de voce na velhice?'. Minha mãe pensa como você, preferia que encontrássemos para ela um lugar limpinho a se sentir um fardo. Felizmente ela está em plena forma nos seus 75 anos, tem muita energia, come bem, se cuida....estou falando de saúde, vaidosa ela nunca foi. Espero envelhecer como ela, mas sou menos controlada.
Oh la la misturei tudo aqui e você cheia de preocupações. Espero que melhore logo a sua situação.
Abraço

Diz disse...

É ela não quis ficar aqui- diz que não gosta do nosso estilo de vida- leia-se...
enfim a vida segue. Vivi quase a vida toda sem mãe por perto, nem por telefone.
Acho q nem todos devem ter filhos. Filho pra quê? só se houver desejo de verdade e não estas baboseiras de "quem vai cuidar de vc?"
cultura de M esta.
Bjs Laura

angela disse...

Elianne
Texto comovente este, é muito duro ver alguem ir embora, pior ainda quando sofrem.
Sabe que a muito pouco tempo descobri o quanto fui amada nessa vida, sempre me senti deixada de lado e sem importancia. Um dia me veio na cabeça que só não fui amada como queria e como talvez precisasse, mas fui amada acho que até mais do que amei, pos em quanto estava medidindo o amor que recebia não sei o quanto consegui amar.
beijos