domingo, fevereiro 07, 2010

O que o Coimbra fazia ali?




by Picasso


Busco silêncio, silêncio interno. Alma sem conflitos. Trégua.

Na rede, ao pôr do sol, leio crônicas de Clarice pela primeira vez. Abro ao acaso. Leio o nome de meu ex- analista Lourival Coimbra.
O que estaria ele fazendo ali? Não tive tempo para muitas questões, li que amigas dela, várias, se analisavam com ele. Ela quis lhe dar um livro “Dr. Lourival deve estar farto de ouvir meu nome”. Mandou “Laços de Família” e na dedicatória justificou a letra feia falando do acidente- queimadura. Coimbra disse: “Clarice dá tanto aos outros, e no entanto pede licença para existir”.

Na crônica ela diz isto:
"Sim, Dr. Lourival. Peço humildemente para existir, imploro humildemente uma alegria, uma ação de graça, peço que me permitam viver com menos sofrimento, peço para não ser experimentada pelas experiências ásperas, peço a homens e mulheres que me considerem um ser humano digno de algum amor e algum respeito. Peço a bênção da vida."

A resposta me pareceu irritada. Eu desconfio o que seja.

É muito desagradável quando um analista diz algo sobre nós através de outra pessoa. Não o autorizamos. Por isso interpretações gratuitas são sentidas como invasivas ou mesmo agressivas.

Ela devia estar curiosa sobre ele, quis lhe dar algo... Bem provável que desejasse conhecê-lo. Poxa, tão bom se ela tivesse feito análise com ele... Foi um equívoco. Ele era um homem extraordinário: original, inteligente, generoso. Passava afeto sem sair do lugar do analista.

Pois é, fui ler para relaxar e ganhei esta lembrança tão forte de Coimbra.

A primeira vez que entrei no seu consultório me vi envolta por livros. Olhei os títulos, muitos não havia lido. Ele me ofereceu. Lembro de ter lido Henri Miller e Charles Dickens- adorei “Grandes Esperanças".

Chorei muito quando ele morreu, pobre Coimbra, caiu na rua com um infarto fulminante. Eu já havia recebido “Alta” ( a 1ª e única). Felizmente havia estado com ele poucos meses antes e contado da minha vida, da maternidade- quando era sua analisanda vivia apaixonada, mas apenas escrevia e desenhava. Fui sem avisar, passava por ali e ele estava só por sorte e foi uma grande emoção para ambos, ficou muito feliz, eu também. Este homem me curou de uma neurose obsessiva (TOC) sem eu perceber. Hoje sei que foi o jeitão dele descontraído, sem fórmulas prontas que tirou o excesso de obsessividade- ficou um restinho. Foram anos de muita produtividade intelectual e amor. Comecei minha formação psicanalítica ali, dividindo dúvidas com ele e o grande amor de minha vida encontrei naqueles dias. Grande em tempo e intensidade.

Clarice não deu certo com analistas- fez um tempo com Ines Besouchet- e depois com o Azulay que não deu conta dela- que pena!


Olhava o céu, de azul passou à rosa, depois o sol em chamas se escondeu deslizando nos coqueiros. Acendi o abajur, passei a ler e ver as estrelas- o céu agora azul escuro, as luzinhas da Fazenda acessas, os grilos cantando, os pássaros gritando. Tenho uma incapacidade total para gravar nomes de pássaros- estes seriam... meu irmão já me disse várias vezes- eles gritam, um som agudo.

Estendida atravessada na rede, rígida, pensei que seria um bom lugar para morrer. Numa rede olhando o céu. Meditando. Tantas coisas eu pensei. Pensei que ando imobilizada, o ano passado eu passei em casa, continuo sem vontade de sair. Poderia me mover, mas estou cansada- as pálpebras cansadas. Sei que se encontrasse motivação sairia do marasmo, mas não vejo luz no fim do túnel. Nem viajar não está me atraindo-seria porque é preciso. Desde quando fiquei assim? Eu sei. Mas por que não sinto forças para reagir?
Gosto de estar em casa, de arrumar a casa, há dias que trabalho feito formiguinha- há sempre coisas para fazer numa casa, vocês sabem. Eu tenho cortinas para pendurar e não me movo para ir atrás de alguém. Meu filho diz que vai colocar, sai para namorar e volta tarde. Adio. Procrastino. (Esta palavra me lembra Inagaki, amigo virtual-ele fala sobre isto de vez em quando).
Fico melhor por estar conseguindo ler de novo- li a biografia de Clarice, agora peguei as crônicas dela, estou lendo um sobre Lacan, muito bom- está no consultório. Consigo ler no final da tarde, quando diminuem os barulhos da casa.

Estes dias fiz uns continhos, sentei e fiz, o difícil e me concentrar. Eu escrevo duas frases e levanto- vou ver algo, mas continuo pensando no que estou escrevendo. Escrevo mais duas frases e molho plantas. É bom, relaxa.
O pior é que a empregada é uma gralha- vou ter que sair do campo visual dela- acho que se eu passar a manhã lá em cima ela me esquece um pouquinho. Está aqui há um mês, quer saber se deve cortar o chuchu em pedacinhos ou na horizontal... ai ai Respondo que corte como quiser, só não cozinhe demais- sempre passa do ponto- deixo pra lá- quem quer bem feito, faz- eu sei.

Este lero lero aqui me ajuda- quando chego na analista digo que já escrevi aqui hihihi se eu fosse minha analista viria xeretar- mas eu sou uma curiosa irremediável e tenho tempo- nem todos têm. Mas análise não se faz apenas naquele tempo curto da sessão, se faz assim- o tempo todo, até dormindo. Nossa! como tenho sonhado- cada sonho. Freud explica. E viva meu mestre!



Foto minha varanda

3 comentários:

Leila Silva disse...

Oh lá lá, madame...
Fico feliz que esteja escrevendo, eunão estou, há tempos, mas estou lendo, tenho lido bastante.

Empregada gralha tem aos montes, rs.
Ah, obrigada por comentar sobre a biografia da Clarice lá no blog, assim que puder eu vou ler, estou curiosa.

Tinha me prometido não comprar livros este ano, ler os muitos que tenho aqui na fila, reler alguns...agora mesmo estou relendo A Obra em Negro de Marguerite Yourcenar, tinha lido há muitos anos em português e agora estou lendo em francês, claro.

Abraço

angela disse...

Com uma vista desta e uma rede...acho que não sairia também.
Já tive miha época recolhida, na verdade continuo muito seletiva, prefiro minha poltrona a muito programa por ai. Ajuda alguma paixão.

Diz disse...

Leila, bonjour madame.
:) Eu li um livro da MY e não gostei do estilo dela. Sei q é pecado meu- eu tenho estas coisas- um dia pode ser q adore.
Prefiro a MDuras.
Lerem francês... por enqto só leio algumas coisas- comprei um livrinha da Duras em fr. e não deu p ler- da Sagan dá.
"Coup de grâce" nem o título eu entendi hahaha a amiga traduziu- golpe de misericórdia. Não é fácil ler uma língua nova.
Bjs Elianne

Angela, uma paixão faz falta, qqer q seja-estive apaixonada virtualmente há alguns anos e escrevi mt p ele hihihi agora murchou-desencantou.
Bjão Laura

Duas em uma-laura e Elianne- esquizo :) ai ai