Domingo, Dezembro 06, 2009

Conto: Pênalti




Pênalti*

Quando Maria chegou, o bar já estava cheio, não havia mais lugares, todas as mesas ocupadas. Excitadas, as pessoas falavam alto, gritavam pedindo mais chope. Os garçons, suados, entre as mesas, misturavam-se ao bando que buscava uma cadeira extra. Cumprimentou o dono:
-"E aí, seu Antônio, arranja uma cadeira para mim?" Ele virou-se e trouxe um banquinho de trás do balcão.
Ela sentou num canto de onde via a TV de longe, não fazia questão de acompanhar o jogo, "ficar só em dia de jogo é barra", pensava. Os patrões viajaram para a praia, nem ver a TV da sala podia, não sabia ligar.
O jogo começou, fez-se silêncio, de vez em quando uns gritos de torcida. Lá fora, a rua deserta, não entrava ninguém. A vida havia parado, só o jogo importava, menos para ela, que gostava do calor, do cheiro de gente, fazia tempo não sentia ninguém por perto.
1x1 e veio o intervalo. As pessoas em direção ao banheiro esbarravam nela. Um homem tropeçou no seu pé, abriu um sorriso e disse:
- "E ai? Torcendo muito?"
Ela sorriu, tímida, ele a olhou de alto a baixo, desnudando-a. Sentiu que corou. Ele deve ter percebido e gostado, ficou por ali ao sair do banheiro.
Devia vir da praia, tinha a pele curtida, pernas num short curto.
Quando o jogo recomeçou, ele encostado no balcão, muito perto, a olhava insistentemente. Ela já não via mais nada, apenas o homem se chegando. Ele sentou ao seu lado, encostava a coxa na perna dela. Ela levantou-se, pensou na sua magreza, no corpo que ninguém olha, pediu mais chope no balcão, voltou a sentar, encolhida no banco.
O homem não tirava o olho dela, já não via o jogo.
Num certo momento todos gritaram:
- "Tem que ser pênalti, é pênalti", o homem a puxou para o banheiro, ela não resistiu, sentiu o cheiro forte, ocre, enquanto ele a levantava, empurrava contra a parede. Fechou a sua boca num beijo de língua que lhe tirou o fôlego, enquanto levantava sua saia e arrancava com violência a calcinha.
Ela esqueceu o cheiro. Gozou gemendo num grito abafado pelo beijo do desconhecido. Era dia de jogo do Flamengo

*Este conto está no livro "A cabeça do futebol".

0 comentários: