sábado, setembro 05, 2009

Meu pai



















Arquivo- agosto 2005


Meu pai foi uma figura interessantíssima. Homem à frente de seu tempo, desde que me conheço por gente falava em preservar a natureza, era extremamente cuidadoso com os animais, as plantas, amava os bichos, os desprovidos, se emocionava com facilidade, mas era um homem que não sabia fazer um carinho apesar de ter sempre nos passado muito amor. Contraditório não? A mãe dele foi uma mulher amarga e fria, nunca a vi sorrindo ou fazendo um carinho nos netos, era portuguesa usava saias longas e roupa preta desde que perdeu a filha mais nova, eu só lembro dela de preto, chorava sempre ao ouvir os sinos da Igreja da Imaculada Conceição às seis da tarde, devia ter suas razões para ser triste.

Meu pai estava sempre de bom humor, caminhava muito, fazia Yoga, meditava- quando nada disto era moda- gostava de ler-lia diariamente-amava música clássica, brincava de reger quando éramos crianças, adorava fazer trocadilhos. Interessante que mesmo depois que ficou senil continuou fazendo jogos com as palavras. Ele era quem nos levava ao parquinho ou à piscina, disputávamos as suas mãos, éramos três na época.

Foi um homem sem preconceitos, não se importava com o credo das pessoas ou escolha sexual, nunca o vi fazendo uma critica, eu tinha muitos amigos homossexuais quando muito jovem e ele nunca fez uma piada ou critica. Foi um exemplo de ética e desapego. Não se importava com status social, nada disto era relevante. Andava com roupas muito simples, em Cabo Frio onde viveu muito tempo era considerado excêntrico e querido, os seus colegas contam que gostava de correr na Fábrica de Álcalis onde trabalhou alguns anos, se alongava em tiras de borracha de pneus nos intervalos e foi quem fundou a escolinha da Álcalis, com métodos modernos na época, isto foi no final de 60.

Ele nos deixou livres para escolher o que quiséssemos fazer, gostava de ler livros de educação moderna, tinha um livro de A.S.Neill “Liberdade Sem Medo” (Summerhill), que gostava muito, lia KRISHNAMURTI, “Don Quijote”, poesias...
E meu pai foi engenheiro civil e General. Saiu do Exército em 1961 aos 49 anos, quando o Brasil começava a fervilhar, saiu com nobreza como o comandante da V Região Militar em Curitiba, mas nada disto importava, vivia noutra sintonia.

Tenho saudades do meu pai, morreu sem memória e confuso, havia caído, sofria na cama, pele e osso. Foi muito triste ver um homem que foi até mais de oitenta anos super saudável definhar na cama durante meses, não merecia, eu não entendo esta de Deus, por esta e por outras acredito que aqui acaba tudo, viramos pó, não existe sentido em nada disto, não creio.

5 comentários:

Chá das Cinco disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
*LV* disse...

Eliane,
Eu também sou cético em relação à existência. Mas gosto muito de ver que as pessoas buscam um sentido para ela. Como o texto sobre seu pai, apresentando para nós uma pessoa que gostaríamos de ter conhecido, com quem poderíamos ter aprendido muitas coisas. Eu gosto disso.
beijos
luiz

Maria Muadiê disse...

que lindo, seu pai. admirável.

Pura eu disse...

Olá confrade! Descobri o seu blog, por acaso, e não resisti em deixar um comentário, depois de ler esta linda crónica sobre o seu pai. Lindo! Bom se todos pudessem recordar de momentos tão belos. Vou registrar o seu endereço e vir cá mais vezes...muito boa áurea.
Abraços blogueiros

Margarida

Cris S. disse...

Que homenagem bonita!

beijos e muita paz