Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, dezembro 18, 2017

O tempo é implacável








Canta o vento, invade todas as frestas. Na banheira silencio o corpo na água quase fria. Observo apenas. Não há desejo.
Janelas abertas. “Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília, em cada um matar um membro da família, até que a plenitude e a morte coincidissem um dia...”
Quatro da tarde, hora da análise, e eu lembro desta música, desde sábado a ouço interiormente. Alguém me pediu para cantarolar.
Sim, eu poderia deitar mais uma vez no divã e borbulhar palavras sobre a família. Não há mais um amor a cantar ou contar. Resta a mãe, desde a infância “ausente”, agora mais que presente.
Nada há para queixar, há que se aceitar- e daí? Fazer o quê?
Há que dissolver as amarras, as amargas lembranças já não existem. Há que ser leve e não lamentar.

"O tempo é implacável", é uma frase que ouvi inúmeras vezes. O tempo é implacável, mãe, mas o tempo também é generoso, desbota dores, gritos. E agora estamos aqui, nós duas, novamente, sobreviventes. E eu estou feliz.

domingo, abril 23, 2017

O Coração Imobiliário- Crônica de Drummond

“Coração Imobiliário”

Um dia Carlos Drummond me telefonou e disse:
- Posso publicar uma crônica que fiz para você?
- Claro, é um prazer, querido!
- Chamo a personagem de Cristiane para você não ser identificada.

Dias depois, estava lá a crônica “Coração imobiliário” no Jornal do Brasil.
Eu nunca fiz cópia, esqueço. Depois desta crônica, ele publicou uma sobre Pedro Nava e a última se despedindo- dizia que estava cansado, ia pessoalmente levar o texto até a Av. Brasil, de táxi.

Bom, a Cristiane tinha mais de um amor. Drummond sabia que eu tinha uma paixão, um caso de amor clandestino, ele conhecia bem isto, vocês sabem. Ele também sabia, porque eu contava minha vida, que um amigo norte americano costumava tomar café da manhã comigo. Pois bem, a estória é de uma moça que recebe amigos em casa.

Não o questionei. Acredito que estava enciumado e ressentido, dava sinais de que estava apaixonado por mim e eu fugia, fugia literalmente, o enganava sobre meus horários de trabalho, dizia que trabalharia o dia todo, quando ele perguntava o que eu iria fazer no dia seguinte. Levei um susto quando ele contou que terminou com a Lygia! A amante de 30 anos!
Mas, o término durou pouco, porque ele adoeceu de uma infecção urinária e eles voltaram.

Ele dizia que de manhã a Dolores, esposa, cuidava dele e de noite ele cuidava dela, dava remédios. Dormia tarde, tomava um licorzinho e ouvia músicas. Me telefonava nestas horas- uma vez ligou meia noite e meia, eu não estava, minha irmã atendeu. Eu não queria feri-lo com meu desamor, preferia fugir. Eu o amava como um amigo especial, nada além.

No final da crônica ele diz: posso dar uma espiadinha no apartamento?
Querendo dizer que ele também queria frequentar minha casa. Ou meu coração imobiliário- onde cabiam vários amores.

O americano era apenas amigo, era muito solitário e me ligava perguntando se poderia ir para o breakfast e para que eu jogasse o “I Ching” para ele. Estava apaixonado por uma moça. É o violinista, contei outro dia, que fez um recital para mim no dia 16 setembro dia do meu aniversário. Deve ter sido em 84, ano da crônica, que foi publicada em 25 de setembro,

Tad Lawer, era o Spalla da OSB na ocasião. Ganhei um presente de luxo.
Ah! Ele esteve na minha casa uma vez. Trouxe de presente uma gravura de Renina Katz, tomamos um chá inglês com docinhos comprados com carinho para ele. Neste dia me contou sobre uma quantidade enorme de paqueras dele- não anotei, esqueci. Era muito safado- a palavra é esta- não exagero. O teor das conversas dele comigo no telefone me encabulavam. Ele dizia: Mas você não é psicanalista? Eu respondia: Mas tenho alma de poeta, Drummond.

Conto sobre este chá na crônica “O poeta frugal”. 

segunda-feira, agosto 17, 2015

Carlos Drummond de Andrade e meus meninos



Drummond entrou realmente na minha vida ao morrer.
Éramos amigos, sim, mas a minha vida mudou com a morte dele. Conto aqui o porquê da data ser tão importante para mim. Viva Drummond!

Era agosto, meu inferno astral, mês de mau agouro. A TV noticia a morte de Drummond. Fico triste. Havia falado com ele pouco antes, alguns dias depois da morte de sua filha, Maria Julieta. Ele pareceu tranquilo, disse que ela sofria muito, que foi um alívio para ela. Sofria de câncer nos ossos- ele cuidava dela, eu o encontrava na rua à caminho de sua casa, que ficava na rua Barão da Torre- pertinho da minha rua. Tinha pena de vê-lo tão triste, contou que ela usava colchão de água por causa das dores.

Confusa, não sei se devo ir ao enterro, detesto estas cerimônias. Dia cinzento, chuva fina. Às nove da manhã a imagem de Drummond no caixão me comove numa capela quase vazia. Resolvo ir.

Onze horas, hora do enterro, a capela, cada vez mais cheia, me sufoca. Saio para a varanda do cemitério São João Batista. Havia ali um homem bonito- alto, de terno de linho azul claro e olhos orquídea- e outros curiosos, políticos, artistas... Pergunto, a um homem qualquer, se há outra saída para o caixão- pois vejo repórteres correndo- o homem de terno de linho azul diz: “Vou ver". Na volta diz, fazendo um gesto com a mão: "Venha comigo". Fui.

Algum tempo depois eu esperava meu primeiro filho- dele.

Diz um amiga astróloga que quando morre um escorpião nasce outro, no meu caso nasceram dois geminianos.

Devo a Drummond meus dois lindos meninos, hoje homens.

terça-feira, novembro 25, 2014

O marido da vizinha I- revisto










O marido da vizinha I


Dan foi deitar à tarde, vou atrás dar um beijo e fechar as janelas.
Vejo a casa da vizinha, tão bem cuidada, tão perfeita, nunca havia visto uma casa tão bem tratada. Lembra a casa da cunhada de “Mon oncle” de 
Jacques Tati. Todos os dias lembro do filme olhando da minha varanda os caminhos traçados no jardim, as plantas aparadas milimetricamente, a fonte na piscina recente.

- Coitada de vizinha, ficou viúva tão cedo.
- Por que está dizendo isto, mãe?
- Porque o marido dela morreu.
- Como você sabe que ele morreu?
- Por que eu sei, ele sumiu.
- Você é maluca, mãe, ele pode ter viajado...
- Eu sei, pode ter ido atrás de outra mulher, pode estar doente na cama... mas ele morreu.
- Credo, mãe, você é doida mesmo, inventa cada coisa.
- Não estou inventando, o pobre do homem amava tanto esta casa, acabou de fazer a piscina e mal aproveitou, morreu.
- De onde você tirou isto, mãe? Esta tua maluquice?
- No dia do seu aniversário, eu acordei às sete e quinze- sei a hora porque você havia acabado de sair para a escola- abri a varanda e em vez de ver o vizinho fumando seu cigarrinho na varanda esperando o táxi, eu vi dois carros na porta e gente andando pela varanda nervosamente.
- Como você sabe que estavam nervosos?
- Ah, Dan, tinha um homem que se parecia com o vizinho que andava de lá para cá, angustiado.
- Pensei primeiro que a casa tivesse sido assaltada, Betânia, quando chegou, pensou na possibilidade da mulher ter morrido e não o marido, pensou em seqüestro, também, mas não havia carro da policia...
- Você fica vigiando a casa dos vizinhos, mãe, que feio...
- É impossível não ver, filho, é como no filme do Hitchcock. Lá pelas duas da tarde, apareceu a mocinha na varanda, ela nem conseguia andar direito. As pessoas da manhã já haviam ido embora. O namorado chega e ela chora abraçada a ele um tempão, mais tarde a mãe aparece e eu e Betânia ficamos aliviadas- não foi ela que morreu.
- Vocês duas são malucas, mãe.
- Meu filho, impossível não querer saber o que houve, eu gostava do vizinho só de ver, eu ficava namorando a casa com ele, o jardim impecável... não estou dizendo que paquerava o vizinho, viu? É da casa que eu gosto.
- Não sei porquê, casa mais cafona, toda arrumadinha.
- É o que ela representa, filho. Você não entende ainda destas coisas.
- Você é doida, quando fizeram a piscina disse que a filha deles iria casar, agora que o pai dela morreu...
- Ainda acho que ela vai casar. Depois te conto.

PS: Esta crônica é baseada em fatos verídicos, conto o final depois no II, alguns de vocês já conhecem o fim da história.

Trecho filme aqui.

sexta-feira, abril 11, 2014

Josué, o jardineiro










Josué, o jardineiro


Ouço uma voz distante me chamar. Levanto os olhos do teclado. O cão late e corre para a porta. Visto uma blusa que me cubra mais. 
Josué está à minha espera na varanda. Observa as plantas. Comentamos sobre o jardim. Baixa galhos da amoreira para que eu cate frutas.
- Qualquer dia, quando estiver cheio de amoras, venho aqui tirar para você.
- Como está seu filho?
- Ele está bem, quer parar o remédio. "Disse que tem força para parar.".
- É melhor ele tomar. Bom que o médico acertou. Deixe que tome.
- É mesmo, ele está normal. Às vezes o testo dizendo umas coisas que ele antes acreditava e ele discorda de mim, diz que estou errado.
- Então. É preferível tomar e ficar bem do que se descontrolar.
- É verdade, ele tinha uns descontroles. Uma vez queria que a família desse queixa da mulher dele sem motivo. No caso, ele que estava errado. Tinha saído de casa.
- Pois é, ainda bem que existem remédios hoje, antes era pior, não havia.
- Engraçado, como é que eles funcionam... Ele no começo se negava a tomar.
- Há pessoas que não aceitam e a família tem que colocar na comida.
- Pois foi o que aconteceu com ele no começo. Dizia que não precisava, minha mulher dava suco para ele com a medicação. Agora ele aceita tomar.
- Como é que o remédio acalma a pessoa?... 
- Eles pesquisam. Hoje já sabem o que é bom para o que. 
- E testam com quem?
- Não sei... ratos.
- Homens... Uma vez trabalhei num SPA. Você sabe o que é SPA? 
- Sei, também trabalhei em um.
- Eles testavam aqueles aparelhos de massagem para tirar barriga em mim.
- E adiantou? (Pergunto olhando seu abdômen- expressão séria).
- Lá tinha todo tipo de atendimento. A esteticista me colocava no aparelho. Não era bom. Dá uns choques fortes. Antes fiz exame do coração para ver se estava bem. Disseram que eu poderia doar meu sangue, porque era muito bom. Sem colesterol, sem nada.
- Que bom.
- Sabe o nome desta praga da grama? 
- Não.
- Tiririca. Hoje coloquei um óleo que acaba com ela num jardim ali em cima. Custa uma fortuna, mais de mil reais um litro. Ele mata a praga, mas não a grama. Sabe o que é mamona? (Ele gosta de me perguntar se conheço plantas).
- Sei.
- Meu pai tinha cavalos e o óleo de mamona é purgativo. Sabia que cavalos dormem em pé?
- Não sabia. É mesmo, nos filmes estão sempre em pé.
- Quando deitam estão com problemas de intestino. A gente corria chamar o pai e ele colocava na goela do bicho o remédio, logo depois... imagine o que saia. 
O sol se pôs e os mosquitos chegavam.
- Quando você puder, tire o mamoeiro macho do quintal.
- Amanhã eu venho, estarei aqui  no condomínio.
- Boa noite, Josué, até amanhã.


quinta-feira, fevereiro 27, 2014

O filho de Josué- crônica















Josué desliga a máquina de cortar grama, fixa o olhar em mim e diz:
- Quero que me responda como uma profissional que é. Uma pessoa que pensa que acontecem coisas que não existem tem o que?
- Não sei... pode ser delírio.
- É meu filho esta pessoa. Ele diz que imagina coisas porque foi estudar para ser padre e imaginava que lá era todo mundo santo, mas tem até sacanagem no seminário.
- Ele precisa ir a um psiquiatra.
- Ele já foi, está tomando três remédios.
- Há quanto tempo?
- Três meses. Vi no "Fantástico" que a pessoa precisa tomar o resto da vida.
- Não sei dizer, o médico saberá. Pode ser que sejam pensamentos persistentes e não delírio. Mas hoje existem remédios para tratar. E se precisar tomar... tem que tomar.
- Ele disse que desde menino tem estes pensamentos, foi menino ser padre.
O sol já estava a pino e eu precisava entrar. Pensava no homem a minha frente com certa ternura, tão mal cuidado... no filho que talvez tenha sofrido assédio sexual naquele ambiente.
- Você quer água Josué? Eu tenho coisas para fazer, preciso entrar.
- Aceito água.

PS: Diálogo real com nome fictício.

quarta-feira, dezembro 19, 2012

Cenas da vida cotidiana








Fui á cabeleireira- vou uma vez por mês para cortar- pinto em casa.
Hoje fui para dar uma alisada com estes produtos novos. Atualmente detesto meu cabelo curto crespo- já usei crespíssimo, mas bem maior, olho para trás e penso como era ousada usando aquele cabelo- devo ter assustado muita gente. Mas vamos mudar de assunto.
Lá, havia uma mocinha sentada, quietinha, fingia ler revistas. Perguntei para A. se era sua sobrinha: “Não, é mulher do meu irmão.” A menina tem 16 anos e está há um ano casada ou “casada”, não sei. Imagino que o marido deva ter lá por 40 anos, veio para cá porque é jurado de morte.
A história é trágica: dois irmãos de A. foram assassinados por uma das irmãs por causa de terras- a avó deixou como herança muitos hectares. O pai de A. atropelou a filha assassina. Morreu pouco depois do coração. Mas os crimes podem recomeçar- alguém segue a linha da irmã má.
O marido da moça veio do interior e está sem trabalho- era fazendeiro- vendeu tudo, quer ser jardineiro, porque gosta de mato, terra plantas. Não tem instrução.
Escrevo sem elaborar o que conto, deem desconto- também não sei se a história é exatamente esta. Não quis perguntar muito sobre, para não perturbar a cabeleireira, que é uma pessoa sensível- há dias em que está perturbada, diz que está nervosa- também...

Enquanto eu estava sendo atendida, chegou uma grávida, entrou dizendo: “Hoje é a cesariana!”. A. não ouviu, eu perguntei: “Você vai ter o bebê hoje?”.
Ela contou que se internaria às 18 horas e a cirurgia seria às 20 horas. É uma jovem linda, bem cuidada e preocupadíssima com a sua aparência- eu ri quando a mãe dela disse que colocariam uma toca em sua cabeça assim que chegasse no hospital. Lembrei da força que se faz e tal, mas ela fará cesária. É o primeiro filho, tem 23 anos. O marido deve ter uns 38-40 anos e, como ela disse: “O chamam de Jack Chan, aquele japonês”. Parece mesmo. Eu disse que sabia quem era e que ele era chinês, mesmo, e filho de Charlie Chan- outro famoso. Contei para meu filho, que é fã dos filmes do chinês e ele riu dizendo que aconteceram muitas coisas lá hoje. E, olha, que fique apenas 2 horas.
Tem mais: A. está com o braço roxo. Perguntei onde machucou,(eu a conheço há 10 anos, tenho liberdade para), respondeu que foi a sobrinha que apertou demais- a moça de uns 20 anos- e estava ao lado fazendo uma escova no belo cabelo da grávida. Não sei se ela ouviu. A. disse que mandou que ela tirasse o prato da mesa- moram juntas- e ela a atacou, puxou cabelos... Depois, longe da sobrinha, eu disse que ela não podia deixar acontecer isso, que a mandasse embora, disse que a outra não quer ir e que paga tudo direitinho para ela- é uma “funcionária” rebelde- não usa uniforme- estava de short. A é muito frágil, muito imatura, mesmo com mais de 40 anos. Sempre saio de lá com histórias para contar.
Desvalorização é triste.
Ah! O tal produto tirou a cor do meu cabelo, o avermelhado. A. me avisou que aconteceria. Está mais para louro cinza- nunca fui loura, tenho vontade de deixar grisalho- acho chic, quando bem cuidado. Gosto. Falta a coragem para descolorir todo e enfrentar os cinzas.


quarta-feira, agosto 31, 2011

By frankamente...: my (morbid) way





Leiam a minha cronista preferida do virtual: frankamente...: my (morbid) way.

Houve um tempo, que eu abria o PC e ia direto ler a franka.  É demais- tudo vira crônica divertida com o olhar dela. Confiram.

quinta-feira, julho 21, 2011

Na palma da mão- crônica






Amanheci tristonha. Tomava o café da manhã, pensando em muitas coisas- no quanto gosto do meu trabalho, do quanto ele me faz bem, lembrando de ex analistas que me renovaram- quando ouvi um grunhido. Rato? Pássaro? Um filhote de rolinha se debatia no chão da cozinha. A gata deve ter trazido.
Ao abrir a casa, mais cedo, procurei entender o porquê da gritaria de pássaros sobre o muro. O filhote, doente, deve ter caído e os pais estavam aflitos- é assim.
Observei o pássaro na palma da mão- tão pequenino, tão frágil. Levei-o até o muro onde voou para o jardim vizinho- lá estaria a salvo das garras dos gatos.
Minutos depois o filhote jazia no chão da cozinha. A gata o trouxe de novo. Peguei-o sem vida. Pensei o que fazer, precisaria enterrá-lo. Mas ainda estava tépido. Virei-o na mão, na tentativa de que revivesse, mas nada.
Sob a bananeira, enterrei-o depois de segundos de estranheza, ele ainda estava quentinho.

domingo, abril 18, 2010

Esta manhã


Esta manhã

O dia está nublado. A grama molhada traz calor. O chão úmido brilha no chão da varanda. Hoje não será preciso molhar o jardim.
De longe, o choro de uma criança desde o amanhecer.
O boiadeiro me despertou com seu ÉiaÉiaaaaéiaaaaaaa. Olho da janela e vejo o gado disperso na Fazenda vizinha. Porções de branco na pastagem. O amigo me disse: São garças, não emas. Não as vejo de perto apesar do rio tão próximo. Onde o belo voo ao entardecer? Escondem-se de mim, as garças?
Olho meu escritório, livros por toda parte, a mesa desarrumada. Atrás, à minha direita, duas pranchas de surf encostadas, à frente, na sala, duas guitarras apoiadas no sofá. O olhar encontra, ainda, os dois gatos- enlaçados- ela no cio, geme. Levanto e os separo.
O mormaço parece retardar o tempo, esta manhã.

sábado, setembro 05, 2009

Meu pai



















Arquivo- agosto 2005


Meu pai foi uma figura interessantíssima. Homem à frente de seu tempo, desde que me conheço por gente falava em preservar a natureza, era extremamente cuidadoso com os animais, as plantas, amava os bichos, os desprovidos, se emocionava com facilidade, mas era um homem que não sabia fazer um carinho apesar de ter sempre nos passado muito amor. Contraditório não? A mãe dele foi uma mulher amarga e fria, nunca a vi sorrindo ou fazendo um carinho nos netos, era portuguesa usava saias longas e roupa preta desde que perdeu a filha mais nova, eu só lembro dela de preto, chorava sempre ao ouvir os sinos da Igreja da Imaculada Conceição às seis da tarde, devia ter suas razões para ser triste.

Meu pai estava sempre de bom humor, caminhava muito, fazia Yoga, meditava- quando nada disto era moda- gostava de ler-lia diariamente-amava música clássica, brincava de reger quando éramos crianças, adorava fazer trocadilhos. Interessante que mesmo depois que ficou senil continuou fazendo jogos com as palavras. Ele era quem nos levava ao parquinho ou à piscina, disputávamos as suas mãos, éramos três na época.

Foi um homem sem preconceitos, não se importava com o credo das pessoas ou escolha sexual, nunca o vi fazendo uma critica, eu tinha muitos amigos homossexuais quando muito jovem e ele nunca fez uma piada ou critica. Foi um exemplo de ética e desapego. Não se importava com status social, nada disto era relevante. Andava com roupas muito simples, em Cabo Frio onde viveu muito tempo era considerado excêntrico e querido, os seus colegas contam que gostava de correr na Fábrica de Álcalis onde trabalhou alguns anos, se alongava em tiras de borracha de pneus nos intervalos e foi quem fundou a escolinha da Álcalis, com métodos modernos na época, isto foi no final de 60.

Ele nos deixou livres para escolher o que quiséssemos fazer, gostava de ler livros de educação moderna, tinha um livro de A.S.Neill “Liberdade Sem Medo” (Summerhill), que gostava muito, lia KRISHNAMURTI, “Don Quijote”, poesias...
E meu pai foi engenheiro civil e General. Saiu do Exército em 1961 aos 49 anos, quando o Brasil começava a fervilhar, saiu com nobreza como o comandante da V Região Militar em Curitiba, mas nada disto importava, vivia noutra sintonia.

Tenho saudades do meu pai, morreu sem memória e confuso, havia caído, sofria na cama, pele e osso. Foi muito triste ver um homem que foi até mais de oitenta anos super saudável definhar na cama durante meses, não merecia, eu não entendo esta de Deus, por esta e por outras acredito que aqui acaba tudo, viramos pó, não existe sentido em nada disto, não creio.

quarta-feira, agosto 10, 2005

O andarilho
















Picasso


O andarilho


Passa os dias caminhando pela pequena cidade que conhece tão bem, seco pela magreza e pelo sol. Menino se destacou pela inteligência, depois pela estranheza até o internarem num hospício estadual, um hospital colônia, onde ficou mais de quinze anos. Saiu assim seco, desdentado, carcomido, velho.
Um dia ao sair de casa, quase esbarro nele, devia estar à espreita, fez questão de me acompanhar, eu dizia que preferia ir só, que ele bêbedo não era companhia para ninguém, insistiu e foi comigo até a Rodoviária, eu estava indo para o Rio. Eu o conheço desde menino, foi vizinho, apanhava da mãe, uma mulher muito estranha, era amigo do meu irmão mais velho, gostava de conversar, dizer poemas de Clarice, Fernando Pessoa.
No caminho quis me beijar, eu desviava, o empurrava, cheirava a álcool,cigarro, suor, dizia: “Ir para o Rio que nada, vamos lá na praia, tomar um banho de mar, beijar, lá é a minha casa”. Ria alto.
Foi assim até a Rodoviária, uns quinze minutos de caminhada. Comprei rapidamente a passagem, ele atrás: “Assuma que é uma coroa gostosa, me dê um beijo”. Eu envergonhada e apressada, queria fugir aquela figura estranha descalça, bêbeda, tentando me agarrar. Entrei no ônibus, estava quase vazio, naquele horário poucos viajavam. Sentei, peguei o jornal tentando desviar a atenção dele que estava do lado de fora, esperando o ônibus partir. De repente ele entra, joga no meu colo a garrafinha de água mineral com conhaque que trazia e diz: ”Para você beber na viagem”.
Vou até a porta do ônibus, jogo a garrafinha de volta e pergunto para o motorista como o deixou entrar:“Ele disse que era seu irmão e queria lhe entregar água”.

Esta história é real, sem por nem tirar, eu depois ri muito, mas na hora foi um sufoco fugir dele, desviar. Depois disso eu disse que não queria mais papo com ele, me pediu desculpas e disse que me entendia. Não insistiu mais, só cumprimentava. Eu tinha receio porque ele não é normal e poderia um dia me pegar de verdade, eu até aquele dia desconhecia o desejo dele por mim.

segunda-feira, agosto 01, 2005

Meu pai

























Agosto 2005


Esta foto é de meu pai casando, hoje faria 92 anos se não tivesse nos deixado em setembro passado, foi tão bom comigo que morreu uma semana antes do meu aniversário. Pobre velhinho. Na outra foto estou eu e ele lá no Rio Grande do Sul onde eu nasci.




Meu pai foi uma figura interessantíssima. Homem à frente de seu tempo, desde que me conheço por gente falava em preservar a natureza, era extremamente cuidadoso com os animais, as plantas, amava os bichos, os desprovidos, se emocionava com facilidade, mas era um homem que não sabia fazer um carinho apesar de ter sempre nos passado muito amor. Contraditório não? A mãe dele foi uma mulher amarga e fria, nunca a vi sorrindo ou fazendo um carinho nos netos, era portuguesa usava saias longas e roupa preta desde que perdeu a filha mais nova, eu só lembro dela de preto, chorava sempre ao ouvir os sinos da Igreja da Imaculada Conceição às seis da tarde, devia ter suas razões para ser triste.
Meu pai estava sempre de bom humor, caminhava muito, fazia Yoga, meditava- quando nada disto era moda- gostava de ler-lia diariamente-amava música clássica, brincava de reger quando éramos crianças, adorava fazer trocadilhos. Interessante que mesmo depois que ficou senil continuou fazendo jogos com as palavras. Ele era quem nos levava ao parquinho ou à piscina, disputávamos as suas mãos, éramos três na época.
Foi um homem sem preconceitos, não se importava com o credo das pessoas ou escolha sexual, nunca o vi fazendo uma critica, eu tinha muitos amigos homossexuais quando muito jovem e ele nunca fez uma piada ou critica. Foi um exemplo de ética e desapego. Não se importava com status social, nada disto era relevante. Andava com roupas muito simples, em Cabo Frio onde viveu muito tempo era considerado excêntrico e querido, os seus colegas contam que gostava de correr na Fábrica de Álcalis onde trabalhou alguns anos, se alongava em tiras de borracha de pneus nos intervalos (será que já conhecia os métodos de Pilates? acho que sim) e foi quem fundou a escolinha da Álcalis, com métodos modernos na época, isto foi no final de 60.
Ele nos deixou livres para escolher o que quiséssemos fazer, gostava de ler livros de educação moderna, tinha um livro de A.S.Neill “Liberdade Sem Medo” (Summerhill), que gostava muito, lia KRISHNAMURTI, “Don Quijote”, poesias...
E meu pai foi engenheiro civil e General, saiu do Exército em 1961 aos 49 anos, quando o Brasil começava a fervilhar, saiu com nobreza como o comandante da V Região Militar lá em Curitiba, mas nada disto importava, vivia noutra sintonia.
Ele me deixou como herança o olhar sem preconceito, o desdém pelo status, o cuidado com o alimento do corpo e da alma, tento passar isto para meus filhos.
Tenho saudades do meu pai, morreu sem memória e confuso, sofreu uma queda e depois disto vieram cirurgias e infecções hospitalares, sofria na cama, pele e osso. Foi muito triste ver um homem que foi até mais de oitenta anos super saudável, independente, se olhar no espelho e não se reconhecer mais, ele antes, adivinhando talvez, fazia piadas sobre isto, mas para mim foi o mais triste de toda esta história- sorte que eu não assisti esta cena, meu irmão contou- era vaidoso, gostava de pentear o cabelo no espelho, definhou na cama durante meses. Não merecia, eu não entendo esta de Deus, por esta e por outras acredito que aqui acaba tudo, viramos pó, não existe sentido em nada disto, não creio.

quarta-feira, junho 15, 2005

O marido da vizinha I.


A casa perfeita. Posted by Hello


Dan foi deitar ontem à tarde, vou atrás dar um beijo e fechar as janelas.
Vejo a casa da vizinha, tão bem cuidada, tão perfeita, nunca havia visto uma casa tão bem tratada. Lembra muito a casa da cunhada de “ Mon oncle” de Jacques Tati, todos os dias eu lembro de Tati olhando da minha varanda os caminhos traçados no jardim, as plantas aparadas milimetricamente, a fonte na piscina recente.
- Coitada de vizinha, ficou viúva tão cedo.
- Por que está dizendo isto?
- Porque o marido dela morreu.
- Como você sabe que ele morreu?
- Por que eu sei, ele sumiu.
-Você é maluca, mãe, ele pode ter viajado...
-Eu sei, pode ter ido atrás de outra mulher, pode estar doente, na cama...mas ele morreu.
-Credo, mãe, você é doida mesmo, inventa cada coisa.
-Não estou inventando, o pobre do homem amava tanto esta casa, acabou de fazer a piscina e mal aproveitou, morreu.
-De onde você tirou isto, mãe? Esta tua maluquice?
-No dia do seu aniversário, eu acordei às sete horas, por ai, abri a varanda e em vez de ver o vizinho fumando um cigarrinho na varanda esperando o taxi, eu vi dois carros na porta e gente andando na varanda nervosamente.
-Como você sabe que estavam nervosos?
-Ah, Dan, tinha um homem que se parecia com o vizinho que andava de lá para cá, angustiado.
-Pensei primeiro que a casa talvez tivesse sido assaltada, Betânia quando chegou pensou na possibilidade de ter sido a mulher e não o homem que teria morrido, pensou em seqüestro, também, mas não havia carro da policia...
-Você fica vigiando a casa dos vizinhos, mãe, que feio...
-É impossível não ver, filho, é como no filme do Hitchcock. Lá pelas duas da tarde apareceu a mocinha na varanda ela nem conseguia andar direito-as pessoas da manhã já haviam ido embora-o namorado chega e ela chora abraçada com ele um tempão, mais tarde a mãe aparece, eu e Betânia ficamos aliviadas, não foi ela que morreu.
-E por que ficaram aliviadas se achavam que alguém tinha morrido?
-Sei lá, filho coisa de mulher, mulher torce por mulher.
-Pode ter sido um dos cachorros que morreu.
-Não, os cachorros estão lá. Pode ter sido um avô, mas foi o vizinho, vivia fumando, se eu pudesse tinha dito para ele parar de fumar.
-Continuo achando que você é doida, não sei como tem consultório e atende clientes, fica inventando coisas.
-Meu filho, no consultório eu imagino tudo que me contam, eu gosto, e é impossível não querer saber o que houve na casa da vizinha, está ali na minha cara todas às vezes que vou à varanda, não consigo não ver. E tem mais eu gostava do vizinho só de ver, eu ficava namorando a casa com ele, não estou dizendo que paquerava o vizinho, viu? É da casa que eu gosto.
- Não sei porque, casa mais cafona, toda arrumadinha.
-É o que ela representa, filho, você não entende ainda destas coisas.
-Você é doida, quando fizeram a piscina disse que a filha deles ia casar, agora que o pai morreu...
-Ainda acho que ela vai casar.
-Pois eu ainda acho que ele não morreu, está viajando.
-Não filho, quando a vizinha apareceu estava chorando muito, limpando as lágrimas no rosto ela fechou as portas, foi até a lateral da casa, como se fosse ver se estava tudo em ordem, parecia insegura, voltou a verificar se a porta está fechada e saiu com a filha e o futuro genro de carro.
Nunca mais vi o vizinho, não o acompanhei mais no cuidado pelo jardim, na varrição das calçadas, nunca mais.