sábado, maio 02, 2009

Marcão, simplesmente Marcão- Arquivo





Um dia meu ex-marido disse que Marcão viria pegar um terno emprestado, eram amigos, haviam trabalhado juntos numa loja de Ipanema.

Eu vivia há poucos meses com ele, não conhecia seus amigos, como já contei na nossa relação tudo aconteceu muito rápido.

Chegou um negro lindo, mais de um metro e oitenta, sorriso largo, dentes muito brancos. Estava indo ao casamento da neta do Roberto Marinho. Vestiu o terno de linho branco, os sapatos de couro alemão e foi para a festa. Dias depois voltou para contar da festa e assim foi se aproximando, ficamos muito amigos.

Marcão trabalhava como faxineiro, mas era massagista e cozinheiro. Vivia no meio de intelectuais, fazia faxina e pagamentos para Ana Carolina, a cineasta; Cecília Boal, psicanalista, mulher de Augusto Boal; M., psicanalista famosa. Morava na casa de Sérgio, um sociólogo escritor, amigo de dona Ruth Cardoso, casado com V. , psicanalista.

Um dia me disse que chegou na casa de M., a psicanalista famosa, ela chorava sem parar, ele disse: “Hoje não tem faxina nós vamos ao Jardim Botânico”.
Passaram o dia no meio das árvores, conversaram muito, fez massagem nela, e lá pelas tantas, ela encontra um homem, cumprimenta formalmente, apresenta o Marcão, sem identificá-lo, depois conta que o sujeito era cliente dela- imaginem a psicanalista sendo massageada por um negão no Jardim Botânico!... Que escândalo!

Quando meus meninos nasceram ele se emocionou muito, quando chegava bêbado insistia: "Também sou pai deles, não sou?"
"É, Marcão, é". "Sou o pai negro deles, não sou?"

Chegava sempre com algo para mim: flores que pegava nos jardins do bairro onde morava, Horto, livros, que a psicanalista não queria mais, xícaras de café. Nunca vinha de mãos abanando, e eu lhe dava todos os perfumes franceses que ganhava, ele adorava se perfumar, vivia limpo e cheiroso.

Gostava de sair por Ipanema descalço com os dois meninos, um no cangote, outro agarrado no short, dizia que eu precisava ver a cara das madames- "o que estaria aquele negão fazendo com aquelas crianças muito branquinhas? Seqüestro não é, estão numa boa..." e a gente ria.
Imaginem Lucas- três anos- agarrado com força na bainha do short para não se perder, levava-os para tomar guaraná na esquina das ruas Vinicius de Moraes com Nascimento Silva, os distraia e tomava uns goles de conhaque.

Uma vez chegou arrasado porque havia quebrado uma mesa de vidro do Boal ao limpá-la. Contou que Augusto teve um ataque, receberia amigos para jantar. Brigaram. Não trabalhou mais lá. Encontrei Cecília num encontro de psicanalistas, algum tempo depois, e conversamos sobre isto, ela disse que eu dissesse a ele que aparecesse, pois sentia saudades e Boal não estava mais zangado.

Fui morar em Cabo Frio, ele acabou conseguindo comprar um terreno lá perto, numa área de meus irmãos, construiu uma casinha. Vinha quase todo fim de semana ver a obra.
Estava bebendo muito, ficava desagradável, chatíssimo, eu ficava com raiva e pena ao mesmo tempo. Não sabia o que fazer.

Um dia- dia das crianças- ele telefona, está em Cabo Frio- pela voz percebo que bebeu- diz que está levando sanduíches do MacDonald’s para os meninos e dirá que o pai deles deu o dinheiro para a compra, que eu teria que sustentar isto. "O.K."

A decisão de me mudar para Natal amadureceu em um ano, neste período fui me preparando, às crianças e a todos os amigos, a maioria achou sábia a decisão, os mais cosmopolitas se assustaram, diziam que eu pensasse bem, que não me imaginavam numa cidade pequena etc e tal, Marcão ficou pesaroso, mas achou que seria bom, principalmente para os meninos, estariam perto dos três tios...

Eu não conseguia começar a encaixotar as coisas para sair do apartamento de Ipanema, chorava feito condenada lendo cartas de Pim, vendo fotos, e ele dizia enquanto embalava a louça:
“Vamos lá, as coisas do seu quarto são com você”.
De repente me pegava com força e balançava os braços para que eu relaxasse, alongava minhas costas, aquecia as mãos, esfregando uma na outra e colocava no meu rosto, lembro das mãos quentes dele nas minhas faces.

Dia de mudança, viagem, tristeza e ansiedade, aviso os amigos próximos, sairei do Galeão às onze da manhã. O pai dos meninos diz que vai fazer o possível para ir, Marcão diz que vai.
Dez horas de manhã, aparece Marcão, sorriso nos lábios, mais gordo, mais velho, não mais bonito, os meninos ficam tão felizes que pegam o dinheirinho que a avó havia dado para a viagem e compram presentes para ele naquelas lojas de souveniers.
Marcão foi a única pessoa que foi ao aeroporto se despedir de nós-o pai negro dos meninos. Pegou três ônibus para chegar lá, morava na Gávea.
Esqueci de dizer que ele era gay, o que o fazia, talvez, mais especial- aquele homem enorme, forte, bonito e super sensível. Morreu há dois anos. Marcão caiu na rua, teve um infarto fulminante.

Sinto nó na garganta e os olhos marejam ao lembrar o meu amigo negro.

6 comentários:

Anônimo disse...

Eu já tinha lido sobre o Marcão, dos seus arquivos, e relendo-o agora, a emoção e as lágrimas são as mesmas, de quando li pela 1a. vez. Lindo, e triste ao mesmo tempo.
bjs
madoka

Laura Diz disse...

Querida, eu sempre choro lembrando dele.
Eu dei uma revisada nesta crônica, estava cheia de erros- se vc encontrar mais erros me avise, please.
Acrescentei o lance do Boal, pensei que estava ai, mas está em outro lugar, não sei qual.
Vc me perguntou da acupuntura outro dia e não respondi- amo acupuntura, fiz anos a fio, desde a década de 70 faço- estou me sentindo melhor, só que ontem me atacou dor de cabeça- fiquei hs aqui mexendo o blog e contos, a coluna...não tenho uma cadeira apropriada, acho que terei que comprar uma, coloco almofadas, fico torta...
e o médico colocou só na orelha,eu gosto de colocar no corpo todo,mas a tonteira, a sensação de estar esquecendo as coisas, melhorou.
Vou te contar por email o que fiz aqui estes dias- uma m. das gdes, consertei- meu filho resolveu.
Bjs, minha flor distante.
Laura

Maria Muadiê disse...

Marcão é apaixonante!

Mani disse...

Eu também adoro o Marcão!

Euzinha disse...

Lindo texto, querida. Saudade

Marta Bellini disse...

Vi o Marcão andando com vcs.
Lindo texto e maravilhoso Marcão.