sábado, maio 23, 2009

"Leite derramado" em retalhos





Como eu não consigo me concentrar, reler e escrever sobre o livro do Chico, "Leite derramado", vou colocar aqui o que andei dizendo por ai sobre o livro.
Fica uma colcha de retalhos, sorry.

Hoje li uma crítica, e escrevi isto, mais ou menos, para o Thiago Corrêa:

Gostei muito do livro. Como sou psicanalista vi um velho no leito de um hospital, tentando enganar a morte com suas lembranças. A aridez hospitalar é compensada pela memória de um amor imaginário num passado remoto.

Outro dia no blog do ex-critor eu disse isto:

É um livro bom de se ler, gostoso, flui maravilhosamente. O personagem principal é um velho interessante, confuso, que vai tecendo suas memórias, mudando cada vez que volta à mesma cena. Luta contra a morte, a memória é teia que o defende da morte próxima.

Chico não se perde, engana o leitor- em 'Budapeste' talvez o faça de forma menos lúdica. Aqui em 'Leite derramado' ele conta a estória revelando a história.
Não sou especialista em literatura, não me sinto à vontade fazendo críticas, portanto é apenas uma leitura do livro.

A narrativa de Chico tem algo de Raduan, meio delirante, insuportável para alguns, fascinante para outros- talvez os mais loucos, como eu. Tem algo de Javier Marias. E, se perguntarem a ele, Chico, podem ter certeza, já li sobre isto, estes são escritores que ele lê.

Para mim, Chico é escritor desde 'Gota d'água', peça maravilhosa, e 'Estorvo', livro que Raduan Nassar me disse estes dias ter gostado muito. Não invento, como alguns pensam. Raduan não leu os dois últimos, não está bem dos olhos, operou um, vai operar o outro.

Concordo com você plenamente, este tipo de gente que diz "Não li, não gostei" devia enfiar a viola no saco e ficar em silêncio. Chico merece nosso respeito. È um dos brasileiros mais respeitáveis que conheço, e não são muitos, não é?
Infelizmente Chico é pouco conhecido aqui em Natal.

Abre parêntese:

Outro dia meu filho Dan disse que a professora de português deu um poema do Chico pra eles lerem e baseados nele fazerem algo. Era "Bom conselho". Eu disse: É letra de música, filho.
- A professora disse que não é, uma aluno disse que era.
- É sim, vou cantar pra você: "Ouça um bom conselho, eu te dou de graça..."
- Poxa, mãe, ela teimou que não era.
Enfim, é uma pena. Chico, Caetano, Gil, Milton, têm letras belíssimas e são tão pouco conhecidos neste brasilzão. Meu filho que tem 18 anos ouve MPB boa, fico feliz.

Fecha parênteses.

Comentei em abril no blog do Felipe Machado:

Acabei de ler o livro hoje.

Adorei.

Fala de um amor idealizado por uma mulher que, para mim, representa todas as mulheres, fala de relações entre pais e filhos, netos, bisnetos. Faz um retrato de nossa sociedade com humor e sensibilidade.
Somos todos decadentes?

Lembrei da família Guinle- um paradigma, pelo ''glamour''.

Você lembra bem Garcia Marques, gostei da sua referência, agora vejo que faz todo sentido.

O personagem fala sozinho? Há alguém realmente ali?

Comove a solidão, o desejo de reter a memória, talvez por eu estar envelhecendo. É triste envelhecer.

Há muita sensualidade no livro, o desejo do homem sempre presente. Um desejo por mulheres de todos os níveis. Aquele homem amava as mulheres.

Enfim, gostei muito. É verdade, muitos livros e filmes começam assim, poderíamos lembrar muitos, mas Chico conseguiu escrever um livro interessante.


Acrescento agora- 23 de maio:

Ok, é uma metáfora do Brasil, de uma sociedade decadente, muitos já disseram.

Lembra “Brás Cubas”, outros livros e filmes narrados na primeira pessoa, sim, mas é um erro tentar comparar Chico a Machado de Assis, mesmo a Raduan., ou ao compositor famoso. Eu digo que apenas lembra, não vejo no Chico a densidade de “Lavoura arcaica”, percebe-se que não é esta a intenção, o livro é lúdico. O perfil psicológico do personagem vamos costurando aos poucos, lendo nas entrelinhas.


E fiquei feliz, muito, porque penso que Chico elaborou muitas coisas através da escrita. Sei que já foi analisado, não sei se ainda é. Todos nós quando escrevemos fazemos isto, ele fala da morte com humor e leveza. Ainda não cheguei lá. :)


Vida longa para meu querido Chico Buarque de Hollanda! Um homem que ama as mulheres e o Brasil, podem crer.

Ah! adorei a frase inicial, eu sempre começo meus contos com quando, preciso me policiar, mudar. Gosto da ideia de continuidade.

Trecho do livro:


Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da
minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar
o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por
estar sentimental, não é por causa da morfina. Você
vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das
joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos
criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher.
E se na fazenda ainda não houver luz elétrica,
providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai
ter também ar condicionado em todos os aposentos
da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor.
Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados
suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim,
suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e
não tinha a austeridade da minha mãe"...

Daqui

Outra crítica aqui.
Esta já postei outro dia, leram? É muito boa.

Aqui uma entendida no assunto-Leyla Perrone-Moisés.

Ufa! foi uma colcha de retalhos, mas cansei. Não sei deixar sem os links.
Bom domingo.

7 comentários:

Leila Silva disse...

Mas é claro que o Chico merece o nosso respeito!

Ainda não li o livro, mas vou ler, vou ler sim.
Abraço

Ex-critor disse...

Gostei da forma como você colocou sua opinião, deixada em vários locais. Como se você estivesse conversando com pessoas diferentes, em locais diferentes, bares diferentes. Você acertou em dizer que é uma colcha de retalhos. Mas parece também técnica de psicanalista: tirar as coisas aos poucos do paciente, revelar em conta-gotas....

Diz disse...

Leila, chèrie, um ia vc lê, eu sei. Acho que o outro que eu falei v não vai ler, 'Castelo de vidro'- não faz seu estilo.

Excritor, vc acertou eu queria mesmo é bater papo, ai que falta me faz um amigo p conversar...
vc é bom de papo, eu gosto de trocar ideias com vc.

Bjs nos dois e bom domingo
Laura

Luma disse...

Eu li Budapeste e Estorvo. Quero ler Benjamin antes de ler Leite derramado. Comprei os 4 juntos! Depois te falo!!
Linkei o texto da coletiva e de vez em quando acessa o post para ler os comentários, tá?
Porque você não coloca aqui a widget últimos comentários? Muita gente comenta textos antigos e você acaba por não saber.
Bom fim de semana! Beijus

inteligenciaoriginal disse...

Quem chega ao final de Leite Derramado consegue ter uma nova visão sobre o leito, será que toda a narrativa e o perfil psicológico do narrador não transmite a sensação de "depressão pré-morte"?
Será que todos ficaremos assim ? E se ficarmos, espero que tenhamos histórias tão boas quando esta.

Diz disse...

Luma, passei lá :)

Inteligênciaoriginal:
Eu vi assim o pré morte, por isso acho que Chico fez bem em fazer o livro, de certa forma a morte para ele não será mais tabu- se é que um dia foi.
Tb quero ter o que contar, até tenho, espero tb ter pra quem contar :)
cruzes! envelhecer é triste.
Abs, Laura-Elianne

Alexandre Mauj Imamura Gonzalez disse...

esse livro eu quero ler! gosto mto das músicas do Chico Buarque, li Budapeste e gostei.

e seu review do livro está ótimo. e realmente, as músicas dele precisam ser ouvidas novamente (como se fez nos tempos bravos da ditadura). uma pena que as pessoas estão preferindo a música pobre...

felicidades!