sexta-feira, abril 17, 2009

Mini conto: O ramo de erva

Erva cidreira*





O ramo de erva


O sol aquece suas costas. É sete e dez da manhã. Vira-se na cama, cobre os olhos com o lençol, não adianta, algo nela a faz se encolher aflita. Olha a janela, nuvens prenunciam chuva. Queria dormir mais. Ouve as vozes de homens, alguns riem. "Há muito não ri", pensa. Quer uma droga que a faça feliz. Quando a alegria toma conta dela o corpo se colore, a fala dispara, quer estar mais com os outros, quer contar suas histórias. Quem se interessa por suas memórias? Vive tão pouco hoje, sobrevive das lembranças dos amores de antes. Mais que o luto o que mais dói no enamorado é não poder mais dizer: “Eu te amo”**. Leu hoje. Não há para quem dizer: “Eu te quero, venha logo”.
Um vazio a faz triste. Um vazio que tapa com leituras de jornais, com recados aos amigos, com dicas de beleza às amigas. Nada encobre o buraco. Se ouvisse a voz dele: “Minha querida...” Mas não há mais a voz dele, nem a fantasia de um novo amor.
Na rua, outro dia, lembrou alguém com quem sonhou um dia. Três passos adiante o vê à sua frente. Sorriram cúmplices, olhos nos olhos, apenas isto. Não é o bastante, nem o suficiente***.
Volta para casa surpresa com o encontro, a imagem do homem dos olhos verdes a perseguindo, aquele que a despiu tantas vezes como o olhar. Mas isso não é nada.

No meio da manhã, o pequeno comprimido na língua, promessa de algum alívio, vê homens na sua varanda. Não, não vêm trazer notícias, nem consertar torneiras. Um deles estende um ramo de erva cidreira: “Para a senhora plantar”. “Obrigada, mas já tenho lá atrás”. “Eu não disse?” Diz o outro que conhece a casa melhor.
Mesmo assim pegou o galho e plantou debaixo das bananeiras. “Planta gosta de estar perto de planta” Soube outro dia, não sabia. Gente precisa estar perto de gente, ela sabe.
E, de alguma forma, sentiu-se confortada por ganhar ramos de ervas que curam. Quem sabe não cura a sua alma aflita?


*'Simbolicamente, é uma espécie ligada ao amor e à feminilidade'. Li aqui

** "Fragmentos de um discurso amoroso" de Roland Barthes.

***Referência ao livro de Raduan Nassar "Um copo de cólera"

2 comentários:

D. disse...

Acabo de fazer, podem corrigir, agradeço :)
bjs queirdos amigos, Laura.

Maria Augusta disse...

Delícia das delícias, como todos os teus contos...