terça-feira, junho 19, 2012

Cartas entre Vinicius de Moraes e Chico Buarque





















By Camille Claudel


Recebi, por e-mail, esta preciosidade, divido com vocês:

"As duas cartas abaixo foram cedidas por Chico Buarque de Holanda
a Caique Botkay que as publicou no livro "Achados", uma coletânea de coisas
que jamais seriam publicadas. Todos os "achados" são inéditos.
Eis o processo de criação e de elaboração poética ao vivo e a cores - no
caso da letra de "Valsinha", composição de Chico que faz sucesso até hoje.


De Vinicius de Moraes para Chico Buarque:


Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei
que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos
que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a
você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio
[Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.

Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral.
Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas.
Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de "Valsa hippie", porque parece-me
que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à
valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no
princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo,
dizendo o que você achou.

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar...

Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar

Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar...
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou

E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz".


De Chico Buarque para Vinícius de Moraes


Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando
aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também
porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior
entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show,
junto com o "Apesar de você". Então dá um certo medo de mudar demais.
Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por
pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse,
e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.
"Valsa hippie" é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de
barra, com tudo que há de hippie por aí. "Valsa hippie" ligado à filosofia
hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande
público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar
roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro
que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida,
em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa,
mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue.
Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele
nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e
está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer,
neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou "xingou" mesmo) a vida
tanto e convidou-a pra rodar. "Convidou-a pra rodar" eu gosto muito,
poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar.
Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar,
perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da
trepada final. "Pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que
"para seu espanto". Só que eu esqueci que ia por itens.
Vamos lá:
* Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som
do vestido decotado. É gostoso de cantar vestidodecotado.
E para ficar dourado,o vestido fica com o acento tendendo para a primeira
sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás,
o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao
"ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado.
Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava
estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa,
assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais
para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas
modificações que, enriquecendo os versos,
talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem
um apelo popular que nós não suspeitávamos.
* Ainda baseado no argumento acima, prefiro o "abraçar" ao "bailar".
Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.
* A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao
"o mundo" em vez de "a gente".
Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último
versos onde você diz "e cheios de ternura e graça" em vez de "e foram-se
cheios de graça". Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior,
quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua
ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e
começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o
"em-e" numa sílaba só. Que é o mesmo problema do "começaram-a". Mas você
mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar.
E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos. Enfim, veja
aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda
urgente.
* Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa
na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui
esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que
deu bolo com o "Apesar de você", tenho sido perturbado e o disco deixou de
ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto
quanto a "Tonga", mas a "Banda" vendeu mais que o disco do Toquinho   solando
"Primavera". Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana
para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece
melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro
buraco que você tiver à mão.

"Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz."


PS: Postei pela primeira vez em 21/04/2007

Um comentário:

silvia marrat sitta disse...

Que maravilha fiquei encantada com as cartas. Amo cartas.Que livro é esse queria ter.