terça-feira, março 20, 2007

Contos I e II 'revista piauí'.














Estes contos foram os primeiros que enviei para a 'revista piauí'. Alguns de vocês vão lembrar dos continhos que usei para encaixar a frase da Alice, era preciso incluir a frase: "Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano”.
Gosto dos personagens masculinos meio sádicos. Freud explica, não é? Eu vejo a mulher através do olhar masculino, é bom se ver assim, sei lá. Gosto das mulheres loucas- eu não sou assim, eu sou contida, posso ser louca escrevendo, mas na intimidade eu sou bem tranqüila. É divertido.
Raduan Nassar diz que riu muito quando escreveu "Um copo de cólera", eu posso imaginá-lo lendo alto os diálogos e rindo, ele ri gostoso demais. Eu gosto de ler alto, muitas vezes leio para Bethânia, algumas palavras eu troco para ela entender melhor. Escrever é um barato, estranho estas pessoas que dizem sofrer tanto, acho que sofrem porque se vêem obrigadas a cumprir prazos, mesmo que sejam internos, ou porque ficam bloqueados. Por enquanto tem sido só prazer. Clarice dizia que não era escritora profissional, que só escrevia quando tinha vontade, é assim que eu faço. Não tenho uma preocupação em ser escritora, ou mesmo em escrever sempre bem, apenas escrevo, às vezes é bom, outras, não, não importa, quero dizer o que está dentro de mim. Tenho tantas histórias para contar. Devia ter começado antes. E só comecei porque vim parar aqui e não tinha o que fazer - lógico que poderia ir à praia, ou ler, ou ver Tv, mas prefiro estar aqui.
A vida é muito engraçada...


Conto I


Através da cortina

Entrei em casa tirando a roupa e deitei nu. Estava exausto. Batem na porta, penso em não levantar, não quero ver ninguém. Insistem. Melhor ver quem é.
Pelo olho mágico vejo Alice: olhos pintados com kajal, boca vermelha, como gosta. Recuo em silêncio. Não poderia abrir, virá como cão farejador:
"Que cheiro é este na sua barba?" "Esteve com ela de novo, não foi?"
Através da cortina vejo-a atravessar a rua. Encosta-se no carro, ajeita a meia preta, logo acima dos joelhos: "Só uso meias pretas", ela diz, com cara de mulher segura. Está impaciente, olha para o relógio, para a casa, para os dois lados da rua. Imagina que eu chegue a qualquer momento.
Se eu abrisse a porta me diria: “Seu cretino, filho da puta, onde você estava? Desligou o telefone de novo!" Eu diria que não, que havia acabado de chegar, que estive pesquisando para o livro”. Não convencida, ela me daria socos no peito, exasperada.
"Mentiroso, filho da puta, você não estava trabalhando, eu sei”.
Eu a seguraria firme pelos braços e beijaria aquela boca rubra até que se calasse. Lágrimas desceriam dos olhos, agora borrados de negro.
"Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano”.
Ela me olharia perdida:
“Você é um cretino, filho da puta” diria entre um suspiro e outro, minhas mãos deslizando nas coxas lisas, seda pura.
Ela estará cansada de tanto esperar, serei eu o condutor, não pedirá nada, se entregará como sempre, como se fosse a última.
Ela sabe que pode estar certa.


Conto II


De saltos altos

Ela passa uma, duas, três vezes na calçada em frente. Quem vê pensa que é louca. Pisa firme com os saltos altos; o toc toc a denuncia. Traz algo nas mãos, de longe parece um terço, mas não é, conheço bem aquele cordão, ganhou de um amigo grego, não o larga, diz que dá sorte. Olha alternadamente para a casa e para o fim da rua. Acredita que ainda não cheguei. Faz quase uma hora que está ali, andando de um lado para o outro, impaciente. Conheço essa impaciência, ela pensa me pegar de surpresa, está com o discurso pronto, adivinho o que diria se abrisse a porta ou me vislumbrasse atrás da cortina:
- Seu cretino, filho da puta, como foi sair com ela? Eu pedi tanto que se afastasse daquela vagabunda!
- Você está delirando, não saí com ninguém, parece que ficou louca!
- Mitômano, cretino!
- Mas Alice, eu já disse que não sou mitômano...
Não contenho o sorriso, é inevitável. Não nego o prazer em vê-la assim perdida, não diria desesperada, apenas perdida.
Ela, tão cheia de certezas...
Vejo aqueles olhos nos meus, esfomeados, querendo me decifrar, percebo seu desconcerto.
É meu o próximo passo, ela sabe.
Logo a raiva se dissiparia. Nunca brigamos, basta fixar bem os olhos nos olhos dela e sorrir. Ela desmonta, chora, me faz jurar que nunca mais a farei sofrer. Não digo nada, não posso lhe dizer que também amo a outra.
Vejo suas belas pernas cobertas por meias pretas, os saltos altos, “só uso saltos altos”- ela gosta de dizer.
Sei que se abrir a porta, beijarei aquele rosto até que ela sorria. Eu a farei sorrir, não sobrevivo sem aquele sorriso. Ela não sabe, apenas intui.

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