No último envelope que colou cuidadosamente selou uma declaração de amor, depois, como sempre, teve medo, quis dizer que não era nada daquilo, que era só uma fantasia, mas já estava a caminho.
O porteiro adiantou:
- “Tem uma carta para a senhora”
O envelope era branco, a letra bonita, chamava-a pelo nome que mais gosta Laura- acredita que Laura possa ser mais feliz que Lílian, Laura a vitoriosa, coroada de louros, Lílian a pura, não gosta de Lílian.
Rasgou o envelope na pressa e leu:
“Laura, acabo de receber sua carta, preocupa-me a forma como conduz nossa relação, conhece minha situação, estamos muito distantes, procure sonhar menos, contenha-se. Minha vida é muito estressante, não tenho tempo para sonhar. Você está certa quando diz que quer ser feliz, merece um homem que tenha disponibilidade, você é uma mulher interessante e boa.
Um abraço, J.”.
Leu ali na portaria mesmo, o porteiro discreto sentado na cadeira nem levantou os olhos da mini TV. Ela ficou tão perturbada que subiu os três andares pela escada, não agüentaria encontrar alguém no elevador. Abriu a porta e se jogou no sofá chorando. Sabia que ele ia dizer isto, tinha certeza, nunca iria sonhar com uma mulher como ela, ousada, espontânea, aberta. Quer ficar a vida toda naquela relação morna, cada um virado para um lado, como já disse uma vez: “A cama é grande, cada um vira para um lado”, ela nunca aceitaria um homem ao lado deitadinho na mesma cama sem falar com ela. Que se dane!
“Contenha-se”, como se conter? Como evitar o amor? Estava tão bem, mortinha por dentro, sem sonhos, ele veio e a despertou, agora quer que se contenha, dane-se!
“Você é boa”, " ah, boa... Esta é boa! Eu boa? Só se for de cama!"
Chorou até cansar, lembrou dele, da última vez que se viram, do quanto se entregou, dos olhos dele assustados e percebeu que ali havia o prenuncio da fuga. Nunca mais quer vê-lo, ridículo, acabou, detesta homens fracos, ama os sonhadores, os visionários, os destemidos, acabou.
Ainda havia um resto de sol lá fora, vestiu um short, um tênis e foi caminhar na praia.
Desceu pela escada, desta vez saltando os degraus, saltando no tempo.
Disse ao passar pelo porteiro:
_ Seu Zé, na volta vou trazer um pãozinho fresco para o senhor, vou dar uma volta, ver o por do sol, até logo.
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PS: Esta historinha é ficção, não vão pensar que aconteceu :) fiz um mix e saiu isto.
o meu porteiro do Rio é o Seu Zé, ainda existe, está lá, gosto dele, quando comprava pão, dava para ele ao passar na portaria, ele está lá desde que fizeram o prédio, uns 40 anos.
Ih... será que sou boa? hihihi eu acredito que a gente faz estas coisas para nos sentirmos bem, é isto.
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