quinta-feira, maio 13, 2021

O amigo que me falta

Final de março de 2021, final de uma amizade bonita e instigante. Meu amigo se foi. Para lugar nenhum, ele diria rindo. A vida ficou mais sem graça pela ausência de seus comentários sempre ricos e divertidos.

Desde o ano passado vínhamos falando menos.

Desconfiada de que estava doente, perguntei, respondeu que a saúde estava capenga. Vi sua imagem por aí, cada dia mais calvo, até a calvície completa. Uma doença que faz perdermos todos os pelos. Mas ele continuava rindo por aí, eu via, enamorado pela mulher que encontrou tarde, segundo queixa dele, contada por ela também por aí. Ele disse um dia que estava cansado de também, lembrei agora. 

Eu que sempre tive um encantamento por ele, mais explícito ou latente, fiquei genuinamente feliz por ele estar tão apaixonado nessa fase da vida.

Vivemos em isolamento pela pandemia. Ele sentia as limitações impostas e fez do período de clausura fértil terreno- escreveu livros, deu muitas entrevistas, tinha pressa, urgia produzir mais e mais.

No início de 2020 brincou: “Vou morar na Dinamarca”, mas eu sabia que era tarde para mudanças, ele sabia que o que lhe restava de vida passaria em São Paulo e não em Veneza, Paris ou Nova York, onde poderia estar.

Esta noite sonhei com ele. Tudo tão nítido e forte que despertei sem voltar a dormir.

Ele preparou um jantar de despedida, nós, os convidados, chegamos, mas ele havia saído, sabíamos que voltaria a qualquer momento. Eu me sentia deslocada num ambiente mais sofisticado do que o meu habitual, segui em direção à cozinha. Era um apartamento todo aberto, um espaço só. Da cozinha eu via as pessoas conversando animadamente. 

Na geladeira havia um bolo que ele tinha feito. No sonho eu pensava: Ele fez  questão de fazer o bolo antes de ir fazer algo que precisava! Imaginava que tivesse ido se tratar, ao médico.  

Chegaram dois entregadores, que na verdade eram chefs de cozinha, com o chapéu branco para entregar algumas coisas muito especiais. Ele queria que fosse um jantar único.

Na bancada da pia, uma tigela com creme de leite batido. Eu provei e dei para uma outra moça provar. Mais tarde percebemos que era a cobertura do bolo e que precisávamos de mais. Fico aflita. Onde encontrar creme de leite naquela hora? No mesmo instante eu penso no quanto fui desatenta, como fui comer aquilo? Também pensava que ele me conhecia e não se importaria- não se surpreenderia muito com nada que eu fizesse. Mas eu pensava que foi um escorregão feio, falta de educação, e me sentia constrangida.

Há um corte aí. 


Estou num lugar qualquer, calçada talvez e ele sai de um carro e vem me abraçar fortemente. Damos uma abraço comovido, nos soltamos e ele vem novamente me dar outro abraço- como se a despedida estivesse muito difícil. Depois me beija e novamente é difícil ir embora, mas ele vai.

Acordei aí, amanheci triste. Para quem irei contar o meu sonho? 

Que falta este homem faz na minha vida!


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