domingo, outubro 13, 2013

Cordial- Caetano Veloso/ O Globo





Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco

Tenho um coração libertário. Sou o típico coroa que foi jovem nos anos 60. Recebi anteontem o e-mail de um cara de quem gosto muito — e que é jornalista — com proposta de entrevista por escrito sobre a questão das biografias. Para refrescar minha memória, ele anexou um trecho de fala minha em 2007. Ali eu me coloco claramente contra a exigência de autorização prévia por parte de biografados. E pergunto: “Vão queimar os livros?” Achei aquilo minha cara. Todos que me conhecem sabem que essa é minha tendência. Na casa de Gil, ao fim de uma reunião com a turma da classe, eu disse, faz poucos meses, que “quem está na chuva é para se molhar” e “biografias não podem ser todas chapa-branca”. Então por que me somo a meus colegas mais cautelosos da associação Procure Saber, que submetem a liberação das obras biográficas à autorização dos biografados?
Mudei muito pouco nesse meio-tempo. Mas as pequenas mudanças podem ter resultados gritantes. Aprendi, em conversas com amigos compositores, que, no cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade, muito cuidado é pouco. E que, se queremos que o Brasil avance nessa área, o simplismo não nos ajudará. O modo como a imprensa tem tratado o tema é despropositado. De repente, Chico, Milton, Djavan, Gil, Erasmo e eu somos chamados de censores porque nos aproximamos da posição de Roberto Carlos, querendo responder ao movimento liderado pela Anel (Associação Nacional dos Editores de Livros), que criou uma Adin (ação direta de inconstitucionalidade) contra os artigos 20 e 21 do Código Civil, que protegem a intimidade de figuras públicas. Repórter da “Folha” cita trechos de algo dito por Paula Lavigne em outro contexto para responder a sua carta de leitor. Logo a “Folha”, que processou, por parodiá-la, o blog Falha de S.Paulo.
A sede com que os jornais foram ao pote terminou dando ao leitor a impressão de que meus colegas e eu desencadeamos uma ação, quando o que aconteceu foi que nos vimos no meio de uma ação deflagrada por editoras, à qual vimos que precisávamos responder com, no mínimo, um apelo à discussão. Censor, eu? Nem morta! Na verdade a avalanche de pitos, reprimendas e agressões só me estimula a combatividade.
Tenho dito a meus amigos que os autores de biografias não podem ser desrespeitados em seus direitos de informar e enriquecer a imagem que podemos ter da nossa sociedade. Pesquisam, trabalham e ganham bem menos do que nós (mas não nos esqueçamos das possibilidades do audiovisual). Não me sinto atraído pelo excesso de zelo com a vida privada e muito menos pela ideia de meus descendentes ficarem com a tarefa de manter meu nome “limpo”. Isso lhes oferece uma motivação de segunda classe para suas vidas. Também neguinho pode vir a ter um neto que seja muito careta e queira fazer dele o burguês respeitável que ele não foi nem quis ser. Mas diante dos editoriais candentes, das palavras pesadas e, sobretudo, das grosserias dirigidas a Paula Lavigne, minha empresária, ex-mulher e mãe de dois dos meus três filhos maravilhosos, tendo a ressaltar o que meu mestre Jorge Mautner sintetizou tão bem nos versos “Liberdade é bonita mas não é infinita /Me acredite: liberdade é a consciência do limite”. Mautner é pelo extremo zelo com a intimidade.
Autores americanos foram convocados para repisar a ferida do sub-vira-lata. Nada mais útil à campanha. (Americanos são vira-latas mas têm uma história revolucionária com a qual não nos demos o direito de competir.) Sou sim a favor de podermos ter biografias não autorizadas de Sarney ou Roberto Marinho. Mas as delicadezas do sofrimento de Gloria Perez e o perigo de proliferação de escândalos são tópicos sobre os quais o leitor deve refletir. A atitude de Roberto foi útil para nos trazer até aqui: creio que os termos do Código Civil merecem ser mudados, mas entre a chapa-branca e o risco marrom devem valer considerações como as de Francisco Bosco. Ex-roqueiros bolsonaros e matérias do GLOBO tipo olha-os-baderneiros para esconder a força que a luta dos professores ganhou na cidade me tiram a vontade de crer em opções fora da esquerda entalada. Me empobrecem. Ficaremos todos mais ricos se virmos que o direito à intimidade deve complicar o de livre expressão. E se avançarmos sem barretadas aos americanos. Ouve-se aqui minha voz individual. Quiçá perguntem: ué, os jornais deram espaço, pediram entrevistas: Tá chiando de quê? Pois é. Meu ritmo. Roberto, Chico, Milton e os outros estão mais firmes: nunca defenderam nada diferente. Esperei o Procure Saber buscar seu timbre, olhei em volta e deixei pra falar aqui


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/cordial-10348401#ixzz2heUY6W7h 

O ser estranho- estrangeiro



“Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.”
Vilém Flusser, filósofo judeu nascido em Praga que morou também no Brasil, na Itália, na França.

quinta-feira, outubro 10, 2013

A vida de cabeça para baixo









Há dias minha rotina está de cabeça para baixo. Estamos pintando e restaurando algumas coisas na casa. Passo muitas horas do dia “pastorando”, ( como dizem aqui), os meninos pintores. Além deles, há o eletricista, que está colocando lâmpadas no muro- esqueci de colocar quando fizemos a casa- falta de experiência e, na ocasião, eu estava de luto.
Não quero falar nisto.

Bem, os filhos têm passado os dias fora trabalhando e estudando. Fico feliz por estarem bem, seguindo suas trilhas.

O pintor chefe levou a gatinha Florzinha para a sua casa. Se encantou por ela e eu dei. Era um sufoco passar o dia separando gatos de cão e tal. Ela está bem lá. Dá um pouco de saudade, mas ele disse que ela fica dentro de casa e a outra gata do lado de fora. Comprou uma caixa higiênica para ela- aqui ela urinava para fora, uma trabalheira lavar area de serviço todos os dias. 

Os jovens pintores, (20 e 22 anos), me elogiam o dia todo, dizem que nunca foram tão bem tratados. Têm aspecto de mal cuidados, um deles é estrábico e magrinho; o outro fortinho, olhos cor de mel, esverdeados, com pterígio enorme. Acreditei, quando vi pela primeira vez, que fosse cego daquele olho.

Anteontem, dia 9, não haviam recebido ainda. Depois soube que é falta de organização do chefe- que é uma simpatia, mas disperso demais. Chega diz algumas coisas, some, volta horas depois diz mais umas coisinhas e desaparece. Preciso orientar os rapazes- hoje ajudei-os a tirar a porta da frente, que é de correr, não sabiam como fazer.

Aliás, eu ando ótima para fazer coisas em casa. Acredite, semana passada, minha geladeira nova, uma Brastemp, frost free, foi consertada por mim. Congelou o ventilador, meu filho foi quem descobriu o problema e vimos um youtube que ensinava como descongelar. Tirei placas do fundo do freezer, descongelei e voltou a funcionar bem.
A Brastemp não é mais uma BRASTEMP- esta tem um ano e uns meses. Tive uma que vive até hoje- dei para a ex empregada- é do tempo do Collor e nunca parou de funcionar.

E assim a vida continua. Cabeça na casa, nos filhos e nos agregados. É bom, apesar de dar sensação de falta, de invasão da vida privada. Fazer o quê? Há momentos em que é preciso.
Bye, bye.
Estou com u olho aqui e outro nos surfistas ali no canal51- meu filho, Dan, ama. Acabei curtindo também. Tanto mar, tanto mar...


terça-feira, outubro 01, 2013

Bullying no cinema





Vi, estes dias "Chid's play", filme de Sidney Lumet.

A fixa técnica está aqui; http://www.imdb.com/title/tt0068369/

É sobre violência. Talvez seja um thriller, não sou especialista, nem pretendo ser.

Numa escola de ensino médio, jovens são levados a ficar a favor de um professor e contra o outro.

Há uma disputa acirrada entre dois antigos docentes. A trama é instigantes, o elenco afinadíssimo.
Um filme que nos faz pensar e prende a atenção.

O final é surpreendente.


No mesmo dia vi:


      http://www.adorocinema.com/filmes/filme-182870/

Interessante,  também um filme sobre violência,  muito bom, diferente dos filmes americanos, comerciais.
A diretora é dinamarquesa. Filme de produção Suécia- Dinamarca. Questiona a violência através do comportamento de duas famílias, ou via dois meninos que sofrem preconceito na escola. Um menino é hostilizado de forma violenta pela sua origem, o pai  um idealista, médico, que trabalha na África, não acredita em revanches, o outro menino, que tem uma história familiar mais triste - a mãe morreu de câncer, ele culpa o pai pela infelicidade- quer vingar-se.
O filme mostra de forma didática, diria, as consequências de ações violentas.
É um filme tenso. A qualquer momento pode acontecer um tragédia. Um mundo melhor?  Não sei...os meninos no final se reconciliam, os conflitos dão trégua. Seria este o mundo melhor?    
Filme  ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro. Gostei porque é um filme que não dá respostas prontas, talvez a diretora tentasse isso, mas há muito para se discutir após. Me agradam filmes assim, onde cada faz sua leitura.  

Não vou contar mais. Vejam que vale a pena.

Os dois tratam de bullying, de violência, de relações conflitivas.

quarta-feira, setembro 25, 2013

O senhor dos meus dias- miniconto/ arquivo


O senhor dos meus dias


Inclino-me na cadeira da mesa da cozinha e o vejo na sala.
Ele curva o corpo pesado e pega o jornal na mesa de centro. Tira os óculos do bolso. Começa a desfolhar o jornal- gesto que antes odiava.
Meus olhos marejam.

domingo, setembro 22, 2013

quarta-feira, setembro 18, 2013

A sete chaves- poeminha despretensioso








 O coração se aquietou. 
 Resignou-se. 
Poderia dizer: "Matou o sonho", 
seria inverdade. 

Lá, 
onde a tristeza se esconde, 
há um sonho guardado.

quinta-feira, setembro 12, 2013

De onde vêm os terroristas, por Contardo Calligaris





Texto de 2011

Segunda-feira, em Brookline, Massachusetts. Estou sentado num café numa Harvard Street cheia de bandeiras. Na calçada oposta, vejo avançar, fendendo os passantes, uma mulher muçulmana, de véu até os pés -um xador, que deixa o rosto exposto.
Alguns dão mostra de indiferença. Véu? Qual véu? Olham para o chão, escrutam o horizonte ou envolvem-se numa conversa animada com quem estiver a seu lado. Isso com naturalidade excessiva, afetada. Outros tentam captar o olhar da mulher. Não conseguem, mas, mesmo assim, destinam-lhe amplos sorrisos. Todos, em suma, embora de maneira diferente, parecem decididos a mostrar que, nessa cidade progressista, não confundimos islã com terror.
Imagino que, em outros lugares, ela acabará encontrando um gesto hostil. Alguém receberá o passeio dessa mulher, seis dias depois do ataque terrorista contra os EUA, como uma provocação.
Ao atravessar a rua, ela aparece de frente para mim. Descubro que sua mão esquerda está fechada com força ao redor da mão de um filho de oito ou nove anos. O moleque acompanha-a numa mistura de obediência com revolta. Olha para o chão e estica o braço, mantendo-se meio metro atrás da mãe. Quando eles passam na minha frente, o menino arrasta os passos. A mãe puxa seu braço, apostrofando-o numa língua que não entendo. Parece-me reconhecer um nome: Ahmed. O menino, envergonhado, responde sem sotaque: "OK, just don't scream, please" (tá bem, só não grite, por favor). Fico com a impressão de que a mãe não entende inglês.
Dificilmente Ahmed esquecerá esse passeio, em que acompanhou o desfile da mãe como símbolo e depositária das tradições de seu grupo étnico e religioso. Não esquecerá o paradoxo pelo qual uma mulher coberta até os pés chamava e desafiava a atenção nas ruas de um mundo em que, de regra, é tirando o véu que a gente conquista o olhar dos outros.
Se ficar nos EUA alguns anos, Ahmed procurará homogeneizar-se, identificar-se com uma turma qualquer: mesmas músicas, mesmas roupas, mesmos papos, talvez até mesma cerveja proibida (para ele duplamente).
Como Ahmed lidará com as mulheres? Extasiado pelos sites pornográficos na internet e olhando de boca aberta alguma Britney Spears de barriga de fora, ele gostará muito das moças desarrochadas do país em que ele tenta integrar-se. Mas sem nunca esquecer que a sua mãe não é mulher de recorrer a essa sedução escancarada -certamente, não foi assim que ela conquistou o amor e o desejo do pai. Quem sabe Ahmed se lembre justamente do dia em que a mãe fez de seu véu uma bandeira silenciosa. E sinta a contradição passada entre a vergonha infantil por não se confundir na massa e o orgulho de ver sua mãe triunfante, intocável.
Ahmed será seduzido por mulheres ocidentais que lhe parecerão sempre mais fáceis e oferecidas do que elas são. Aliás, ele terá dificuldade para entender que elas possam recusar o desejo que, a seu ver, elas estimulam tanto. Gostará delas justamente por elas parecerem tão acessíveis e tão diferentes da mãe.
Ao mesmo tempo, ele terá desprezo por essas mulheres sedutoras. Será o jeito mais fácil para, embora seduzido, continuar venerando a mãe e a tradição da qual ela se fez porta-estandarte.
Escutando, por exemplo, jovens de origem muçulmana na França, é fácil constatar que, na comparação com a mãe, a mulher ocidental é sempre, em última instância, considerada como a vadia. Leva, no mínimo, três gerações de esposas "de fora" para que o espectro velado da mãe ou da avó deixe de ser o paradigma da honra.
Em suma, fraqueza diante da sedução e desprezo pela sedução: eis uma contradição que promete uma séria dificuldade de integração. Pois a modernidade ocidental é fundada na sedução. Todas as relações (não só amorosas) são regidas pela aspiração e pela necessidade de que os outros gostem de nós. Seduzir é a regra da vida social e o caminho do sucesso para pessoas e para produtos.
Precisará de pouco para que jovens com uma história parecida com a de Ahmed vejam o mundo ocidental inteiro como uma gigantesca tentação carnal, um universo pecaminoso por essência, o "grande Satã".
Os terroristas que atacaram o World Trade Center e o Pentágono viveram tempos longos no Ocidente. Frequentaram universidades e escolas de pilotagem. Não eram pastores descidos das montanhas. Os comentadores estranham: como é possível? Moraram entre nós tanto tempo e puderam fazer isso? Ou seja, será que nossa sedução não funcionou? Justamente: ela funcionou demais. A ponto de eles terem decidido destruir o objeto de seus desejos. A interpretação política de seus atos será sempre insuficiente: as torres gêmeas, para eles, eram símbolos não tanto de poder quanto de tentação.
Sua "guerra santa" foi isto: mataram os infiéis nos quais receavam se transformar. E mataram a si mesmos para nunca mais serem seduzidos.
Agora, se o deus que eles foram encontrar entende alguma coisa de inconsciente, eles, uma vez em sua presença, devem estar encarando uma séria decepção.

Artigo da Folha de São Paulo- 20 de setembro de 2011

Modernidade e tristeza by Contardo Calligaris









Via Folha de São Paulo

No século 4 da nossa era, nos mosteiros da Europa, a tristeza, "accidia" em latim, era considerada pecado grave, e as regras monásticas se esforçavam para identificá-la e combatê-la. Mesmo assim, muitos monges continuavam tristes.
A Europa era uma desolação. Das janelas de seus oásis de (relativa) tranquilidade, os monges podiam enxergar o horror. A cultura clássica, grega e romana, era esquecida --ignorada pela imensa maioria de iletrados ou perdida no descaso pelos manuscritos antigos. O desabamento do Império Romano transformara o território em uma terra de ninguém, em que o poder ficava com as hordas de mercenários e bandidos ocasionais. Suficiente para qualquer um ficar triste.
Mas talvez haja uma razão menos contingente para a tristeza aparecer como uma nova aflição, bem na hora em que a cultura clássica deixava seu lugar ao cristianismo. É irônico, aliás, que a dita tristeza ameaçasse logo os monges, que eram guardiões dos textos gregos e romanos que sobravam, mas que também praticavam o palimpsesto -- a arte de apagar os manuscritos antigos para usar os pergaminhos novamente, copiando os textos da nova religião.
Note-se também que, desde a acídia dos monges, a tristeza parece ter se tornado um traço distintivo da cultura ocidental e, especificamente, da modernidade, do "spleen" romântico até a depressão clínica, hoje diagnosticada a esmo. Por que, então, seríamos culturalmente tristes?
Naquele momento, no século 4, morria uma cultura para a qual o que importava era viver o momento, e nascia outra, para a qual nossa vida era apenas uma provação, pela qual ganharíamos ou perderíamos a chance de uma suposta eternidade feliz.
Desde então, é como se a vida que importa nunca mais fosse a que estamos vivendo; o pátio de casa não basta, somos infelizes e insatisfeitos porque a vida "verdadeira" nos espera lá onde ainda não chegamos.
A cultura clássica, que morria, tinha valorizado um estilo de vida norteado por um uso discreto e constante dos deleites da mente e da carne. A cultura cristã, que nascia, apontava no prazer um parente do vício e valorizava o sacrifício e a renúncia, como se Deus tivesse um apreço por nosso sofrimento.
Não sei por que Deus reconheceria algum mérito nas renúncias da gente. Freud responderia, provavelmente, que esta é a função social da religião: controlar nossos impulsos, impondo as renúncias que são necessárias para que a convivência social se torne possível. Muitos iluministas pensaram a mesma coisa.
Graças ao cristianismo, ao considerar castigos e recompensas na eternidade, nós nos tornaríamos governáveis -- sem medo do além, não haveria convívio possível (o paradoxo aqui é que essa consideração não inibiu a própria Igreja, que durante séculos e séculos foi uma instituição de crueldade inaudita).
A cultura clássica (Epicuro, por exemplo) preferia tratar os humanos como adultos e apostar que eles se disciplinariam sem ter que acreditar em um além e sem precisar de um mercado de punições e prêmios eternos: a consciência da finitude da vida seria suficiente para torná-los comedidos e dignos.
Em um jantar na casa de Thérèse Parisot, em dezembro de 1970 (sei a data pois a conversa foi sobre as condenações dos processos de Burgos), Jacques Lacan, o psicanalista francês, chegou com um pequeno volume in-octavo. Era um panfleto anônimo, segundo o qual o verdadeiro messias não era Cristo, mas Epicuro (peço que se manifestem os bibliófilos que reconhecerem o livro). Certamente, a obra era a provocação de um libertino dos séculos 17 ou 18.
Mas a questão continua valendo: será que uma modernidade seria possível sem a desvalorização do momento presente e sem a repulsa ao prazer que são partes da mensagem cristã e que talvez sejam a fonte de nossa tristeza crônica?
Qual modernidade seria possível com Epicuro, e não contra ele? Somos modernos graças ao cristianismo ou somos modernos graças ao materialismo e à disciplina dos prazeres que atravessaram a modernidade perseguidos e silenciados pelo cristianismo?
Para inventar uma resposta, um livro imperdível: dos ensaios que li nos últimos 15 anos, nenhum me prendeu e me tocou tanto quanto "A Virada, o Nascimento do Mundo Moderno", de Stephen Greenblatt.

domingo, setembro 08, 2013

o belo "A Fonte das Mulheres"




Abra aqui:  Cinema na Rede: Crítica - A Fonte das Mulheres 


Um belo filme sobre um vilarejo islamita no Norte da África.  Mostra com sensibilidade os conflitos entre homens e mulheres e religiosos.
Uma mulher, que veio de fora, incita outras a fazerem greve de sexo
buscando mudanças.
Vale a pena ver.