domingo, janeiro 31, 2010

A cadeira vazia



Ontem sonhei que estava numa sala. Havia uma cadeira destas de escritório, grande, vazia- seria do meu namorado. Penso que preciso fazer algo- estávamos brigados.
Em seguido lembro que ele está morto e choro muito.
Não poderia voltar.
A minha tristeza...Ah! deixa pra lá. Nem quero lembrar.

Penso que se eu tivesse sido mais louca a vida teria sido diferente. Teria enfrentado situações difíceis, conflitantes, sem medo. Fui muito medrosa- ainda sou. Me surpreendo com alguns gestos meus, por ex., viajar sozinha foi um desafio. OK. tenho amigos lá, mas eu circulei quase todo o tempo só e sem medo. Falando quase nada da língua. Por isso não ousei ir mais longe. Não me imagino num quarto de hotel de um país estranho, sem conseguir me comunicar- meu inglês é sofrível.

Meudeus hoje venta aqui como num deserto. O cão chora, late, não aguento mais. Já dei comida, troquei de lugar, dei osso, biscoitinho- nada. Deve ser o vento.

Esta noite sonhei que preparava tinta para pintar o cabelo- estou precisando- sempre tenho estes sonhos, tipo infantis. Ai, via no couro cabeludo uma planta enraizada. Juro. Minha tia, Mira, que já morreu há muitos anos estava comigo e eu pedi que a retirasse. Ela tirou com dificuldade, com força uma plantinha com uma raiz longa- eu senti alívio- como se tirasse também a dor de cabeça. Ando com dor constante- suponho que seja sinusite. O as chateações que independem de mim- se vocês soubessem ...

Ando mexendo com as plantas, planto aqui, limpo ali, gosto, me relaxa.
Fazer tarefas domésticas ajuda muito a aliviar ansiedade e angústia. Hoje estou lavando roupas- já vou lá estender e fico para lá e para cá na casa fazendo coisas. Preciso descarregar a pilha. :)

Tia Mira era querida, irmã do meu pai, vivemos perto, em Curitiba, muitos anos. A nossa casa era geminada- meu pai fez uma casa para ele e outra para minha avó e esta tia, que moravam juntas. Tia Mira era leve, bem humorada- o oposto de mi madre. Hoje eu lhe disse que precisa ver o lado positivo da vida. Tudo vê o lado feio.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

Lé com lé, cré com cré. Um sapato em cada pé


Daqui. Eu amo papoulas, mas esta não poderia jamais ser eu menina. Era triste. Lembrei de @_tralala_ , amiga do Twitter-é a cara dela esta imagem.


Ontem sai com uma sandália Arezzo, já bastante usada, mas ainda inteira.Uau! Surpresa! ao entrar no ‘Praia Shopping’ a tira da frente rompeu. Estava com meu filho e a namorada. Fui mancando até o Correio, onde funciona um mini Bradesco.

Comentei com um dos caixas (conheço todos)- ele pegou minha sandália e a grampeou. Imaginem a cena. O homem colocou a peça no balcão e tacou grampos. Fiquei surpresa pela gentileza e simplicidade de todos. Viram e sorriram, nenhum mal estar.

Ao sair, dez passos adiante- pumba! Arrebentou de novo. Resolvi ir cortar o cabelo. No carro uma sandália havaiana de um dos filhos, o surfista, número 43-44, foi com ela que entrei no Salão- é um lugar simples. Depois fui comprar pão com as pranchas no pé- calço 36. Achei divertido.

Na cabeleireira conversei muito com a manicure, com quem não faço unhas, mas é uma das pessoas que mais gosto daqui do RN, é do interior. Amorosa, sensível, inteligente, mas tão mal cuidada... dá pena. Vivem com tanta dificuldade. O salão é todo mal enjambrado, vou porque gosto delas, das duas, a que corta e esta- fiz depilação com ela ontem, mas é tão precário tudo- dá vontade de arrumar, fazer algo...
Eu morei ali perto por isso as conheço, faz anos. gente boa. A cabeleireira é surda. Gosta demais de mim. Me abraça forte, gosto delas por isso também, me sinto querida ali. Gostam da minha simplicidade, eu sei. Comentam sobre gente arrogante. Alguns pensam que sou, nunca fui- posso ser quando quero ser- ai sai de baixo. Boazinha eu não sou.


No domingo passado, eu estava na praia e o vento começou a me incomodar. Peguei minha canga indiana de seda e enrolei na cabeça- como as muçulmanas, sem cobrir a boca, claro. Estava de biquíni e óculos escuros. Continuei fazendo alongamentos com aquele traje.

Era cinco e tanto da tarde, havia pouca gente por lá. Alguns riam discretamente ao passarem, muitos turistas. Comentei com meu filho que estava no mar surfando. Disse: Também, mãe, você faz tipo muçulmana, mas de biquíni e fazendo ginástica na praia! Eles têm que rir.

Eu também achei divertido. Disse que quando quiser ficar no anonimato vou colocar o lenço e os óculos. Quando quiser fazer gênero viúva coloco um lenço preto, aqui tenho uns rendados- nunca usei, fica muito viúva negra, mesmo.


Meu filho Luc está em Sampa, é bom, não conhecia, é hora de conhecer cidades grandes. Foi para o show do Metallica. Está na casa de uma amiga minha. Saudades de minha amiga.

Acabo de ler aqui este post do Twitter da Bebel. Outro dia eu lembrei na mãe de Chico Buarque e pensei se estaria viva- vivíssima, pelo visto.

"Memelia, eu te amo, viva vc, viva oscar niemeyer,viva lula, e viva toda nossa familia!! 100 anos, um seculo e um centenario!!! Uuu uuuuuu"
(Bebel Gilberto, cantora, que veio ao Brasil para o aniversário de 100 anos da avó Maria Amélia Alvim Buarque de Holanda, no qual estava o presidente Lula - 25 de janeiro)
Perfil: @bebelgilberto

Viva! Família de Chico merece toda a nossa admiração-forever-toujours

Interessante, Dona Canô também já passou dos cem... Acho que filhos músicos e gente bem sucedida traz vida longa para as mães- querem ver o sucesso dos filhos, será?:)

quinta-feira, janeiro 28, 2010

"Ave Maria, Gratia plena"




Hoje quando li o Contardo fiquei tocada –alguns artigos me atingem mais que outros. Este gostei especialmente. Não é a primeira vez que ele fala sobre a arte e o apreciar a natureza, se não me engano.
“Oscar Wilde afirmava que o pôr do sol só passou a existir com as pinturas de William Turner, no começo do século 19; era um jeito de dizer que a natureza está lá desde sempre, mas é a arte que nos ensina a enxergá-la”.
Eu tenho visto, quase todos os dias, o entardecer da minha varanda. Algumas vezes me distraio e o sol não está mais lá. Armo a rede e fico olhando o sol sumir deslizando- tão rápido... Ontem era uma bola de fogo, mas quando cheguei na varanda não o via mais inteiro. Era preciso não desviar o olhar para absorver melhor a cena bela e efêmera.

Houve um tempo em que me entristecia ao anoitecer. Lembro que ousei escrever uma cartinha para Drummond onde ensaiava um poema sobre o crepúsculo- hoje me envergonho, deve estar no meio da correspondência dele- que vexame! Mas não foi tão desabonador assim, ele continuou meu amigo RS

À hora da Ave Maria o sino da Igreja da rua Silva Jardim em Curitiba soava, na rádio a música: “Ave Maria... Gratia plena...” Minha avó paterna, uma portuguesa de saia longa preta, chorava a morte da filha. Todos os dias. Era a hora em que nós, crianças, ficávamos perto dela, na saleta, na janela, e ela chorava. Vivia nostálgica. Não era amorosa com os netos. Uma mulher fria, seca. Uma única vez foi amorosa comigo- quando fui me despedir e ela sabia que não nos veríamos mais. A morte se aproximava, ela intuía. Foi quando eu fui morar no Rio.

Hoje eu gosto do anoitecer- a manhã é mais difícil- fico ansiosa, coisas para escrever, ler, e-mails para responder- almoço para providenciar... Quando o sol se põe eu relaxo, não há mais ansiedade, nenhuma expectativa- nada- apenas o fim do dia.
Interessante que é o momento em que consigo sentar e ler- coisa que não está sendo fácil. Lógico que neste momento não tenho mais solicitações- a funcionária já se foi com seu ruído alegre, (gosto dela), água já foi comprada, os filhos estão espalhados por ai, a mãe recolhida ou vendo TV.

Estou lendo o livro sobre Clarice, leio aos poucos. É muito bom. Ele se repete um pouco, mas não me incomoda.
Li que Clarice fez análise com Inês Besouchet, por indicação de Helio Pellegrino.
Coincidência: uma vez, há muitos anos, eu telefonei para o Helio e disse que estava sofrendo muito por causa de uma paixão avassaladora. Queria fazer análise com ele. Respondeu: Ah! Este assunto é bom para a Inês. http://www.submarino.com.br/produto/1/13519/
Liguei para ela, não tinha hora. Foi gentil e me indicou Regina Landin- como me lembro do nome dela agora não me pergunte. Esta também não tinha hora e me indicou Nilza Rocha. Fiz muitos anos de análise com ela. Me virou ao avesso. Eu já tinha muitos anos de análise, alguns muito bons, outros, tempo jogado fora, ela resgatou em mim a possibilidade de ter filhos- que estava sob impacto- reprimido por um trauma infantil.
Pois é, o texto do Contardo me lembrou tudo isto e muito mais, mas paro por aqui.
Chega de umbigo por hoje.

Não fiz revisão.

Contardo Calligaris- Volta...


Foto*


Volta com por do sol


A viagem seduz os viajantes, mas seu desejo é nostalgia do que eles deixaram atrás


No sábado passado, no aeroporto de Chicago, esperava o voo que me levaria de volta a São Paulo. Diante de mim, uma longa parede de vidro mostrava, além dos aviões estacionados, um pôr do sol glorioso e dilacerante.
Por alguma sabedoria (consciente ou não), meus companheiros de espera estavam quase todos sentados de costas para a janela. Alguns poucos, pela posição de seus assentos, teriam condição de contemplar o pôr do sol, mas não levantavam os olhos de seu notebook.
Oscar Wilde afirmava que o pôr do sol só passou a existir com as pinturas de William Turner, no começo do século 19; era um jeito de dizer que a natureza está lá desde sempre, mas é a arte que nos ensina a enxergá-la. Concordo. E há outras razões pelas quais o pôr do sol é uma experiência especificamente moderna.
Nos últimos 300 anos, atribuímos mais importância à existência individual de cada um do que à vida de grupos, tribos e nações, ou seja, salvo momentos vacilantes de fé em ressurreição ou reencarnação, nossa morte nos parece acabar com tudo o que importa. Somos, portanto, especialmente sensíveis ao fim do dia, cujo espetáculo acarreta consigo a lembrança dolorosa do fim de nossa jornada, que se aproxima.
A psicopatologia reconhece, aliás, a existência, em alguns indivíduos, de variações sazonais do humor: depressão no outono e no começo do inverno e, às vezes, exaltação maníaca na primavera. Pode ser que a alternância das estações, sobretudo onde elas são mais marcadas, longe do Equador e dos trópicos, produza mudanças no metabolismo. Mas pode ser, simplesmente, que a alternância das estações lembre o ciclo de nossa vida, e o outono seja o equivalente anual do fim da tarde de cada dia.
No caso do pôr do sol de sábado, em Chicago, visto da sala de espera de um aeroporto, era como se a iminência da viagem tornasse a experiência mais triste. Por quê?
Há um quadro de Jean-François Millet, que todo mundo conhece, "O Ângelus", pintado em 1859. Nele, um casal de camponeses, no meio da lavoura, ouve os sinos do ângelus vespertino (à distância, vê-se o campanário de uma igreja). Os sinos dizem que é a hora de rezar e que o dia acabou.
Deveria emanar do quadro uma sensação intensa de paz: seu ofício cumprido, o casal logo voltará para o calor pobre, mas digno, de seu lar. Mas esse retrato de uma vida simples e reta sempre foi, para mim (e não só para mim), estranhamente aflitivo. Acontece que o ângelus vespertino é um toque de paz só para quem tem uma casa para a qual voltar. Para os outros, é o sinal melancólico de uma perda sem remédio.
Tudo bem, viajei muito. Várias vezes, ao longo da vida, mudei de língua e país, mas o que importa aqui não são os acidentes de minha história. A modernidade se define pela viagem, pela decisão de não aceitar que o lugar onde nascemos seja nosso destino -por exemplo, pela vontade de deixar o campo e ir para a cidade. É assim desde o século 13 ou 14, quando a gente começou mesmo a circular -primeiro pela Europa, depois pelos mares e por terras incógnitas e agora pelos céus e mundo afora.
Na "Divina Commedia" (que é uma enciclopédia da modernidade incipiente), Dante descreve assim o fim da tarde (minha tradução em prosa de "Purgatório, 8, 1-6"): "Já era a hora em que o desejo volta aos navegantes, e seu coração é enternecido pela lembrança do dia em que disseram adeus a seus doces amigos; é também a hora que fere de amor o novo viajante, se ele ouve de longe um sino que parece chorar o dia que está morrendo."
Pelo gênio de Dante, o desejo dos navegantes não é, como se esperaria, o anseio de novas terras no horizonte de sua viagem. Claro, a viagem os seduz, mas seu desejo é nostalgia do que eles deixaram atrás, do que perderam por se tornarem viajantes.
E perderam o quê? Sobre que perdas se funda a subjetividade moderna -a nossa, livre e andarilha? Este é o custo básico da liberdade e da autonomia que prezamos acima de tudo: a gente renuncia, antes de mais nada, ao calor do lar -aquele lar que nos esperaria ao fim de cada dia, se tivéssemos ficado no campo, com os camponeses de Millet.
Alguém dirá: que drama é esse? Perde-se a casa dos pais, mas a gente faz outra. Não tem um ditado que diz: "Quem casa quer casa?".
Tem, sim, e, justamente, uma razão pela qual casar-se é tão complicado, é que a gente casa porque quer não "uma" casa, mas "aquela" casa, a que a gente perdeu e nunca vai reencontrar. Enfim, tudo isso escrito enquanto, justamente, volto para casa.


*Foto minha- vista da varanda.(Elianne)

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Miniconto sem revisão- Um amanhecer






A xícara não estava na mesa como eu deixara na véspera. Sabia que ele havia acordado mais cedo e voltado para o quarto. Faz isto quando está aborrecido e não quer me ver.
Sinto alívio. Não precisarei dar o bom dia antes do meu desjejum. Gosto de ficar em silêncio ao despertar. Odeio quando dormimos juntos e ele me desperta encostando o pênis nas minhas costas, arfando.
Não desejo nada além de lembrar meus sonhos. Desconfio que me ajudem a viver melhor. Gosto de anotá-los.
Acabo de tomar o café, sigo para a frente da casa- o cão me aguarda. Troco a água do bicho, molho as plantinhas- tenho poucas, eu mesma as planto- aos poucos vou dando forma ao jardim.
Passava de dez horas quando o vi me espreitando da sala. Digo: “Bom dia!” Responde com um aceno.
Sei que teremos um dia longo e silencioso.

Viva São Paulo! 456 anos!


Foto Juca Martins

domingo, janeiro 24, 2010

Perdida no sonho






Que noite! Sonhei muito.

Estava num quarto com pessoas da família- melhor não dizer quem eram- e ninguém me dava atenção. Começo a chorar e aos prantos, em desespero, e nada. Digo que estou magoada, sofrendo e nada. Miguel Falabella- imaginem- vem e me abraça e diz para eu me acalmar. Me dá um abraço aconchegante e me tranquilizo.

Estou num banheiro e alguém abre a porta- uma visita para alguém da casa. Digo que não tenho nenhuma privacidade, que não suporto isto, que a empregada ao receber as pessoas deve deixá-las na sala esperando e não mandar subir.

Experimento uma saia longa, vermelha, estampada- imaginem- e trago a saia para o peito, digo: Vou mandar fazer um vestido curto com ela. Havia duas saias vermelhos, eu penso que é um exagero- over.

Desço a rua Farme de Amoedo em Ipanema de mãos dadas com meu filho Dan, ainda menino. As lojas estão fechando. Pergunto por que, respondem que o Papa está chegando. Digo que é ridículo.
Na rua Nascimento Silva encontro a família de meu amigo Pedro. Estão num balcão, comendo algo, sentados. Pergunto por ele. Dizem que não vai aparecer hoje porque é aniversário de D. Ana, sua mãe. Eu a abraço de digo: No ano passado eu também estive aqui no seu aniversário, comemos torta.

Estou fazendo um estágio em algum lugar- talvez um hospital- uso uma blusa branca. Ao chegar em casa a gola da blusa está imunda. Alguém, também de branco, me diz que é preciso ter uma gola postiça, para não perder a roupa logo.

Falava com a mulher do síndico, dizia que deveríamos fazer uma comissão para resolver coisas práticas do condomínio. Ela me mostrava um papel para eu ler, mas a luz solar refletida me cegava- eu digo, aflita: “Não enxergo nada.”


O que pensei sobre os sonhos?
Ai ai...

O primeiro sonho descortina o que sempre senti em relação à família. Não me estenderei aqui. É longa e dolorosa história- não estória, viu?

Por que Miguel Falabella? Acho que é pela proximidade com o meu amigo Jôka, nos falamos ontem via Twitter, eles são super amigos. Miguel também aparece por lá, é um tuiteiro excelente, lança temas, faz muitos contatos- não falei com ele, não.

A saia... Tenho uns vestidos aqui que quero reformar. Um deles é de um belo tecido, original, um ex cliente criou- era estilista-nunca mais usei. Há anos procuro alguém para fazer roupas, é uma coisa mal resolvida- eu não gosto da roupa que existe para vender- gostava da 'Chocolate', por exemplo, mas era caríssima e chiquérrima, mas roupa leve para usar aqui... não acho. Há pouco algodão, muita fibra sintética. Há anos acho a roupa feia. Gosto de vestidos femininos, leves. Gosto de criar as roupas, uma época mandava fazer, ficavam bonitas.
Comprei alguns vestidos quando estive no Rio, mas são todos largos, este corte que já cansou, sem cintura marcada. Gosto de usar short também. Mas para trabalhar... Repito muito roupa- muito difícil comprar- detesto cabine de lojas, odeio vestir, desvestir. Minhas roupas estão acabando. Tenho de inverno, mas só para viajar, claro.

Sobre a roupa branca... talvez tenha a ver com os médicos da novela “Viver a vida”- são umas graças, não é? A loirinha é linda, a asiática bela, a rapaz- ‘Miguel’- dá vontade de levar para casa- talvez eu desejasse estar ali.

Pedro foi durante anos muito amigo meu, confidente, cúmplice.
Com os anos fomos nos afastando, mas nos queremos muito. Foi a primeira pessoa que conheci no Rio ao chegar em 70 naquela rua. Usávamos o mesmo telefone público, na época dentro da padaria da esquina da Farme. Conversa vai, conversa vem...

Eu ia telefonar para o amor da minha vida na época- Carlinhos- combinar para sair. Em 70 a gente tinha muita liberdade de ir e vir. Ficávamos, às vezes até de manhã conversando encostados no carro, no verão. Dávamos voltas e mais voltas pelaorla da Lagoa Rodrigo de Freitas. A gasolina era barata, o Brasil vivia o auge do seu “milagre”. Não havia o que temer ali na rua, era mais perigoso abrir a boca na PUC- havia dedos duros ali no meio da garotada alienada- ou medrosa-eu tinha medo.

Na véspera, sonhei que eu fazia uma caminhada- era tipo uma maratona- imaginem- andávamos em fila indiana numa estrada, pouca gente. De repente a estrada virou um grande lago azul, raso. No começo vi um ônibus vindo do lado oposto, pensei: “Quando passar aqui vai nos afogar”. Ai, uma bruma encobriu tudo, não sabia mais nada. Pensei: “Não sei em que direção sigo.”
Logo a névoa se dissipou e eu vi ao lado um ponto de ônibus, destes de concreto. Pensei que estava salva.

Ontem à tarde um dos meus irmãos chegou com a filhota de um ano e uma amiga de minha família. Esta é uma mulher super interessante, mas cansativa demais. Fala sem parar. Sabe ‘tudo’ sobre Paris e não cansa nunca, nem toma fôlego. Eu estava com dor de cabeça e passei a tarde cuidando da bebê e ouvindo sobre a França. OK, eu gosto, mas perai. Saíram daqui depois das sete horas, eu exausta, minha mãe arriada.

A maioria das mulheres da minha idade que conheci depois dos 50 anos são desiquilibradas- juro. A gente enlouquece sem ter com quem conversar, cheia de coisas para dizer, cheia de energia- eu entendo. Esta vai à Paris duas vezes ao ano, conhece todos os cantos onde há comida baratíssima, estas coisas. É aposentada. Uma figura- cultíssima e dona da verdade. Defende com unhas e dentes o RN. Contou que em Paris quando diz que é daqui, perguntam: “Riô de Janeirô?” Fica p da vida. “Por que Rio de Janeiro?” Eu nem digo nada. Ela segue: “Porque vendem o Brasil do samba, das mulatas...”. É verdade. Mas também porque o Rio de Janeiro foi a Capital do país, é o centro cultural do nosso país.

Há muita discriminação contra o Rio de Janeiro aqui- talvez o inverso nem segue o mesmo- eu nunca discriminei nordestinos por serem nordestinos- gosto de gente legal não importa de onde.
Este assunto gera rancor. Triste se viver numa cidade onde se tem medo de dizer que não se gosta de vento forte.

Uma hora ela disse que não suporta Internet, que um amigo disse que fez um blog- um intelectual daqui. Ela não quis nem ouvir. Odeia quem fala sobre estas coisas: O meu blog...
Hihihi eu fiquei quieta, não sou trouxa. Ai provoquei meu irmão e disse: O C. tem dois blogs. Ela desviou o assunto. Ele tem dois blogs com os trabalhos que faz. Ela não ouviu- não quis ouvir.

É num meio assim que eu vivo. Por isso vocês, amigos virtuais, me salvam. Amém. Obrigada a cada um- um beijo e boa tarde.

sexta-feira, janeiro 22, 2010

Um roteiro que não virou filme



Estes dias recebi um comentário* e fiquei sem saber bem o que era. Fui ler o post e lembrei vagamente disto, copiei porque sei que alguns vão gostar. É peça rara- um roteiro de Italo Calvino para Antonioni que saiu na Folha- Mais há anos(2008)





Ontem, eu li na 'Folha' este roteiro e quis dividir aqui, sei que a maioria não tem acesso ao UOL ou ao jornal impresso.
Uma pena ele não ter feito o filme, seria um dos meus preferidos, eu creio.

Leia cenas do roteiro de "Tecnicamente Doce", escrito por Michelangelo Antonioni nos anos 60

Seqüência 16 - Casa de T - Interior - Dia

Um interior rústico: dois quartos, um banheiro. Um dos dois quartos é também a sala de estar. Uma jovem mulher está tirando o seu pulôver.

Jovem Mulher:
Não estou me sentindo bem. Acho que é excesso de felicidade.

Ela continua a tirar a roupa enquanto T a observa. Ela o faz de forma desenvolta: poucos gestos, rápidos, e está nua.
Ela se joga na cama. Poucos instantes depois, T a acompanha, também nu.

T:
Deveria ser tão simples ir para a cama juntos, e no entanto eu não consigo deixar de me maravilhar com isso.

Um silêncio.

T:
Acho que estou envelhecendo.

Jovem Mulher:
Então, vou embora.

T a segura pelos braços.

T:
Tinha que acontecer logo comigo, encontrar alguém como você.
Jovem Mulher:
Bem, pelo menos você terá salvado alguém em vida.

T fica subitamente sério.

T:
Não gosto do que você acabou de dizer.
A jovem mulher sorri. Eles se olham longamente.
Jovem Mulher:
E esse silêncio, o que quer dizer?
T:
Nada. O silêncio é só o silêncio.
Jovem Mulher:
Hm... nós somos bem complicados.

T mexe nos cabelos da jovem mulher, levando-a a ficar de perfil. Ela também se move para olhá-lo melhor. Agora ela se deita de costas, com as pernas ligeiramente abertas. T aponta para os dois corpos na cama.

T:
E nós, ao contrário, é tão simples.
Jovem Mulher:
É, tão simples.
Colocando as mãos sobre o seu sexo, ela abre ainda mais as pernas.
Jovem Mulher:
Entra.

Seqüência 30 - Casa de T na Sardenha - Interior/Exterior -Dia
A jovem mulher e T estão no quarto. Ela parece agitada, não para de ir e vir.

T:
O que você fez nestas últimas horas?
Jovem Mulher:
Erros.
T:
O que você quer dizer?
Jovem Mulher:
Tudo que eu faço são erros.
T:
Errare humanum est.
Jovem Mulher:
Não seja banal.
T:
Qual foi o erro desta vez?
Jovem Mulher:
Estar com um cara como você.
T:
O que quer dizer "um cara como eu"?

Uma pausa.

Jovem Mulher:
Acabei de pensar em algo que eu nunca disse.
T:
Como assim?
Jovem Mulher:
Um dia eu estava falando com alguém e pensei: eu vou terminar essa frase e depois eu conto algo definitivo para ele.
Em vez disso, esqueci o que eu ia dizer.
T:
E o que era?
Jovem Mulher:
Não lembro. Mas se eu tivesse dito essa frase, tudo teria mudado, tenho certeza.
T:
Tudo o quê?
Jovem Mulher:
Eu não seria mais como sou.

Ela continua a ir e vir no quarto, pega um jornal que começa a folhear. Alguma coisa chama a sua atenção.

Jovem Mulher:
Você sabe quantas pessoas morreram aqui hoje?
T:
Não.
Jovem Mulher:
Quatro. Está numa rubrica que se chama "crisântemos".
Tem até a idade delas. Uma delas tinha um minuto de vida.

T se volta para olhar para ela.

Jovem Mulher:
Pense nisso: ele viveu um minuto. Menos que uma borboleta.
De repente o seu tom muda, como se ela falasse para si mesmo.

Jovem Mulher:
E eu, ao contrário, tenho tantos anos diante de mim.

[A última cena do filme]
Seqüência 55 - Descampado -°Exterior - Dia
Uma imensa clareira começa no ponto em que a selva acaba. Um terreno sem vegetação, uma savana. À medida que nos distanciamos da floresta, a grama também tende a desaparecer. Então começam as estradas. Largas, asfaltadas. Todas convergem na direção do mesmo ponto no horizonte, onde se vê, branca contra o céu azul, uma cidade, toda de vidro e de cimento.
Um grupo de crianças entre oito e 12 anos está acampado à margem da floresta. Eles organizam um jogo, capitaneados por um menino mais velho, de 14 anos. Eles cobriram uma zona da floresta com uma rede, na esperança de que um animal selvagem e com fome se aventure até ali e caia na armadilha que armaram.
Um animal se aproxima lentamente. Não se pode ainda discernir que tipo de animal é. As crianças silenciam, em lenta espera. O animal está próximo, agora, da armadilha. As crianças seguem os seus movimentos com uma angústia controlada. O animal estanca. Está sem fôlego e não consegue mais avançar. Chegou até ali cravando as suas unhas na terra. É então que reconhecemos S.
O rapaz levanta o rosto e vê, ao fundo, o sol e as silhuetas dos meninos. Num último esforço, ele estica o braço e consegue se arrastar por mais alguns metros. Tem dificuldades em respirar, mas, centímetro após centímetro, continua a avançar. Até o ponto em que ele percebe uma corda estendida a sua frente. Ele a reconhece confusamente: uma corda, um objeto familiar. Ele a segura como quem agarra a sua última esperança. A armadilha se tende, aprisionando S. As crianças reagem com satisfação. Observam o que ocorre com uma fria curiosidade. Reconhecem um homem nesse ser que avança, mas isso só faz aumentar o interesse delas.
O homem tem os olhos fixos na direção das sombras, atrás da armadilha. Ele não tem nem mesmo a força de abrir a boca e pedir ajuda. Estende a mão e espera. As crianças não reagem. S avança mais um pouco, mas as crianças permanecem impassíveis. Seguem a sua agonia com muita atenção, como se estivessem assistindo a uma lição de história natural. A morte de um homem, um espetáculo ainda desconhecido.
Esse diálogo surdo entre S e as crianças se prolonga por mais alguns momentos -e então, ele não tem mais a força de levantar a cabeça ou os braços. Deixa-se cair e permanece assim, de costas, a olhar o céu cada vez mais azul e o azul que pouco a pouco se torna rosa. O rosa se transforma numa mancha que toma a forma de uma casa: uma casa rosa, e no portal a silhueta de uma jovem mulher.
E então tudo fica escuro.
Ele parece tão velho agora. O jovem rapaz, frente a essas crianças. Um velho cadáver que nem mesmo os animais selvagens comerão.
Fim.


* Tks anônimo.
Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Michelangelo Antonioni e "Tecnicamente Doce"":

Bem deves saber que esse roteito é do Italo Calvino, certo?
Só como sugestão, se gostaste tanto assim do roteiro alguns dos contos de d'Os Amores Difíceis e talvez uns d'O General na Biblioteca podem te agradar...

Algumas das reflexões do Eremita Em Paris também comentam de maneira interessante o relacionamento entre dois jovens...

Abraço anônimo

Ponha um pouco de arte ...



Caríssimos, para quem gosta de arte, achei esta preciosidade. Abram aqui.

E este de Vasarely, imperdível para quem gosta dele. Vejamm . A ingnorante aqui nunca havia ouvido falar neste compositor- Iannis Xenakis (1922 - 2001)

quinta-feira, janeiro 21, 2010

O que rola no Twitter





"Toda a obra de Sigmund Freud entrou em domínio público na exata virada de 2010 - http://migre.me/haBZ (via @historiografia)"

Leiam a crônica da Cora para entender o que acontece com o Haiti, além da catástrofe natural: aqui

Viva São Sebastião! RT @Joka_P ☼ @fipok > http://twitpic.com/yxfr8 - Forte e incrivelmente moderno é o São sebastião de El Greco.

Internet mudou sua vida? O q modou p eles: http://www.estadao.com.br/noticias/suplementos,tudo-conectado,497031,0.htm

RT @Joka_P "Sébastien da La Mer" - http://twitpic.com/yxhdy - por obras lindas assim é que os geniais franceses Pierre&Gilles

terça-feira, janeiro 19, 2010

"Le Petit Prince" e Coco Chanel

Estou postando isto terça, fiz no domingo, não consigo ficar no computador mais de vinte minutos- sou solocitada, ando à beira de um ataque de nervos- felizmente vou trabalhar agora- desligo. Amigos me perdoem por não visitá-los. Não dá.



Acabo de ver um trecho de "Start" na Gnews sobre uma exposição, que esteve em São Paulo, sobre "O Pequeno Prícipe".

Vejam as fotos aqui.

Danyela Thomas fez esculturas. Para quem não sabe, é filha de Ziraldo e ex- mulher do Gerald.

A repórter, que não sei o nome, entrevistou Tom Zé. Perguntou:
Você, que cuida do jardim do seu prédio, acredita que não se devem ouvir as flores? ou que as rosas não falam, como diz a música? Ele deu uma resposta legal. Gostou da pergunta e disse que não diria nada, se a respondesse quebraria o encanto.

Disse algumas coisas interessantes que não sei mais...Falou sobre estar mais velho, hora de pensar no fim, hora em que sentimos o quanto estamos solitários- nascemos e morremos sós. E otras cositas más que olvidei.

Eu li “O pequeno príncipe” de Saint- Exuréry quando mocinha, adorei, copiei dezenas de vezes alguns trechos, que enviava pelo correio aos amigos- talvez fosse já ‘blogueira”. Sempre gostei de copiar poemas, letras de músicas, escrever o que sentia...

Muita gente só conhece este livro do Exupéry, eu gostei demais de “Terra dos homens” também copiei trechos, um deles nunca esqueci, fala sobre amizade. Li Também “Vôo noturno” e adoro este título. Se tivesse pensado antes de dar um título ao blog, teria escolhido este- já pensei em mudar, mas perderia muitos leitores. Acho que vivo num vôo noturno.

Ah! O Tom Zé fez um comentário no livro de presenças da exposição onde ele fala sobre aquilo que nunca está pronto, uma larva, um vir a ser. Fez um texto muito bonito. No programa ele no final recita e faz uma performance, onde o livro se transforma numa borboleta.

Á tarde vi “A rosa púrpura do Cairo”, que delícia- ficção inteligente e sensível- adoro Wood Allen.


http://www.astrologyweekly.com/natal-charts/images/coco-chanel.php.jpg

Vi também a vida da Chanel, no GNT, com Shirley Mac Laine- boazinha a série, nada de mais. A atriz que faz a Coco jovem é linda e graciosa – saudade da juventude em mim.
Não adianta me consolar- sei que estou bem, mas queria perpetuar a juventude. Pode ser fútil isto,eu sei, mas acho lindo uma jovem cheia de graça, desejo de viver, projeto de vida. A gente vai envelhecendo e murchando os desejos- ou sou eu? Pode ser.

Outros filmes sobre Chanel aqui.

Falta vontade de...