quarta-feira, novembro 04, 2009

No divã


Natal, 03 de novembro de 2009

Hoje recebi este presente. Uauuuu, que moça generosa e delicada. Foi uma bela descoberta. Gostei do seu perfil- é uma pessoa interessante.

Estes dias estou mais animada a blogar porque sei que tenho leitores assíduos. Quando as pessoas ficam caladas não fico interessada em postar.

Fui atender mais ansiosa hoje, precisava chegar mais cedo e limpar a sala- está em obras. Esbaforida saio do elevador e encontro a nova cliente no corredor.
Faltavam 15’. Deu tempo de limpar por alto.

Mais tarde uma cliente me surpreendeu
dizendo que não viria mais, estava poucos meses- eu intuía algo. Disse que estará alguns meses sem grana para análise porque comprou um imóvel e paga a analista do filho- que eu indiquei.

Fiquei mais surpresa ainda porque disse na hora de sair enquanto me pagava- faltou duas sessões, não queria pagar porque avisou- psicanálise não é assim. Acho que se aborreceu um pouco- vai refletir com o que eu disse. Precisa sentir a falta. Faltou por opção- fez outra coisa.

Ela disse que vai voltar quando puder. Fiquei surpresa também porque me falou tanto deste imóvel que desejava e hoje trouxe outro assunto, que se desenrolou em lembranças do pai, do irmão que faleceu aos doze anos, chorou muito.

OK, gente não deveria me surpreender mais, mas ainda tenho esta capacidade. Atender uma vez por semana dá nisto. Aqui na Terra do Sol não conheço ninguém que tenha clientes que venham duas vezes- é novidade isto para mim, enfim... fazer o que? (nunca sei se este que tem ^ou não).

Uma outra moça me contou uma coisa que veio confirmar o que já sabia: mulheres não são respeitadas aqui. Ela é profissional liberal, nível superior, e foi escolhida como supervisora num trabalho x, durante três semanas. Trinta pessoas estavam sob sua orientação.
Disse, quase chorando, que foi muito desrespeitada, debochavam porque é ‘certinha’-organizada. Não todos, mas 70% delas não gostavam quando ela solicitava algo-chefiava o grupo.
Até palavrão ouviu. Há, óbvio, um componente dela- dificuldade em lidar com algumas pessoas- o pai foi muito violento- chegou a cometer um crime- nunca mais o viu, nem sabe dele. Quando saiu me disse que estava se sentindo muito melhor. Eu gosto de ouvir isto- não sou lacaniana :)

Quando sai do consultório uma lua cheia inundava o mar na Praia do Meio.

PS: Voltei a fazer análise, estou precisando, estou vivendo mais no virtual que na terrinha. A analista é lacaniana- que meda. :)

terça-feira, novembro 03, 2009

Micros- arquivo revisitado

Micros contos:


A mão na coxa puxa, rude. Não há como dizer não.



Ela quis fazer das pernas tesouras- cortar- sua força venceu.



Viu pânico nos seus olhos, tomou seu corpo com mais desejo. Fundo.



Escuta passos no corredor, seu coração acelera, sabe que está bêbedo. Começa a rezar: "Ave Maria cheia de graça..."



Deu um grito gutural, da boca saia uma espuma branca. Era tarde.



O sangue espirrou, viu seus olhos suplicarem. Esperou, impassível, até acabar.

O jardim do vizinho

A casa da frente





Acordei e pensei no jardim que molho pela manhã. Lembrei da casa da frente, tão bonita, e com o jardim morrendo. O vizinho viajou e a mulher não molha a grama, nem o canteiro onde tem bonsais.

Putz! Aquilo é caro e nem isto ela molha. OK, ela passa o diz fora, mas poderia pagar alguém para molhar. Meus filhos fariam isto, temos aflição em ver o jardim agonizando. Ontem meu filho disse: Mãe, ela não molha para se vingar dele, era ele quem cuidava, deve estar com raiva dele- mulheres são assim.

Eu ri e disse que talvez tenha razão. Dan tem 19 anos e já percebeu que as mulheres são vingativas. Somos, sabemos.

Pensava sobre isto e também que a moça da frente mal me olha. Quase todos aqui mal me olham, mesmo antes do problema *(conto aqui) com a festa junina. Antes do desaparecimento da Florzinha. É um povo estranho, não me sinto confortável nem andando na rua do condomínio.

Agora pensem, paguei uma nota pela casa, é bonita e confortável, gosto da casa. Como mudar agora com um ano aqui? Será que seria fácil vender? Penso que não.

Não fica na praia- estrangeiros preferem perto do mar- a praia fica a uns 7’ de carro. Fica voltada para uma mata, com paisagem bucólica. Acordo vendo vaquinhas e garças no pasto. Tem um riozinho passando aqui também.

PS: Coloquei uma foto da casa dos vizinhos e vi que havia um saco de lixo no meio fio. Um amigo havia me mostrado quando enviei a foto, logo que me mudei. Copiei no Paint e tirei.

Depois pensei que devia comentar aqui- é um assunto que me incomoda bastante e talvez isto chateie os condôminos. Eu falei nas reuniões que é preciso fazer coleta seletiva. A resposta rápida, de todos, é que a Prefeitura não exige, nem faz.

Ora bolas! Vejo dezenas de charretes catando lixo reciclável pela cidade toda. Na última reunião eu disse que separava para ajudar os catadores, que passam o dia sob o sol- dá pena ver- algumas vezes vem alguém na frente puxando a mula. Esta realidade me incomoda e não custa nada ajudar.

Aqui em casa separamos latas e vidros, de papéis e lixo orgânico. As duas faxineiras que passam por aqui aprenderam comigo e ensinaram as outras patroas. É mais higiênico também, tenho nojo de lixo misturado. Argh!

A falta de higiene é uma coisa comum no nosso povo. Alguém disse(Simão?), com propriedade, que o brasileiro aprendeu a lavar as mãos depois da gripe suína. Não é só o brasileiro. Sabemos que há pouco tempo- século passado- foi descoberto que mesmo em hospitais lavavam pouco as mãos – daí mais infecção hospitalar.
Como sou ex TOC, lavo as mãos o dia todo.


Fotos da nossa paisagem




*Vocês acreditam que uma vizinha mandou um e-mail para mim, assinado- o outro era anônimo- dizendo que exigia que eu me desculpasse diante dos condôminos, porque os acusei pelo desaparecimento da gata. Eu mandei para eles estes posts que eu fiz aqui sobre a gatinha, só isto. Estão ai, antes do dia 30 de julho.

Eu cai no choro, ai meu sobrinho disse: Tia faça um e-mail. Eu fiz.
Mas jamais esquecerei esta mulher. Como pode uma outra mulher fazer isto? Que odio têm de mim! Depois do que eu sofri. Até hoje não me refiz- não consigo ir à piscina como antes, me sinto observada, inibida- danos morais. Adianta reclamar? Fui à delegacia, mas... Todos machistas...

Acredito que incomodo por ser só (a maioria dos moradores são casais), independente, vivo super bem com meus filhos lindos, me cuido- sou enxuta, aparento muito menos idade. Além de termos feito uma casa que ficou bonita e maior que as outras. E eu com isso? Nem reparei que era maior, uma amiga que notou. Fizemos a casa que queríamos- um quarto para cada um, sala grande, escritório, sala zen- e dai? paguei com o meu dinheiro! E lá se foi a grana toda. Imaginam que sou rica :) ai ai
Meu carro é velhinho, não compro roupas, mal saio de casa. Ah! mas fui à Paris! Ulalá! Que inveja!

Sonho

Sonhei com minha mãe, que ela estava quase morrendo, mas quando eu a via estava com cor saudável, ai eu dizia algo para que ela se reanimasse- não morreria mais.
Deve ser porque ela chega domingo próximo. Estava em Curitiba, havia ido com minha irmã morar lá, despediu-se como se fosse a última vez- foi triste. Agora volta- é como ressuscitasse- e está bem melhor. Estava mal porque tomava uma medicação errada- um antidepressivo que a deixava com alucinações. Acreditam? Eu disse: Deve ser pelos remédios, veja na bula. Dito e feito.
Ela não tem um médico que a acompanhe, vive mudando, implica, é um problema, está com 83 anos.

Mini conto: Vil




“Tire as mãos de mim”... A música a persegue como um perfume.
“Ele era mil, tu és nenhum, na guerra és vil”...
Escreve para tentar exorcizá-lo. Há dias ele não aparece. Hoje o coração a despertou numa dor surda. Tocou o seio esquerdo com a mão em concha. Lembrou dele- do toque com olhos cerrados, enquanto ela dizia: “Nunca me abandone, por favor”. Talvez intuísse o que viria.
Impiedoso, pensa.
Um dia terá o troco, pragueja.

segunda-feira, novembro 02, 2009

Uma história para não se esquecer: Muro de Berlim



'Operação Rosa’ levou apenas 5 horas para dividir Berlim com arame farpado

Muro foi construído numa madrugada de domingo para ser surpresa.
Separação visava evitar fugas do leste para o lado capitalista do país.


Aqui no G1





"Às 6h da manhã, enquanto a cidade dormia, era finalizada a primeira parte da operação que bloqueava 81 pontos de cruzamento e 193 ruas que atravessavam a fronteira, bem como os sistemas de transportes públicos. A cidade de 4 milhões de pessoas, que havia sido dividida de forma teórica após a Segunda Guerra Mundial, mas que na prática funcionava até então como um único organismo urbano, acordou cortada ao meio, separando famílias, amigos, casais e afastando trabalhadores dos seus empregos e estudantes de suas escolas. O dia ficou conhecido como “o domingo do arame farpado”. "

É preciso...

Espetacular!



Que talento! Genial! Vejam.
Quem deu a dica? José Serra-via Twitter.

"Nos seus olhos eu suponho..."



O meu radinho subjetivo hoje insistia com esta música, só que eu não lembrava a letra.
Horas depois 'caiu a ficha'. Interessante porque falei com a prima- que não vejo há muitos anos-
lembrei da infância- época que conheci esta múscia- minha tia, mãe dela, adorava Nelson Gonçalves, a minha preferia: Sara Montiel, Edith Piaf, Caruso, músicas clássicas, óperas.

Ouça aqui.

A Deusa da Minha Rua

Nelson Gonçalves


Composição: Newton Teixeira / Jorge Faraj

A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar

Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz

Na rua uma poça d’água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu
Para o chão
Tal qual o chão de minha vida
A minh’alma comovida
O meu pobre coração
Espelhos da minha mágua
Meus olhos
São poças d’água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu
ela é nobre
Não vale a pena sonhar

domingo, novembro 01, 2009

Um notícia boa em meio a ...


Leiam aqui uma boa notícia.

Palavra de fã



Hoje é aniversário dele- talento e beleza. Boa sorte, Lázaro!

"Num dia azul de verão, sinto o vento..."



Ontem sonhei que saia de viagem e não estava preparada, faltava dinheiro, documentos... Já havia sonhado estes dias que estava saindo para o aeroporto e com a mesma sensação de angústia. Tive sonho semelhante, algumas vezes, quando estava grávida- que a mala do bebê não estava pronta, não havia lavado as roupinhas.

Hoje amanheci pensando no sonho. Pensei que talvez eu não esteja preparada para morrer. Quando penso na possibilidade, lamento o livro que não foi editado, os desenhos que ninguém vê*, os clientes que gostaria de acompanhar, os filhos que me têm como arrimo.

Acordei com o vento, pensando algo como:

O vento-
incansável lamento-
invade sentidos,
desordena pensamentos,
ensurdece.
Por que não se cala, vento?

Ou: O criador mandou que todos soprassem ao mesmo tempo, varressem da Terra os mais fracos. O vento me leva- enlouquece.


Dormi de novo, sonhei que uma moça- sobrinha de Bethânia- falava de “Leonardo Da Vinci”, eu sabia que se referia ao livro- (li algumas páginas, apenas).

Ela cantarolava uma música- era algo de Bethânia e eu começo a chorar. Digo: Fico emocionada com estas músicas, me lembram... Ela pergunta se está me incomodando- eu, chorando, digo que não, pode continuar cantando e falando sobre a tal música- não sei porquê associei agora a “O jogo das contas de vidro” de Hermann Hesse, que li há anos e gostei muito.

Bethânia me emociona, claro. Ela, Elis, Nana Caymmi*** e Billie Holiday são minhas preferidas e todas me levam às lágrimas- além de Tom Jobim em “Carta ao Tom” e Milton Nascimento em “A noite do meu bem” ou com Chico em “O que será, a flor da pele”. Uma que não posso ouvir é "Pedaço de mim", de Chico, seria masoquismo.

O sol da manhã batia nas minhas pernas, nada me interessava aqui fora. A sala estava cheia de jovens jogando RPG.

Levantei às onze e meia, fazia tempo não acontecia isto. Quando estava me arrumando meu filho bateu na porta, estava ficando preocupado com a minha demora.

Se eu ainda tivesse a Florzinha- não dormiria tanto- ela não deixava, batia na minha porta lá por oito e meia, até antes. Miava, se jogava contra a porta- uma figura aquela gatinha.

* Exceto algumas pessoas, que se identificam com meu traço, como Regina D'Ávila e uns gatos pingados :) É difícil gostarem de um desenho tão simples, estilizado
(Há quanto tempo não uso esta palavra!). Entendo- uma vez uma pessoa que eu conheci, olhou o desenho e não entendeu nada. Outra vez uma amiga querida olhou e disse: Cadê os olhinhos?
Eu sorrio por dentro, compreeendo que nemtodos podem gostar.

**“O Jogo das Contas de Vidro", de Hermann Hesse, é uma fábula sobre o jogo como utopia total. Para Hesse, "O Jogo das Contas de Vidro" «é um jogo que joga com todos os conteúdos e valores da nossa cultura, um pouco como nos tempos áureos das artes um pintor terá brincado com as cores da sua paleta» , como um órgão é tocado (em inglês, «jogado» ) por um organista. Acrescentaríamos hoje: como um computador é jogado por um matemático. Continua Hesse a sua descrição do «Jogo das Contas de Vidro»: «Uma partida podia, por exemplo, partir duma dada configuração astronómica, ou do tema duma fuga de Bach, ou duma frase de Leibniz ou dos Upanishads e, segundo a intenção ou o talento do jogador, prosseguir e desenvolver a ideia condutora por ela evocada ou enriquecer a expressão dessa mesma ideia com a evocação de ideias próximas. Se o principiante era capaz de estabelecer um paralelo, por meio dos símbolos do jogo, entre uma melodia clássica e a fórmula duma lei da Natureza, o conhecedor e o mestre conduziam a partida desde o tema inicial até combinações ilimitadas.» “
Tirei daqui.


***Resposta ao Tempo

Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, e ele não vai poder
Me esquecer

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer